Capítulo 1 – O Encontro

Capítulo 1 – O Encontro

A noite estava surpreendentemente quente, o que me motivou a escolher o vestido preto curto de costas nuas que marcava meu corpo de forma escandalosamente provocante. Mas apesar do calor, mantive o cabelo solto, caindo nos ombros em ondas suaves, pois isso me dava a falsa sensação de e que estava um pouco mais coberta. Pura ilusão!

Apesar de não estar nenhum pouco empolgada com a balada para qual estava me arrumando, pois não tenho a menor vocação para sorrir forçadamente para desconhecidos, às 22h em ponto estava na portaria do meu prédio, esperando pelo meu sócio/melhor amigo, Gustavo, que ao chegar, tratou de me envergonhar diante do porteiro e das pessoas que passavam pela calçada, descendo o vidro do passageiro e soltando um belo:

– Ah lá em casa. Entra aqui, sua gostosa! – Gritou.

Bufei, mostrei o dedo do meio para ele e entrei no carro.

– Gata, viu! Mais linda do que sempre. Até toparia quebrar a louça com você hoje à noite, se eu já não tivesse outros planos. Gostosa demais, Clara!

– Dá para ser menos cafajeste? – Falei com falsa indignação.

– Não! – Respondeu-me de imediato com um tom firme, porém brincalhão.

– É, eu sei. A cafajestagem é inerente a você, seu cachorro. – Sorri.

– Talvez não mais, depois de hoje.

– Veremos.

Foi inevitável abrir um sorriso para ele, vendo sua empolgação com a noite que estava por vir.

Gustavo é um homem lindo e tem plena consciência disso. A autoconfiança dele é praticamente inabalável, e ele transpira charme. Não é dos mais altos, mas tem um corpo esculturalmente definido, a pele branca e lisa como a bunda de um bebê, olhos claros e cabelos castanhos, artisticamente desgrenhados. Quando o conheci, na primeira semana de aula, na festa dos calouros do curso de ciências da computação da UNIFOR, tremi na base, pois embora nunca tenha sido adepta aos contos de fadas, sexo para mim sempre foi uma necessidade vital e só de imaginar aquele corpinho lindo me consumindo em um sexo ardente fiquei instantaneamente excitada, mas quando atirei em sua direção, descobri que ele era gay. Quase não acreditei quando soube, porque ele não dá nenhuma pinta e, embora hoje em dia os estereótipos não sejam mais fator confiável para analisar a orientação sexual de uma pessoa, foi muito frustrante para mim encarar a realidade. Ainda mais ao vê-lo gargalhar antes de soltar um: “Amor, você é muito gata, mas eu sou muito gay, me erra, porque se tentar acertar, vai dar choque! ”, o constrangimento que senti me fez corar como uma beterraba. Ele logo percebeu o meu estado quando me encolhi diante dos risinhos maldosos de algumas estudantes que estavam próximas a nós e se sentiu mal. Ofereceu-me uma cerveja de redenção e daí em diante as conversas não tiveram mais fim. Descobrimos uma química entre nós que ia muito além do sexo ou das relações efêmeras tão comuns na época de faculdade. De lá para cá, temos sido mais que melhores amigos, tornamo-nos sócios no trabalho e irmãos na vida.

Ainda na faculdade, Gustavo conheceu Nicolas, um lindo cordeirinho de cabelos cacheados por quem desenvolveu uma atração instantânea. Um dia, depois de várias trocas de olhares nos corredores do campus, algumas conversas na lanchonete e uma pegação flamejante atrás da quadra de esportes, ele o convidou para sair. Jantaram, beberam, conversaram e transaram até não aguentarem mais. Teria sido mais uma presa do Gustavo, mais um para adicionar à extensa lista de peguetes dele, mas ele não estava contando com a possibilidade de se apaixonar. Começaram a namorar e depois disso nós mal nos víamos. Os dois estavam mais grudados do que chiclete em sola de chinelo, dormiam juntos quase todas as noites, incluindo os finais de semana. Tenho que confessar que isso me deixava bastante incomodada, mas não queria bancar a amiga chata, então deixei que ele vivesse o momento, mantendo-me sempre presente quando ele precisava.

No último ano da faculdade Gustavo e eu nos escrevemos em um programa de pós-graduação no maior Instituto de Tecnologia dos Estados Unidos. Como estudantes de Ciências da Computação, era um sonho a possibilidade de entrar para um programa desse nível. Porém, duas coisas essenciais eram necessárias para a admissão: a primeira era ter um QI alto o bastante para desenvolvimento de um projeto inovador o suficiente para convencer a banca julgadora de que éramos bons para eles; a segunda era ter muita grana, tipo, muita mesmo, para pagar o curso, que era absurdamente caro. Além disso, ainda tinha os custos nada modestos de morar nos Estados Unidos por dois anos. Está se perguntando se nós passamos, não está? O que acha? Claro que passamos, afinal, éramos dois filhos da puta nascidos com os traseiros virados para a lua, pois além de termos o QI do Einstein, nossos velhos eram montados na grana.

