Capítulo 11 – A Ex

Capítulo 11 – A Ex

Maldito Nicolas! O que ele é? Um vidente? E agora, o que eu faço?

Nicolas estava coberto de razão, pois mesmo sabendo que estava arrumando um problemão para o meu relacionamento com Clara, eu não tinha a menor intenção de bater a porta na cara da Érica, ainda mais no estado o qual ela se encontrava. Para piorar tudo, ela ainda estava com o João, que aparentemente estava bem, mas mesmo assim se tornou o maior motivo de minha preocupação, pois sabia que o estado de saúde dele requeria muitos cuidados. Não poderia simplesmente manda-la embora, ainda mais sabendo que ela não tinha para onde ir. Os pais dela moravam do outro lado do país e não faziam ideia do que ela passava com o marido. Ela também não tinha amigos, apenas alguns colegas de trabalho com os quais ela jamais falava sobre a vida pessoal. O mais parecido com um amigo que ela já teve, além de mim, foi o Nicolas, mas não eram íntimos o bastante para que ela tivesse coragem de aparecer na porta dele em uma situação como aquela, então só restava a mim, e acho que se ela soubesse sobre a Clara, nem teria aparecido. Aliás, sobre a Clara, eu estava completamente tensa com a forma com a qual ela reagiria àquela situação. Sabia que não ia ser fácil faze-la acreditar que minhas intenções só tinham a ver com preocupação, cuidado e amizade. Eu precisava encontrar uma maneira de convence-la de que o que eu estava preste a fazer, faria por qualquer pessoa.

Quando Érica, aos prantos, pediu para entrar, a primeira a reagir foi Clara. Ainda sem tirar os olhos dela, com o rosto fechado em uma expressão gelada, deu um passo para trás, abrindo passagem. Olhei para ela sem saber o que dizer e depois dei um passo em direção à Érica, para puxar para dentro de casa a pequena mala que estava ao lado dela, com todo cuidado para evitar qualquer contato físico.

– Entra. – Falei nervosa. – Ele não fez nada com o garoto, fez? – Perguntei enquanto ela passava por nós, segurando João nos braços.

– Não. Ele está bem. – Respondeu já dentro do apartamento, virando-se de forma a ficar novamente de frente para nós.

– E você, precisa de médico? – Perguntei.

– Não, não…. Está tudo bem. – Falou entre lágrimas, agarrando-se mais forte em João. – Só preciso de um lugar para passar a noite.

– Ok, então vou colocá-lo no quarto. – Avancei em sua direção e, sem pedir permissão, tirei o garoto dos braços dela. – Você senta ali no sofá, que eu já volto. – Olhei para Clara. – Amor, você pode ligar para o Nicolas e pedir para ele vir para cá? – Mas antes que ela conseguisse responder, Érica a cortou.

– Por que você vai chamar o Nicolas? – Perguntou assustada.

– Para ele te acompanhar à delegacia, lógico.

– Ju, eu não posso fazer isso. – Falou, balançando a cabeça nervosamente em negativa. – Eu não vou denunciar.

–  Érica, o Henrique é totalmente descontrolado. Você precisa tomar uma atitude, senão ele vai acabar te matando. – Enquanto eu falava, João começou a se mexer em meus braços e lembrei que não era adequado ter aquela conversa na presença dele. – Vou pôr o João na cama e já volto. Vai sentar. – Ela foi sentar e eu virei novamente para Clara, que mais parecia uma estátua de cera. – Amor, desculpa. Vou resolver isso, prometo.

Nem assim ela reagiu. Deixei as duas na sala e fui até o quarto de hóspedes. Pus João na cama e conferi rapidamente o corpinho dele, para ver se não tinha nenhuma marca de agressão. Beijei o rostinho e saí, deixando a porta entreaberta. Quando voltei para sala, Clara estava de pé em frente à Érica, estendendo-lhe a mão com um copo de água. Érica recebeu e agradeceu, mas sem encará-la. Quando me aproximei, Clara me olhou e falou:

– Bem, eu vou indo.

– Indo para onde? – Perguntei confusa, pois não sabia se ela estava falando em ir para o meu quarto ou para a casa dela.

– Para casa. – Respondeu simplesmente.

– Não, você não vai. – Olhei no fundo dos olhos dela, ainda gelados.

