Crônica de um Natal qualquer (conto de um capítulo só)

Crônica de um Natal qualquer (conto de um capítulo só)

O Natal sempre é na casa daquela tia homofóbica radical que levanta a voz para falar bem do candidato Bolsonaro e que grita mais ainda para chamar o Lula de ladrão e a Dilma de caminhoneira. Mais uma festa onde vou me abstrair da realidade, fingir ser o que não sou e sorrir um sorriso falso e descarado. Abrir presentes que não quero e dar presentes que não queria ter comprado. Fato, sempre temos um desses na família, se não, sorte a sua.

Como tradição da família, viajamos até a grande capital para a casa da tia, que além de ser tudo o que é, ainda me pergunta sobre os “namoradinhos”, como se ela já não tivesse entendido, afinal estou solteira aos trinta e quatro e nunca trouxe um homem para apresentar como namorado. No fundo, ela ainda acha que há esperanças. Só não sei esperanças do que, já que não vou deixar de ser lésbica porque ela acha que não é de “Deus”.

Há um pouco de amor pela minha tia, afinal, é irmã da mamãe e ela sempre me ajudou quando precisei. Mas há também dor pela intolerância irracional, pelo menos até esse Natal.

Enfim, na tradição, diz que temos que chegar antes do almoço do dia vinte e quatro de dezembro, a grande véspera do grande dia, que para mim é como tantos outros. Mamãe, nos acorda às três da manhã e saímos, eu e ela, papai não está mais entre nós. Atualmente quem dirige, sou eu, agradeço, pois ela já não sabe muito o que faz. Início de Alzheimer, assim como a vovó, que já não sabe mais nossos nomes e vive presa no passado.

Somos as primeiras a chegar, esse ano encontramos titia de pijamas. Não, não é Alzheimer, é preguiça mesmo. Vovó está na sala sentada ouvindo televisão, pois eu já não sei mais se ela realmente entende o mundo em que vive. Titia me abraça acalorada e já me puxa para servir uma xícara de café, puxa também minha mãe e logo estamos sentadas na grande mesa de jantar, onde um farto café da manhã está servido. Tomo o café e peço licença, vou me sentar com a vovó, ouvir o que a grande tela colorida tem para falar. Sentei, beijei-lhe a bochecha e ela me olhou com um lapso de memória e me sorriu. Nunca sei se ela se lembrou e ficou feliz ou se aprendeu a fingir para não ter que ouvir nossas baboseiras.

O dia da véspera é intenso e cansativo, escutei alguém no quarto de minha tia, achei que era minha prima, fingi ir até o banheiro para ter certeza e não causar constrangimentos, pois no Natal passado, titia estava com o namorado no quarto e eu achei que era meu primo, causando tumulto ao vê-lo sem roupa. Não era o namorado e muito menos minha prima, era uma mulher deitada na cama da minha tia, seminua. Minha tia mora sozinha, separada do marido há alguns anos, os filhos, um menino e uma menina, moram em outras cidades. Olhei para dentro do quarto novamente e pela fresta vi a mulher se mexer. Corri para o banheiro antes que alguém me descobrisse ou a mulher me visse.

Tranquei a porta e comecei a rir sozinha, me controlei para não rir alto, queria sair daquele banheiro e deitar ao lado daquela mulher e perguntar inúmeras coisas a ela. Conformei-me em ficar quieta e saí do banheiro depois de mais uma crise de riso. Fui até a sala de jantar e minha mãe conversava animadamente com minha tia, nem me viram voltando. Sentei e comecei a reparar que minha tia estava diferente, um sorriso lhe denunciava, um sorriso leve, coisa que não via há anos.

— Sabe quem está aqui e vai passar o Natal conosco? — minha tia me olhou.

— Não faço ideia.

— Sua ex professora de português, minha amiga Janaína.

— Que legal! — sorri-lhe com cumplicidade.

Janaína era uma ótima professora de português, mas era melhor ainda na cama. Tivemos um intenso envolvimento no meu último ano do colegial. O sorriso estava confirmado, a alegria em anunciar Janaína mais ainda. Minha tia, careta e recatada, fora atraída pela professora fogosa. Não me segurei e ri, fazendo minha mãe me encarar com repressão.

— Desculpe, lembrei de uma piada. — tentei me segurar para não continuar rindo.

Minha tia foi se trocar, logo a tropa iria chegar e os preparativos iriam começar, talvez esse ano eu me divirta mais do que havia imaginado. Demorou para voltar e tivemos que recepcionar os parentes, recebi-os rindo e imaginando o motivo da demora. Se o motivo da demora tinha nome e peitos, quase caí na gargalhada de novo.

— Até que enfim você chegou! — ri abraçando minha prima, filha de outra tia, Renata.

— Renatinha! — minha tia gritou do meio da sala.

Renata me olhou assustada e foi abraçada com força, ela era a sobrinha favorita, disso ninguém duvidava, nem mesmo ela. Quando se desvencilhou dos braços de minha tia pude ver Janaína ainda envergonhada parada atrás dela, ela me encarou e as maçãs do rosto ficaram mais vermelhas do que antes. Renata me puxou para longe dos abraços e beijos de tias e tios melados de suor da viagem em um dia quente como aquele.

— Que bicho mordeu a titia? — Renata me perguntou quando já estávamos na varanda.

— Morder eu não sei se mordeu, mas foi um bicho bem bonitinho. — disse olhando para Janaína que ainda estava parada no meio da sala sem saber o que fazer.

— Como assim, maluca.

— Aquele bicho ali, — apontei sutilmente para Janaína — quem mordeu a titia, vi ela seminua na cama da tia.

— O quê? — gritou.

— Calma, caramba, vai chamar a atenção do prédio todo. — puxei a Renata para o outro lado da varanda.

— Como assim, seminua? — sussurrou.

— Achei que era a Elisa no quarto e ia lá encher o saco, mas quando cheguei perto, a porta estava com uma fresta e vi uma mulher seminua na cama da titia. — sussurrei o máximo que pude.

— Ela não é a professora de português que você pegava no colegial? — perguntou rindo.

— Sim. – ri nervosa.

— Como o mundo dá voltas. — disse séria.

Janaína entrou na varanda meio perdida e se aproximou do parapeito, olhei-a sem saber o que pensar, logo minha tia se juntou a ela e a puxou para dentro, queria apresentá-la a todos. Nossos olhares se cruzaram, eu sorri, ela fez cara de quem se lembrava de mim e entrou atrás da minha tia. A sala ficou em um breve silêncio e ouvi minha tia apresentando Janaína como uma velha amiga que iria passar o Natal conosco. As vozes voltaram e logo titia saiu na varanda puxando Janaína como se fosse um cachorrinho assustado.

— Faltou vocês duas. — olhou para Renata e para mim — Você deve se lembrar da Izabela, ela foi sua aluna no colegial. — me apontou.

Janaína me encarou friamente e nós duas não sabíamos como agir e muito menos o que falar.

— Claro que lembro. — fingiu seu melhor sorriso e me abraçou.

— Não tem problema se não se lembrar, aposto que já deu aula para muitas garotas. — eu lhe sorri sarcasticamente.

Minha tia estava alheia ao que falamos, mas mesmo assim Janaína me olhou franzindo a testa.

Nosso envolvimento durou quase um ano, minhas afrontas em sala de aula eram descontadas na cama, minhas palavras sarcásticas se tornavam deliciosos castigos em longos finais de semanas em sua cama, muitos dos quais passávamos peladas com preguiça de se vestir para tirar tudo de novo. Ensinou-me coisas que uma adolescente boba não esquece, a dor da primeira paixão, o primeiro gozo e a primeira perda. Foi com ela que aprendi os prazeres e os desgostos da vida, me trocou por uma aluna mais nova, mais pura, mais inocente, eu já estava usada demais para ela. Aproveitou-se como pode e me mandou embora. Vendo-a aqui, na minha frente, sentimentos estranhos me percorrem as veias. Sensações e arrepios que não sentia há tempos, afinal tratei de esquecê-la, demorou, mas esqueci. Ou melhor achava que tinha esquecido, mas a minha mente está me trollando lembrando-me de nossos beijos, enlaces, sussurros, gemidos, gozos e gostos. Estou em transe, olhando-a indiscretamente, ela está sustentando o olhar, como se também recordasse de tudo. Há algo nessa mulher que me obsedia e eu só posso olhá-la. Renata me cutucou, na verdade me acotovelou com força e me chamou de volta para a Terra, olhei-a com cara de choro e me encarou brava. Pediu licença e saiu da varanda me puxando com todas as forças, me sentia uma árvore com profundas raízes que não saía do lugar. Se minha tia percebeu algo, até agora não sei, mas não fui discreta, não sou discreta.