Bom, não precisa ter o QI muito alto para saber quem não gostou nada da notícia. Nicolas ainda estava no terceiro ano da faculdade de Direito quando nos mudamos. Gustavo ficou muito mal em ter que ir embora, mas também não foi burro de perder a oportunidade por causa de um amor de faculdade que talvez nem durasse. Ele até tentou manter o namoro a distância, mas as coisas foram ficando cada vez mais complicadas. Um dia, após uma briga por ciúmes totalmente sem sentido, decidiram terminar. Gustavo ficou mal por um tempo, mas aos poucos voltou à vadiagem, agora em inglês, e Nicolas seguiu com a vida no Brasil. Mais ou menos uns três meses depois do término, soubemos que ele já estava namorando de novo. Diferente do Gustavo, ele nunca aparentou gostar das promiscuidades que a vida de solteiro poderia proporcionar.

Enfim, o fato é que desde que se separaram, jamais haviam estabelecido qualquer contato novamente, até três dias atrás, o que nos traz até aqui.

O que a história deles tem a ver comigo? É o que vocês vão descobrir agora.

*****

Entramos no bar por volta das 22h30’ e estava lotado. O ambiente possuía um clima bem intimista e era muito bonito e sofisticado, as pessoas, na maioria homens e gays, desfilavam suas roupas de grife e narizes empinados para cima e para baixo. Gus já entrou atraindo dezenas de olhares, mas naquela noite ele já estava com seu objetivo definido, por isso, ignorou todos que vinham em sua direção. Ele se identificou para a hostess que indicou o caminho da nossa mesa e em seguida caminhamos através de uma pequena pista de dança que nos levou até o lounge do outro lado.

– E então, o que está achando? – Perguntou-me, enquanto me conduzia até a mesa.

– Ai, Gus! O ambiente é legal, mas não estou no clima de segurar vela. – Retruquei mal-humorada.

– E quem disse que você vai segurar vela?

– Quando você encontrar o Nicolas, tenho certeza de que vai me deixar plantada aqui, e um ambiente LGBT não é bem um lugar onde eu poderei encontrar distração.

– Até parece! Você pareceu bem distraída naquela vez, na faculdade. Se agarrando com a morena de lábios carnudos daquela fraternidade. – Referiu-se à minha experiência gay de uma noite na época em que estávamos nos Estados Unidos.

– Aquilo foi um experimento… como ecstasy, saltar de paraquedas, escalar… São coisas que fiz para saber que graça tinha e não porque queria ter como hábito.

– Sei…

– Quer saber? Não preciso me explicar para você.

– Clarinha, por favor, melhora essa cara e quebra essa para mim. Sabe o quanto é importante. Tenta se animar um pouquinho, vai?

– Só não entendi porque precisava me trazer de vela.

– Porque não queria parecer desesperado. Se ele me vir aqui sozinho, vai saber que vim para procura-lo.

– E não veio?

– Vim, mas ele não precisa saber, né?

– Depois dizem que as mulheres é que são complicadas.

Há dois dias, como em um conto de fadas gay, Gustavo e Nicolas se esbarraram em um restaurante. Desde então, Gus ficou com essa ideia fixa na cabeça de que o destino promoveu o encontro para que eles tivessem uma segunda chance. Nicolas estava almoçando com um amigo, que comentou sobre a inauguração de seu novo bar, e o Gus imediatamente mentiu, dizendo que estava sabendo da inauguração e que já havia combinado de ir com uma amiga, no caso eu. Nicolas então sugeriu que eles poderiam se encontrar na ocasião, e aqui estamos.

– Só tenta se animar um pouquinho. Prometo que não vou te deixar sozinha por muito tempo. Faz isso por mim? Preciso de você. Por favor! – Disse com cara de pidão, e eu não consegui me conter em abrir um sorriso.

– Ok! Mas o mínimo que espero é ficar bêbada. Seja útil e vá lá no bar, traga uma bebida para mim. – Falei enquanto sentava em um dos dois sofás pretos de couro, em forma de meia lua, que rodeavam uma mesa redonda de vidro.

– Oui, mademoiselle! – Falou, fazendo um floreio exagerado com a mão, deu-me um beijo na face e saiu em seguida.