– Esse assunto não é da minha conta. A Érica precisa conversar e não vai ficar à vontade com a minha presença.

– Gente, pelo amor de Deus. – Érica interferiu, levantando-se. – Júlia, eu não fazia ideia de que estava acompanhada e, pelo que vejo, estavam de saída. – Virou-se para Clara e continuou. – Clara, não é?

– Sim. – Respondeu sem esboçar sentimento algum.

– Clara, só vim aqui porque não tinha mesmo para onde ir e, acredite, só pedi abrigo à Júlia por causa do meu filho. Não quero atrapalhar mais do que já estou atrapalhando, então, por favor, não deixem de sair por minha causa. Vamos ficar quietinhos lá no quarto de hóspedes e assim que amanhecer sairemos. – Concluiu com a voz embargada, sem obter qualquer reação de Clara em resposta.

– Érica, Clara é minha namorada e estávamos realmente de saída. – Falei. – Nós ainda vamos sair, mas antes disso, preciso entender o que houve com você, e eu vou sim chamar o Nicolas, para ver se ele consegue te convencer a finalmente denunciar aquele canalha.

– Não. – Clara interrompeu. – Não se incomode. Eu vou para casa. – Falou, deixando Érica nitidamente constrangida com a situação.

– Amor, por favor! – Clamei. – Érica, espere aqui, já volto. Vou conversar com a Clara no quarto.

E dizendo isso, puxei Clara pela mão até o meu quarto. Quando entramos, ela atravessou o cômodo até chegar na janela cujas cortinas estavam abertas. Ficou parada, olhando para as luzes da cidade através do vidro. Eu não fazia ideia do que ela estava pensando, pois, as pistas que me dava eram completamente contraditórias. A linguagem corporal me dizia que ela estava muito incomodada, pois pele primeira vez ela mostrava o tão famoso comportamento gelado, nunca visto antes por mim, no entanto, quando Érica pediu para entrar, ela se afastou da porta para consentir a passagem e depois ainda tentou ser gentil, levando-lhe água. Aproximei-me devagar e abracei-a pelas costas.

– Amor… – Beijei seu ombro e depois apoiei o queixo nele, deixando nossas cabeças lado a lado.

– Júlia, eu quero ir para casa.

– Mas eu não quero que você vá. – Falei com um tom manso. – É nosso aniversário e quero ficar com você.

– Você há de convir que não tem mais clima para isso.

– Olha só, eu vou ligar para o Nicolas e ele virá falar com ela. Ele vai chegar em um instante, pois mora quase aqui do lado. Enquanto isso, você me espera aqui um pouquinho. Vou só lá entender direito o que aconteceu e… – Fui interrompida pelo movimento dela se desvencilhando de meus braços para em seguida se afastar.

– Simples assim, não é? – Falou com ironia.

–  Clara, entenda…

– Entender o quê? – Falou exasperada, finalmente mostrando sua chateação. – Bilhões e bilhões de pessoas no mundo e ela tem que procurar justo você?

– Ela não tem ninguém. Não tem amigos, e os pais moram muito longe. Além disso, eles não fazem ideia do que acontece na vida dela.

– E ela já ouviu falar em hotel? – Sorriu sarcástica.

– Amor, para ela pareceu mais simples me procurar. Ela com certeza não fazia ideia de que me encontraria acompanhada, sem contar que deve estar sem dinheiro e…

– Então pronto. Ela não sabia que você estava acompanhada, mas agora já sabe e pode ir para um hotel. Se não tiver dinheiro para pagar, você empresta, ou melhor, eu pago o hotel dela. Resolvido.

– Não é bem assim… É complicado. – Aproximei-me e ela se afastou novamente.

– Você é quem está complicando. – Respirou fundo. – Por que não assume que não quer que ela vá a lugar nenhum. – Perguntou em tom de acusação.

– Clara, não é isso. Ela jamais aceitaria dinheiro de mim ou de você…. Ela…

– Olha, Ju, eu vou para casa, ok? Resolva isso e amanhã a gente conversa.

– O que você quer que eu faça? – Perguntei nervosa. – Ela foi agredida, está toda machucada e só Deus sabe os tipos de ameaça que ela recebeu. Será que não consegue se pôr no lugar dela? Além disso, o filho precisa de cuidados especiais. Não posso simplesmente chegar lá fora e exigir que ela procure um hotel só porque você não está sabendo lidar com a presença dela aqui. – Merda, por que eu falei isso?

