24. Dia das Bruxas: Segredo

24. Dia das Bruxas: Segredo

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Dia das Bruxas: Segredo

 

Agatha até tentou ignorar a pergunta da prima, em vão, porque Alana insistiu e estava mais que disposta a obter todas as respostas.

 

– Você teve sorte com a Eva, encontrou alguém que te ama e aceita como és!

– Aham, tenho sim. Mas, o que a Eva tem a ver com isso? __ Alana parecia mais impaciente que o normal.

– Quantas pessoas realmente nos aceitariam? Quantas seriam realmente capazes de se casar e até mesmo compartilhar a criação do filho com uma bruxa?

– Em nome da Deusa! Sério que esse é o seu medo? __ Alana só não foi mais feroz naquela frase pelo fato de ter sido obrigada a sentar-se novamente. – Agatha, fala sério. Desse jeito, fica parecendo que somos umas velhas caquéticas, com narigão, dentes podres, pele verde e usando trapos, com chapéus pontudos sobre a cabeça e voando por aí em vassouras encantadas, soltando gargalhadas enquanto sequestramos criancinhas. __ a morena sorriu.

– Mas, como você acha que ela vai reagir quando eu lhe disser que sou uma bruxa?

– Provavelmente ela vai rir, depois vai perceber que você está falando sério, então dirá que você tem uma crença diferente da dela. E de repente, achar que você está tendo algum delírio ou surto psicótico. __ riram!

– Estou falando sério. E quando ela entender que não é apenas uma ideologia? A maioria das pessoas não veem com bons olhos as crenças pagãs!

– Ah, elas que vão para o inferno com suas regras e mentes fechadas!

– Tudo bem, esqueceremos as pessoas. __ Agatha ponderou ao ver o quanto a prima estava irritada.

– Ela é escritora, fala sobre isso o tempo todo! Você dará a ela uma visão mais realista das coisas, se bem que, li alguns dos livros dela… sim, eu precisava saber qual a visão dela, fiquei pasma. Seus livros não tem a mesma forma vil como os demais costumam nos retratar, isso já é algo bom. Você está tenebrosa, mas eu creio que é sem motivos!

– Alana, amor da minha vida… uma coisa é a fantasia, outra totalmente diferente é a realidade. E nós bem sabemos da realidade, das incontáveis vezes em que, através dos séculos, fomos perseguidas, caçadas, queimadas, afogadas, desprezadas. O quanto nos foi negado amor verdadeiro, lar e família. A história mostra que não somos dignas de finais felizes, simplesmente por sermos o que somos. Como contar para ela, que é dessa realidade que faço parte? Não lamento, muito menos me envergonho do meu legado, da minha consciência sobre tudo isso, mas não suporto a ideia de contar isso a ela e ser encarada como se na minha casa tivesse uma passagem secreta para alguma câmera, onde tem um caldeirão fumegante, e a decoração do lugar são teias de aranha, morcego, patinhas de coelho, presas de lobos.

– Thata, se a Maysa te ama como parece…

– Veremos! __ Agatha a interrompeu. – Agora, você precisa descansar um pouco, vá deitar. Eu termino de ajeitar as coisas por aqui.

– Entendi que você quer mudar de assunto, tudo bem. Mas, você não precisa ter medo, não existe força maior que o amor… __ não conseguiu continuar seu discurso, foram interrompidas pela entrada de Eva na cozinha.

 

A esposa de Alana havia tomado para si a responsabilidade de fazer a decoração da casa. Afinal, terror era um dos seus gêneros preferidos. Sua entrada triunfal na cozinha não passou despercebida, haviam falsas teias de aranha em seus cabelos e no rosto formava-se um sorriso de contentamento.

 

– Vocês precisam ver como mandei bem na decoração! __ parecia uma criança empolgada por ter vencido algum obstáculo.

– Essa é a minha mulher! __ Alana sorriu e levantou com certa dificuldade.