Dei uma olhada ao redor na esperança inútil de identificar algo interessante para mim, mas como previa não tive qualquer sucesso. O bar estava cheio de pessoas lindas, na sua maioria homens, mas se as orientações sexuais ali fossem identificadas por cores, eu seria o único ser presente sem uma tatuagem de arco-íris na testa. Sou uma pessoa muito prática e para mim o objetivo do sexo é chegar ao orgasmo, não importa se é um homem ou uma mulher quem vai me proporcionar isso, no entanto, em todos os meus 28 anos de vida, apenas uma mulher despertou a minha curiosidade, a tal lá da faculdade que o Gus passou na minha cara agora há pouco. De todo modo, depois que começamos a transar achei tudo meio desengonçado. A menina parecia ter menos experiência do que eu, que não tinha nenhuma com mulheres. Ela era linda, de fato, e tinha um corpo e tanto. Não nego que fiquei atraída fisicamente, assim como não nego que ela não foi a única mulher que despertou fagulhas em mim, mas a falta de sincronia do ato me fez decidir que aquele seria o início e o fim da minha jornada gay.

Meu desconforto naquele ambiente não era pelo fato de ser um lugar frequentado quase que exclusivamente por gays e lésbicas, até porque já estava mais do que acostumada a frequentar esse tipo de ambiente com Gus. O fato é que às vezes fico analisando as pessoas e sinto uma pontada de vontade de não ter o QI tão apurado. Acho que se eu fosse menos inteligente me deixaria envolver mais fácil e talvez já estivesse até casada e com uns três filhos. Minha racionalidade é sempre um empecilho na hora de me envolver, pois vejo a facilidade com a qual as pessoas se enganam, como se iludem com conversas fiadas, como se contentam com pouca coisa, como se adaptam à mediocridade. Às vezes sinto uma ponta de inveja disso. Eu não sou assim, não me contento com o pouco. Sempre quero mais e sempre quero o melhor. Provavelmente por isso jamais me apaixonei, jamais senti aquele frio na barriga e aquela vontade de dormir de conchinha com alguém. Sou conhecida por todos com quem já ensaiei um relacionamento como a rainha do gelo e não posso culpa-los, pois raras vezes me permiti passar uma noite inteira com alguém, nunca andei de mãos dadas e sempre abominei a sensação de posse sobre mim. Tudo sempre foi só sobre sexo, mas não que eu não quisesse algo a mais, até me sentia mal por agir assim. Por muito tempo me senti anormal, mas depois concluí que apenas não havia encontrado alguém que arrancasse a minha racionalidade fora. Sabe quando você sente falta de algo que você nunca teve? Foi assim que eu sempre me senti.

Ainda esperando o Gus voltar com a minha bebida, peguei o celular na bolsa e me distraí, mexendo no protótipo do novo aplicativo que estávamos desenvolvendo. Não sei quanto tempo já havia passado, mas ele estava demorando, provavelmente porque o bar estava lotado. Em poucos instantes estava totalmente concentrada no celular, ficando alheia ao que acontecia ao meu redor. Acordei-me do meu transe quando senti uma presença ao meu lado e uma mão grande tocando meu ombro.

– Ai, meu Deus! Não acredito nisso. A rainha do gelo em pessoa!

Era o Nicolas, estava diferente. Lindo, parecendo mais com um homem e menos com um garoto. Alto, bem mais forte, os cachinhos dourados haviam sido substituídos por um corte curto, moderno, o sorrido iluminado de comercial de pasta de dentes, o tom de voz levemente afetado, mas grave e sedutor. Enfim entendi a ânsia do Gus em reencontra-lo. Joguei o celular de lado e levantei para receber o abraço de urso que ele me deu.

– Quanto tempo, gata! Você está um arraso, mais linda do que sempre. – Falou ainda comigo nos braços.

– Ora, ora, quem diria que o cordeirinho e ficar com essa cara de lobo mau. Bom te ver de novo, Nic. – Eu realmente gostava muito dele.

– Conta tudo, quero saber as novidades. Mas primeiro e mais importante, cadê o Gus? – Olhou ao redor.

– Que sutil! – Sorri. – Foi pegar bebida. Deve estar voltando.

Olhei para o lado dele e percebi que não estava sozinho. Por um instante congelei meu olhar na mulher de pé perto dele. Praticamente uma figura mitológica, Afrodite, linda, um arraso. Sabe aquela racionalidade toda que acabei de narrar? Pois é, acho que naquele instante ela saiu para dar uma voltinha, porque diante da visão que tive, uma corrente elétrica percorreu todo o meu corpo e comecei a tremer. Ela era mais ou menos da minha altura, o corpo torneado, a pele branca como um copo de leite, olhos grandes e escuros, nariz e queixo afilados, a boca pequena e sensual, certamente desenhada à mão, colorida com um batom vermelho sangue. Os cabelos compridos e volumosos arrumados para um lado caíam em uma cascata negra de ondas sobre o ombro nu. Ela usava um tubinho tomara que caia vermelho e sandálias de salto alto. Os braços cruzados sobre os seios e acho que estava mordendo a bochecha por dentro, como por ansiedade ou tédio. Ela estava nitidamente aérea, quando enfim percebeu meu olhar nela e retribuiu com um sorriso educado. Os olhos estavam distantes, como se estivesse ali apenas de corpo presente, assim como eu. Concluí que estávamos as duas desempenhando o mesmo papel, o de bode expiatório de nossos amigos. Nicolas finalmente percebeu que havia e ignorado a presença da amiga e se corrigiu.