– E o que você quer que eu faça? – Respondeu em um tom exasperado. – Será que você não consegue se pôr no meu lugar? O que espera? Quer que eu vá lá fazer trancinhas no cabelo dela enquanto ela chora e desabafa com você? – Ironizou. – É, eu realmente não estou sabendo lidar com isso.

– Amor, eu preciso que você entenda que eu não posso virar as costas para ela.

– Então é melhor virar para mim?

– Você está sendo injusta comigo. Já disse que só vou esperar o Nicolas chegar e nós sairemos.

– É isso que você quer, Júlia? – Perguntou, e eu não entendi a pergunta. – Você quer sair comigo hoje?

– Que pergunta é essa, Clara? Lógico que eu quero.

– Não, você não quer. Você está louca para ir lá fora saber o que aconteceu, para poder tomar as dores dela. Pelo que eu entendi, não foi sempre assim que funcionou a relação de vocês? Vai me dizer que estou errada? Que você não está louca de vontade ir lá fora para conforta-la?

– Do jeito que está falando, parece que não acredita no que eu sinto por você.

– Não, eu acredito. Sei o que sente por mim. O que eu não sei é o que você sente por ela. – Concluiu e se calou, esperando alguma resposta que eu não dei. – É, foi o que eu pensei.

– Que merda, Clara. Para de ser infantil! – Perdi a paciência.

– Melhor eu ir. – E saiu.

– Clara, volta aqui. – Gritei, mas ela não me deu ouvidos. Agarrei os cabelos e esbravejei por alguns instantes, andando de um lado para o outro no quarto. – Merda, merda, merda…

Fui atrás dela, mas quando alcancei hall ela já não estava mais lá. Conclui que havia descido de escada. Liguei, e ela obviamente desviou a ligação. Nervosa, liguei para Nicolas, que ouviu o resumo de tudo que havia acontecido totalmente chocado e prometeu chegar rápido. Quando voltei para sala, encontrei Érica ainda mais nervosa, abraçando o próprio corpo com desespero.

– Júlia, desculpa. – Falou em prantos. – Eu vou pegar o João e vamos…

– Não. – Interrompi. – Você não vai a lugar nenhum. Senta aí e começa a me contar o que aconteceu.

– Mas a Clara…

– A Clara é problema meu, Érica. – Falei ríspida, fazendo-a se retrair e baixar a cabeça. Arrependi-me em seguida do meu tom e tentei amenizar. – Olha, desculpa. A Clara está chateada, com razão, mas nós vamos ficar bem.

– Estou me sentindo muito mal com isso. Não fui para um hotel porque preciso guardar o pouco dinheiro que eu tenho para encontrar um lugar descente para morarmos e nos sustentar até que eu possa arranjar um novo emprego.

– Você sabe que é só colocá-lo na cadeia e voltar para sua casa, não sabe?

– Ju, a família do Henrique é influente. O pai é político, o tio é juiz…. Você sabe disso. Acha mesmo que ele vai ficar pelo menos um dia preso?

– E o que você pretende fazer? Se esconder para o resto da vida? – Questionei.

– Não, mas, pelo menos por enquanto, é isso que vou fazer. Estou com medo, Júlia. Morro de medo de imaginar o que ele vai fazer quando perceber que eu fugi. Não quero ter que vê-lo novamente. Não quero mais precisar olhar para a cara daquele cretino. Eu o odeio com todas as forças da minha alma e me odeio mais ainda, por ser tão covarde e por ter perdido a minha vida por causa dele…. Por ter perdido você por causa dele. – E dizendo isso, engatou um choro angustiado, soluçando e tremendo, abraçando forte o próprio corpo. Não tive outra alternativa senão conforta-la em um abraço.

– Ei, ei… Calma! Vai ficar tudo bem.

Ela me abraçou forte de volta, convulsionando contra meu corpo. Senti o cheiro dela e… Nada. Não causava em mim nem de longe o mesmo efeito do da Clara. No entanto, eu gostava da sensação de abraça-la, do conforto que eu sabia que estava dando a ela. Eu gostava dela…. Mais que isso, eu a amava e me preocupava muito com ela. Mas não tinha mais paixão. Era puramente fraterno. Aos poucos ela foi se acalmando e então resolvi voltar a tocar no assunto.