Renata me puxou até o banheiro e me sentou no vaso sanitário, abaixou-se na minha frente.

— Tu é besta?

— Ela foi a primeira mulher que amei.

— Eu sei, eu lembro do seu sofrimento, eu sei pelo que você passou para esquecer essa filha da…., — respirou fundo — essa mulher. Achei que você tivesse superado essa vadi.., — respirou fundo — essa mulher.

— A dor do primeiro amor, a gente não esquece.

— Muda essa cara, ela não pode ver você derrotada desse jeito, aliás, ninguém deveria te ver assim. Como vai explicar essa cara?

— Como explico todo ano, com as famosas frases “estou cansada”, “correria no trabalho”.

— Eu sei que você odeia Natal, fim de ano e tudo mais.

— Renata, você não entende o que a Janaína causa em mim.

— Só você sofreu de amor na vida? Vamos, lave esse rosto e pare de agir como adolescente.

Levantei, lavei o rosto e saímos do banheiro. Elisa estava na sala cumprimentando a todos, inclusive Janaína. Ela me olhou de longe e fez cara de quem não estava entendendo nada. Respirei fundo, salvei-a da chuva de beijos e abraços e a puxei para a varanda.

— O que essa piran…, — respirou fundo — mulher, está fazendo aqui?

“Comendo sua mãe!” foi o que pensei, mas olhei-a, olhei para Renata e fiquei quieta, não saberia responder sem expor minha tia. Peguei um cigarro que estava todo amassado no bolso e acendi, as duas me reprimiram, mas deram uma tragada cada.

— Ela é amiga da sua mãe. — respondeu Renata, me salvando do silêncio.

— Como você está se sentindo com a presença dela? — Elisa me encarou.

— Uma adolescente imbecil. — disse nervosa.

Elisa e Renata sabiam da minha sexualidade desde quando éramos garotinhas de quatorze anos, nós três somos cúmplices, fizemos muita coisa errada na adolescência e sempre encobríamos com mentiras para nossas mães. Somos três mosqueteiras, mas como contar para Elisa que Janaína estava seminua na cama de sua mãe? Renata me encarava com cara de quem não queria guardar segredos de Elisa, queria contar. Minha tia chamou por Elisa para ajudar com algo na cozinha. Ela deu mais um trago no cigarro e saiu da varanda.

— Precisamos falar a verdade para ela.

— Eu não tenho coragem de contar.

— Você é a lésbica da família, deveria falar.

— Vai à merda! — sussurrei apagando o cigarro — Você é a bissexual da família deveria falar.

— Não sou bi! — sussurrou brava.

— Claro que é. Enrustida.

— Eu não vou dar esse desgosto para a Elisa.

— Desgosto? É assim que você vê uma relação entre mulheres? — me segurei para não gritar.

— Calma! Me expressei mal. Só acho que vai ser difícil ela entender esse envolvimento, afinal a titia tem um discurso contrário a tudo isso.

Nós duas fomos chamadas para ajudar na cozinha, afinal, as mulheres ficam na cozinha, os homens fazem o churrasco e bebem. Antes de me sentar para descascar os quilos de batata que estavam sobre a mesa, peguei uma cerveja. Janaína estava ali na mesa, com sua faca na mão e trabalhando, até vovó foi escravizada. Vovó me olhou, encarou, olhou a cerveja na mesa, me olhou de novo e olhou a cerveja de novo.

— Vai me repreender por beber? — perguntei rindo.

— Você não tem idade para isso, Renata.

Respirei fundo e lhe sorri.

— Vó, eu sou a Izabela e eu tenho trinta e quatro anos.

— Verdade! — ela riu — Está velha! O tempo passa rápido nessa casa.

Eu ri e lhe beijei a testa.

Resolvi ignorar a presença de Janaína na mesa, na casa, na festa e na minha vida, mas era impossível não sentir sua presença e seu olhares, ora para mim ora para a minha tia. Abri a cerveja e Renata logo roubou um gole. Enquanto descascava aquele tubérculo meio amarelado, tentei não pensar no meu passado, mas no que eu deveria pensar enquanto descasco uma batata? Primeira coisa que me lembrei foi do gosto de menta que Janaína tinha no nosso primeiro beijo. Ela era uma professora diferente, sempre brincalhona, sempre sorridente, sempre alegre. Tinha fama de lésbica e eu logo quis tirar a prova dessa fama. Eu entrei atrasada na escola e no último ano do colegial já tinha dezoito anos. Na escola havia a sala dos professores e ao lado era o banheiro de uso exclusivo deles, todos os dias tínhamos plantões de dúvidas das matérias no período da tarde, as de português eram de terça-feira. Por algumas semanas observei a rotina de Janaína, sempre chegava mais cedo do que os outros alunos para entender o que ela fazia antes da aula. Descobri que almoçava em um restaurante perto do colégio e quando voltava ia ao banheiro escovar os dentes. Em um dos dias de plantão, entrei sem ser percebida, fechei a porta e Janaína me sorriu, como se soubesse o que eu queria. Ainda sem jeito me aproximei, ela estava lavando a mão e me encarando, enxugou as mãos e me puxou pela cintura, minha boca foi de encontro a sua e nos beijamos por longos minutos. Encostou-me na parede, ergueu meus braços e os segurou enquanto me olhava fixamente. Não falamos nada, apenas nos olhamos, tentei beijá-la novamente, mas afastou o rosto e me soltou, saiu do banheiro sem olhar para trás. Fama comprovada, era isso que eu achava que eu queria, mas no fundo eu já queria mais do que apenas um beijo roubado.

Renata me chutou por debaixo da mesa me fazendo pular na cadeira, olhei-a.

— Vai demorar duas horas em cada batata? — ela riu.

— Eu disse que beber não ia dar certo. — disse minha avó.

— Eu não sei descascar batata. — eu falei ainda inerte aos pensamentos no passado.

Enquanto relembrava o passado não percebi que Janaína havia sumido da cozinha e minha tia, obviamente também. Olhei Elisa conversando com minha mãe enquanto faziam algo perto do fogão. Logo minha tia voltou para a cozinha acompanhada por Janaína.

— Vem ano, vai ano — ela se aproximou de mim — e você não aprendeu a descascar uma batata. — ela pegou a batata da minha mão.

— Desculpe, não sou fã de batata. — eu ri e percebi Janaína me encarando.

— Vá com a Janaína buscar as carnes que encomendei para o churrasco, faça algo que eu sei que você entende. — ela riu e me piscou.

Minha tia não sabia, mas estava me jogando para a cova dos leões, ou será que estava jogando Janaína aos leões, na verdade, a uma leoa sedenta de vingança, ou será que era sedenta de saudade? Minha tia estava diferente comigo, definitivamente estava achando que eu era sua “colega”.

Saímos do apartamento em silêncio, meu coração pulava, eu sentia que ele estava pulando para fora do meu corpo, como em um desenho animado. No elevador, encostei na parede, respirei fundo e fiquei rezando para alguma vizinha parar o elevador e entrar perguntando sobre minha tia, sobre o Natal, sobre a vida, sobre qualquer coisa, pois aquele silêncio era constrangedor e eu sentia que ela escutava meu coração batendo. O elevador seguiu seu caminho até o estacionamento e o silêncio prevaleceu.