– Deus do céu, desculpa! Deixa-me apresentar vocês. – Tocou a amiga no ombro e a puxou para perto. Repetiu a mesma ação comigo, não nos dando muita opção a não ser ficarmos frente a frente. – Clara, esta é Júlia, minha amiga do peito. Ju, a Clara e eu éramos amigos na faculdade. Eu namorava o melhor amigo dela, o Gustavo, de quem já te falei.

– Clara, prazer! – Sorriu sem vontade e esticou bem o braço, estendendo-me a mão como se não quisesse que eu me aproximasse para abraça-la ou dar os famosos dois beijinhos.

– O prazer é meu. – Repeti o gesto dela e apertei sua mão, tentando deixa-la confortável.

Quando senti o toque da mão dela na minha, um forte arrepio na coluna me subiu e as pontas dos meus dedos formigaram. De forma involuntária soltei um suspiro discreto. Não sei se o que senti foi perceptível, mas nessa hora o olhar distante dela se moveu em alta velocidade de encontro ao meu. Encarei-a, acho que por poucos segundos, e me senti presa àquela situação. Então, minha viagem à escuridão daqueles olhos foi rapidamente interrompida pela chegada de Gus, que trazia meu drinque em sua mão.

– Olha só, você chegou! Vem cá, me dê um abraço. – Gus me entregou o copo sem sequer me olhar e se jogou em um abraço exagerado com Nicolas.

– Bom te ver de novo. – Nicolas falou sorrindo.

Novamente as apresentações e em poucos segundos estávamos sentados à mesa. Gus e eu em um sofá, Nicolas e Júlia no outro. Embarcamos em uma conversa animada, quase sempre conduzida por um dos dois. Júlia e eu nos limitávamos a sorrir e confirmar o que os dois diziam. Nicolas queria saber as novidades, então Gus contou que havíamos voltado dos Estados Unidos há três anos e agora éramos sócios em uma empresa de tecnologia que desenvolvia jogos e aplicativos para as mais diversas plataformas. Nicolas contou que era sócio de um conceituado escritório de advocacia e tinha se especializado em direito civil. Contou que a amiga era psicóloga, especialista em psicopedagogia e que prestava assessoria em algumas escolas.

– Ela é a melhor, estou dizendo. As instituições de ensino mais famosas do país se estapeiam por uma vaga na agenda dela. – Nicolas parecia devotar a amiga, pois não parava de enaltecer suas qualidades. – Falo sério. Os pirralhos se transformam com a presença dessa mulher. Ela tem poderes mágicos, conserta a cabecinha de todos. – Júlia ouvia os elogios do amigo sem dar muita atenção e balançando a cabeça de forma negativa, com um constrangimento nítido. – A única cabeça a qual ela não consegue dar jeito é a dela mesma… – ia continuar e ela interrompeu.

– Nic, achei que essa noite era sobre você e o Gustavo aqui. Quer fazer o favor de me ignorar? – Disse ela com ironia, soltando um sorriso discreto para tentar amenizar a bronca que deu no amigo.

– Ai, sua chata! Estou aqui morrendo de te elogiar, e você me agradece assim? – Ele se virou para nós. – Não liguem, ela não é carrancuda assim, só está de mal humor. Eu a obriguei a vir, desculpem. Juro que ela é simpática eventualmente. – Mas uma vez ela o olhou com crítica, mas ficou calada.

– Não torra a garota, Nic. Deixe-a em paz. – Gus saiu em defesa dela.

– Não, ela não é assim. Esse mau humor dela tem nome: Érica.

– Nicolas! – Agora ela estava chateada.

– Garotos, vamos ser sinceros, a pobre Júlia e eu viemos aqui esta noite para que vocês pudessem se encontrar. Não sei por que precisam da gente para isso, pois está na cara que iam se ver mesmo que nós não tivéssemos topado vir. Então que tal falarmos mais de vocês e menos da Júlia? – Resolvi intervir, pois já estava ficando nervosa com o desconforto da garota.

– Obrigada! Alguém sensato. – Ela me agradeceu com um sorriso divertido.

Os dois patetas ficaram olhando para nós com cara de tacho e ficaram mudos por alguns instantes, até que Nic quebrou o silêncio.

– Desculpa, amor! – Disse, olhando para a amiga que sorriu de forma meiga…. Linda, por sinal. – Não vou mais te torrar. Só fico chateado por você estar de mau humor por quem não te merece.