 

A noite já começava a se apresentar. Agatha, Alana e Eva admiravam a decoração, os fantasmas de olhos vermelhos brilhantes, as bruxas e suas gargalhadas maquiavélicas. A mesa menor decorada com doces, formando uma imagem parecida com algum reino distante. A mesa maior, parecia um verdadeiro altar, decorado com velas, maçãs, romãs, abóboras e demais frutos que representavam o fim do outono. Flores naturais como madressilva e crisântemos também ornamentavam o lugar. Tudo estava em ordem.

 

Os primeiros a chegarem foram Lucas e Olívia, cheios de novidades, afinal, a pista que Lucas conseguira, levou Olívia direto a casa onde estava o adolescente que havia fugido. No fim, descobriu-se que o rapaz só estava em busca de férias antecipadas e mais privacidade, por isso saiu na calada da noite e fora com a namorada para a fazenda dos pais. Logo depois, chegaram Augusto e Amélia, os pais de Lucas e Alana, juntamente com alguns poucos parentes. Todos reuniram-se perto da grande mesa, um caldeirão de cobre foi colocado sobre a ela. Um pedaço de papel acompanhado de uma caneta tinteiro foi passado de mãos em mãos, naquele pedaço de papel eles escreveram um aspecto de suas vidas qual desejavam se livrar, um sentimento negativo ou hábito ruim, doenças. Apenas Alana que não participava daquele ritual, não era permitido em seu estado e por isso permaneceu em outro ambiente, conversando com os seus filhos, explicando a eles o que estaria acontecendo na sala principal de sua casa.

 

Agatha e os familiares ficaram em silêncio e levaram seus pensamentos aos seus amados que já haviam falecido, mas não eram pensamentos de desespero, eles sabiam que àqueles partiram para coisas melhores, tinham consciência de que o plano físico não era a realidade absoluta e que a alma jamais morre.

 

A morena era quem a partir daquela data presidiria o ritual, já que fora passado para ela a liderança do Coven dos Márquez, isso aconteceu no momento em que ela recebeu a joia que sua mãe lhe deu de presente de aniversário. No momento em que teve o colar em suas mãos, Agatha sabia que passava a assumir uma posição de muita importância dentro da sua crença. Ela acendeu as velas de cor laranja e o os incensos de sálvia e menta, fez um círculo e invocou a deusa e o deus, ergueu uma das romãs com sua adaga de cabo prateado ornamentado com pequenas e delicadas pedras de azeviche, perfurou a fruta, removeu algumas sementes e colocou em um pequeno prato branco com desenho de um círculo. Ergueu seu bastão de madeira antiga e negra, olhou para seus familiares e voltou-se para o altar:

 

– Nesta noite de Samhain, assinalo sua passagem. Óh rei Sol, através do poente ruma à terra da juventude. Assinalo também a passagem de todos que já partiram, e dos que irão posteriormente. Óh graciosa Deusa, eterna Mãe, que dá à luz aos caídos, ensina-nos a saber que nos momentos de maior escuridão surge sempre a mais intensa luz!

 

Compartilhou as sementes de romã com os seus, partiram as sementes com os dentes e saborearam do sabor agridoce. A morena observou o círculo desenhado no prato, a representação da roda do ano, o ciclo das estações, o fim e o começo de toda a criação. O fogo dentro do caldeirão crepitava, o pedaço de papel que antes fora passado de mãos em mãos, naquele momento era segurado por Agatha, que parecia em outro mundo, seu olhar estar fixo nas chamas:

 

– Óh sábia Lua, deusa da noite estrelada. Criamos esse fogo dentro de seu caldeirão para transformar o que nos vem atormentando. Que as energias se revertam. __ todos acompanharam as palavras de Agatha. – Das trevas, luz. Do mal, o bem. Da morte, o nascimento! Que assim seja, que assim se faça.

 

Agatha deixou que as chamas chegassem ao papel, e então o soltou dentro do caldeirão. Sabiam que enquanto ele queimava, todo o mal era apaziguado, até que por fim, abandonado e consumido pelo fogo.