Naquele curto caminho, me lembrei do nosso segundo beijo, também no banheiro, eu entrei, ela me ignorou, me aproximei, ela estava com a escova na boca, nada sexy vê-la naquela cena, mas me aproximei mais. Ela cuspiu e enxaguou a boca, puxei seu rosto e a beijei. Ela retribuiu com desejo, me afastei e saí do banheiro.

O elevador parou sacudindo meu corpo e me chamando à realidade. Andamos até o seu carro, apertou o controle, era o mesmo modelo de carro, um Gol. Entramos, ela ligou o carro e eu, instintivamente, abri o porta-luvas atrás de cigarro, ela riu. Olhei-a desaprovando o riso. Encontrei no mesmo lugar que encontrava na adolescência, um maço de Malboro acompanhado de um isqueiro vermelho. Abri o vidro do carro, coloquei o cigarro nos lábios, olhei-a, ela me encarava. Acendi o isqueiro, encostei-o na ponta do cigarro e dei a primeira tragada sem desviar o olhar do dela. Afastei o cigarro da boca e soltei a fumaça me afundando no banco de couro preto, joguei o isqueiro no porta-luvas junto com o maço de cigarro e traguei o cigarro mais uma vez. Fechei o porta-luvas com raiva e soltei novamente a fumaça. O carro ligado, sua mão no câmbio, seu olhar desaprovador das atitudes infantis e meu corpo fervendo, estendi-lhe a mão com o cigarro, aceitou o cigarro e sorriu, como se soubesse que eu iria fazer aquilo.

— Achei que não ia oferecer. — tragou-o e me devolveu.

— Não deveria. — eu disse brava.

— Coloque o cinto e pare de malcriação. — me olhou sabendo o que as palavras me causariam — Para onde vamos?

— Para o passado. — eu disse pondo o cinto.

Ela apenas riu e saiu do estacionamento devagar. Enquanto fazia o caminho, que era gritado pelo GPS, eu fumava com a janela aberta, ora ou outra sua mão roçava no meu joelho me causando arrepios.

— Fez faculdade?

— Sim!

— Do que?

— Se meu pai estivesse vivo, ele diria que me formei em churrasconomia ou trucologia, mas no diploma diz que me formei em bioquímica. — eu disse um pouco saudosista.

Ela soltou uma gargalhada que me fez rir também.

— E você, acha que se formou em que?

— Em vagabundagem.

— Com as notas que você tirava no colégio, duvido muito que vagabundiou na faculdade.

— Fui uma nerd vagabunda. — eu ri.

Paramos em um semáforo, fechei o vidro depois de jogar a bituca fora.

— Dezesseis anos! — ela me olhou.

— Sim! Dezesseis anos e meu corpo responde a sua presença como se não tivesse existido esses anos. — me odiei pela resposta que dei.

As mãos no volante apertaram-o como se fosse um ato de nervosismo. O sinal abriu, colocou na primeira marcha e saiu andando devagar. O silêncio, voltou, o GPS avisou que chegamos em nosso destino, ela parou no estacionamento e eu desci do carro para pegar as coisas de minha tia. Dentro do açougue tinha mais gente do que a Avenida Paulista na virada do ano. Cheguei ao caixa e pedi a encomenda. A moça demorou para voltar e meu pensamento voltou ao terceiro beijo que trocamos. Foi em uma terça-feira chuvosa, eu fui almoçar no mesmo restaurante que ela, servi-me na pista de comida e me sentei na mesma mesa que ela. Apenas olhou-me e não disse nada, ela nunca dizia nada. Comemos em silêncio, minha perna roçava na sua e ela não fugia, apenas me olhava séria. Tirei o tênis e em um ato de desespero por atenção passei meu pé em sua coxa, continuou séria, mas afastou a perna para meu pé alcançar seu sexo. Ela colocou a chave do carro dela na mesa e disse “Você está brincando com fogo, não vai chorar quando se queimar, me espere no carro.” Coloquei o tênis, peguei a chave saí dali sem ao menos saber o que queria. Ela demorou para sair do restaurante, o carro era insufilmado no mais escuro que se podia, em um ato impensado tirei a roupa e a esperei somente de lingerie. Quando entrou, me olhou, sorriu e me puxou para um beijo.

— Ei, moça, sua carne. — a balconista me gritou e uma moça me cutucou.

Peguei a carne, dois maços de cigarro e voltei para o carro. Coloquei as sacolas no banco de trás e sentei batendo a porta. Olhei-a com raiva, coloquei os maços no porta-luvas e ela me retribuiu o olhar raivoso ligando o carro.

— Continua malcriada.

— A senhora vai fazer o que com minha malcriação?

Colocou a mão na minha coxa e a apertou.

— Não me provoque, garota. — ela disse brava.

— Provocar como? — abri a porta do carro e bati novamente — Assim?

Ela me apertou a coxa com força e instintivamente mordi o lábio abafando qualquer som que pudesse fazer. Naquele dia no carro, ela me beijou com desejo e me deixou excitada, suplicando por seu corpo, hoje, minha respiração está acelerada, nossos olhares estão firmes e sua mão está quente grudando em minha coxa. Beijei-a ainda ofegante, passou a mão pelo meu pescoço e me beijou com desejo, volúpia e a outra mão me puxou para mais perto. Nos afastamos um pouco atordoadas. Saímos dali em silêncio.

— Por que você me abandonou? — eu perguntei quando paramos em um semáforo.

— Porque eu não saberia dividir você com a faculdade, as novas amizades, as novas paqueras, eu seria esquecida em pouco tempo.

— Demorei três anos para parar de sofrer.

— Você admitiu que foi uma vagabunda na faculdade.

— Vagabunda no sentido de não ir às aulas direito, ir nas festas e ficar bêbada, dormir enquanto o professor explicava, nunca no sentido de sair com todo mundo. Eu demorei três anos para conseguir ficar com outra mulher. — eu disse chorando.

Ela entrou no estacionamento de um supermercado, escolheu uma vaga escondida e parou o carro. Acendi um cigarro e passei para ela, tragou-o e me devolveu.

— O que fez você me abandonar? — fiz com que me olhasse.

— Medo.

— De quê? Você foi a única mulher por quem eu realmente fui apaixonada.

— Como eu iria saber disso? Você era uma adolescente e eu já tinha quase trinta anos.

Beijei-a delicadamente, retribuiu o beijo com desejo. Meu celular começou a tocar, era minha tia, não atendi. Nos beijamos novamente.

— Eu tive medo do amor que eu sentia por você. — sussurrou enquanto me abraçava.

— Não deveria ter, eu te amava com todas as minhas forças. — fiz com que me olhasse.

— Você foi a primeira aluna que não me olhava como se eu fosse a realização de um fetiche. — me disse envergonhada.

— Nunca te vi como minha professora, você sabe disso. Eu te via como mulher, eu te vejo como mulher. — beijei-a — Uma mulher linda. — sorri-lhe.

Meu celular voltou a tocar.

— Melhor irmos antes que sua tia surte com nossa demora. — disse ligando o carro novamente.

— Você se arrepende de não ter ficado comigo? Você teve outras alunas na sua vida? — perguntei chateada — Quando foi embora me disse que não me amava e que seria melhor não nos vermos mais.

— Eu fui uma idiota quando lhe disse isso. — encarou-me.

— Depois de dezesseis anos, ainda sente algo? — olhei-a séria.

— Eu não sei e você?

— Seu beijo ainda continua o mesmo e meu desejo por você voltou assim que ouvi seu nome, mas não sei o que tudo isso pode significar.

Saiu do estacionamento e seguimos em silêncio. Meus pensamentos íam para o passado e se misturavam, ora sentia raiva por ter sido abandonada, ora sentia tesão em lembrar das nossas transas. Naquela terça-feira à tarde, eu seminua no seu carro, clamando por um toque me fazia imaginar coisas com essa mulher e fazia me ver casada com ela. Hoje, anos depois, sabendo que nada aconteceu, que fui abandonada por medo e que não tivemos futuro e nem passado, me fizeram chorar. Além do silêncio, o meu soluço e o meu choro eram nossos companheiros. Lágrimas silenciosas corriam o rosto de Janaína.