– Você estava indo bem e já está começando de novo.

– Ok, desculpa. Parei.

– Nic, vamos dançar, já que a noite é sobre nós? – Gustavo levantou e deu a mão para Nicolas.

– Vamos! – Levantou. – Espero que as rainhas do gelo e do drama não escrevam uma novela mexicana aqui na nossa ausência.

Quando os dois saíram, um enorme elefante branco se sentou entre nós duas. Eu não sabia o que falar e nem como agir, e ela parecia estar na mesma situação. Não sou tímida, embora abomine as interações sociais. Sou muito comunicativa e segura de mim, sempre converso sobre qualquer assunto e com qualquer pessoa, mas aquele olhar distante dela, meio melancólico ou triste, me deixava sem ação. Ficava me perguntando o que estava se passando e sentia necessidade perguntar, mas eu mal a conhecia e não tinha esse direito. Pelo que eu entendi ela era gay… “Érica”… Foi o nome que Nicolas falou. Deve ser ex-namorada, ou podem ainda ser namoradas e terem simplesmente brigado. Espera, por que estou tão curiosa sobre ela? Olhei-a e a encontrei distraída, passando o dedo na borda da garrafa de água que segurava. Ela parecia analisar o próprio movimento enquanto balançava a perna cruzada. Levantou o olhar e me encontrou encarando-a. Tenho certeza que ruborizei. Quando me olhou, percebeu que eu a estava analisando e seu olhar queimou no meu. Ela era linda demais. A beleza dela era desconcertante até para uma mulher hétero, como eu. Será que sou tão hétero assim? Desviei o olhar com constrangimento. De repente fiquei com medo de que ela achasse que eu a estava paquerando e senti necessidade de expor, da forma mais idiota possível, que não estava interessada.

– Às vezes acho que o mundo é injusto. – Falei com intenção de quebrar o gelo.

– Por quê? – Perguntou curiosa.

– Tantos homens lindos e todos gays.

– Bem, para mim isso não faz muita diferença. – Sorriu.

De repente ela pareceu presente. Retornou da viagem em que estava embarcada e voltou a atenção para mim. Isso me fez relaxar um pouco mais.

– Você costuma ir muito em ambientes gays com o Gustavo? Digo, deve ser um tédio para você.

– De vez em quando vou com ele, mas normalmente saímos para ambientes não exclusivos. Hoje estamos aqui por conta do Nicolas, mas o lugar é legal, muito bonito e divertido. Eu é que não estou no clima mesmo. Tive um dia cheio e só queria minha cama. –  Quando pronunciei a palavra “cama”, imediatamente surgiu um flash em minha mente de nós duas deitadas nela. Pisquei os olhos rápidos para desviar o pensamento inoportuno. – E você? Desculpe a intromissão, mas parece estar bem menos a vontade do que eu aqui. Também não tem o hábito de frequentar ambientes exclusivos?

– Na verdade, não. Não acho que por ser gay eu precise frequentar ambientes exclusivamente LGBT, mas concordo com você, o lugar é ótimo. O problema sou eu.

– Veja só, trocamos apenas duas frases e ambas falaram que estão com problemas. Acho que estamos escrevendo o roteiro da novela mexicana. Nicolas tinha razão. Quanta amargura em nós, não acha? – Rimos juntas, ela com aquele sorriso encantador que me fez prender a atenção em sua boca.

Entramos em uma conversa descontraída. Ela confessou ser uma grande fã de tecnologia e estava muito curiosa sobre meu trabalho. Falamos de algumas aplicações desenvolvidas pela minha empresa e ela ficou surpresa por conhecer algumas delas. Fiquei surpreendida ao perceber que embaixo de todo aquele mistério existia uma mulher incrivelmente inteligente e perspicaz. Suas perguntas eram sempre cheias de embasamento e minhas respostas técnicas a deixavam com uma expressão atenta e curiosa. Já estávamos ali conversando por um certo tempo e só então caiu a ficha que os rapazes haviam desaparecido.

– Você acha que eles foram embora? – Ela perguntou.

– Gus não é louco de ir sem avisar. Ele me trouxe.

– É. Devem estar em algum canto do bar, matando a saudade. Acha que eles vão reatar.

– Só não vão se o Nicolas não quiser. Gus nunca se apaixonou antes. Isso só aconteceu quando ele conheceu o Nicolas e, depois que eles separaram, ele não teve mais nada sério com ninguém. Nunca esqueceu dele.

– Nossa! Então acho que é amor.

– Com certeza é. – Respondi com um suspiro. – Sinto uma invejinha branca dele.

– Inveja? Por quê?

– Porque não sei o que é isso, nunca me apaixonei.

– “Rainha do gelo”… Agora entendi. – Disse pensativa.