 

O ritual fora concluído e o círculo desfeito. Alana pode voltar para a sala e engatar conversas animadas com os pais e o irmão. Agatha sentia-se feliz e realizada depois daquele ato, mas o seu coração disparou violentamente mesmo, quando sentiu a presença de Maysa e Daniel, e ao olhar em direção a calçada da casa de Alana, viu a loira estacionar o carro.

 

– Eles chegaram! __ aquela euforia não passou despercebida. Mas, Agatha considerou já ser tarde demais para conter a felicidade.

 

Alana que contava como foi deixar que Eva cuidasse da decoração e em como ela poderia começar a ficar mal-acostumada em dividir tarefas, se alegrou ao ver os olhos da prima brilharem ao se dirigir até a porta para receber a loira e o pequeno explorador de mundos, que àquela altura já estava animado com a mesa de doces. Esperou que Agatha cumprimentasse Maysa e levantou para que pudesse fazer o mesmo. Só conseguiu dar dois passos, então se viu forçada a parar abruptamente, fora golpeada por uma súbita dor, não diferente das que ela já estava sentindo desde a hora que acordou, mas aquela fora inesperada, a ponto de lhe paralisar por alguns segundos. Gemeu alto. Eva ficou tão pálida quanto as velas acesas sobre a mesa.

 

– Amorrrrrrrrrrr? Você… meu Deus! Agatha!!!

– Calma, está tudo bem. __ Alana respirou fundo, e lhe pareceu que em um piscar de olhos, todos já se movimentavam e corriam. Lucas saíra em disparada para acionar o carro, Olivia cuidou de ir pegar a bolsa com as roupas, fraldas e Agatha já estava ao seu lado, segurava em um dos braços, enquanto Eva a apoiava pelo outro. – Se acalmem! __ foi quase um grito, e nada calmo. – Foi apenas uma contração. __ apoiou-se melhor na prima e olhou para a esposa. – Veja só minha rainha do terror, você é tão fissurada nessa data, que não poderia haver momento melhor para os gêmeos nascerem. __ sorriu e sentiu outra contração.

– Cadê Lucas com esse carro? __ Eva estava mais aflita do que qualquer um.

– Desculpa amor, eu deveria ter falado sobre as dores mais cedo… __ por mais que Eva quisesse dar uma bronca em Alana, apenas segurou mais firme a mão da esposa e sorriu tentando disfarçar o nervosismo, dizendo que tudo ficaria bem.

– Eu já estou aqui! Vem irmã, serei seu piloto de F1, chegaremos rapidinho ao hospital!

– Eu não quero! __ Alana foi categórica e ganhou a atenção de todos. – Sério, eu já tinha pensado sobre isso, até cheguei a comentar com Eva, quero ter os gêmeos em casa.

– Do que você está falando, Alana? __ Agatha já tinha as respostas, mas preferia perguntar para ter a certeza.

– Estou falando sobre tradições e legados, não é exatamente isso que rege a nossa família? E na nossa família, todas as mulheres tiveram seus filhos em casa. __ Alana falava de forma tão tranquila que nem parecia estar em trabalho de parto.

– Minha querida, você deveria ter falado isso antes, assim teríamos nos preparado melhor.

– Thata, confio em você e não será a primeira vez que fará isso. Sem contar que a mamãe está aqui para te ajudar. Só preciso que arrumem meu quarto e me levem para lá!

 

Nota para esse capítulo:

As Bruxas (clique no nome para ser redirecionado), é um documentário desenvolvido pelo History Channel, está completo e dublado. Nele conta-se um pouco das origens dessa cultura, as repercussões e os dilemas ao longo da história até os dias modernos. Se desejarem, assistam para poder compreender melhor os próximos acontecimentos desse romance.

Leia outros capítulos desta história<< 23. Dia das Bruxas25. Dias das Bruxas: Salve o Samhain! >>
Mohine Yamir

Mohine Yamir

Baiana, sagitariana, nascida no ano de 1991, e bruxa. Sim, uma bruxa que ama ler e escrever; sou fábrica de poesias sem rimas e divagações literárias, é escrevendo que eu respiro.
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