Capítulo 32 – As cores do amor

Capítulo 32 – As cores do amor

Lentamente eu me afastei de Liz e coloquei a mão em minha barriga. Eu estava sangrando muito e uma dor dilacerava meu corpo.

– Uma ambulância, precisamos de uma ambulância – Júnior andava de um lado para o outro esfregando a cabeça.

Eu tentava não desmaiar, mas sentia que a qualquer momento eu cairia em cima deles.

Maytê correu para o telefone e Liz me encarava com os olhos fora de foco.

– Não – a ouvi dizer após alguns segundos – a ambulância não chegará a tempo. Temos que levá-la ao hospital. Júnior, me ajude a colocá-la no carro.

– Liz… – eu falei com esforço tentando impedi-la. Como iríamos chegar ao hospital sem um motorista?

– Psiu! Não fale nada, use sua força para continuar com a gente, ok? – Liz disse segura, voltando a assumir o controle da situação – Júnior! Me ajude aqui.

– Ok – ele respondeu sem saber o que fazer, suas mãos tremiam e seu rosto havia perdido a cor.

– May, ligue para a polícia. Diga que Joe é perigoso e está armado. Depois avise Suze e Kate. Peça a elas para nos encontrarem no hospital.

Liz e Júnior me colocaram no banco traseiro do carro. Júnior sentou-se ao meu lado e Maytê pulou no banco da frente com a orelha grudada no celular, não consegui ouvir com quem ela falava.

Liz abriu a porta do motorista e estalou o pescoço para aliviar a tensão. Eu adorava quando ela fazia aquilo, mas naquele momento não apreciei como deveria.

A dor começava a me cegar.

– Você consegue – eu disse baixinho e coloquei a mão em seu ombro. Ela me olhou sem tanta certeza assim.

– DROGA! – Liz xingou e socou o volante do carro várias vezes.

Ela precisa conseguir, eu fechei os olhos e pedi em pensamento.

– Jenny, fique com a gente – ela me chamou – nem pense em nos deixar, você me ouviu?

– Estou aqui – eu respondi abrindo os olhos devagar.

– Coloque o cinto – Liz virou-se para Maytê e em seguida ligou o carro.

Liz guiou o carro sem nenhum problema, mesmo estando à beira da morte eu fiquei extremamente feliz por ela.

Chegamos ao hospital e Júnior desceu do carro gritando por ajuda. Liz ainda tremia quando me tirou do banco.

A última coisa que eu vi foi Kate entrando na recepção e correndo até Maytê e Júnior amparando Liz que vomitava em uma lixeira.

Ela conseguiu, pensei orgulhosa de Liz antes de desmaiar em cima de uma maca.

 

Não sei que horas eram quando acordei em um quarto escuro. Forcei os olhos e reconheci as sombras de Júnior e Kate juntos em uma poltrona. Suze, May e Liz dormiam emboladas em uma espécie de sofá. Como o hospital permitiu que todos eles ficassem aqui? Me perguntei antes de fechar os olhos e dormir novamente.

Quando acordei no outro dia eu tive a resposta para minha pergunta anterior. A primeira coisa que vi ao abrir os olhos foi Aurora aos beijos com um médico. Ai meu Deus, será que eu morri?

– Hum hum – pigarreei para demonstrar que eu estava acordada. Senti uma dor no abdômen e por impulso coloquei a mão no local do tiro.

– Minha querida, você acordou – Aurora veio deslizando em minha direção e me deu um beijo. Me senti grata por aquele gesto de carinho.

– Olá Jennifer, eu sou o Dr. Humberto. Sou o cirurgião responsável por você. Parece que você se livrou de uma boa, não é mesmo? Como está se sentindo?

– Eu fui baleada e estou viva, então acho que estou bem – respondi seca. Eu estava com sede, dor e mal-humorada. Mais uma vez Joe tentara me matar e dessa vez ele quase conseguira.

– Você teve sorte – ele disse se aproximando para me examinar – a bala se alojou próxima ao baço, mas não atingiu nenhum órgão. Fizemos uma cirurgia de emergência e conseguimos conter o sangramento. Mais alguns minutos e você não teria tido tanta sorte. Ainda bem que sua namorada te trouxe rapidamente até nós.

– Esposa – eu o corrigi e olhei para Aurora – onde ela está?