– Está me analisando?

– Desculpa, não consego evitar.

– Não vou ter que pagar por uma consulta, vou?

– Fui indiscreta, perdão. Vamos mudar de assunto. – Disse com receio.

– Não. Vou aproveitar a consulta grátis. – Sorri com malícia.

– Tudo bem, vá em frente. – Respondeu, devolvendo o sorriso.

– Isso é normal? Quero dizer, eu nunca me apaixonar? Nunca ter sentido nada mais do que atração física por alguém? Será que eu sou algum tipo de psicopata?

– Imagina! – Ela deu uma gargalhada. – Para com isso! Você provavelmente só não encontrou ainda “A” pessoa. Pessoas muito inteligentes têm mais resistência em se envolver, pois tendem a calcular melhor os riscos. Deve ser isso, assim aconteceu com o Gustavo. Talvez só tenha achado o que julga ideal no Nicolas. Portanto, não se preocupe, isso não faz de você uma psicopata.

– Tem certeza de que só lida com crianças? Acho que estou precisando de umas sessões com você. – Disse, brincando.

– Deixa disso. – Sorriu novamente, lindamente, sexy… – Eu acho que você só está precisando de uma bebida. Vou no bar pegar uma água. Quer que eu te traga algo?

– Margarita, por favor.

– Pode deixar.

Ela se levantou e saiu com uma graça inacreditável. Extremamente feminina, um leve rebolar nos quadris e uma caminhada suave, como se flutuasse. Acompanhei com os olhos até onde pude enxergar. Ela atraia olhares até dos homens pelos quais cruzava, mas se movia com uma segurança tão grande que as pessoas saiam da frente para dar passagem a ela. Mais um flash com a imagem da minha boca na dela me tirou o senso por um instante. Pisquei os olhos com força e desviei o pensamento. Olhei em volta para ver se encontrava os rapazes, mas foi em vão. Senti uma presença ao meu lado, alguém sentando. Um cheiro forte e amadeirado me invadiu, causando certa náusea. Virei e encontrei uma criatura inconveniente, porém muito bonita me encarando. Era uma morena alta, de traços bem marcados. Usava calça e camiseta preta coladas ao corpo e uma jaqueta de couro por cima. O comportamento dela era um tanto masculinizado e sua linguagem corporal era descarada. Logo percebi o que ela queria.

– Boa noite. Meu nome é Fernanda. Estou te olhando desde que sentou aqui, pois sua beleza me hipnotizou. Não pude perder a oportunidade de falar com você quando te vi sozinha. Posso te pagar uma bebida?

– Oi, Fernanda. Agradeço a gentileza e fico lisonjeada com o elogio, mas não, obrigada.

– O que é isso, gata! Você sequer se deu a oportunidade de me conhecer.

– Sinto muito, mas não estou interessada.

– Não tire conclusões antes de dançar comi…

– Algum problema aqui? – Júlia apareceu de pé na nossa frente, segurando minha bebida em uma mão e uma garrafa de água na outra.

– Sim, estou conversando com a moça e você está nos atrapalhando. Você pode nos dar licença? – Se Fernanda fosse um cachorro, teria urinado em mim naquele momento.

– Acontece que nesse momento eu tenho certeza de que ela está mais interessada na minha presença do que na sua, estou errada, amor? – Ela afundou o olhar no meu, como se me mandasse confirmar a história.

– Está certíssima, amorzinho. – Entrei no jogo.

– Mentira, vocês estão sentadas em lados opostos à noite toda. Eu estava observando. Vi quando o rapaz apresentou vocês.

– Bom, acho que isso não é da sua conta. Pode nos dar licença? Está começando a me irritar. – Júlia falou de forma ríspida.

– Nossa! Ok, gata. Desculpa, já estou saindo. – Levantou e começou a caminhar, então se virou. – Se mudar de ideia, estou logo ali.

Júlia sentou do meu lado e me entregou a taça com a margarita. Foi quando senti o cheiro dela me inebriar e novamente perdi os sentidos por alguns segundos. Em seguida ela abriu a garrafa de água que segurava e tomou um gole. Acompanhei o movimento que fez com a boca e imediatamente fiquei com sede. Ela estava agora do meu lado, o mais próximo que já havia ficado. Sentou de lado no sofá e eu repeti a ação dela. Ficamos de frente uma para a outra e agora sim estávamos parecendo um casal.

– Obrigada! – Falei.

– Não agradeça. Só percebi o seu desconforto e decidi intervir. Sujeitinha petulante, né?. – Falou, franzindo o cenho.

– Sim. E o perfume estava me dando náuseas. – Rimos.

– Como está sua margarita?

