31. Sou uma bruxa

31. Sou uma bruxa

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Sou uma bruxa

 

Maysa se aproximava da casa da vizinha, quando ouviu o tom de voz exaltado. Pela janela da cozinha de Agatha, ainda que estivesse fechada, era possível ver a silhueta de uma outra pessoa. Aproximou-se um pouco mais, ficou preocupada. Estava abrindo a porta quando ouviu o homem dizer em alto e bom tom que a morena era sua noiva.

 

– Noiva? __ e sentiu o peso daqueles olhares.

 

Sim, olhares. O de Agatha era de total surpresa, confusão e medo, já o do outro, era de desafio e satisfação.

Roberto não planejou aquele momento, mas soube, assim que se esbarrou propositalmente com Maysa horas antes, que precisava agir. E como já não tinha nada mais a perder, estava disposto a tudo.

 

– Noiva? __ a voz já era carregada de raiva e decepção.

– Maysa, calma. Vou te contar tudo, eu…

– Você é noiva! Noiva! Era por isso que… meu Deus, como você pode fazer isso comigo? Como eu pude ter sido tão idiota?

– Foi porque quis. __ a frase de Roberto soou como uma confirmação para os pensamentos não declarado da loira. –  Não precisava de muito convívio para saber que Agatha jamais assumiria algo tão… nojento.

– Roberto, cala a boca e saia daqui.

– Ela quem deve sair. __ apontou para Maysa com desdém. – Só porque vocês fizeram sexo na praia não quer dizer que ela vai largar tudo para viver com você.

– Maysa, por favor, não dê ouvidos ao Roberto. Me deixa explicar tudo isso.

 

Existia explicação? Maysa não sabia e, sinceramente, o coração dela estava se desfazendo naquele momento, doía demais para continuar ali, para ouvir qualquer desculpa que fosse. Lhe doía olhar aquele homem que mantinha o mesmo sorriso misterioso e a pose de quem havia ganhado uma disputa. Deu as costas e caminhou em direção a sua casa.

 

– Maysa! Maysa, espera. __ a morena tentava alcança-la.

– O quê, Agatha?

– Deixa eu explicar.

– Explicar que é noiva?

– Não é bem assim.

– E como é? Você é ou não é noiva daquele… daquele. Ahhhh, me deixe em paz, Agatha.

– Não! Não posso deixar você ir.

– Era por isso que você tinha tanto medo? Por isso não se entregava? Por isso sempre pedia para que eu esperasse? Estava na dúvida, tentando escolher com quem ficar. Não precisa mais escolher, pode ficar com ele.

– Não era por isso, com você eu nem lembrava que um dia o Roberto existiu. Não temos mais nada, juro.

– Ah, fala sério! Não minta, não mais. Você quer mesmo continuar me enganando?

– Maysa, eu sou uma bruxa. __ foi tão baixo, mas fez com que a loira parasse e a olhasse novamente.

– Você o que?

– Sou uma bruxa! __ disse por fim.

– O que uma coisa tem a ver com a outra, Agatha? __ a loira parecia confusa.

– Esse é o meu medo. Medo de você me rejeitar, de me achar uma louca, de achar que rapto crianças e faço magia negra. O que escondi, o que nunca soube como falar a você é isso; sou uma bruxa.

– Me poupe, o que mais tem por aí são pessoas que se dizem bruxas, pagãs, Wicca… sei lá. Pare de tentar me enganar!

– Não estou tentando lhe enganar, sou uma bruxa. Daquelas que fazem poções. Que tem um caldeirão, que tem ervas no quintal, que faz rituais, que tem o dom da vidência, que consegue curar… Que vem de uma família de bruxos! Não é apenas uma crença ou estilo de vida, é quem eu sou.

– Então você é uma bruxa dissimulada. E eu achando que as bruxas eram seres injustiçados, olha aí você me provando o contrário. Noiva… __ sorriu amarga. – Sabe como estou? Ferida. E não pense que minha raiva é de você. Ah, mas não é mesmo! Estou com ódio de mim mesma por ter caído nessa. Tchau, Agatha. __ daquela vez, os passos foram mais rápidos. A morena ainda tentava organizar em sua mente tudo que fora lhe dito, Maysa sumiu na escuridão da noite.