– Lá embaixo falando com a polícia. Ela vai ficar zangada quando descobrir que você acordou e ela não estava aqui – Aurora falou fazendo carinho na cabeça careca do Dr. Humberto.

– Você precisa descansar agora, ok? – Ele conferiu o cateter no meu braço e ajeitou a cama para que eu deitasse.

– Eu preciso vê-la – falei para Aurora. Ela olhou para o médico e eu senti que ela usava sua posição de namorada para convencê-lo a me deixar falar com Liz.

– Ok – ele respondeu sem Aurora precisar se esforçar – mas depois você vai descansar.

– Certo – respondi feliz começando a gostar daquele médico baixinho.

Aurora saiu para chamar Liz e alguns minutos depois ela entrou no quarto feito um furacão.

Eu havia levado um tiro, mas ela é quem parecia estar sentindo as dores. Seus olhos estavam inchados e vermelhos. E seu semblante era de quem não dormia há dias. Liz veio ao meu encontro e eu lhe dei um beijo apaixonado.

– Nunca mais faça isso – ela disse zangada e beliscou meu braço quando afastou os lábios dos meus.

– O que? Te beijar? – Perguntei sem entender.

– Entrar na frente de uma bala – ela me deu outro beliscão, dessa vez mais fraco – eu pensei que fosse te perder. Você ficou maluca?

– Não podia deixar que ele te levasse – respondi achando graça da zanga dela.

– E para isso você se enfia na frente da arma de um lunático. Você poderia ter morrido, Jennifer!

– Você também poderia ter morrido.

– Não importa! Prometa que nunca mais fará isso – ela me olhava séria e eu tentava não rir para não irritá-la mais.

– Ok, nunca mais entrarei na frente de uma bala – respondi levantando a mão em juramento.

– Obrigada – ela respondeu com um sorriso nervoso.

– Agora me dá um beijo – a puxei e senti uma fisgada no local da ferida.

– Não! Você ainda está de castigo – ela disse séria – e o Dr. Humberto disse que você precisa de repouso absoluto.

– Por falar em Dr. Humberto, ele e Aurora estão tendo um caso?

– Nem me fale – Liz revirou os olhos – Aurora diz que eles têm um “lance” – Liz fez as aspas com as mãos – os dois trocam beijos desde que eu fiquei aqui depois do acidente. Foi a primeira coisa que você viu quando acordou?

– Foi – eu disse me lembrando da cena de alguns minutos atrás.

– Me desculpe por isso. O lado bom é que ela usa a influência dele para nos deixar ficar aqui com você. Estava todo mundo aqui até algumas horas atrás, não sei como você não acordou com os gritos de Suze.

– Gritos?

– Seus pais vieram aqui depois de falarem com a polícia. Suze descobriu que foi sua mãe quem contou para Joe que nós havíamos nos casado. É lógico que ela não sabia o que ele ia fazer, mas mesmo assim Suze não perdoou. Ela tinha saído para comprar almoço para mim e quando voltou sua mãe estava aqui na beira da sua cama. Suze pediu licença para um senhor que passava no corredor e acredite, roubou a muleta dele e atacou sua mãe com ela. Foi um Deus nos acuda.

Eu tentava imaginar a cena, mas meu estado de choque era tão grande que não permitia.

– Então o Dr. Humberto colocou todo mundo para fora e limitou nossa presença ao horário de visitas.

– Isso é insano – foi o que eu consegui dizer.

– Eu que o diga – Liz riu e me beijou. Aparentemente se esquecendo do meu castigo.

– Aurora disse que você falava com a polícia, o que aconteceu? – Perguntei após mais um longo e caloroso beijo.

– Prenderam Joe em casa. Ele está sendo acusado de tentativa de homicídio. Não nos incomodará nunca mais – ela passou a mão carinhosamente nos meus cabelos.

Fechei os olhos e agradeci por aquilo. Joe era finalmente uma pagina virada da minha vida.

– E você entrou em um carro! – Me lembrei de que ela quem me trouxera para o hospital – Você dirigiu um carro, meu amor. Como está se sentindo?

– Não sei. Ainda não tive tempo e nem cabeça para entender tudo que aconteceu. Mas sinto que estou pronta, não deixarei que nenhuma dor me domine outra vez.