– Deliciosa. – Não sei por que fiz isso, mas pronunciei a palavra encarando-a. Ela me encarou de volta em silêncio, fiz uma pausa e continuei, interrompendo o momento. – E você, não bebe? – Perguntei e levei minha taça à boca.

– Hoje não. Dirigindo.

– Entendi.

Silêncio…. Ela me desnudou com um olhar e eu corei. Mais flashes…. Desviamos o olhar e ela voltou a falar de assuntos aleatórios. O que está acontecendo comigo? É como se eu tivesse com uma curiosidade insaciável dela. Ela era uma caixa de mistérios para mim. Falava muito, mas na maioria das vezes me perguntando algo. Raramente falava sobre ela mesma e quando o fazia, não revelava muito. Agora já estava completamente à vontade comigo, mas lá no fundo eu conseguia sentir uma tristeza vindo dela. “Érica…” Mais uma vez me perguntei quem era e como ela poderia ter feito mal para essa criatura tão encantadora. Três margaritas depois e finalmente lembrei de Gustavo e Nicolas.

– Onde aqueles malucos se enfiaram? Já se passou mais de uma hora, eu acho. – Olhei para a tela do celular, buscando a hora. Meia noite.

– Quer ir procurar?

– Quero.

– Vem. – Ela levantou e estendeu-me a mão. – Melhor irmos de mãos dadas, para não sermos incomodadas pela sua amiga… A menos que você esteja interessada, então…

-Não estou. – Falei com um leve tom de indignação. Segurei a mão dela e levantei. O contato me causou de novo aquele arrepio. O que essa mulher tem?

Caminhamos entre as pessoas a procura dos nossos amigos. Ela olhava de um lado para outro enquanto me guiava, mas eu só conseguia olhar para ela. Estava presa naquela visão maravilhosa, naquele mistério escondido. Em cinco minutos acho que já havíamos explorado todo o lugar, mas nada deles.

– Não acredito que o Gus me deixou aqui sozinha.

-Obrigada pela parte que me toca. Estava tentando ser uma boa companhia, mas parece que não funcionou.

– Não. Não é isso. Que…. quero dizer… – Gaguejei. – É só que eu vim no carro dele. Se ele foi embora, deveria ter me avisado ao menos.

– Relaxa, eles estão ali.

Ela apontou em direção às escadas que acho que dava para a administração do lugar. Puxou minha mão e fomos mais para perto. Eram eles, quase embaixo da escada. Não estavam se pegando, estavam se consumindo.

– Então, eu interrompo ou você faz isso? – Ela me olhou com uma interrogação pairando sobre sua cabeça.

– Acho que vou chamar um táxi. – Suspirei.

– De jeito nenhum. Vem, eu levo você.

Meu coração disparou. Suspirei.

– Não quero incomodar.

– Imagina, vai ser um prazer.

– Ok, vamos. – Porra!

******

Entramos no carro e passei meu endereço a ela, que arrancou em seguida.

– Quer ouvir música? – Perguntou.

– Seria ótimo.

– Fique à vontade para escolher. – Apontou para o som.

– Do que você gosta?

– Gosto de ser surpreendida. – Falou sem tirar os olhos da pista, mas senti certa ambiguidade na frase.

Flashes…. Meu coração palpitou com o desafio. Ok, se isso é um jogo, então vamos jogar. Além disso, sou competitiva e nunca jogo para perder. Peguei meu celular, sincronizei-o com o som do carro e fui em busca de uma playlist. Já sabia exatamente que música tocar, o que não sabia era se ela entenderia as entrelinhas ou simplesmente as ignoraria. Não sei por que fiz isso, era como se meu corpo estivesse agindo de forma autônoma. Eu sequer pensava no que estava fazendo, embora tivesse consciência de cada ato. Não sabia para onde tudo aquilo ia me levar, mas também não conseguia parar. Play… a batida sensual da música encheu o carro. Body Say (O Corpo Fala) ….

– Conhece? – Perguntei.

– Não, mas a batida é muito boa.

– Se não gostar, posso trocar.

– Não, não…. Deixa! Estou gostando. Quero ouvir a letra. – Bingo!

Ela me olhou por um instante e sorriu, depois voltou os olhos para a rua e se concentrou. Ficamos em silêncio durante toda a música, eu só abri a boca para cantarolar alguns trechos em um som quase inaudível. A letra em inglês era sensual e provocante, e eu esperava que ela captasse a mensagem que eu estava enviando.