– Vai me dizer o que aconteceu? – Perguntei enquanto separava o nosso abraço e nos conduzia ao sofá.

– Na verdade, desde que voltamos, ele nunca mais havia me batido, embora as agressões verbais fossem frequentes. Acho que ele estava se segurando por causa do João. – Respirou fundo e continuou. – Ontem ele foi me buscar no trabalho e me viu na saída, conversando com o pai de uma aluna que me contava animadamente uma travessura da filha. Eu logicamente ri da história, sem perceber que estava sendo observada. O homem então concluiu o que estava falando e se despediu, pousando rapidamente a mão sobre meu ombro em um gesto de cumprimento. Segundos depois Henrique apareceu e começou a bater boca ele, que obviamente não entendeu nada. Tentei interferir e ele revidou, mandando-me calar a boca, chamando-me de vadia, vagabunda, piranha…. Na frente da escola inteira. – Engasgou com um soluço e continuou. – Depois me arrastou para o carro e me levou para casa. O João havia saído para o parquinho com a babá, e então eu fiquei sem qualquer defesa. O resto você deve imaginar. Quando ele finalmente acabou, saiu de casa nervoso. Eu não pensei duas vezes e fiz a mala com apenas algumas mudas de roupa e os remédios do João e, quando a babá chegou, saí com ele sem rumo. Depois de algumas horas tomando coragem, vim bater em sua porta.

– Canalha, covarde. – Bufei de raiva. – Aí que ódio desse imundo! Ele precisa pagar por isso, Érica. Você não pode deixar que ele saia impune mais uma vez.

– Ele não vai ser preso. – Falou nervosa. – Vive passando isso na minha cara. Ele se julga acima da lei, por causa da influência da família. Ele fala que se eu o denunciar, ele me mata. Que vai preso, mas eu morro. Tenho medo, Ju. Tenho muito medo. Nem tanto pela minha vida, mas, e o meu filho? O que vai ser dele se eu morrer?

– Você não percebe que isso que ele está fazendo é terrorismo psicológico? Ele faz isso para evitar que você o denuncie, pois como você mesma falou, ele é de família influente. Acha mesmo que ele vai querer sujar o nome de família?

– Não sei, Ju. Mas tenho medo de arriscar.

– Escuta, Nicolas e eu vamos te ajudar. Vamos dar todo o apoio que você precisa, mas você tem que se ajudar também. – Suspirei. – Ele está chegando, e já pedi para que providenciasse algo para você comer. Ele vai te dar todas as orientações jurídicas que você precisar. No quarto de hóspedes tem tudo o que vão precisar: toalhas, escovas de dentes e produtos de higiene. Você toma um bom banho e tenta dormir. Tem alguns analgésicos no armário, caso esteja sentindo dor. Tente ter uma boa noite de sono e amanhã de manhã, com a cabeça mais fria, você vai se sentir melhor sobre tomar a decisão.

– Está bem. – Falou, já bem mais calma.

– Faça uma compressa de gelo nesse olho. – Falei e fui me levantando.

– Ok. – Encarou-me. Você vai atrás da Clara? – Perguntou em um tom quase inaudível.

– Vou.

– É sério mesmo isso entre vocês?

– Sim. – Suspirei. – Eu a amo! Hoje é nosso aniversário de dois meses. – Sorri.

– Que merda! – Bufou. – Ju, que vergonha. Ela tem toda razão de ter ficado com raiva.

– Não posso culpa-la por isso. – Ponderei.

– Então, melhor você ir logo. – Falou com um olhar triste.

– Eu vou. – Sorri. – Nicolas deve estar chegando. Fique à vontade. Amanhã de manhã estarei de volta. – Dei-lhe outro abraço e quando a soltei ela me olhou triste.

– É, acho que perdi você de vez. – Sorriu sem graça.

– Não, você não perdeu. – Falei. – Eu amo você, Érica. E, nossa, eu amo muito aquele pirralho que está dormindo lá no quarto. – Sorri. – Vou sempre estar aqui para vocês. Sou sua amiga, acima de tudo. Mas meu corpo e minha alma agora pertencem à Clara.

– Nossa! Nunca te vi com um olhar tão brilhante. Nem mesmo por mim, quando estávamos juntas.

