Mignon

Mignon

Um rapaz de linho antigo avança pelo rio…

És tu, minha amada?

Convoco-te

No incauto exercício da Memória:

Sabores de suor

A pele transida na fímbria do universo

A vida e a língua equilibrando-se no gume da lucidez

Transbordando as nossas águas já quase sem terra para humedecer

Meu corpo desidratado no teu

E tu em mim quase exígua de desejo

As línguas loucas no sexo

Mãos como mapas de abril

Abrindo territórios selvagens

Por entre todos os membros

Pés, joelhos, pernas

E a vida toda desmembrada, passo a passo, naquele quarto.

Uma romã…

Queria eu recordar

Como o fruto mais difícil de comer

Demorado

E o suco

Escorrendo entre seus seios

Na noite negra da cidade

Os teus cabelos húmidos que me sufocavam

Como me sufoca agora a garganta seca da memória.

Comi o deserto para poder recordar-te

Quando toda a água já se evaporou dos nossos corpos.

E agora fico aqui,

Com um nó intocável

Em parte nenhuma do corpo

Que já não existe

 

Ana Horta

 

 

 

 

 

Ana Horta
Ana Horta

Latest posts by Ana Horta (see all)

  • Mignon - 5 de novembro de 2017

4 Respostas para Mignon

Deixe um comentário

Este site apresenta conteúdo erótico, sendo indicado somente para maiores de 18 anos. Permanecendo no site, você afirma ter idade requerida, eximindo a administração do Lesword de qualquer responsabilidade legal mediante a quebra das leis de Censura e de Proteção ao Menor e Adolescente. Literatura Lésbica. Cultura Lésbica. Histórias Lésbicas.