No estacionamento do prédio da minha tia, parou o carro, enxugou as lágrimas e saiu do carro. Também saí, peguei as sacolas no banco de trás. Logo minha tia veio ao nosso encontro, a família estava na piscina do prédio, ao lado da área com churrasqueiras. Ela pegou as sacolas e me deu bronca pela demora. Mandou subirmos para colocar biquíni e voltar para a piscina.

— Consegui fazer sua avó descer para a piscina esse ano. — titia disse feliz.

Sorri-lhe e me afastei dela para chamar o elevador. Janaína conversava animadamente com ela enquanto eu via os números do elevador trocar. Senti-me uma traidora, afinal Janaína estava na cama de minha tia hoje pela manhã. Abri a porta e logo Janaína se juntou a mim. Encostei de um lado e ela do outro.

— Você teve outras mulheres na sua vida? — não olhei-a.

— Sim, várias. — respondeu séria.

— Amou-as?

— Até hoje, amei apenas uma pessoa.

— Me amou?

— Já disse que sim.

— Tem alguma mulher na sua vida hoje?

O elevador parou, a porta se abriu e saímos.

O apartamento estava vazio, fui para o quarto de Elisa e Janaína para o de minha tia. Tirei a roupa para vestir o biquíni e percebi o quanto estava excitada. Estava apenas com a calcinha do biquíni, me olhando no espelho, quando vejo Janaína entrando nua no quarto. Abraçou-me por trás, apoiou seu rosto em meu ombro e me encarou através do espelho.

— Não tenho nenhuma mulher em minha vida.

Sua mão entrou em minha calcinha e me calou, me fez esquecer da cena daquela manhã. Sua mão percorreu meu sexo e a outra os seios. Meu desejo de ser invadida por ela estava sendo realizado, vê-la percorrer meu corpo com a mão e sentir seu dedos me tocando novamente me roubaram o fôlego. Ela conhecia meu corpo, sabia de seus segredos e não precisou de muito para me fazer gozar como uma adolescente boba e sedenta por sexo. Ergueu-me do chão e me levou para perto da cama, abaixou minha calcinha até os joelhos, me fez apoiar na cama com os braços esticados e me penetrou, agarrei o lençol para não gritar. O segundo gozo aconteceu tão rápido quanto o primeiro. Subiu minha calcinha e me abandonou enquanto me recuperava. Sentei na beirada da cama ainda atordoada. Respirei fundo e me levantei indo para o quarto de minha tia. Ela sabia que eu iria atrás dela, estava sentada na beirada da cama, ainda nua, me olhou sorrindo.

— Quer mais? — perguntou sarcasticamente.

— Quero você! — aproximei-me e a puxei para um beijo.

Deitei-a e me ajoelhei abrindo-lhe as pernas. Relembrar seu gosto foi extasiante, delicioso. Seu rebolado em meu rosto me incentivava a lambê-la com mais desejo. Seu gozo foi escandaloso, como eu me lembrava, sorri com o seu pedido de mais. Levantei, abaixei minha calcinha e encostei meu sexo no dela, nossos olhares se encontraram e logo senti seu corpo estremecer novamente. Prendeu-me junto ao seu corpo passando as pernas por volta do meu corpo. Abaixei meu corpo para perto do seu e roubei-lhe um longo beijo.

— Eu gostaria de ter como voltar no tempo e tomar outra decisão. — abraçou-me forte.

— Não podemos mudar o passado, mas podemos mudar o futuro. — beijei-lhe o rosto — Fica comigo.

— Fico. — me sussurrou.

Levantei meu corpo da cama e trouxe seu corpo comigo, ficamos em um abraço por um longo tempo.

— Vamos descer antes que sua tia venha nos buscar. — ela me soltou do abraço e foi para o banheiro.

“Minha tia, merda, estou traindo minha tia”  pensei comigo ela passou a noite com minha tia e agora me disse que quer ficar comigo, estou confusa. Levantei minha calcinha. Fiquei naquele pensamento estranho, olhei para a cama onde estávamos, era a mesma que ela passou a noite com minha tia, alguma coisa está errada. Senti Janaína me abraçando por trás.

— Se continuar sem roupa, parada no meio do quarto, vou ser obrigada a lhe atacar novamente. — me deu um tapa na bunda que me trouxe à realidade.

Virei-me, soltando-se do seu abraço, ela já estava vestida.

— Você está transando com minha tia?

Gargalhou alto.

— De onde tirou isso garota?

— Eu vi você dormindo nessa cama hoje pela manhã, estava seminua. — eu falei alto.

— Antes de pensar besteira, me escuta. — fez com que eu a olhasse — Sua tia dormiu no quarto da Elisa.

— Por que minha tia está com um sorrisinho bobo hoje?

— Isso você deveria perguntar a ela, eu não transei com ela e não pretendo fazer isso.

— Tem algo de errado nisso.

— Eu já mandei você ir se trocar e conversar com sua tia, não sei o motivo da felicidade dela. — me deu outro tapa na bunda e me beijou.

— Sua mão ainda é atrevida demais. — eu ri saindo do quarto.

— Você ainda não viu nada. — ela riu e me acompanhou.

No elevador, Janaína me agarrou e me beijou.

— Sua tia sabe sobre nós.

— Não sei se ela sabe, acho que não.

— Não foi uma pergunta, foi uma afirmação. — ela me olhou sorrindo.

— Como assim?

— Eu e sua tia estudamos juntas, nos separamos na faculdade e voltamos a nos encontrar depois que você foi para a faculdade, nos encontramos em uma festa da turma do colegial e retomamos contato. Na época, eu estava arrasada com a nossa separação, meu amor, que eu achava ser platônico e outras coisas.

— Mas ela é uma pessoa homofóbica, pelo menos tem-se demonstrado ser extremamente contra gays e lésbicas.

— Sua tia é uma boa pessoa, apesar de às vezes parecer ser homofóbica ela foi comigo em uma balada LGBT semana passada e se comportou muito bem.

— Minha tia, numa balada gay? Duvido.

Janaína riu e me abraçou.

Enquanto acontecia o churrasco eu fiquei bebendo com Renata e Elisa, Janaína ficou junto com minha tia, que não desgrudava dela, qualquer frase era desculpa para minha tia tocar Janaína, estava começando a sentir ciúme daqueles toques. Contei para Renata sobre a confusão que eu criei ao ver Janaína na cama de nossa tia, ela ficou aliviada de não termos comentado nada com Elisa.

— Esqueci de comentar com vocês. — disse Elisa em tom de confissão — Mamãe está de namorado novo.

— Ah, por isso o sorriso bobo? — eu perguntei.

— Sim! Ele é primo da Janaína, vai vir almoçar conosco amanhã.

Respirei aliviada com a notícia.

— Por que você e a Janaína demoraram tanto para pegar a encomenda no açougue? — Renata me cutucou.

— Tínhamos muita coisa para conversar. — disse séria.

— Conversar? Sei! — Elisa riu.

Peguei um cigarro e me afastei das duas, senti olhares sobre mim, Janaína me olhava do outro lado da piscina, coloquei o cigarro na boca e acendi. Renata e Elisa se aproximaram, Elisa roubou meu cigarro e tragou-o.

— Vocês transaram?

— Sim! No seu quarto. — encarei-a rindo.

— Vaca! — ela riu alto — Vou ter que trocar o lençol?

— Não, nem mexi na sua cama, não sou besta. — eu ri pegando o cigarro de volta.

— Como foi? Depois de dezesseis anos deve ter sido estranho. — perguntou Renata.

— Foi como sempre foi, delicioso. — eu sorri procurando por Janaína do outro lado da piscina, não estava mais lá — Parece que nunca nos separamos. — traguei o cigarro.

— Você perdoou ela? — Renata roubou o cigarro da minha mão.

Eu sorri antes de responder e traguei o cigarro mais uma vez.

— Eu perdoei e isso já faz alguns anos.

— Como você perdoou alguém que te abandonou? Você sofreu um monte. — disse Elisa

— Eu apenas perdoei, não sei como, mas perdoei.