– Não quero te machucar, mas preciso dizer que realmente, por mais que tenha te amado, jamais havia me sentido assim. Nem com você e nem com ninguém. Ela é a mulher da minha vida, Érica. Eu a amo muito.

– Ai! – Sorriu desanimada. – Isso doeu mais do que a surra que eu levei do Henrique.

– Vai passar! – Sorri de volta. – Você vai seguir em frente e encontrar alguém que te faça feliz.

Despedi-me dela, mas antes de finalmente sair, passei pela cozinha para pegar na geladeira a garrafa de champanhe que havia comprado especialmente para aquela noite.

Pouco tempo depois cheguei no apartamento de Clara. Abri a porta com a chave que ela havia me dado e entrei, silenciosamente. Ela estava na sala, de costas para a entrada, toda esparramada no sofá, usando um moletom velho. A volume da TV estava alto, e ela não percebeu a minha chegada. Olhei para ver o que assistia…. Grey’s Anatomy. Sorri e me aproximei.

*****

“Ciúme: estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de quem se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem; ”

É isso aí, agora eu tenho certeza: estou morrendo de ciúmes da Júlia com aquela… aquela… aquela pobre mulher, que acabou de ser espancada pelo covarde do marido e que provavelmente precisou fugir de casa com o filho para evitar apanhar até a morte. Que espécie de monstro eu sou? E mesmo tendo essa consciência, por que não consigo deixar de estar furiosa com a Júlia por não ter batido a porta na cara dela?

Liguei a TV em um volume estrondoso na intenção de tentar me desvencilhar de todos aqueles pensamentos confusos que se apoderaram de minha mente. Tudo em vão, pois quanto mais tentava não pensar, mais eu pensava. Não estava acreditando no que estava acontecendo. A tal da Érica definitivamente possuía um talento nato para aparecer em momentos inoportunos. Eu tinha feito tantos planos maravilhosos para aquela noite, estávamos tão animadas! Era uma quinta, e nós havíamos combinado de tirar a sexta de folga, para podermos comemorar nosso aniversário de dois meses a noite inteira, sem termos que nos preocupar em acordar cedo no dia seguinte. Mas então ela apareceu e a estragou tudo. Eu estava me sentindo estupidamente egoísta por ter saído de lá daquele jeito, mas dois meses haviam se passado e, mesmo depois de tudo que vivemos, Júlia ainda não sabia me dizer o que sentia pela outra. Aquilo doeu mais que tudo. Eu queria gritar, esbravejar, por isso saí de lá. Não tive paciência de esperar o elevador e desci os seis andares pelas escadas. O telefone tocou e eu rejeitei a ligação de Júlia. Já no carro, vindo para casa, avancei um sinal e quase matei um motoqueiro, estacionei atravessada na vaga e subi para meu apartamento, sem me dar ao trabalho sequer de olhar para cara de alguns vizinhos com os quais cruzei no elevador. Entrei em casa e passei direto para o banheiro, onde tomei um demorado banho gelado. Deixei a água fria cair forte em minha cabeça por vários minutos, na esperança de que o ato me acalmasse. Saí do banho e andei de um lado para o outro no quarto por um tempo que não consegui medir. Finalmente peguei um moletom velho e vesti. Não me dei ao trabalho de secar ou sequer pentear o cabelo. Peguei uma cerveja na cozinha e depois me joguei no sofá da sala, ligando a TV.

Havia pedido à Júlia que resolvesse as questões da ex e que me procurasse no outro dia, mas naquele instante percebi que estava amargamente arrependida do meu pedido, pois só de pensar nelas duas sozinhas meu estômago revirava, então comecei a entoar mentalmente um mantra, clamando para que ela viesse me procurar. Minha cabeça estava uma confusão. Nunca na minha vida eu havia experimentado tamanha sensação de insegurança. Eu estava com muito ciúme sim, mas o que eu estava sentindo de verdade era medo. Medo de perde-la, medo de que a presença da outra fizesse Júlia perceber que ainda a amava e que era com ela que queria ficar. Quase chorei, mas me forcei a engolir o choro, pois, buscando um último fio de racionalidade, impus a mim mesma que não morreria de véspera. Fechei os olhos com força, tentando afastar os pensamentos ruins, substituindo-os pelos bons. Por um instante achei que tivesse desenvolvido superpoderes, pois foquei tanto os meus pensamentos na imagem dela que comecei a sentir seu cheiro. Foi quando senti uma mão pousando em meu ombro e descobri que não tinha virado um x-men. Respirei fundo e me segurei para não expor a alegria descarada que senti ao perceber a presença dela.