*  *  *  *  *  *   *  *   *   *

 

– Ainda bem que vocês chegaram! __ Eva estava aflita.

– Cadê Alana, cunhada?

– Lá em cima, ela se acalmou um pouco, mas não foi o suficiente.

– Tudo bem, vou falar com ela.

 

Lucas subiu as escadas correndo, e Olívia permaneceu com Eva. Sabiam que quando tais sensações, ou qualquer coisa que beirasse o sobrenatural acontecia com eles, era melhor se manter de fora caso não pudessem ajudar.

 

– Alana?

– Me leve até a Agatha, por favor.

– Não posso te tirar de casa assim, você ainda está se resguardando.

– Lucas, aconteceu alguma coisa.

– Eu vou lá e volto para lhe dar notícias.

– Você não me contestou, então você também sentiu! Não quero receber notícias, quero ir até lá, a Eva pode ter me acalmado e me convencido a esperar você chegar, mas eu não vou ficar aqui, ou você me leva… __ esforçou-se e ergueu-se, parecia uma deusa selvagem emergindo de alguma relva. – Ou eu vou sozinha. __ conhecia muito bem a irmã para saber que ela estava falando sério.

 

 *  *  *  *  *  *  *  *  *  *

 

– Você está feliz agora? __ Agatha revelava uma fúria que estava guardada dentro de si há tempos. – Você conseguiu estragar minha vida mais uma vez! __ batia no balcão da pia.

– Pare de show, vim foi salvar você dessa pouca vergonha.

– O que você realmente veio fazer aqui? Por que voltou?

– Você sabe porque estou aqui, Agatha.

 

O silencio foi cruel, as lembranças vieram. Agatha sentiu asco. Ela não queria ter sido fraca, mas foi:

 

Era final de tarde, ela voltava de sua última entrega na cidade vizinha quando se deparou com uma motocicleta já conhecida e, um homem pálido e frágil. Embora o olhar continuasse feroz, aquele ser diante dela estava longe de ser o homem qual ela conhecera. Toda a raiva e dor do abandono ficou para traz, ela o amparou. Levou para um desses hotéis baratos de beira de estrada, e estando lá, cuidou dele. Todos os dias, ela o visitava. Alimentava-o, medicava e dava o que achava que já não tinha, amor. Porém, assim que ficou bom, Roberto foi embora mais uma vez, sequer teve a coragem de espera-la acordar. Sequer olhou para trás. Foi como se a mulher que se sentia protegida ao dormir nos seus braços, que lhe resgatou da morte, não valesse mais nada. Ele apenas foi embora.

 

Obviamente, Agatha escondeu isso dos primos. Sabia que eles não a julgariam, mas ela não se perdoava por aquele momento que ela denominou de “fraqueza”. Mas, o que Roberto não sabia, era que para continuar livre daquela enfermidade, precisaria de mais doses daquele chá que Agatha lhe dera. Ele viajou pelo mundo, iludiu pessoas, trapaceou e até levou alguns a morte sem se arrepender. Mas, há poucas semanas, começou a sentir os sintomas da doença outra vez. Sabia o que teria que fazer, e que Agatha não se recusaria a lhe ajudar, seu plano era bom. Também estava envelhecendo, pensou, talvez fosse a hora de se aquietar, casaria e teria uma vida boa e tranquila. Agatha seria a perfeita para isso, sempre apaixonada por ele, independente do que ele a fizesse. Para sua surpresa, ao chegar em Cabritos, deparou-se com a morena trocando olhares apaixonados com a vizinha. Permaneceu a distância, observando tudo que acontecia; os encontros, os beijos as escondidas. E uma raiva foi lhe invadindo, não que ele amasse Agatha, mas ela era sua. E ao ver Agatha entregar-se a Maysa naquela praia, teve a certeza que precisava agir. Seu plano era de se apresentar para a loira e exigir que ela se afastasse, mas, como Maysa apareceu antes e no momento que ele considerou perfeito, o plano estava saindo melhor do que esperava.

