7 – Toc, toc, toc. Será o acaso?

7 – Toc, toc, toc. Será o acaso?

Cochilei e acordei com alguém que batia em minha porta. Apressei-me imaginando que poderia ser alguém avisando que o avião partiria. Não lembrei que havia tirado a roupa e abri a porta do jeito que estava, tropeçando por causa do sono.

– Gente, você costuma receber as visitas assim? Pelo seu mau humor, imaginava outra coisa, mas, não posso negar que, apesar de surpresa, estou satisfeita.

– Ai, meu Deus! Desculpe. O que você quer? – me apressei em me enrolar no lençol da cama.

– A minha TV não pega, queria saber se a sua está funcionando – explicou.

– Não sei, ainda não liguei – justifiquei.

– Posso ver? É que não consigo dormir se a TV não estiver ligada – disse ela, entrando no quanto e pegando o controle remoto.

– Bom, vou tomar um banho – anunciei.

– A sua TV está funcionando! – comemorou.

– Aproveite aí, então – avisei.

Quando saí do banheiro, encontrei Carol sentada no chão, comendo um chocolate. Não consegui segurar o riso.

– Você já viu esse programa? – perguntou ela, sem tirar os olhos da TV.

– Não – respondi, olhando para a tela e me deparando com leões correndo nas savanas africanas, convivendo em harmonia com habitantes locais.

– É muito bom. Vem ver – convidou.

Coloquei o roupão e sentei ao lado dela no chão.

O programa acabou e, quando me dei conta, estávamos conversando sobre o trabalho dela. Ela falava com paixão sobre antropologia, pesquisa, sociedade e cultura. Jamais poderia imaginar que aquela mulher podia ficar mais interessante do que já me parecia. Estava diante de uma pesquisadora do comportamento humano, que me conheceu se comportando da pior forma possível.

O tempo foi passando e o cansaço tomava conta de nós, mas a conversa era irresistível. A essa altura, devo dizer, que não só a conversa, mas quase tudo era irresistível. Eu, que até aquele momento, tinha me defendido de todas as formas, começava a perder as forças, invadida por uma vontade enorme de acreditar que o acaso era possível e que, enfim, ele havia batido em minha porta.

O sono quase me vencia, quando ela concluía um pensamento sobre a formação do povo brasileiro, citando Darcy Ribeiro. Não resisti, encostei a cabeça na cabeceira da cama e estendi a mão para afastar o cabelo dela, que caía nos olhos.

Encaixei a mecha de cabelo cor de mel atrás da orelha, esperando ela encerrar a frase. Ela então me encarou e disse:

– Estou falando demais não é? E você aí, morrendo de sono! – concluiu.

– Estou adorando a conversa, mas realmente o sono está prestes a me vencer – disse.

– Você fica bem melhor simpática, sabia? – perguntou.

– Hum, vou encarar como um elogio – disse.

– É um elogio. Mas bom, vou indo para deixar você dormir – sentenciou.

– Boa noite – me despedi.

Ela então me deu um beijo no rosto.

Fechei a porta e me joguei de costas na cama. Fiquei olhando para o teto e pensando como era bom sentir aquele frio na barriga, aquela sensação de novidade, aquele frescor adolescente. Abri o roupão e pude sentir a excitação do meu corpo. Enfim, depois de tanto tempo, sentia que ele estava vivo de novo.

Entrei embaixo do edredom e me encolhi, enquanto minha cabeça construía narrativas, tendo eu e Carol como personagens. Cochilei, tentando me desvencilhar das expectativas, tentando agir de forma racional, tentando recompor meu escudo, lembrar-me do passado para me proteger do presente e evitar um futuro desastroso.

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A história de duas mulheres e seus acasos.
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