Minha tia nos assustou.

— Vocês deveriam parar de fumar essa porcaria. — disse rindo — Quem você perdoou, querida? — olhou-me com cumplicidade.

— Você sabe a resposta dessa pergunta. E esse sorrisinho bobo de hoje? Não ia contar do novo affair? — sorri-lhe.

Ela riu alto e me olhou, estava levemente alcoolizada.

— Amanhã todo mundo vai conhecer ele.

— Por que convidou a Janaína para o Natal?

— Você sabe a resposta dessa pergunta. — ela me piscou e se afastou.

Traguei o cigarro e vi minha tia voltando.

— Considere um presente de Natal e um pedido de desculpas. — sussurrou em meu ouvido e foi para o banheiro.

Janaína estava sentada em uma espreguiçadeira de biquíni, na beira da piscina, os anos judiaram um pouco do seu corpo, mas nada que me tirassem o desejo de tê-la. Afastei-me das minhas primas depois de apagar o cigarro e jogar a bituca no lixo. Mergulhei na piscina e apareci ao lado de Janaína, que estava me olhando quando abri os olhos. Sentei na borda da piscina ao lado da cadeira, me ofereceu um gole da caipirinha que estava tomando.

— Por que não me contou sobre minha tia e seu primo? — tomei um gole.

— Porque não é da minha conta ficar fofocando da vida dela.

— Por que você foi convidada para esse Natal?

— Porque eu pedi.

— Pediu? — encarei-a brava.

— No dia em que fomos à boate, eu estava chateada, faziam alguns meses que havia perdido minha mãe, bebi mais do que devia, falamos sobre família, sobre passado e arrependimentos. Ela me mostrou uma foto sua com a Elisa e instintivamente me imaginei no lugar dela. — me olhou — Sua tia me disse que não se lembra de ver você feliz depois da faculdade e que Elisa confidenciou que você sofre de coração partido.

— Elisa é exagerada e fofoqueira.

— Eu queria uma chance de me desculpar.

— Você disse que não sabe o que sente depois desses anos.

— Eu menti, eu sei muito bem o que sinto, sempre soube.

— Você disse que amou depois da nossa separação.

— Eu disse que amei apenas uma pessoa.

— Por que demorou dezesseis anos para me procurar? — bebi mais um gole.

— Eu me mudei e segui minha vida, por algum motivo, achei que você estava fazendo o mesmo. Por que não me procurou?

— Eu fiz o que me mandou, saí da sua vida, você me pediu para não procurá-la, pediu para eu esquecê-la. — estava me segurando para não chorar.

— Você nunca foi obediente, por que resolveu ser desta vez?

— Você me convenceu de que eu não era nada na sua vida, apenas mais uma aluna tonta e curiosa. Você me convenceu de que o que vivemos foi um enlace proibido entre aluna e professora. Você me convenceu de que eu nunca seria o suficiente para você. — enxuguei uma lágrima — Só Deus e minhas primas sabem o quanto me segurei para não te ligar, para não pegar um ônibus e ir atrás de você. Só eu sei o que sofri quando você me mandou embora da sua vida.

Aquela conversa estava me angustiando, me deprimindo, me matando aos poucos. Falar sobre o passado com o seu passado dói. Devolvi o copo para ela. Até aquele instante só tinha conseguido pensar nos bons momentos, mas tivemos brigas e discussões. Olhei-a e me levantei, estava chorando, vi que Renata nos olhava e Elisa também, prontas para atacar, como cães. Janaína também se levantou. Olhei-a com o rosto cheio de lágrimas, me afastei e vi meu primo, irmão de Renata, vindo correndo em minha direção, não consegui reagir, me agarrou e pulou na piscina agarrado a mim. Enquanto meu corpo afundava com o peso do meu primo em cima de mim, abri os olhos e vi uma imagem turva de Janaína me olhando. Tive vontade de continuar ali embaixo, não queria me mover, cada milímetro cúbico daquela piscina poderia me absorver e me afogar, pois eu não me importaria. Ainda via sua imagem turva. Senti meu corpo encostando suavemente no chão e algo bruto me puxando para fora daquele pensamento, era meu primo me puxando para cima, me tirando do fundo da piscina.

— Imbecil. — dei um tapa na cara dele e tentei sair da piscina o mais rápido que pude.

— Que bicho te mordeu, Izabela? — me segurou pelo braço.

As lágrimas se misturavam com a água da piscina e mesmo sem saber o que estava acontecendo ele me abraçou. Era um dos primos mais novos, ele não sabia muito da minha vida, mas sabia de duas coisas importantes, que eu não chorava por qualquer coisa e que eu odiava chorar na frente da família. Janaína entrou na piscina e se aproximou. Ele ainda me abraçava. Olhei-a com raiva.

— Não!

Ele olhou-a e ficou mais perdido do que antes. Ela continuou se aproximando, ele afrouxou o abraço, ela se aproveitou e me puxou para perto de seu corpo. Tentei me afastar, ela continuou andando abraçada a mim.

— Me solta. — sussurrei.

Ela continuou andando até me pressionar contra a parede da piscina.

— Me solta! — queria gritar, mas não podia.

— Eu te amo! — ela sussurrou

— Não!

— Eu quero você!

— Não.

Agradeço por minha família ser distraída, barulhenta e que todos estavam bêbados, pois assim, ninguém fora da piscina estava vendo aquela cena.

— Me solta! — tentei empurrá-la.

Renata entrou na piscina puxando Janaína para longe, que ainda me encarava.

— Eu estou falando sério.

Sentei na borda da piscina, Renata soltou-a, levantei-me e escutei Renata falando para Janaína se afastar de mim.

Eu peguei uma toalha e saí dali, voltei para o apartamento de minha tia, tomei um banho e deitei na cama de Elisa. No dia em que Janaína me chamou para ir a sua casa, pois tinha algo importante para conversarmos, fui feliz, achando que finalmente ela iria me chamar para morar com ela. Quando cheguei em seu apartamento, ela estava sentada no sofá e ao lado havia uma caixa com algumas roupas que eventualmente eu esquecia na casa dela. Olhou-me e pediu a chave da porta da frente de volta. Ela apenas disse: “O que tivemos foi um erro, não podemos continuar com isso, quero que não me procure mais. Vá embora da minha vida, eu não te amo e não te quero mais.” Eu não argumentei, sempre achei que um dia talvez isso fosse acontecer. Abri minha mochila e peguei um presente que havia comprado para ela, rasguei o papel, joguei no seu rosto. Era um porta retrato, tirei a foto de dentro e rasguei-a em mil pedaços e joguei para cima. Saí de sua casa e saí de sua vida assim como pediu. Depois de chorar relembrando do passado, adormeci.

 

Acordei com o barulho da minha família voltando do churrasco, estava na hora de começar a preparar a ceia, olhei o relógio, eram seis da tarde, estava na hora de vestir a máscara natalina de todo ano. Esse ano será um pouco mais difícil, afinal minha máscara está quebrada, minha pose de mulher forte foi desfeita. Definitivamente, não perdoei Janaína pelo que passamos, pelo que passei, pelo abandono que sofri, mas eu quero estar com ela, e esse conflito me perturba. Minha tia entrou no quarto e sentou ao meu lado.

— O que está acontecendo?

— Dezesseis anos de silêncio é muito tempo para se consertar em uma tarde.
— Não se esqueça que você também ficou quieta.

— Ela me pediu para sair da vida dela.

— Eu sei. E eu sei o quanto ela sofreu tomando a decisão que tomou.

— Por que nunca me disse nada?

— Eu não podia me meter, na época eu não achava isso certo.

— Hoje você acha?

— Estou aprendendo a achar. — sorriu-me — O Alex está me mostrando um novo mundo. Ele é bissexual e está me tirando preconceitos que sempre tive sobre o mundo LGBTQI. — sorriu-me novamente — Vamos, temos muito o que fazer até a meia-noite. — levantou-se me puxando.

Entrei na cozinha e Elisa estava picando cebola, fiquei ao seu lado, estava chorando.

