Capítulo 11 – Quando Você Passa (Parte II)

Capítulo 11 – Quando Você Passa (Parte II)

Static void Main(){

                var Capítulo = 11;

                var Título = “Quando você Passa – Parte 2”;

                var POV = “Isabella”;

};

 

“Meu olhar decora cada movimento e até o teu sorriso me deixa sem graça. ”

 Quando Você Passa (Sandy e Júnior, 2001)

 

“Já ouviram aquela expressão: ‘tô virada no Jiraya’? É o mesmo que dizer: ‘tô furiosa’, ‘tô P da vida’, ‘tô explodindo de raiva’… ou então, como boa cearense que sou, ‘tô fumando numa quenga’. Se eu fosse o Bruce Banner, naquele exato momento, teria me transformado no Hulk e esmagado a Fernanda. Cara, só estava faltando ela olhar para a Alice e dizer: ‘Alice, dá um trato nessa mulher porque ela tá desesperada’. Nunca me senti tão vendida na vida. Ela parecia a minha cafetina. ”

Tudo começou quando ela, Fernanda, e Pedro descobriram algo incomum entre eles: a paixão por Game of Thrones. Os dois desembestaram a falar como duas matracas sobre a série, e Alice e eu ficamos só observando. Eu também amava a série e em outro momento até teria entrado na conversa, mas estava muito tensa com aquele par de olhos azuis me analisando de forma incansável. Não conseguia pensar em nada que não fosse a presença dela ali e as lembranças do dia anterior. Eu estava, ao mesmo tempo, excitada e constrangida e podia jurar que ela estava percebendo isso, pois me sentia invadida. Sei que ela não tinha como ler os meus pensamentos, mas era como se pudesse. Por um instante, achei que estivesse mesmo, porque, olha o que ela me perguntou:

— E o sonho?

Quase dei um pulo da cadeira.

“Como ela sabe do sonho? Não pode ser, não pode ser…”

Eu estava tão nervosa que não associei a pergunta à anterior. Primeiro ela já tinha me questionado sobre o croissant que serviam na padaria. Eu neguei, ela fez uma pausa e depois perguntou sobre o sonho, mas era o sonho que o estabelecimento servia.

“Sonho de comer… não de ser comida, sua tonta! ”

Só que antes de concluir isso, perguntei toda enrolada:

— So.. sonho? Que sonho?

— Sonho… o sonho daqui da padaria. É uma delícia. Já provou?

— Ah…

“Prazer! Meu nome é anta, e o seu? ”

Minha cara de alívio deve ter sido nítida. Estava apenas esperando alguns segundos para minha voz voltar e já ia responder, só que a intrometida da minha melhor amiga decidiu sair do diálogo super empolgante que estava tendo com o Pedro para fazer o que mais gostava na vida: me constranger.

— Ah, a Isa adora sonhos. Agora há pouco, no carro, ela vinha me contando que provou um delicioso ontem à noite.

Eu tinha certeza que o melhor remédio para tirar Fernanda de um coma após um traumatismo craniano era começar a contar algum babado forte ao lado do leito dela no hospital. Estar certa disso foi o que me deu confiança para procurar algo com que pudesse acertar sua cabeça ali mesmo, na frente de todo mundo. Depois, quando estivéssemos no hospital, bem longe da Alice, eu contaria alguma fofoca, e ela acordaria.

Mas como não consegui encontrar nada para bater, apenas repreendi em um tom firme:

— Fernanda!

Era melhor não ter dito nada, porque a minha atitude fez Alice olhar confusa para nós duas. Lógico que ela percebeu que não falávamos de um sonho de padaria. Corei na hora e agradeci por ser moreninha, pois assim o rubor ficava mais disfarçado. Após um breve instante de confusão, ela pareceu se divertir com a situação e resolveu se juntar à Fernanda. Com a atenção virada para mim, perguntou:

— Sério? E qual era o sabor do recheio?

“Recheio: teus dedos; Sabor: quero mais. Senhor, eu sou muito lésbica! ”

Quase falei. Quase… porque enxerida respondeu por mim de novo:

— Era um recheio colorido. Ela não conseguiu identificar o sabor.

“Vou matar a Fernanda. Vou puxar a língua dela, apoiar em uma pedra e cortar fora com uma faca. Será que tem como as coisas piorarem? ”

Alice questionou pensativa:

— Recheio colorido? Nunca vi. Mas era gostoso ao menos?

“Sim, as coisas podem piorar. ”

— Si… sim. Foi gostos… digo… estava gostoso.