 

– Você não tem jeito. Não vou lhe ajudar.

– Vai me deixar morrer? Desde quando você é assim?

– Procure outra pessoa, você sabe que existem mais de nós por aí.

– Mas, nenhuma como você. Agatha… não vim apenas por isso. Eu a quero para mim.

– Mas eu não o quero. Na verdade, penso que estava louca quando um dia te olhei e senti amor. __ o homem aproximou-se dela, aquele andar de fera que encurrala a presa. Ela conhecia tão bem aquilo, que já sabia o que viria em seguida, gelou quando ele segurou seu braço. Aquele toque que no passado lhe levava aos céus, naquele momento a fazia sentir o estomago revirar-se.

– Entenda, você vai ser minha. Não tem outra forma, não tem outro fim para você. Acha que essa mulherzinha vai te querer depois de tudo que aconteceu aqui? Você sabe que não. Afaste-se dela.

– Você está me ameaçando?

– Estou avisando…

 

A porta estava aberta, as luzes acesas. Alana e Lucas viram a motocicleta de cor preta, uma Harley-Davidson modelo Road King, custom… não tiveram mais dúvidas. Adentraram a casa como pais que tentam salvar o filho do perigo. Roberto não percebeu, e quando assim o fez, já era tarde. Sentiu o peso do soco de Lucas em seu maxilar, perdeu um pouco de equilíbrio. Alana prostrou-se ao lado de Agatha e, Lucas encarregou-se de tirar Roberto dali. A morena largou-se no abraço da prima e começou a chorar.

 

*  *  *  *  *  *  *  *  *  *

 

Maysa, que via toda a confusão da sacada de sua casa, meio que por instinto apagou o cigarro e levantou com intuito de ir até Agatha. Mas, a dor que sentia foi maior. Sua cabeça doía com todas aquelas informações; não que ela se importasse com o fato de Agatha ser uma bruxa, já tinha suas suspeitas. Considerava aquilo até interessante, se ela falou a verdade, a morena não precisava ter sentido medo de lhe contar aquilo. Mas, esconder que era noiva, que havia outra pessoa, foi cruel. O olhar daquele homem sobre ela, jugando-se superior, tratando Agatha como um prêmio que ele havia conquistado sem fazer esforço algum. Tudo aquilo estava lhe dilacerando. Claro que sorriu satisfeita com os socos que viu Lucas dando no homem, decerto, depois iria conversar com Eva… recostou-se um pouco mais na cadeira de balanço adquirida recentemente, lembrou que fazia alguns meses que nem lembrava da existência dos cigarros e naquele momento já acendia o terceiro da noite.

 

Eva… você também me traiu. Claro que ela sabia que a Agatha tinha outro, porque não me contou? __ tragou o cigarro, prendeu um pouco a fumaça e depois liberou. Deixando que o cheiro de cereja inebriasse o lugar. – Ele me paga, mas não hoje, nem amanhã. Não quero mais pensar nisso. __ levantou, dirigiu-se ao escritório e começou a escrever. Estava triste, e era justamente quando estava assim, que lhe surgia as melhores inspirações.

 

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Mohine Yamir

Mohine Yamir

Baiana, sagitariana, nascida no ano de 1991, e bruxa. Sim, uma bruxa que ama ler e escrever; sou fábrica de poesias sem rimas e divagações literárias, é escrevendo que eu respiro.
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4 Respostas para 31. Sou uma bruxa

  1. Que felicidade por mais um capítulo! Mas, que porcaria que esse Roberto foi aparecer! Cara escroto do c*@&$#!!!
    Coitada da Aghata ter que passar por mais essa… E a Maysa, que não deu chances pras explicações. Espero que a Eva consiga interceder…
    Morrendo de ansiedade pelo próximo!
    Obrigada

  2. Caraca, que homem nojento é esse!?
    Agatha vacilou em não contar sobre o ex, agora quero ver ela se virar em fazer a Maysa entender que ele não tem mais importância pra ela, já que escondeu tanto.
    Estava ansiosa por esse capítulo, mas já vi que vou acabar com minhas unhas esperando o próximo!
    Bjão e até o próximo!

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