– Já disse que dormir enquanto os episódios passam, não conta como maratona. – É a voz do meu amor. Não é a voz mais linda do mundo?

– Amor… – Falei em um suspiro e abri o olho, entregando minha felicidade.

– Oi, meu amor! – Sorriu. – Senti saudade. – Curvou-se para me beijar, mas eu levantei antes disso, buscando agarrar o meu orgulho que acabara de sair voando.

– O que veio fazer aqui? E seus hóspedes? – Ironizei. – Não é educado deixar as visitas sozinhas.

– Você estava linda naquele vestido, mas esse moletom… Hum…. E esse cabelo? Está tão selvagem, amor! Deliciosa! – Falou enquanto se aproximava de mim com uma garrafa de champanhe na mão.

– Ju, eu realmente não estou no clima, vai. – Reclamei.

– Eu te faço entrar no clima. Vem aqui? – Largou a garrafa na mesinha de centro e me puxou para um beijo que não correspondi. – Amor, não faz assim. É nosso aniversário, não vamos estragar a noite.

– Mais? – Ri com sarcasmos. – E só para constar, não fui eu a responsável pela noite ter sido estragada.

– Clara, a gente pode por favor deixar esse assunto de lado por hora? – Clamou.

– Você vai conseguir, Júlia? Vai conseguir ficar aqui comigo, enquanto está preocupada com a Érica lá na sua casa? – Questionei em um tom que parecia mais uma acusação do que uma pergunta. Ela respirou fundo antes de me responder.

– Vou. – Falou, cruzando os braços em volta do meu pescoço e me olhando bem dentro dos olhos. – Porque é você quem eu amo e é em você, só em você, que eu estou interessada em pensar agora. – Beijou-me e correspondi sem muito entusiasmo. – Clara, olha para mim. Eu amo você. Não fique insegura e nem desacredite nunca disso. – Mais um beijo. – E sobre a Érica, sei que precisamos conversar, mas realmente não quero fazer isso no nosso dia especial. De todo modo, preciso que você entenda que eu não sinto mais qualquer atração por ela, embora haja sim um sentimento. Eu gosto dela, ela é minha amiga e está passando por uma situação difícil. Eu não teria feito diferente se fosse o Nicolas, ou o Gus, ou a Laura…. Preocupo-me com ela e com o João, temo pela integridade física e mental deles e por isso os acolhi. – Acariciou meu rosto com uma das mãos e colou a testa na minha. – Preciso que você acredite e confie em mim.

– Eu confio você. – Suspirei. – Eu não confio é nela. Ela ainda te quer, Júlia. Está escrito na testa dela, e eu vi isso desde aquele dia na festa.

– Você pode ter razão, mas o que ela sente sobre mim é irrelevante, eu juro. Além disso, você não tem com o que se preocupar, porque amanhã ela já vai embora, e eu já deixei bem claro para ela a importância que você tem para mim.

– Deixou? – Perguntei com voz de boba.

– Deixei, meu amor. Agora para com isso e vamos namorar? – Pediu-me de um jeitinho tão doce que eu quase cedi, mas fui vencida novamente pelo meu orgulho.

– Amor, eu não estou afim. – Falei desanimada, saindo de seus braços e me jogando no sofá. – Além disso, quero terminar esse episódio. – Não fazia ideia do que estava acontecendo no episódio.

– Bem, se você não quer comemorar nosso aniversário…. – Tomou o controle da TV de minhas mãos e desligou. – Vou comemorar sozinha.

– Como assim? – Perguntei enquanto ela ligava o aparelho de som, fazendo o silêncio ser preenchido pela voz maravilhosa de Jason Mraz, cantando I Won’t Give Up. Bem pertinente para a ocasião, por sinal.

– Tínhamos planos para hoje à noite, não tínhamos? – Pegou a garrafa de champanhe e começou a abrir. – Íamos dançar e beber champanhe. Se você não vai me acompanhar, vou fazer só, porque tenho muitos motivos para celebrar essa data.