Alice riu do meu embaraço ao responde-la, mas acho que percebeu o meu desconforto com aquela brincadeira e resolveu parar. Agradeci mentalmente quando ela voltou ao assunto inicial:

— Eles servem uns sonhos maravilhosos aqui. Vários recheios, e você pode até mistura-los. É tipo uma sorveteria, só que a casquinha é o sonho e o sorvete é o recheio. Tem até uma vitrine pra você escolher…

Nem terminou de falar e já foi interrompida por Fernanda… de novo:

— Hum… que delícia! Eu quero. Pedro, vamos comigo? Quero montar um com pelo menos uns três sabores.

“Vade retro, satana! ”

— Claro, vamos.

“Espera, o Pedro ainda estava aqui? Tadinho do garoto. Fernanda vai engoli-lo tão fácil.”

Não sei se a saída dos dois me deixou mais aliviada ou mais tensa. Olhei para Alice e flagrei os olhos azuis me fitando. Sorri de forma involuntária. A cada segundo que passava eu tinha mais certeza de que o que eu estava sentindo não ia ser passageiro, porque quanto mais eu olhava para ela, mas eu a queria. Ela estava ainda mais linda do que no dia anterior. No rosto, uma maquiagem bem leve. Não que ela precisasse de maquiagem para isso, mas a que usava a deixou mais linda ainda. Estava sem o blazer, que repousava sobre as costas da cadeira. Vestia uma blusa branca básica, bem colada no corpo. Deu para ver que era atlética, os braços torneados, os ombros firmes, os seios…

“Você deve tá pensando: ‘Olha lá a Isa… estava toda altiva, até pouco tempo atrás, pagando de heterazinha convicta e agora tá toda eriçada, reparando nos seios de uma mulher. ’ Pois é… não tenho nada pra dizer em minha defesa. Declaro-me culpada. Estava olhando mesmo e não era porque queria ter iguais. ”

Pois bem, continuando… Os seios eram médios, redondos, firmes. Fiquei imaginando como seriam os mamilos.

“Devem ser rosados como os lábios dela. No sonho eram rosados. Ai… muda o foco, Isa, porque do jeito que você tá, capaz de ter outro orgasmo espontâneo aqui mesmo, na frente dela. ”

Esforcei-me para mudar o foco e lembrei o quanto Fernanda havia sido entrona, desde o momento em que eu as apresentei. Decidi me desculpar por ela:

— Não liga pra Fernanda, ela veio ao mundo sem filtro, mas é uma pessoa boa.

Ela sorriu…

“Pelamordideus, mulher… paaaara! Para de ser assim tão perfeita, tão linda, tão… tão… gostosa! Senhor… tá decidido: sou lésbica. ”

— Não esquenta! Ela é ótima. Muito divertida. Acho que ela e o Pedro se entenderam bem.

“Ainda por cima é um poço de fofura e gentileza. ”

— É, parece que sim.

Falei e sorri. O sorriso mais abobalhado que já devo ter exibido na vida. Não porque ela não se incomodou com a Fernanda, mas porque fiquei lembrando do dia anterior, quando ela me carregou no colo após me salvar de dar de cara com o chão depois que eu desmaiei, do jeito que ela tocou nos meus ombros e falou comigo para me acalmar, na hora em que o elevador parou, da maneira como me invadia sem pedir licença com aqueles olhos lindos…

Tirando a frase cafajeste que soltou no final da noite, ela foi tão doce e tão gentil comigo o tempo inteiro e, enquanto isso, só me ocupei em ser desagradável com ela. Precisava me desculpar por isso.

— Isa, eu…

— Alice, eu…

Falamos ao mesmo tempo e nos interrompemos quando percebemos.

— Fala. – Eu disse.

— Não, pode falar.

— Por favor, eu faço questão.

Respirou fundo e falou:

— Isa, eu quero me desculpar pelo meu comportamento de ontem. Não queria te desrespeitar ou invadir o teu espaço… eu… eu… olha, eu não pego todo mundo do trabalho, tá? Tem esse rolo com a Giselle mesmo, mas nunca me envolvi com mais ninguém da empresa… e nem com ela mais também… as coisas entre nós não estão mais funcionando.