Se as coisas fossem do meu jeito

Eu iria com você até o fim

Se as coisas fossem do meu jeito

Eu te viraria do avesso

E se meu corpo pudesse escolher

Eu chegaria novamente

Com medo do que posso dizer

Pois estou no limite

E nossos olhos estão se cruzando nesta sala

Há apenas uma coisa a ser feita

Você pode me tocar lentamente

E acelerar, amor, me faça suar

Terra dos sonhos, me leve até lá, pois eu quero seu sexo

Se meu corpo tivesse escolha, eu não iria embora

Tocar, fazer amor, te provar

Se meu corpo dissesse a verdade

Querido, eu faria tudo o que eu quisesse

Se as coisas fossem do meu jeito, eu tomaria a frente

E se as coisas fossem do meu jeito, te levaria até o fim

Se meu corpo pudesse escolher, eu tiraria isso do meu peito

Te mostraria a renda vermelha por baixo do meu vestido

Minha mente está atrapalhando

Não consigo sentir o que meu corpo fala

Eu vou te dizer de qualquer jeito…

– Acabou. Quer escolher a próxima? – Perguntei.

– Não, por favor, fique à vontade. Você tem bom gosto.

– Obrigada! Gostou da música? – Sorri em agradecimento. Dei sequência a minha playlist que consistia basicamente em uma série de baladas americanas.

– Sim…. A letra é…. quente! E a batida, nossa! – Fez uma pausa. – Quem canta?

– Demi Lovato.

– Verdade. Achei a voz familiar.

– Você ouve o quê, normalmente?

–    Ouço de tudo, desde que a letra e a melodia me agradem. Gosto de pop/rock, mas acho que prefiro MPB.

– Também gosto de MPB.

Engatamos agora em um papo sobre música, e ela parecia alheia à minha mensagem. Não sabia se tinha entendido o recado, ou se tinha entendido e resolvido ignorar. A dúvida estava quase me consumindo e foi difícil me conter em não perguntar. A situação não era nada comum para mim, nunca precisei de grandes esforços para atrair alguém, mas o problema não era só esse. A questão é que em 28 anos jamais quis tanto a atenção de uma pessoa. Não sei se era o mistério envolvido, ou a beleza dela, ou o conjunto da obra, mas de alguma forma aquela mulher estava me deixando totalmente desconsertada, de modo que eu não conseguia sequer prestar muita atenção no que ela estava falando. Fiquei descaradamente olhando a boca dela se mover enquanto falava animada de um show que tinha ido no final de semana anterior e me peguei mordendo o lábio em reação.  Felizmente ela pareceu não perceber, pois estava concentrada na direção. Eu sequer tinha certeza se era algum tipo de atração sexual, afinal de contas era uma mulher, a mais linda que já vi, mas ainda assim, um ser pelo qual não costumava sentir uma atração tão descontrolada, pelo menos não até aquela noite. O fato é que ficar ali olhando para ela me levou para outra dimensão, minha imaginação tomou conta de mim e de repente fiquei distante, sem conseguir mais ouvir o que ela falava.

– Terra para Clara, câmbio! – Ela falou estalando os dedos, e percebi que estava tentando me trazer de volta. – Alô, alô…. Responda! – Sorriu!

– O quê? – Acordei.

– Chegamos. É esse o seu prédio, não é?

Meio desnorteada, olhei pela janela e vi que estávamos paradas na frente do meu prédio. Olhei para ela com um movimento rápido do pescoço, mostrando que eu estava surpresa.

– Você está bem? Parecia distante. – Perguntou-me com um olhar interrogativo.

– É, acho que viajei por um instante.

– Para onde?

– Para onde o quê?

– Para onde você viajou, ué.

Corei e sorri. Encarei-a e depois desviei o olhar.

– Quer subir? – As palavras saíram da minha boca sem pensar.

– Como? – Perguntou surpresa.

Merda, o que eu disse? De repente fiquei sem graça. O que passou pela minha cabeça? Por que eu a chamei para subir? E agora? Pensa, pensa, pensa….

– A conversa estava boa e ainda está cedo. Pensei em te convidar para uma bebida. – Foi o que me ocorreu.

– Não posso beber, lembra? Dirigindo. – Apontou para o volante.

– Tenho água, suco, chá, café, refrigerante e…. Acho que posso ver se tenho mais algo não alcoólico.

– Não sei. – Suspirou pensativa e me encarou, como se estivesse tentando decifrar o que havia por trás do convite.

– Desculpe, não quis ser indiscreta. Mal nos conhecemos e já estou te chamando para o meu apartamento. Fique à vontade para dizer não. – Falei preocupada.

– Calma! – Sorriu, tentando me deixar à vontade. – Não fique constrangida. Não é isso, é que não quero incomodar.

– Não é incômodo nenhum.

–  Então eu subo.

– Sério? – Perguntei sorrindo feito uma criança que convenceu o pai a comprar um brinquedo novo. – Digo, que bom! – Porra! Estou parecendo uma adolescente. – Vamos então.

Indiquei o caminho da garagem e ela seguiu para estacionar.

Flashes, flashes e mais flashes.

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Cearense, de Fortaleza. Amante da literatura que acabou descobrindo um grande prazer em escrever.
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