— Não precisa chorar, cheguei. — eu disse rindo.

Ela me olhou rindo e olhou em volta.

— Conversei com sua professora. — encarou-me — Acho que ela merece uma chance de te reconquistar.

— Ela não precisa me reconquistar. — sorri-lhe e saí da cozinha.

Entrei no quarto da minha tia, fechei a porta na esperança de achar Janaína, mas ela não estava ali, estava tomando banho. Sentei na cama, sua bolsa estava aberta jogada no meio da cama, olhei-a e fiquei curiosa. Levantei uma parte para ver o interior da bolsa e vi um envelope com meu nome, peguei-o. Minhas mãos tremiam, abri-o e tirei uma carta de dentro, estava cuidadosamente dobrada escondendo uma foto, a mesma foto que rasguei há dezesseis anos atrás. Estava remendada com fitas adesivas transparentes, atrás estava escrito com minha letra de forma horrível, um trecho de um poema de Fernando Pessoa:
“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.”

Abri a carta para lê-la:

“Izabela,

 

Essa é apenas uma carta ridícula, pois é uma carta de amor. Não poderia deixar passar mais um ano, mais um mês, mais uma semana, mais um dia sem tentar conversar com você. Pedir para sua tia me convidar para passar o Natal com a sua família, foi um ato desesperado para remendar o passado. Os destroços de um coração não se remendam com fita adesiva, muito menos com facilidade. Por anos eu guardei os pedaços dessa foto nesse envelope, por anos resisti em lhe contactar, por anos sofri sozinha imaginando-a feliz ao lado de uma garota qualquer. Várias vezes peguei essa foto e montei ela sobre a mesa relembrando um passado que eu deixei morrer por ser medrosa. Montava e desmontava como um quebra-cabeça que eu mesma inventei, um quebra-cabeça que não precisava existir, mas existiu. A última vez que montei essa foto, foi dia vinte de abril deste ano, uma data que, para você, não vai significar nada, mas foi o meu primeiro dia de aula na escola onde você estudava. Foi o dia que chamei seu nome pela primeira vez e nunca mais quis deixar de chamar, um amor que, para mim, era platônico até o dia em que você invadiu o banheiro dos professores e nos beijamos pela primeira vez. Nesse dia, passei fitas adesivas para que ela não se desmontasse novamente.

Todas as mulheres que passaram pela minha vida, não tiveram o significado que você teve e ainda tem. Em todos os beijos eu procurei o seu, todos os corpos eu quis que fosse o seu, mas minha fraqueza, meu orgulho, meu medo, venciam o desejo de tê-la.

Se você está lendo esta carta, é porque não consegui convencê-la a conversar ou porque você mexeu na minha bolsa atrás de cigarro como sempre fazia.

Enquanto estávamos juntas eu te amei e enquanto estávamos separadas eu te amei mais ainda. Espero que algum dia você me perdoe.

 

Sempre sua,

Janaína”

 

— Parece que velhos hábitos não são perdidos facilmente. — Janaína me assustou, parada perto da porta do banheiro.

Olhei-a, estava com os cabelos molhados, enrolada em uma toalha e eu com lágrimas nos olhos. Coloquei a carta na cama e peguei a foto, fiquei olhando-a. Foi nossa primeira foto juntas, estávamos em um parque e pedimos para um desconhecido tirá-la. Ela se aproximou e sentou-se na minha frente, delicadamente roubou a foto da minha mão e me fez olhá-la.

— O que fez você ter essa coragem repentina de se convidar para o Natal da minha família?

— Ver seu sorriso na foto com a Elisa. — beijou-me a boca devagar.

— Só isso? Um sorriso e uma foto?

— Eu sinto saudade de você desde sempre, a foto só confirmou tudo o que eu sinto.

— O que você sente? — sorri-lhe.

— Eu te amo. — passou a mão pelo meu pescoço me puxando para um beijo — Não quero mais ficar longe. — disse entre um beijo e outro — Eu faço qualquer coisa para ficar com você. — beijou-me com desejo.

— Cuidado com o que você fala. — segurei seu rosto, encarando-a.

— Eu não iria demorar dezesseis anos para brincar com seus sentimentos novamente. Eu faço qualquer coisa por você, Izabela. Qualquer coisa.

— Até se mudar comigo para o Canadá?

Ela franziu a testa sem entender minha pergunta.

— Estou com uma oferta de emprego no Canadá, preciso responder até dia vinte e sete de dezembro.

— Eu vou com você.

Eu franzi a testa sem entender sua resposta.

— Eu disse que faço qualquer coisa para estar com você. — puxou-me para um beijo.

— Vai largar sua vida para sair correndo do Brasil atrás de mim? — perguntei brava.

— Izabela, eu não vou cometer o mesmo erro duas vezes. Se você disser que preciso me mudar para a China para estar ao seu lado, eu me mudarei.

— Janaína, não me faça promessas que não serão cumpridas.

— Alguma vez eu lhe prometi algo e não cumpri?

— Não!

— Eu vim para esse Natal para lhe ter de volta, eu vim com todas as certezas do mundo que preciso estar ao seu lado e é isso que vou buscar fazer. Canadá é um país ótimo para se morar.

Comecei a pensar racionalmente no que estava acontecendo ali, naquele quarto, naquela cama. Eu acabei de chamar uma mulher que eu não via há, exatos, dezesseis anos para se mudar de país comigo, para dividir uma casa, uma vida e talvez, um dia, ter um cachorro. Não podia estar no meu juízo perfeito, era irracional fazer isso. Confesso que minha paixão pela Janaína foi intensa e nunca me esqueci dela, ninguém nunca superou-a, nem no amor, nem na cama.

— O que está pensando? — tocou meu rosto.

— Que isso tudo é irracional, insensato, louco, fora do padrão.

— Alguma vez, nós fomos o padrão de alguma coisa?

Encarei-a sorrindo.

—  Eu não tenho mais dezoito e você não tem mais trinta, estamos dezesseis anos mais velhas, é como se nos conhecêssemos hoje e amanhã já vamos mudar de país.

— Você quer conhecer a Janaína dezesseis anos mais velha?

Eu esqueci completamente que havia um Natal a ser preparado, que havia uma família fora daquele quarto, eu só queria ficar ali, divagando sobre nosso futuro e nosso passado. Eu estou sendo medrosa pensando em tudo o que estou pensando, mas e se não fossemos mais as mesmas? Se estivermos presas a imagens que criamos do passado, coisas que achamos que é bom, mas não é.

— Eu estou com medo de não sermos mais as mesmas pessoas que éramos. — disse.

— Não somos. Quando sua tia me mostrou a sua foto, eu reagi da mesma forma que reagi quando falei seu nome pela primeira vez e lhe vi sentada naquela carteira em sala de aula.

— Reagiu como?

— Ficando sem ar. Se aceitar a proposta vai se mudar quando?

— Tenho que estar lá até dia vinte e dois de janeiro.

— Eu sei que você tem um monte de coisa para arrumar até o dia de viajar, mas vou lhe fazer uma proposta mesmo assim. Fica comigo essa semana, até a virada do ano, vai ser um tempo para nos conhecermos novamente.

— Ok. Aceito ficar, com uma condição.

Olhou-me curiosa.

— Nada de roupas.

Puxou-me para um longo beijo enquanto sorria.

Aquela reconciliação não estava nos meus planos, nem na lista de pedidos para o papai noel, mas eu adorei o presente. Saímos do quarto e nos juntamos à Elisa e Renata que estavam na varanda bebendo. Parei em pé na frente delas, Janaína discretamente pousou a mão na minha cintura e beijou minha cabeça dizendo que ia ajudar minha tia. Elisa abriu um largo sorriso vendo a cena e Renata franziu a testa.

— Você não está falando sério, vocês voltaram?

— Vamos fazer um teste de uma semana.

— Ah, claro, uma semana será o suficiente?

— Se for tão intenso quanto foi a primeira vez, será.

— E se der certo? O que vai fazer com o Canadá?

— Levá-la junto.

