Capítulo 1

Capítulo 1

Marie desembarcou no Rio de Janeiro, na quarta-feira no fim da tarde, dias antes do sábado de carnaval, seu português estava preparado para tentar disfarçar sua origem francesa. Queria se misturar aos brasileiros e desfrutar do melhor carnaval de sua vida. Estava faminta, seu voo atrasou e sua vontade de experimentar a culinária brasileira estava aguçada. Naquela noite iria ficar no hotel, queria descansar para sair cedo e conhecer a cidade maravilhosa.

Vitória estava no Rio de Janeiro há dois dias, já havia explorado alguns pontos turísticos e naquela noite não queria dormir cedo e iria jantar no hotel para não perder muito tempo em trânsito.

Fez o check-in no hotel, guardou as malas e desceu para o restaurante. Sentou-se na varanda, apreciou a vista até ser atendida. Escolheu e observou as mesas ao seu redor. Uma mesa em especial lhe chamou a atenção, na verdade, uma morena de pele clara lhe chamou a atenção. Lendo o cardápio, concentrada, deixou Marie cheia de perguntas. Estaria sozinha? O que estaria fazendo na cidade maravilhosa? Riu sozinha com sua intromissão na vida da garota. Garota não, mulher.

Distraída com a espera do prato, não percebeu os olhares da francesa. Apenas notou sua presença no recinto, quando seu prato chegou e ela sorriu ao garçom agradecendo.

— Merci. — disse esquecendo que estava no Brasil.

Sorriso tímido e avassalador. Vitória ficou observando-a jantar até seu prato chegar, o que lhe distraiu por instantes e ao voltar o seu olhar em direção da francesa os olhares se cruzaram e se sustentaram.

Ao final do jantar Marie procurou pela morena, mas ela já não estava mais no recinto.

Vitória foi a um ensaio das escolas de samba e se deliciou com o som e com a dança. Arriscou alguns passos e sambou ao ritmo de marchinhas de carnaval e enredos de escola de samba.

No café da manhã, Marie sentou na mesma mesa que a noite anterior. Vitória passou a noite fora e voltou apenas quando o dia amanheceu, aproveitou para comer antes de subir para o quarto. O olhar das duas se encontraram e sorriram.

Vitória sentou depois de se servir de uma xícara de café. Marie observou seus passos, o corpo estava com alguns confetes e brilho. Sorriu tentando imaginar onde havia passado a noite. Seu roteiro começaria no Arpoador, primeira parada de vários cartões postais. Marie estava com uma roupa fitness e biquíni por baixo. Vitória estava de shorts curto e regata. Marie terminou de comer e levantou-se para sair, Vitória acompanhou seus passos e os olhos se cruzaram novamente, sorriram antes dela sair.

Quando chegou na pedra ficou olhando a paisagem de Copacabana, sentiu-se com vontade de estar acompanhada. Pensou na morena que estava começando a tomar conta dos seus pensamentos e isso lhe fez sorrir com preocupação.

No fim do dia, Vitória estava na piscina, relaxando depois de dormir o dia todo. Marie sentou em uma cadeira espreguiçadeira depois de tirar a blusa. Estava cansada, pediu uma caipirinha e olhou para a morena que estava distraída.

Marie estava tomando sua caipirinha quando Vitória saiu da piscina e sentou ao seu lado.

— Vous appréciez Rio? — perguntou sorrindo. (Está gostando do Rio?)

— Je pas encore exploré. — Marie sorriu. (Ainda não explorei tudo.)

— Pouvez—vous parler le portugais? — Vitória olhou-a. (Sabe falar português?)

— Sim. Como sabia que era francesa?

— Trabalhei muitos anos como guia turística, sei quando vejo um estrangeiro. — riu.

Marie riu bebendo um gole e ofereceu à Vitória.

— Eu não bebo caipirinha. — sorriu.

— Desculpe. — disse sem graça.

— Não se preocupe. — sorriu.

— O que me recomenda fazer no Rio? — disse devagar e escolhendo as palavras.

— Ir para o samba.

— Samba? — perguntou confusa.

— Sim. É um ensaio para o desfile das escolas de samba.

— É bom? — Marie estava curiosa.

— Muito divertido. — riu.

— Quando vai ser?

— Hoje, quer me acompanhar? — encarou Marie.

— Estou cansada. Andei muito. — riu.

Vitória sorriu-lhe.

— Começa às oito da noite. Se quiser ir, me liga, estou no quarto cento e três.

Levantou sorrindo e logo depois mergulhou para chegar ao outro lado da piscina onde estavam suas coisas.

Marie terminou sua caipirinha e subiu para o quarto para tomar banho. Ficou pensando sobre como seria o tal do samba e olhou para o relógio, ainda tinha duas horas até às oito. Ligou para o quarto cento e três.

— Qual seu nome? — Marie perguntou.

— Vitória e o seu? — um pequeno sorriso brotou no rosto de Vitória, sentiu-se estranha com essa sensação.

— Marie. Eu aceito ir com você ao samba. — disse encabulada.

— Perfeito, espero você na recepção às oito. — sorriu.

