XL – Ponto Final

XL – Ponto Final

(Julho de 2022)

Ela dá um beijo na testa dos dois filhos nos carrinhos e entra na sala, sabia que se não fizesse isso teria pesadelos, o homem estava sentado de costas, a pedido de Paloma não estava algemado, sua esposa estava mais atrás, ela apoiou na decisão, também sentia que precisavam fazer aquilo.

– Filha… – Ele diz assim que ver as duas entrarem na sala. Sua aparência era deplorável, cabelos raspados, olheiras e corpo magro, muito diferente do grande empresário de antes, André Marrie estava em seu pior momento.

– Olá pai.

Ela fala fria e dá a volta na mesa, deixando os dois pequenos no carrinho, eles dormiam tranquilamente. Paloma respira fundo e sente a mão da esposa na sua, era só desse toque que precisava.

– Eu…. eu não sei ao certo o que estou fazendo, mas… sinto que se não fizesse iria me arrepender, então…. eu os trouxe para você conhecê-los, eles são seus netos, então… só olhe para eles, assim terei minha consciência tranquila.

– Eu… obrigado querida, sei que não mereço, mas… eu amo você filha, e mesmo que não acredite, eu os amo também, são parte de você, para mim já basta. – Ele fala emocionado, levanta e fica de frente para o carrinho duplo. – Eu… posso? – Fez menção de tocá-los, Paloma olha para a esposa que assente, o homem sabe que aquilo foi um sim. – Obrigado Clara.

Ele sorri fraco, então fica na altura dos dois e acaricia suas bochechas, eles eram lindos.

– Quais os nomes? Eles são idênticos.

– Sim. O de azul é João Paulo e o de preto é João Pedro.

– Lindos nomes, querida, tenho certeza que a ideia de combinar foi sua.

André diz sem parar de olhar os dois, ele poderia ficar ali para o resto da vida, esse era um efeito dos pequenos.

– Na verdade foi coincidência, Clara pensou em um e eu em outro.

– Vocês sempre estão em sincronia.

– Sim, estamos. – Paloma olha para a esposa com amor, essa que retribui com um sorriso.

– Eles… eles são lindos, parecem com Clara, mas tem o tom de pele de Paloma, é uma perfeita combinação de vocês duas. – Ele já tinha lágrimas nos olhos. – Obrigado, às duas por os trazerem aqui, eu sei que… sei que foi difícil, mas eu agradeço, agora posso descansar em paz. Quando soube que você estava grávida eu me amaldiçoei todos os dias, porque sabia que não faria parte disso, sabia que não seria reconhecido como avô deles, mas… só… obrigado por me proporcionarem isso.

– Não agradeça, na verdade eu fiz isso por mim e não por você, sei que se eu não fizesse iria me arrepender e como eu disse ainda é meu pai e são seus netos, mas… agora isso de verdade é um adeus pai. Eu…. eu não consigo, eu só… não consigo. – Ela abaixa a cabeça e fecha os olhos com força.

– Eu entendo querida, não se culpe por isso, eu no seu lugar também não perdoaria. Eu entendo vocês, entendo todo mundo, eu mereço estar aqui o meu pior pecado foi magoar você, você foi e sempre será minha maior perda, porque sempre será meu melhor tesouro, só…. Obrigado.

Ele chorava, assim como as duas mulheres da sala, não tinha como não fazer. André eleva o corpo e fica de frente para as duas.

– Eu posso… posso te dá um último abraço?

Paloma concorda, no fundo também queria aquele contato. Eles se aproximam fazendo os corpos se tocarem, era um adeus, um adeus definitivo, os dois sabiam disso. O abraço durou bastante, Clara apenas admirava, o amor entre eles era verdadeiro, André apenas foi fraco, foi persuadido pelos desejos carnais, porém acabou, tudo acabou.

– Adeus pai.

– Adeus filha.