“Como assim, produção? Ela não tá mais com a Giselle? Terminaram? Não, eu não posso perguntar. O que você quer, Isa? Tá, já entendeu que tá afim dela, mas não esqueça dos contras. Pode até ser que ela esteja solteira, só que você não está… e mesmo que estivesse, vai ter que deixar essa história só nos teus sonhos mesmo, porque não dá certo se envolver com colegas de trabalho. ”

— Alice, eu que quero me desculpar. Não tenho nada a ver com a sua vida e não tinha o direito de ter feito aquelas perguntas, muito menos de falar com você daquele jeito. Não queria ter te constrangido. Você foi tão legal comigo ontem e eu toda grosseira pro teu lado o tempo todo… é só que… meu dia foi meio maluco, e eu estava uma pilha… daí teve aquilo tudo e…

Desembestei a falar e comecei a ficar nervosa, agitada. Ela percebeu e me interrompeu:

— Ei, calma… calma. Respira… relaxa…

— Não, é que…

Mas eu precisava continuar. Acho que nem estava conseguindo ser clara, mas tentei. Só que assim que comecei, ela pousou as mãos enormes sobre as minhas e as apertou.

— Isa, não esquenta. Vamos esquecer?

“É, eu sei. Ela só estava tentando ser fofa mais uma vez, mas eu me arrepiei toda com aquele contato. Viu a mão dela? É enorme. Os dedos compridos… lembrei do sonho e senti uma fisgada inoportuna entre as pernas… não, não, não… foco, Isa… foco. Volta para o assunto. ”

— Esquecer?

— Vamos fazer assim: você me desculpa, eu te desculpo e começamos tudo do zero hoje. O que acha?

Sorri. Ela despertava os sentimentos mais loucos em mim. Era responsável ao mesmo tempo por me excitar, me deixar nervosa e me acalmar.

— Parece bom pra mim.

Foi a vez dela sorrir. Largou minhas mãos, e eu sofri com isso. Um sentimento de perda… quase puxei de volta, mas me controlei, embora já estivesse plenamente ciente de que queria muito mais do que só a mão dela sobre mim.

— Combinado então. Amigas?

— Amigas.

E pronto, era isso. Amigas era tudo o que poderíamos ser. Apertamos as mãos e selamos o acordo.

Pedro e Fernanda voltaram. Enquanto ela se lambuzava toda com o sonho que havia comprado, Pedro propôs uma happy hour na sexta. Não podia rolar. Precisava evitar ao máximo o contato com Alice, para minha segurança e para a dela. Mas a maldita tagarela mais uma vez passou na minha frente e decidiu por mim, dizendo que iríamos. Ia ficar chato dizer que não depois. Estava decidido: Fernanda era uma mulher morta.

“Bom, se não tem remédio, remediado está. Vamos pra essa happy hour e seja o que Deus quiser. ”

Eu poderia jurar que Alice estava tão interessa em mim quanto eu nela, por isso, quando ela convidou o Lucas, estranhei. Pode ser que estivesse só tentando ser gentil. De todo modo, mesmo que ele não fosse tocar, eu não o chamaria. Já pensou ele percebendo o meu olhar indiscreto para Alice? Agradeci o convite e informei que ele não poderia ir.

Ficamos em silêncio por alguns instantes e as coisas começaram a ficar meio esquisitas. Pedro e Fernanda se olhavam com uma estranha cumplicidade e sorriam de forma maliciosa um para o outro. Depois de alguns instantes, foi Fernanda quem quebrou o silêncio:

— Alice obrigada por ter quebrado o meu galho ontem, levando a Isinha pra casa. Acabei me enrolando lá na loja. Essa época de final de ano é fogo.

— Não esquenta, não foi trabalho nenhum. Ela mora pertinho da minha casa. É caminho, aliás.

“Para de ser tão perfeita, garota! ”

— Sério? Que ótimo! Então você pode deixa-la hoje de novo? Sério, porque é quase natal e fica difícil sair da loja antes das 22h…

“O quêêêêêêêêêêê? O que eu faço com a Fernanda, hein? Já sei. Já viram Dexter? Vou forrar o chão, as paredes e o teto de um quarto com plástico, colocar uma maca bem no meio dele, injetar um sedativo de cavalo na Fernanda, deitá-la na maca, envolver o corpo dela com filme de PVC, matar, esquartejar, colocar as partes do corpo em sacos de lixo, encher os sacos com pedras de concreto e depois jogar tudo no meio do mar. Não me olhe assim, não. Ela merece. No meu lugar, você faria o mesmo. ”

Nota da Autora: veja mais sobre Dexter em:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Dexter_(s%C3%A9rie_de_televis%C3%A3o). ”

Não deixei que ela continuasse. Quase gritei:

— Fernanda!