E dizendo isso, levou a garrafa de forma sedutora até a boca e tomou um gole. Minha respiração descompassou, e eu tremi diante da cena. Ela começou a se mover lentamente, no compasso da música, fazendo com que todas as minhas barreiras ruíssem. Linda, espetacular, a mulher da minha vida. Foi impossível resistir. Ela estava usando um vestido preto, curto, com um design que cobria o estômago e a barriga, mas deixava parte das costelas e das costas à mostra. Os cabelos escuros enormes e ondulados, perfeitos como sempre, o batom vermelho, que ela sabia que eu amava. Aquela música…. Dizia tudo que eu queria ouvir! Não resisti e levantei para dançar com ela. Dançamos a música inteira grudadas, em um gesto cheio de cumplicidade e promessas. Promessa de que eu seria dela para sempre e que de que ela seria minha também.

– Eu amo você. – Falou em meu ouvido.

– Eu também amo você.

I Won’t Give Up – Jason Mraz

Tradução: Não Desistirei

Quando olho em seus olhos

É como observar o céu de noite

Ou um belo amanhecer

Eles carregam tanta coisa

E como as estrelas antigas

Vejo que você evoluiu muito

Para estar bem aonde está

Qual a idade da sua alma?

Não desistirei de nós

Mesmo que os céus fiquem violentos

Estou lhe dando todo meu amor

Ainda olho para cima

E quando precisar de seu espaço

Para navegar um pouco

Esperarei pacientemente

Para ver o que você descobrirá

Porque até as estrelas queimam

Algumas também caem sobre a terra

Temos muito a aprender

Deus sabe que somos dignos

Não, eu não desistirei

Não quero ser alguém que vai embora facilmente

Estou aqui para ficar e fazer a diferença que posso fazer

Nossas diferenças, elas fazem muito nos ensinando a usar

As ferramentas e os dons que temos, sim, há muito em jogo

E no fim, você ainda é minha amiga

Pelo menos não tivemos a intenção

Para funcionarmos, não quebramos, não queimamos

Tivemos de aprender a ceder sem ceder à pressão do mundo

Tive que aprender o que tenho e o que não sou

E quem sou…

A música acabou, sendo substituída por outra não tão romântica e trazendo-me de volta para a realidade. Ela está hospedando a ex-namorada e o filho na casa dela. Tudo bem que a situação é complicada, mas isso não torna as coisas menos desconfortáveis. Não posso simplesmente fingir que está tudo bem. Não posso permitir que ela use o poder que tem sobre mim para fazer-me encarar a situação com naturalidade. Preciso que ela saiba que, por mais que eu a ame e confie nela, estou triste e magoada com essa situação. Separei nossos corpos e olhei fundo nos olhos dela, segurando-a pelos ombros.

– Você não acha que aparecendo aqui com uma garrafa de champanhe e colocando para tocar uma música romântica vai me fazer esquecer do que está acontecendo, acha? – Perguntei, fechando a cara, arrancando um sorriso travesso dela, que me deixou confusa.

– Você fica linda com ciúmes. – Passou a língua no lábio inferior e me encarou com malícia.

– Júlia, estou falando sério.

– Eu também. – Puxou-me. – Estou morrendo de tesão. – E dizendo isso, deu-me um beijo de tirar o fôlego.

– Para, eu não quero. – Disse em seus lábios, sem conseguir me afastar deles.

– Ah, não quer? – Sorriu. – Mas não parece. – Terminou a frase já com uma das mãos sob o moletom, agarrando meu seio com vontade.

– Isso é golpe baixo. – Sussurrei ofegante, já totalmente excitada. – Você está se aproveitando do poder que tem de me excitar para que eu esqueça da raiva que estou de você.

– Está com tanta raiva de mim assim? – Indagou, arrancando fora o meu moletom para em seguida abocanhar meus seios.

– Estou…. Estou com muita… – Gemi, completamente excitada.

– Muita o quê? – Provocou enquanto enfiava a mão em minha calcinha.

– Rai…. Raiva. Ah!

– Pois me mostra o tamanho da sua raiva, mostra?

– Cachorra! – Soltei, sem pensar.

– Sim, eu sou. A sua cachorra! – Olhou-me com desejo e completou. – E quero que você me coma.

