Capítulo 30 – Tudo às claras

Capítulo 30 – Tudo às claras

Capa: Tattah Nascimento

Revisão: Isie Lobo e Nefer

Texto: Carolina Bivard


Capítulo 30 – Tudo às claras

Perguntou simpática, conduzindo os dois homens à cadeira que lhes destinavam. Helga se levantou para dar espaço para o marechal Hermes sentar ao lado de Edith e o Presidente Barbien. Sentaram-se ao lado direito da cabeceira. Decrux se sentou à esquerda da comandante, sendo acompanhada de Helga e logo após ela, Kara.

Naquela altura, Bridget, Kara e Helga, forçavam para manter a postura e não demonstrarem satisfação diante da situação. Decrux estava divina e impecável, mas sabiam que o convencimento maior seria em relação à Edith. Bridget  reparara nela todo o tempo, bem como Helga e elas sabiam que a mulher não cairia tão fácil.

– Deixa que eu apresente a comandante Bridget aos senhores…

– Eu já a conheço. – O marechal falou diante da apresentação que Decrux estava prestes a fazer. – Como vai, Brid?

– Agora estou bem melhor e tenho que agradecer muito a vocês, Hermes.

Eles se falaram com intimidade e, neste momento, até mesmo Decrux se intrigou, olhando para Bridget em incompreensão. Hermes se adiantou a explicar.

– Eu era amigo pessoal de Razon e Ronda Nícolas. Conheci Bridget quando ainda era uma menina e não queria que minha relação pessoal interferisse nestes assuntos. Por isso mandei Edith. – Voltou-se para Brid. – Obrigado por não expor nossa situação. Facilitou para que Edith tomasse as decisões sem influência.

– Você me conhece, Hermes. Sabe que, a priori, não me aproveitaria disso, mas também sabe que eu apelaria ao seu bom senso, caso a situação de Decrux se complicasse. Se pudesse fazer algo ao meu alcance para que ela não sofresse, eu faria. Tenha certeza disso.

Edith se ajeitou na cadeira, inconformada com a revelação e Lars apenas sorriu, entendendo que eles haviam sido um joguete na mão do marechal. De igual forma, Helga, Kara e Decrux olhavam para a comandante, sem entender por que ela não havia contado nada. O marechal prosseguiu.

– Eu sei que numa situação extrema, você poderia vir até mim pessoalmente, mas me conhece também. Não passaria e, mesmo agora, não passarei por cima das decisões de meu staff.

– Não esperaria menos de você. Por isso, tenho em conta que meu convencimento é para com o presidente Barbien, Edith e Lars.

– Estamos numa situação muito difícil, pelo que observei. Eu conheço Helga, o marechal conhece Bridget. Não acredito que tomaremos decisões sem qualquer influência. – Pontuou Barbien.

– Sugiro então que eu fale diretamente com os oficiais de Ugor e os cientistas. Ninguém me conhece e nem eu a eles. – Decrux se prontificou.

– Acredito que será a melhor solução, pelo visto. – Rebateu, Edith mal-humorada.

– Que assim seja, então. – O presidente decretou.

Decrux levantou e uma projeção holográfica apareceu no meio da mesa.

– Nós quatro conversamos e decidimos que não esconderíamos de vocês, sobre coisas que ocorreram após eu sair da suspensão. Numa conversa com Brid, ela me falou da morte de Rodan e, na mesma hora em que escutei sobre a morte dele, sub-rotinas rodaram e vou mostrar agora a todos.

Deixou que os códigos aparecessem no holograma e eles mostravam as informações que passavam aceleradamente. Aloá olhava atenta a cada rotina que era apresentada e, em um dado momento pediu, aflita.

– Pode passa-las mais devagar?

– Claro! Desculpe-me. Deixei que rodassem da forma que processam.

As rotinas começaram a passar na frente de todos lentamente e, Aloá e Erarich acompanhavam, atentos.

– Pelos Deuses! – Por fim, Aloá falou.

– O que foi? – Perguntou o presidente Barbien, sem nada entender.

– Rodan inutilizou qualquer possibilidade de reproduzir uma IA como Decrux.

– Como? – Questionou Edith.

– Ele colocou rotinas de proteção e bloqueio, caso morresse ou a própria comandante Bridget Nícolas morresse. Aliás, se ele morresse e Bridget também, qualquer informação sobre sua pesquisa se destrói.

Edith ainda não compreendia o que a cientista falava e pediu.