Ela deu de ombros e começou a rir da minha cara. Virei para Alice:

— Alice, não vou te incomodar com isso. – Em seguida, dirigi-me à Fernanda. – Fê, não precisa se preocupar. Sei como tá o movimento na loja e já tinha decidido alugar um carro. A seguradora não quer me dar um reserva porque é o segundo acionamento só esse ano, mas prometeu aprontar o meu até o final de semana. Na hora do almoço eu resolvo isso e…

Alice me interrompeu:

— Imagina, Isa, é meu caminho. Não precisa ter esse gasto, é desnecessário. Além do mais, é só até o final de semana. Posso te levar todos os dias, se quiser.

“Todo dia? Garota, você tá brincando comigo. Isso é um jogo? Como acha que vou dar conta disso? ”

— Não. Você deve ter seus compromissos e…

“… E eu tô doida pra me jogar em cima de você, mas não posso, então é melhor não. ”

— Sem compromissos. Meus compromissos desta semana são todos relacionados a trabalho, exceto a nossa happy hour de sexta, mas você vai junto, então…

— Viu, Isa? Larga de ser boba, mulher. A Alice não se incomoda, não, né, Alice?

— Claro que não.

Resignada, perguntei à Alice:

— Tem certeza, Alice? Não quero mesmo te atrapalhar e…

— Certeza absoluta. Faço questão de te levar.

O que eu queria falar mesmo era:

“Por favor, me dê licença que preciso ir ali rapidinho tomar uma fluoxetina. ”

No entanto, o que disse foi:

— Ok, então, obrigada!

Ela não respondeu. Apenas sorriu. Linda demais, perfeita demais.

“Tô fudida. ”

E assim ficou combinado. Até eu ter o meu carro de volta, Alice me daria carona para casa depois do trabalho.

Deu a nossa hora e comecei a apressar todo mundo. Já havia chegado atrasada no dia anterior e não estava disposta a repetir o ato naquele dia, principalmente porque Alice e eu teríamos reunião com o Leandro logo no início da manhã. Como ainda tínhamos um tempinho, acompanhamos a metida da Fernanda, que não se calava por nada, até o carro. Alice ria do falatório dela. Acho que não prestava atenção em nada do que dizia, mas estava se divertindo com seu comportamento espontâneo. Pedro olhava para Fernanda encantado, e eu conhecia a minha amiga o suficiente para saber que ela também estava interessada. Aquela happy hour de sexta estava fadada a acabar com os dois se agarrando e eu e a Alice segurando vela. Quero dizer… se ela não se engraçasse por ninguém lá, então eu ficaria sozinha, olhando para o tempo. Só de pensar nisso, senti meu estômago embrulhar.

“O que é isso, Isa? Além de tudo, ainda está com ciúmes? Menos, né? É até melhor que ela arranje alguém. Pelo menos vai ficar longe e você não correrá riscos de fazer nenhuma besteira. ”

Quando entramos no elevador, veio junto a tensão e a lembrança da minha experiência de quase morte na noite anterior. Acho que percebendo isso, Alice buscou o meu olhar falou sem som “calma, não vai cair”. Li os lábios dela e não acreditei naquela gentileza. Ela não fez isso para tirar sarro, estava preocupada mesmo. Sorri e instantaneamente fiquei mais calma. Minha tranquilidade só foi embora de novo quando Leandro, já na reunião, nos informou que teríamos que viajar para o Rio de Janeiro em quinze dias para a apresentação do projeto. Se tinha uma coisa que me assustava mais do que morrer asfixiada em um elevador era a ideia de entrar em um avião. Já tinha entrado várias vezes, mas em todas elas sofri desde a hora do embarque até o desembarque. Outra coisa que me deixou nervosa foi tomar ciência de que passaria três dias no Rio com Alice.

“Isso não vai funcionar. ”

Depois da reunião, fomos ao trabalho. Nosso prazo estava curto e tínhamos muita coisa para fazer. Alice e eu vestimos as nossas melhores máscaras de profissionais éticas e fomos ao projeto. Impressionante a nossa sincronia. Sempre gostei de trabalhar sozinha porque, confesso, sou muito arrogante e autossuficiente quando o assunto é trabaho. Sempre achei que ninguém faria nada tão bem quanto eu. Mas com Alice era diferente. Eu admirava muito o seu conhecimento. Na verdade, acabei até percebendo que tinha muito a aprender com ela.