– Assim que se fala, garota – eu pisquei para ela e pedi mais um beijo.

– Você é safada assim sempre? – Liz perguntou quando eu toquei levemente seus seios.

– Não, só quando eu levo um tiro – respondi e fui atacada pelos seus tapas leves.

– Não brinque com isso!

 

Sete dias depois Dr. Humberto concordou em me dar alta, mas deixou claro que eu deveria fazer repouso total e voltar em alguns dias para a reavaliação.

– Pode deixar, eu a trago – Liz disse apertando a mão do médico enquanto Júnior empurrava minha cadeira de rodas.

– Cuidem dela! – Dr. Humberto me deu um beijo no rosto e eu me assustei. Se ele estava com Aurora significava que ele era meu avô? Era só o que me faltava.

– Cuidaremos.

Como eu já esperava, ninguém me deixou fazer nada nos dias seguintes. Em compensação eu revi todas as minhas séries favoritas e assisti filmes lésbicos indicados por Liz.

– Por que alguém sempre morre no final? – Perguntei chorando após assistir uma maratona de uma série da Netflix. Acho que os anti-inflamatórios estavam me deixando sensível.

Depois de passar por mais algumas reavaliações com o Dr. Humberto eu finalmente fui liberada para voltar a minha vida normal.

Não que eu tivesse uma vida normal, é claro.

Suze e Roberto decidiram se casar de verdade e para alegria da galera, Aurora mais uma vez foi a cerimonialista. Ela não cabia em si de tanto orgulho e chamou o Dr. Humberto para ser seu ajudante. Ele aceitou.

Kate descobriu que estava grávida e deixou o pobre do Marcus a beira da loucura. Aparentemente ela estava beneficiando-se da sua posição para conseguir dele todos os tipos de doces já inventados pelo homem.

Júnior entrou na universidade e assumiu o emprego de Liz como monitor na antiga escola. Não se passava um dia sem que eu dissesse o quanto eu estava orgulhosa dele. Quando eu ainda me recuperava da cirurgia, ele foi até a casa dos meus pais e pediu que eles me procurassem. Eles nunca apareceram.

Maytê começou uma banda de garotas na escola nova. O sucesso foi tão grande que elas recebiam convites para shows até em outros estados. Eu tentava conciliar a minha rotina para levá-la, mas na maioria das vezes era Liz quem cuidava disso. Ela começou a namorar um rapaz simpático que sempre trazia pizza quando nos visitava. Não sei se quem gosta mais dele é a Maytê ou o Júnior.

Eu comecei o curso sugerido por Roberto e estava adorando. Com Liz cuidando das coisas em casa, tudo ficava mais fácil e eu tinha tempo para me dedicar aos estudos. O Starlet era minha segunda família e eu adorava trabalhar ali. Às vezes eu me pegava olhando para casais que se sentavam nos sofás e me perguntava até que ponto a história daquelas mulheres era igual a minha. E desejava que cada uma delas encontrasse coragem para assumir seus sentimentos e que uma Liz aparecesse na vida de cada uma para fazê-la colorida.

Liz…

Liz passou em um concurso e dava aulas em uma escola pública da periferia. Ela ainda não gostava de andar de carro, mas a cada dia ela superava sua dor e dirigia até as crianças que a recebiam ansiosas na porta da sala com um sorriso no rosto. Ela dizia que só gostavam dela por causa do seu cabelo colorido, mas a verdade é que o que Liz fazia por aquelas crianças ninguém mais era capaz de fazer. Ela despertava nelas a mesma coisa que despertava em mim. Vontade de ser verdadeira consigo mesma, de ser melhor, de ter forças para encarar a vida com a cabeça erguida. Vontade de descobrir um amor e vivê-lo para sempre.

No mais tudo continuava da mesma maneira.

Aurora com seu esoterismo, Suze com suas loucuras, Kate com seu mau humor, Júnior com sua fome, May com seu jeitinho meigo, Liz com suas cores e eu… Eu com todos eles.

 

 

Meninas, muito obrigada por terem lido até o final. Espero que vocês tenham gostado 😉

Um beijo e se cuidem ;*

Raianny Duarte

 

Leia outros capítulos desta história<< Capítulo 31 – Meu coração batia acelerado.
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