– Explique mais claramente, Aloá. Como disse antes, não entendo muito bem sobre estas coisas. Sou uma oficial treinada em conhecimentos táticos e estratégias, e não uma cientista.

– Isso eu posso explicar, Edith. Talvez compreenda melhor. – Decrux interferiu. – Assim que elas começaram a rodar, eu imediatamente soube o que Rodan programou. Ele colocou toda a sua pesquisa em meu banco de dados, mas nem mesmo eu tenho acesso. Não sabia delas e só quando Brid me contou da morte dele, é que a informação de que estes arquivos estavam no meu banco de dados apareceu, mas pelas minhas diretrizes de segurança, não posso acessá-las.

– E por que ele as colocou aí então, se não podemos acessá-las? – Perguntou, Edith. – Ele poderia simplesmente não tê-las guardado em lado nenhum e destruí-las, caso não quisesse que reproduzíssemos.

– Eu não sei o quanto vocês conheciam Rodan, mas o problema para ele, não era reproduzir uma outra IA como Decrux, era o que a possibilidade de reprodução poderia gerar. – Bridget pontuou.

– Vendo isto, eu concordo com Bridget. – concluiu Aloá. – Conheci Rodan e apesar dele querer muito realizar seu sonho dentro da pesquisa dele, se preocupava em como repercutiria. Quando nós o questionávamos a respeito de nada sabermos sobre a pesquisa dele, dizia que era “para segurança de todos”. Ele mostrava partes do que fazia. Sabíamos que era uma IA com interações sociais, mas nunca imaginamos que fosse um organismo vivo completamente funcional em todas as características.

– Ele me afastou, – Decrux voltou a falar. – confiou a minha “evolução”, por assim dizer, a uma amiga que sabia que nunca denunciaria a minha tecnologia, mas ele quis assegurar a segurança dela, tanto como a minha, se acaso eu respondesse as expectativas dele de desenvolvimento orgânico e emocional. Eu conversava com Rodan, a princípio, raramente. À medida que fui avançando, eu passei a conversar com ele constantemente, até criar um laço. Eu falava com ele cerca de uma vez por semana, e comecei a desenvolver um sentimento de saudades. Passei a diminuir o espaço entre nossa comunicação. Houveram semanas que cheguei a falar com ele três a quatro vezes.

– Criou um vínculo estreito com ele.

– Não, Lars. Criei um vínculo emocional muito forte com ele, a ponto de nas últimas vezes em que conversamos, chama-lo de pai. Quando Brid me deu a notícia ontem, eu sofri muito e continuo sofrendo. Posso dizer que essa parte de minhas emoções, não gostei, nada, de sentir. Se Aloá quiser constatar e me monitorar, eu autorizo para que saibam ser verídico. No entanto, tenho todas as questões da atuação dos meus attochips controlando minha responsabilidade para com a nave, não me permitindo o luto. Sofro por isso também, mas compreendo o meu criador… meu pai.

– Ótimo. Rodan nos colocou numa encruzilhada. – Bufou Edith.

– Eu discordo. – Respondeu Decrux. – Analisando friamente, ele facilitou nossa decisão. Se eu não desse certo, sua pesquisa não teria relevância e se eu desse certo, ele cercou todos os lados para me inutilizar em negociatas, coações… E ainda protegeu a minha orientadora, – olhou para Bridget com carinho, – fato que não ocorrerá com a tecnologia gerada pelas outras IAs orgânicas que vocês têm.

– Você também acha que vieram pelas nossas IAs?

– Sobre estratégia, a comandante Bridget poderá responder mais embasada. Como não tive contato estreito com nenhum comando da República, darei só as probabilidades. Cruzando todas as informações que colhemos e traçando um perfil dos fatos e, ainda colocando em linha cronológica de acontecimento, tem 97,32% de chances que sim. Eles viriam pela sua tecnologia, mas não só das IAs. Acrescenta-se a isto, a corrida pela expansão de território e assegurar politicamente um status. Os outros 2,68% de abordarem a nave Decrux seria para queima de arquivo e recapturar a Olaf Helga.

– Temos o dever de lembrar vocês mais uma coisa. – Interrompeu Bridget. – O vírus que inseriram em Decrux afeta a nave de vocês. As IAs das naves que possuem, têm o mesmo tipo de programação nos attochips. A diferença delas para Decrux são as informações inseridas no sistema e a parte orgânica. Elas são biossintéticas, por isso vocês as chamam de orgânicas, mas não são realmente um organismo constituído com células orgânicas. São androides biossintéticos. No entanto, a forma como os attochips foram programados é o mesmo.