Desligaram. Marie deitou e dormiu pensando nos olhos escuros da morena. Vitória encheu a banheira, ligou uma música e relaxou.

Na hora marcada Vitória estava sentada no sofá da recepção ansiosa pela chegada da francesa. Marie estava no elevador checando a roupa pela enésima vez. A porta do elevador se abriu e o olhar das duas se encontraram, um sorriso espontâneo surgiu no rosto das duas.

— Você está magnífica. — disse Vitória se aproximando.

— Magnífica? — disse preocupada.

— É um elogio. — riu — Está muito linda.

— O português tem algumas palavras estranhas. — riu — Você também está magnífica. — sorriu repetindo a palavra com cautela.

Chamaram um táxi.

Entraram no galpão da escola de samba e a francesa já ganhou olhares e sorrisos, principalmente por ser estrangeira. Pele branca e suave, cabelos claros e cortados na altura do ombro. Vitória também atraiu olhares, por já conhecer algumas pessoas e por ter um corpo moreno, escultural e cabelo solto, enrolado e armado. Sheila se aproximou delas e abraçou Vitória.

— Francesa? — sussurrou para Vitória se referindo à Marie.

Apenas afirmou com a cabeça enquanto olhava a expressão de Marie, estava deslumbrada com tanta gente dançando e cantando ao ritmo alto da bateria da escola de samba. Vitória sorriu ao ver que havia agradado a francesa. Sheila logo trouxe uma caipirinha para Marie e uma cerveja para Vitória.

Vitória puxou Marie para o meio da multidão e começou a sambar. Marie arriscou acompanha-la, mas desistiu rindo de si mesma. Um rapaz tirou Vitória para dançar e Marie continuou a mexer o corpo, mas não desgrudava os olhos de Vitória. Um rapaz chamou-a para dançar, apesar de não saber, tentou. Vitória riu da cena.

No fim da noite estavam sentadas em uma mesa ao ar livre.

— Gostou? — perguntou sorrindo.

— Claro. Brasileiro tem uma energia muito boa. — Marie riu.

Sheila se aproximou com uma cerveja e outra caipirinha.

— Você vem sempre aqui? — perguntou bebendo um gole.

— Sim. Todo ano passo o carnaval aqui.

— Conhece todo mundo? — perguntou sentindo-se enciumada.

Riu da pergunta e a tentativa de disfarçar o ciúme.

— Só conheço a Sheila, a moça que está nos servindo. As outras pessoas só conheço de vista.

— De vista? — perguntou confusa.

— Sim. Quando eu apenas vi a pessoa e nunca conversei com ela ou ele.

— Je comprends. (Entendo.) — respondeu séria — Já saiu com a Sheila?

Vitória riu e segurou a mão da francesa.

— Eu acabei de me separar. Conheci a Sheila em um aplicativo de relacionamento, mas não rolou química. — sorriu.

— Rolou química? — riu — O que é isso?

Vitória riu.

— Como vou te explicar? — pensou um pouco — Rolar química, é quando o beijo é gostoso, quando o cheiro agrada, quando o toque é suave, os olhares correspondentes e o sorriso espontâneo.

— Compreendo. — riu — Por que se separou? — apertou-lhe a mão.

— Por muitos motivos, mas o principal foi a falta de compreensão. — olhou-a — As brigas eram constantes.

— Quanto tempo está solteira? — olhou-a.

— Alguns meses. E você, está solteira?

— Sim. Quantos anos você tem? — Marie encarou-a.

— Trinta e dois você?

— Vinte e quatro. — riu.

— Já se relacionou com mulheres mais velhas?

— Você não é velha. — riu — Nunca namorei e também nunca fiz sexo com mulheres. Só beijei.

Vitória encarou—a sem reação e sua mão soltou a mão de Marie em reflexo à frase.

— Nunca? — olhou-a.

— Eu demorei para entender que gosto de mulher e ainda não encontrei uma mulher para ir para a cama com ela. Eu sou completamente metódica. — riu.

— Metódica? — Vitória perguntou.

— Sim. Ainda não me senti segura para me entregar. — riu — Eu ainda não senti a química. — riu novamente — Eu não quero me entregar para qualquer uma, comigo as coisas são devagar.

Vitória riu e apertou-lhe a mão.

O quarto das duas era no mesmo andar, Vitória acompanhou Marie até a porta do quarto, pararam na porta e Vitória tirou-lhe uma mecha de cabelo do rosto.

— Bonsoir. — disse sorrindo. (Boa noite!)

— Boa noite, muito obrigada pelo samba, me diverti muito. — Marie sorriu.

— Eu também me diverti. — beijou-lhe o rosto e afastou—se.

— Vou passar a manhã em Ipanema, quer ir comigo? — Marie perguntou num impulso.

— Se eu acordar. — Vitória sorriu e piscou-lhe.

— Vou te acordar. — riu.

— Não faça isso. — Vitória riu.

Marie tomou um banho e deitou nua, acertou o despertador para às oito e dormiu.

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Alice Reis

Alice Reis

Casada, capricorniana e cheia de ideias na cabeça!
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