— Louca! — Renata falou alto — Você é louca! — falou mais alto ainda chamando a atenção de quem estava por perto.

Minha tia, mãe de Renata olhou-a brava e eu dei de ombros.

A minha concepção de Natal foi outra, comecei esse relato com raiva, mas naquela noite, eu via luzes piscando sem ao menos entender o porquê, descobri o motivo dias depois. Eu estava entregue à Janaína novamente, mesmo morrendo de medo, estava vendo o mundo como eu via na adolescência.

A troca de presentes no famoso amigo secreto não foi tão doloroso, até consegui me divertir. A ceia foi tranquila, diferente de outros anos, onde houveram discussões políticas, brigas familiares ou era eu quem estava diferente alheia a tudo e todos só tendo olhos para uma pessoa? Janaína sentou na minha frente, meu pé, descalço, lhe fez carinho na perna a noite toda, nossos olhares não se desgrudavam, parecia que tínhamos voltado naquela tarde de terça-feira chuvosa, naquele restaurante perto da escola. Eu queria beijá-la o tempo todo, queria matar dezesseis anos em dezesseis minutos. Ela, de todos, era a única para quem eu olhava e a retribuição era na mesma intensidade. Depois da ceia e das tradições familiares e natalinas fui raptada por Janaína, saímos pela saída social e nos beijamos enquanto o elevador chegava. Entramos no elevador e ela me puxou para um abraço e só me soltou quando o elevador chegou ao estacionamento. Saímos abraçadas lado a lado.

— Onde vamos? — olhei-a.

— Para minha casa. — sorriu.

— Por que dormiu na casa da minha tia? — perguntei brava.

— Ontem saímos para beber, eu, ela, Alex e mais alguns amigos, bebi demais e eles acharam mais prudente eu dormir aqui. — ela sorriu.

— Você não tem mais idade para ficar de porre. — eu disse brava.

— Na verdade, a frase correta seria “Você não tem mais motivos para ficar de porre” — olhou-me rindo.

— Eu sou esse motivo? — perguntei brava.

— Era. — riu — Eu estava nervosa com a festa e o reencontro, extrapolei nas doses. — ela me puxou para um beijo.

Eu entrei no carro, procurei um cigarro no porta-luvas, Janaína abriu o porta mala e tirou algo de dentro, entrou no carro e me entregou um pacote. Olhei-a curiosa, acendi o cigarro, passei para ela e tirei a fita que envolvia a caixa. Abri devagar, era um livro, li o título “Lugares fantásticos para se conhecer no Canadá” e a olhei brava.

— Você sabia?

— Sim!  —  sorriu-me.

Puxei seu rosto para perto do meu e a beijei agradecendo. Terminamos o cigarro em silêncio, olhando-nos.

Ligou o carro e eu liguei o rádio, estava tocando “One” do U2, a voz do Bono cortou o silêncio, arrepiando-me, paralisando-me, pois de certa forma ele falava diretamente comigo. A música já estava começada e o trecho foi certeiro

“Well, it’s too late, tonight

To drag the past out into the light

We’re one, but we’re not the same

We get to carry each other, carry each other

One”

(Bem, é muito tarde, esta noite

Para trazer o passado à tona

Somos um, mas não somos o mesmo

Temos que cuidar um do outro, cuidar um do outro

Um)

Olhei Janaína que prestava atenção na saída do prédio e parecia estar alheia à música, aquela música nunca tinha me feito tanto sentido quanto naquele momento.

“Have you come here for forgiveness?

Have you come to raise the dead?

Have you come here to play Jesus

To the lepers in your head?

Did I ask too much, more than a lot?

You gave me nothing, now it’s all I got

We’re one, but we’re not the same

Well, we hurt each other, then we do it again”

(Você veio aqui para perdoar?

Você veio para ressuscitar os mortos?

Você veio aqui para bancar Jesus

Para os leprosos da sua cabeça?

Eu lhe pedi muito, mais do que bastante?

Você nada me deu, agora é tudo que tenho

Somos um, mas não somos o mesmo

Nós nos machucamos e aí fazemos de novo”)

Ela me olhou, como se entendesse o que eu estava pensando.

— Isso não é música para se ouvir na noite de Natal.

Mudou a estação do rádio e voltou a prestar atenção na direção.

— Nós vamos nos machucar de novo? — desliguei o rádio.

— Não pretendo lhe machucar e você? Pretende me machucar? — pousou sua mão em minha perna.

— Também não. — coloquei minha mão sobre a sua.

O percurso até sua casa demorou quase uma hora, sempre me esqueço que tudo na capital é longe. Enquanto íamos, eu brigava com meu sono, sua casa era em um bairro aparentemente tranquilo, eu me entreguei ao sono no meio do caminho e acordei com o carro encostando para esperar o portão abrir, o rádio estava ligado novamente, tocava algo que não reconheci, Janaína estava com aparência de cansada, sua mão estava sobre minha perna, segurei-a e beijei-a, ela me olhou e sorriu. Entrou com o carro na garagem e apertou o controle para fechar.

Entramos pela sala, segurou minha mão e me guiou para subirmos a escada até o seu quarto. Algumas sensações de arrependimento tomaram conta do meu corpo, eu estava prestes a me reconciliar com uma mulher que me abandonou por medo, quais as chances de isso dar certo? Eu me perguntava a cada degrau. Cada degrau eu demorava mais para passar para o próximo, até estagnar no meio do caminho. Janaína me olhou sem entender meu empacamento. Olhei-a, provavelmente com cara de choro, e ela me abraçou.

— Vai dar tudo certo, se quiser posso dormir na sala. — fez com que a olhasse.

— Tenho sentimentos conflitantes ao seu lado. — olhei-a.

— Eu também tenho. — abraçou-me novamente.

Continuou a subir a escada e eu a segui, entrando no quarto um arrepio me percorreu a espinha dorsal. Era semelhante ao antigo quarto dela, lembrei-me da nossa primeira noite de sexo, jantar, champagne, roupas espalhadas pela sala, algemas, brinquedos… No presente ela se aproximava procurando minha boca para um beijo, no passado ela procurava meu sexo. No presente beijei-a com desejo, no passado gemi de prazer. Beijamo-nos com desejo e meu corpo reacendeu a fogueira que eu tinha quando estava ao seu lado, tirei nossas roupas com pressa juvenil e a deitei na cama, olhei seu corpo nu me chamando e não resisti. Minha mão queria avançar por todos os centímetros dela, minha boca queria senti-la, eu estava eufórica em tê-la em sua cama, assim como no passado. Seus gemidos me incentivavam a explorá-la e os espasmos corporais me diziam que eu estava fazendo certo. Seu gozo foi um chamado pelo meu nome e reações de espasmos pelo corpo. Seu sexo me chamava para mais uma rodada de beijos, lambidas e leves mordidas, não recusei e logo seu corpo estava me respondendo com um êxtase silencioso e sem fôlego. Virei-a de bruço e segurei seus braços para trás, afastando-lhe as pernas. Ainda estava ofegante, minha mão lhe invadiu e lhe arrancou longas respiradas. Suas mãos lutavam para serem soltas, apertei-as com mais força e seu corpo reagiu com excitação, seu gozo foi abafado pelo contato com o colchão, seu corpo estava mole, soltei as mãos que caíram ao lado do corpo ofegante. Beijei-lhe a lombar e seu corpo se contraiu. Deitei ao seu lado passando a mão por suas costas. Virou-se de frente para mim, as palavras eram desnecessárias, sorriu-me e me puxou para um longo beijo. Percorreu com a boca meu pescoço, colo, seios, ventre e se perdeu em meu sexo. Um gozo arrebatador estava quase acontecendo, tentei me acalmar para aproveitar mais o momento, ter mais alguns segundos, não obtive êxito e gozei agarrando o lençol, assim como gozei em nossa primeira noite no passado. Eu estava ofegante, queria me acalmar, mas Janaína não era mulher de deixar as outras se acalmarem. Sua boca percorreu meu sexo novamente e outro gozo percorreu meu corpo. Janaína continuou, eu implorei para que parasse, ela continuou e meu corpo lhe agradeceu com mais um êxtase. Eu estava ofegante, jogada na cama sem reação, Janaína deitou ao meu lado me sorrindo. Sua mão me acariciava e esperava minha respiração voltar ao normal. Minhas preocupações com o futuro foram deixadas do lado de fora do quarto e eu aproveitei a noite em seus braços. Ficamos nos olhando, eu misturava o passado com o presente e tentava entender como ficamos separadas por tanto tempo.