Edith cerrou os olhos fortemente e os reabriu.

– E Rodan ainda nos limitou.

– Vocês podem discordar, mas eu o agradeço por isso. – Decrux falou, encarando Edith. – Eu certamente não suportaria metade do que a Olaf Helga suportou em cativeiro e seria esse o meu destino e o de Bridget, caso soubessem que poderiam me vasculhar e encontrar uma saída para obter informações. De qualquer forma, eles não se interessam exatamente por uma IA que demonstre opiniões e sentimentos. De que lhes serviria?

Marechal Hermes olhou para sua subordinada, tentando perceber o que ela determinaria.

– E então, Edith? O que sugere?

Edith olhou todos à mesa e encarou Bridget. Ainda não estava completamente convencida, não pelos fatos apresentados, mas ela sabia que a comandante faria de tudo para livrar sua IA/amiga.

– Já que a Decrux se predispôs a ser monitorada, quero que Aloá faça, antes de tomar minha decisão. Enquanto isso, podemos discutir o que faremos com a guerra que explodirá.

Decrux olhou para Bridget que meneou a cabeça levemente.

– Vamos, Aloá.  Deixemos para eles essa discussão para não perdermos tempo.

– Você pode nos acompanhar a nossa nave?

– Deixa eu verificar a distância. – Colocou os parâmetros no holograma. – A essa distância, só com um emulador. Entenda que eu sobreviveria, pela minha parte orgânica, mas os attochips que circulam em meu sistema, por conta da simbiose com a nave, ficariam inativos.

– Eu entendo, Decrux. – Sorriu. – Vamos para o centro médico daqui mesmo. – Voltou-se para Erarich, – Entre em contato com a equipe e peça para que tragam os equipamentos.

– Certo. Trarei também o “decoder” para verificar os parâmetros dos códigos de segurança que Rodan implementou.

– Tudo bem para você, Decrux?

– Claro. Sem problema nenhum.

Saíram da sala, deixando a cúpula para discutir as ações de defesa.

***

Decrux estava ao lado de Bridget na ponte. Rumariam para um planetoide árido, nas cercanias da estação do governo central da República. Kara foi para a engenharia para monitorar qualquer distúrbio físico, que a nave pudesse apresentar, e Helga verificava no depósito de armamento, qualquer equipamento que as auxiliasse na investida.

– Como conseguiu?

– Convencê-los?

– Ah, para Decrux! Que convencer? Tô falando em você esconder algumas rotinas. Se eles pegassem…

– Não pegariam. Essa é a vantagem de ser uma IA e ter convívio com uma sacana como você. – Gargalhou. – Quando eles rodaram o decoder, e eu via que rolaria aquela rotina de que existem outros arquivos latentes, chamava a atenção deles e rodava rápido para não verem na tela. Como colocaram o decoder ligado ao sistema da nave, depois eu apagava a rotina no decoder e “voilà”, nada de rotinas que nos denunciasse. O fato de ter estas informações de que existem outros starts para romper o bloqueio, não me deixa nem um pouco segura que alguém mais possa saber disso.

Bridget sorriu de lado e depois fechou o cenho.

– Nem eu, Decrux. Se não desse certo, não entregaria você para eles.

Decrux olhou a comandante e sorriu.

– Brid, ao longo desses anos, vi você sorrir, se decepcionar, pessoas na nave que não tinham caráter sacanear outras pessoas. Acho que ter observado distante, não foi ruim para mim. Vi o melhor e o pior do ser humano, convivendo nessa nave. Interagia, mesmo que nos bastidores. Vi você negociar com gente de bem e outras péssimas. Embora depois de um tempo, ficar por trás das cortinas passou a me incomodar, eu posso dizer que consegui aprender um pouco como as coisas funcionam e perceber um pouquinho melhor quem é quem. Você tá na minha conta de quem é legal!

– Ah, sua…

A porta da ponte se abriu.

– Já juntei o material que me pediram. Tinha quase tudo no depósito de equipamentos e armas. O que não consegui, falei com Kara e ela disse que a gente se arranjava com algumas outras coisas.

– Helga, acha mesmo que ninguém desconfiou de que vocês sabiam sobre eu conhecer Hermes?

– Não se preocupe, Bridget. Pelo que perscrutei na reação deles, acreditaram. Acharam realmente que nosso espanto quando Hermes disse que lhe conhecia era verdadeiro.

