Passio

Passio

Maria olhou o vidro.

O tecido do cortinado pendia emitindo uma luz diáfana.

À janela fechada, detinha-se, muda, redonda.

Recebia o reflexo roxo do vestido, os cabelos castanhos caídos, os dedos longos voando múltiplos, altos nas direções várias, as mãos sem se saberem.

Atrás de si, os móveis da casa refletidos sustentavam-na,

envolviam-na, permitindo-lhe a imobilidade sentada da visão.

Olhou uma pequena cruz em cima da cómoda.

Objeto antigo, petrificado, por vezes subitamente vívido pelo brilho da prata.

Depois, a jarra das flores: lírios abertos em bocas seguras e tristes.

Os caules hirtos, também eles seguros naquela elevação trágica.

Sábia?

Um pombo pousara no peitoril do outro lado do vidro.

Pousara…ou caíra, ferido que estava debaixo de uma das asas, a pata levantada.

E a asa aberta mostrando uma chaga redonda de sangue escuro, ainda com alguma penugem a cobri-la.

O pescoço torcido, talvez olhando a dor.

Maria olhou tudo isto, atenta, sentada.

Segura, com a cabeça envolta em névoa e quietude.

Deixava-se estar à janela, o corpo dobrado em imagens.

O perfume dos lírios invadia-lhe as narinas, espalhara-se em vapor pelo cérebro, saindo-lhe depois pelos ouvidos em escuta.

Verónica deveria telefonar naquela tarde.

O vidro refletia, agora, sucessivamente, o volume roxo do seu corpo, talvez alguns traços lívidos do seu rosto, o silêncio negro do telefone e a porta entreaberta do quarto.

A cama desfeita, o cheiro de Verónica ainda exalando das marcas do seu corpo desenhadas no lençol.

E Maria esperava escutando, sentada.

Pusera um disco: Bach, A Paixão Segundo S. Mateus. “Blute nur, du liebes Herz”!

O telefone calado.

Pensou que deveria cuidar do pássaro ferido, abrir a janela, trazê-lo para dentro de casa, tratar-lhe das mazelas, alimentá-lo.

Talvez o tivesse feito se o tempo não lhe aparecesse, hoje, de tal modo cinzento e viscoso, quase suspenso do outro lado do vidro.

O que se passava no exterior dava-lhe apenas lugar a um luto apático.

Revolvia-se quieta no calor da espera.

Sentia-se incapaz de um gesto, qualquer gesto que não o de olhar sossegada para dentro.

Os reflexos.

Na textura dos móveis, os veios da madeira a sobressaírem, apesar do cinzento da tarde, criando formas retorcidas e brutais.

A madeira ia adquirindo essa tonalidade brutal, já com a memória embutida.

Havia também brancos súbitos, brilhos, que lhe feriam somente uma parte do olho, a parte branca, a que nada via, apenas recebendo a lisura vazia da luz baça.

E ouvia: de uma orelha a música, da outra o silêncio.

Esperava.

O dia declinava.

Lá em baixo na rua, as pessoas arrastavam os passos, a caminho ou de regresso não se sabe de onde.

A música invadia-lhe a sala juntamente com o silêncio do telefone.

“Geduld”! Também esta acabaria por se silenciar.

Olhou novamente o estado do pássaro.

Parecia procurar debicar a asa ferida, mas já o sangue lhe secara nas penas.

Depois, repousou o pescoço dorido, descansando, pronto para a partida.

Fechou levemente os olhos sabendo-se só.

Encolheu-se um instante, abandonou a si mesmo a asa doente e largou num voo débil.

Inverosímil!

Ana Horta
Ana Horta

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