E sem dizer mais nada, atendi ao pedido dela com desespero, canalizando toda a raiva e insegurança que me consumiam naquele ato que se fez sensual e totalmente obsceno, mas que incrivelmente fez com que eu me sentisse mais segura, além de ter me deixado completamente excitada. Virei-a de costas para mim e fiz com que se apoiasse na estante em nossa frente. Arranquei seu vestido e repeti o ato com a calcinha e o sutiã. Livrei-me do resto de minhas roupas e colei nossos corpos. Afastei os cabelos dela e mordi-a com força no ombro e na nuca, enquanto descia rasgando suas costas com as unhas, fazendo com que gemesse alto, sem deixar claro se era de dor ou de prazer, pois embora eu tivesse consciência de que a tinha machucado, ela, ao invés de se afastar, instigou-me a continuar. Toquei-a entre as pernas e tive a certeza de que estava gostando, pois estava incrivelmente pronta para mim. Afastei nossos corpos e puxei os quadris dela para trás, deixando-a curvada, ainda de costas. Deliciei-me mais um pouco com sua umidade, massageando e provocando para depois a penetra-la com força, com um e depois com dois dedos. Ela gemia e se contorcia, pedindo mais e mais. Dei a ela o que me pediu e ela gozou forte, apertando meus dedos com os espasmos provocados pelo orgasmo. Senti o corpo dela fraquejar e a puxei para mim, virando-a de frente.

– Você é minha. – Afirmei.

– Sim, meu amor. – Disse ainda ofegante. – Só sua. Toda e completamente sua.

Beijei-a, mas dessa vez de forma doce. Estava arrependida de tê-la tratado daquela forma, embora ela estivesse parecendo bem satisfeita. O sorriso safado que ela estampava no rosto denunciava isso. No fundo, acho que ela fez aquilo para me empoderar, para que eu sentisse que ela era minha de todas as formas e maneiras que eu desejasse. Bem, funcionou. Pelo menos naquele instante…

– Vou te deixar com raiva mais vezes! – Falou.

– Não brinque com fogo. – Desafiei.

– Achei que você fosse feita de gelo.

– Já disse que você me derreteu.

Empurrou-me para o sofá e passamos a noite inteira nos amando daquela forma selvagem, intensa, quase violenta. Arrancamos uma da outra, incontáveis orgasmos alucinantes. E a culpa que eu senti pelas marcas de unhas e mordidas que eu deixei no corpo dela passou, já que ela fez bem pior comigo, pois sequer se preocupou com a marca obscena que deixou no meu pescoço. Dormimos exaustas, nuas, enroscadas uma na outra.

Então o dia amanheceu e a realidade novamente bateu em nossa porta. Ela acordou, mal me beijou e já se levantou para tomar banho. Fazendo um esforço sobre-humano, respirei fundo e levantei atrás dela, decidida a confiar em suas palavras. Não era possível que toda aquele amor, química, cumplicidade e paixão e que existia entre nós pudessem ser abalados, nem mesmo por uma situação como aquela. Estava disposta a ficar do lado dela e ajudar Érica e o filho a seguirem em frente.

Por que eu decidi isso? Certamente porque, quando o fiz, não imaginava o que estava por vir.

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5 Respostas para Capítulo 11 – A Ex

  1. A situação de Erika é delicada, mas tem solução, porem ela não está fazendo muita coisa para resolver já que tem opções, primeiro passo seria denunciar o agressor ou ir embora para ficar perto da família dela, já que tem tanto medo da influencia da família do marido. Gostei da postura da Júlia deixando claro para Erika o que ela é na vida dela agora e afirmando o amor que sente por Clara. Gostei da clara dizendo no fim do capitulo que vai ficar do lado de Julia nessa situação sobre a ex. assim Erika não acha que pode voltar como era com Julia.

    ( obs:já gosta do clima entre Clara e Julia tipo drama, comédia e romance ao mesmo tempo.)

    • Ju,

      O maior problema de mulheres que sofrem abuso é que elas sentem mais medo de denunciar do que de continuar sofrendo com as agressões. Esta é uma triste realidade, mas vamos ver, né? Com o apoio dos amigos, talvez a Érica tenha coragem de finalmente tomar uma atitude.

      E a Júlia, hein? Só amorzinho com a Clara! #ClaJuForever… Vamos ver se a Clara consegue segurar a barra, pois, mesmo com Júlia repassando toda a segurança do mundo, não vai ser fácil.

      O próximo capítulo já está quase pronto e será disponibilizado no sábado.

      Abraços e até lá!

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