– Ótimo. Agora senta aí, Helga, que vamos fazer a dobra. Depois quero saber direitinho o que conseguiu com Barbien, àquela hora que nos dispersamos na sala. – Voltou-se para a IA. – Decrux, calculou nossa entrada no planeta?

– Sim. Temos uma variação de dois percentuais de erro.

– Então alce voo a mil metros do solo. Recalcule, pois não quero bater em nenhuma rocha, por conta de dois percentuais. Faremos a entrada planando e desceremos depois.

Decrux atendeu os comandos de Bridget e quando estavam planando na superfície, a IA fez a ligação para a frota Ugoriana. A imagem da tenente-brigadeiro apareceu na tela.

– Nave Decrux pede liberação para partida, senhora.

Bridget pediu a autorização, numa postura calma e séria. Reparou no pequeno sorriso que a tenente-brigadeiro tentava disfarçar.

– Permitido, comandante Nícolas e boa sorte!

– Obrigada…

– … Bridget.

– Sim.

– Mesmo que queira abrir um rombo na cabeça do general Phil, lembre-se que ele pode ser a peça chave para jogarem Cursaz na lama.

Sorriu de lado e Bridget devolveu o sorriso. As mulheres acenaram com a cabeça e Decrux encerrou a transmissão.

– Tire a gente daqui, Decrux.

– Entrando em dobra.

– Merda! Vocês poderiam me antecipar isso, né? Tô quase jogada aqui no chão da engenharia.

– Sem drama, Kara.

Decrux rebateu, rindo, da reclamação da engenheira, ouvida através do sistema de comunicação. Olhou à sua volta e Helga ainda estava curvada sobre o estômago. Se aproximou da Olaf.

– Tá muito ruim, amor?

– Já vai passar.

Bridget olhou as duas mulheres e se curvou sobre o tronco, tendo um espasmo.

– Brid, você está bem?! – Decrux olhou, alarmada.

– Tava, mas ver vocês nessa “melosidade”, me deu vontade de vomitar!

Aprumou-se na cadeira e riu da expressão contrariada de Decrux.

– Da próxima vez, você pode estrebuchar que nem vou ligar.

– Deixa ela, amor. – Helga deu um pequeno beijo nos lábios da IA. – Pode colocar a visão externa na tela?

Decrux atendeu o pedido da namorada. A nave estava parada a pouco mais de mil metros do solo e somente o que visualizavam era uma paisagem inóspita e árida. Rochas e terra amarelada eram tudo o que viam, para qualquer lado que olhassem.

 

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Carolina Bivard

Carolina Bivard

Escritora de histórias homoafetivas femininas, postando seu trabalho desde 2009 na internet. Casada desde 1999, residente em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Adora viajar e compartilhar as horas vagas com amigos e família.
A literatura sempre atraiu, levando a um momento de ruptura, onde ler não era mais o suficiente. Colocou suas ideias no papel, a princípio e depois, páginas de word, para mais adiante vazarem para o mundo virtual.
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7 Respostas para Capítulo 30 – Tudo às claras

    • Oi, Marcela!
      Hoje me pegou no ato. Estava conectada! rs A resposta veio mais rápido.
      Sim, Decrux cada dia muda mais um pouco e amadurece mais a cada momento que interage. Ela ainda apresentará mais mudanças e a ação vai começar! rs
      Vão ter que arquitetar planos. O lance é: O que dará certo e o que não? rs
      Obrigada, Marcela! Já está aqui no Rio? Me dá um toque quando estiver, ok?
      Beijo grande!

    • Sabe que sou fã das suas cenas de ação né?! A Decrux evolui muito em todos os sentidos mega ansiosa para ler os próximos capítulos.
      Pó deixar que aviso simmmm!

    • Oi, Flavinha!
      kkkkk Ela não é carioca, mas é Ugoriana (Pelo menos na origem de Rodan) e tem um monte de vivencia da nave rsrsr.
      Tenho cá para mim que essa fofoletice toda dela e da Helga, vai atiçar mais as sacanagens da Brid com as duas. rsrs
      Brigada, Flavinha!
      Um xero pra ti também!

    • Oi, Naty!
      Acredito que Decrux já nasceu com algumas expertises e só acumulou umas malandragens vivendo na nave. rsrs
      Daqui a pouco ela dá nó em todo mundo! rs
      Obrigada, Naty, pelo carinho e comentários. Agora a coisa começa a agitar.
      Um beijão!

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