Achei que fôssemos almoçar juntas de novo, na sala, mas Alice me informou que tinha um compromisso. Tentei disfarçar a minha decepção e almocei sozinha. No intervalo, aproveitei para falar com Fernanda. Despejei ao telefone todos os palavrões que eu conhecia, mas a bandida não se deixou atingir. Ao invés disso só ria da minha cara. Depois que meus ânimos se acalmaram, ela soltou um:

— Eita, filha! Mas também, como não ficar a fim de um mulherão daquele? Isa, ela é enooooorme… e gata pra caralho, porra! Aquele olhão azul dela, menina… ai, ai… Fora que parece ser super gente boa. Se você não pegar, eu pego.

— Palhaça! Já tá planejando furar meu olho. E o Pedro?

— Ah, ele é um fofo, né? E bem gatinho, mas é muito meninão. Acho que não rola, não.

— Sei…

— Tá, vai rolar, mas não sei se passa de uma vez.

— Nenhum homem é bom o bastante pra você, né? A senhorita é muito seletiva. Por isso não desencalha.

— Pode ser que eu seja lésbica e ainda não descobri. Vai que é isso? Se você não quiser mesmo a Alice, avisa, porque daí eu já faço logo o experimento e tiro a dúvida.

— Mas é uma piranha mesmo, viu!

E assim levamos a conversa até que precisei desligar e voltar. Alice demorou um pouco do almoço e quando chegou, percebi que estava meio distante, pensativa. Não quis me intrometer, por isso não perguntei nada.

Já passava das 19h e nenhuma de nós duas havíamos percebido, mas a empresa estava vazia. Nos empolgamos com o trabalho e conseguimos adiantar bastante coisa. Como eu estava de carona, não quis ser a que chamava para ir embora, mas ela parecia também já ter chegado ao limite. Desligamos tudo e quando eu estava pegando a minha bolsa, ela perguntou com um sorriso no rosto:

— Vamos ao elevador?

Mais uma vez aquela carinha linda de preocupação, mas não resisti e decidi zoar:

— Vai ficar tirando sarro do meu medo de elevador o tempo inteiro agora?

Falei em um tom sério, e ela arregalou os olhos assustada. Começou a gaguejar:

— N… não, eu… eu não quis te…

Não aguentei e comecei a rir.

— Tô só de zoando, boba. Relaxa!

— Ah, então eu aqui preocupada com você, e você tirando uma com a minha cara. Muito bem!

E então foi a vez dela fazer a cara séria. Até cruzou os braços. Fiquei na dúvida se estava me zoando também ou se estava falando sério. Para não errar, optei por me desculpar:

— Des… desculpa, eu…

Fui interrompida por uma risada aberta, gostosa, seguida de um:

— Te peguei.

Eu até pensei em retrucar, mas estava tão encantada com aquela mulher enorme, linda, sorrindo tão gostosamente para mim, que desisti. Apenas ri de volta.

— Vamos?

— Vamos.

Ficamos em silêncio a maior parte do caminho. Eu queria falar muitas coisas, mas tinha medo da minha boca me trair. Ela com certeza não estava bem. Estava muito calada e com um olhar distante. Estava me coçando para perguntar, mas não o fiz. Ela quebrou o silêncio:

— Tô morrendo de fome. Meu estômago tá doendo até. Se incomoda se eu passar em um drive thru pra comprar comida?

— Lógico que não, imagina. Mas tenho uma ideia melhor…

“Isa, pare com isso agora mesmo.”

— Lembra que tem uma pracinha na frente do meu prédio?

“Isa, não faça isso. Eu tô mandando.”

— Lembro.

— Então…

“Isa, você tá ficando maluca?”

— Tem um food park lá…

“Isabella Ferreira…”

— Por que você não estaciona na pracinha e a gente come alguma coisa por lá?

“Tá bom, depois não diga que eu não avisei.”

— Ótima ideia. Eu topo.

Leia outros capítulos desta história<< Capítulo 10 – Quando Você PassaCapítulo 12 – Just The Way You Are >>
Linier Farias

Linier Farias

Cearense, de Fortaleza. Amante da literatura que acabou descobrindo um grande prazer em escrever.
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2 Respostas para Capítulo 11 – Quando Você Passa (Parte II)

    • Bibiana, <3
      Nossa!! Estou muito feliz e muito lisonjeada com o teu comentário. Agradeço demais por ter dado uma oportunidade à minha história. Espero continuar causando o mesmo sentimento em você até o final dela.
      Já leu o capítulo 12? Se sim, pode me dizer o que achou?
      Abraços e até terça, com o capítulo 13.

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