 

No outro dia de manhã, vinte e cinco de dezembro, acordei sozinha, minha roupa tinha sumido do quarto, levantei, peguei um cigarro que estava sob o criado-mudo, acendi-o e fui em busca dela, desci a escada e passei pela sala na direção da cozinha, lavanderia, saí no quintal e me deparei com uma casa vazia, uma piscina e o sol quente. Voltei para a cozinha e abri a geladeira em busca de água, ao lado da jarra havia um bilhete: “Tome banho, logo estarei de volta.” Voltei para o quarto, entrei no banheiro e tomei um longo banho tentando não pensar em nada, mas foi impossível não lembrar do dia seguinte da nossa primeira transa, também acordei sozinha e sem saber onde estava minha roupa.

Estava saindo do banheiro quando escutei seu carro entrando na garagem, ainda não tinha achado minha roupa e seu guarda-roupa estava trancado. Desci as escadas devagar enquanto ela entrava na casa, estava com uma sacola na mão e óculos escuros no rosto, me olhou sorrindo retribui o sorriso e continuei descendo. Ela tirou o óculos e colocou na cabeça como uma tiara, trancou a porta. Parei antes dos últimos degraus e ela encarou meu corpo com desejo.

— Está com fome?

Não respondi, apenas balancei a cabeça afirmando. Esticou a mão, segurei-a, fomos para a cozinha. Eu não acreditava que ela estava reproduzindo nossa primeira manhã juntas. Andamos de mãos dadas até a cozinha, ela colocou a sacola na pia e me puxou para um beijo.

— Eu também estou com fome. —  sussurrou-me.

Eu sorri sabendo que aquela frase tinha duplo sentido. Ela me agarrou para outro beijo e me ergueu do chão me sentando na mesa de madeira. Sorriu-me e eu instintivamente abri minha perna puxando seu corpo para perto do meu. Beijou-me e passou a mão no meu sexo.

— Saudade do seu corpo. — beijou-me e me deitou na mesa.

Novamente entregue à confusão de passado e presente que ela me provocava, no passado eu era uma adolescente virgem, impressionável e boba, hoje sou apenas boba, apesar de ainda me impressionar com facilidade. Sua boca me trouxe de volta para o presente, meu sexo lhe recebeu com saudade e tesão, meu corpo reagiu como uma adolescente virgem e eu sussurrei seu nome enquanto sua boca me lambia. O gozo foi incontrolável e na falta dos lençóis apertei a lateral da mesa de madeira segurando os tremores corporais que ela me causava. Se afastou me deixando sôfrega. Sentei-me e ela estava abrindo a sacola que estava na pia, observei-a começar a fazer um lanche para nós, levantei-me e a abracei por trás, minha mão entrou em sua calcinha sem pedir licença fazendo-a sorrir. Beijei-lhe o pescoço. Meus dedos lhe arrancavam gemidos e sussurros com mais facilidade do que no passado. Muitas vezes ela me guiou para que eu fizesse certo, hoje parece que meus dedos não esqueceram seus ensinamentos. Seu corpo reagia com tesão e seu êxtase foi intenso. Abracei-a para se acalmar, virei-a de frente e a beijei.

 

Comemos sentadas na sala conversando amenidades e minha mãe me ligou querendo saber que horas iria voltar para o almoço. Eu não queria voltar, sair daquele ninho de amor, ver meus familiares, almoçar algo que não fosse o corpo de Janaína. Eu estou novamente entregue ao seu charme, sou sua novamente e eu só consigo escutar Renata me chamando de louca.

Fomos para o almoço na minha tia, conheci Alex, um homem com ideais e ideias perfeitas para mudarem minha tia, minha mãe, minha família. Um homem bissexual ativista do movimento transgênero, uma raridade de se encontrar nos dias de hoje.

Aquele Natal estava sendo um sonho, uma fuga de todas as realidades que havia criado para a data. Renata me chamou de louca mais uma quinhentas vezes naquele dia, Elisa me deu os parabéns por estar tentando e minha tia me pediu desculpas por todas as vezes que foi ausente nos meus problemas sentimentais. Estava com medo de acordar no dia vinte e seis e descobrir que era tudo mentira, que nada havia acontecido e que tudo o que se passou tinha sido apenas um sonho de bêbada. Aquele dia vinte e cinco, foi especial, foi mágico, como todo Natal deveria ser ou tentar ser. Dizem que o Natal é época de perdão e renovação, de buscar paz de espírito e amor na família e nos amigos, mas, infelizmente, nunca havia me sentido assim. Nunca vi a época natalina com bons olhos, sempre achei ridículo e desnecessário todos os rituais, enfeites e tradições, mas isso era porque eu não estava, internamente, pronta para entender o amor que acontece no dia de Natal. Minhas frustrações e raivas eram maiores do que minha capacidade de ver as mudanças cósmicas que ocorrem no Natal.

No fim daquele Natal, minha mãe estava se despedindo de mim, ainda chateada pelo fato de eu ir para a casa da Janaína e não voltar com ela para o interior, mas minha mãe tem um coração que é maior do que ela imagina. Ela iria voltar de ônibus, pois não queria arriscar a estrada em volta de feriado. Despedimo-nos e minha tia e Alex foram levá-la até a rodoviária. Todos os outros já tinham ido embora, só restava eu, Janaína, Renata e Elisa, eu estava no parapeito da sacada vendo o entardecer, Renata e Elisa estavam sentadas na mesa fofocando algo sobre Alex, na sala o rádio estava ligado e começou a tocar “Are you ready for love” do Elton John e eu senti Janaína me abraçando por trás beijando meu rosto, senti-me pronta para amar.

“Catch a star if you can

Wish for something special

Let it be me, my love is free

Sing a song to yourself

Think of someone listening

One melody, you’re all for me

 

I’ll write a symphony just for you and me

If you let me love you, I’ll paint a masterpiece

Just for you to see

If you let me love you, let me love you

 

Are you ready, are you ready for love

Yes I am

Are you, are you ready, are you ready for love

Yes I am

Are you, are you ready, are you ready for love

 

You’re the one like the sun

Shine your love around me

You’ll always be the one for me

 

Say the word and I’ll be there

Loving you forever

Don’t let me go

Just say it’s so

 

We’ll hear the music ring from the mountain tops

To the valley below us

We’ll serenade the world

With a lullaby so the angels will know us

Angels will know us”

 

(Apanhe uma estrela se você puder

Deseje algo especial

Deixe estar, meu amor é livre

Cante uma canção para você mesmo

Pense em alguém ouvindo

Uma melodia, você é tudo para mim

 

Eu escreverei uma sinfonia apenas para você e eu

Se você me deixar amar você, eu pintarei uma obra prima

Só para você ver

Se você me deixar amar você, deixe-me amar você

 

Você está pronto, você está pronto para amar

Sim eu estou

Você está, você está pronto, você está pronto para amar

Sim eu estou

Você está pronto, você está pronto, você está pronto para amar

 

Você é único como o Sol

Brilhe seu amor ao meu redor

Você sempre será o único pra mim

 

Chame e estarei lá

Te amando pra sempre

Não me deixe partir

Apenas diga que é assim

 

Nós ouviremos a música tocar do alto das montanhas

Em direção ao vale sob nós

Nós cantaremos serenata ao mundo

Com uma canção de ninar para que os anjos nos conheçam

Anjos nos conhecerão)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alice Reis

Alice Reis

Casada, capricorniana e cheia de ideias na cabeça!
Acesse meu blog e saiba mais sobre minha vida e meus pensamentos:
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