Foram as últimas palavras antes do homem ver os quatro saindo da sala. Mas uma coisa era certa, ele estava feliz, porque a única pessoa que de fato sempre foi importante para ele, estava feliz, Paloma Marrie era seu maior tesouro e ela entende isso agora, porque ela tem dois filhos, aquele tipo de amor nada no mundo apaga, nem mesmo uma traição, nem mesmo o tempo, mas acabou para os dois, pai e filha vão se amar para sempre, mas agora um longe do outro. Ponto final para eles.

– Você está bem? – Clara pergunta ao entrarem no carro depois de colocar os filhos nas cadeirinhas.

– Eu… me sinto satisfeita. Me sinto… feliz, acho que é isso, estou feliz.

– Que bom. – Elas trocam um selinho. – Vamos, nossos filhos daqui a pouco acordam com fome.

– Sim, nossos filhos.

Sorri e dá a partida no carro, outro carro com dois seguranças as seguiam, elas não saíam sem eles, não enquanto não encontrarem a última peça daquele quebra cabeça.

………………………………………..

(Outubro de 2022)

Clara acorda com o som do celular tocando, sua esposa descansava, tinha acabado de deitar depois de dá de mamar para os filhos, então a morena se esforçou para se desvencilhar dos braços da loira. Ela olha a hora, quatro da manhã, então pega o celular na mesinha ao lado da cama e nem ver se era o seu ou não.

– Oi.

– Senhora Marrie.

– É a Clara Carlos, aconteceu alguma coisa?

– Sim, encontramos a senhora Carla. – O coração da morena dispara.

– Só um minuto.

O homem diz um “sim” e Clara desce da cama, indo para o banheiro, não queria acordar a esposa naquele momento.

– Pode falar.

– Ela estava no México ainda com o advogado, mas… senhora as notícias não são boas.

– Pode falar Carlos.

– Ela… ela está morta senhora, só… bom, o homem tentava fugir do país com o dinheiro, mas foi reconhecido e preso, então ele disse que… disse o que fez, ele a matou asfixiada com o travesseiro para ficar com dinheiro.

– Meu Deus! Eu… Deus! Ok, obrigada Carlos, eu… eu falarei com Paloma, tome as providências, traga o corpo para o Brasil, acho que minha esposa irá querer isso.

– Sim senhora.

E desligam. Clara nem sabia o que pensar, morte, morte, morte era a pior punição para uma pessoa, Carla encontrou isso da pior forma possível. A morena se olha no espelho e respira fundo, volta para o quarto e deita na cama, sua esposa sente suas mãos frias em sua barriga e logo sorri.

– Onde você estava?

– Banheiro. – Clara diz ao beijar a nuca da loira.

– Algum problema?

– Durma, pela manhã conversamos.

– Devo me preocupar?

– Não, apenas descanse, você precisa.

Paloma respira fundo e resolve não insistir, ela sabe que há algo de errado, mas confia plenamente na esposa, se Clara diz que é para ela dormir, é isso que ela fará. A mais velha sente a respiração da esposa em seu pescoço, isso bastava, estavam ali, sua família, o resto era só resto.

…………………………………………….

– Eu… eu não sei o que sentir, eu…

– Você quer chorar?

Clara abraça mais forte a esposa, estavam em seu quarto, a morena acaba de contar tudo para a esposa, mas Paloma não sentia nada, na verdade ela se considera sem mãe desde seus dez anos. Isso não mudou depois que Carla ressurgia das cinzas. Agora nos braços de sua amada, Paloma só conseguia sentir segurança, ela só sentia que tinha acabado, tudo acabou.

– Eu… eu não consigo nem chorar amor, eu…

– Hey, não se culpe por isso, você tem todo o direito de não sentir nada, acabou Paloma, acabou.

Elas se apertam mais e essa era uma certeza, acabou.

– Eu amo você, eu amo tanto você.

– Eu sei Paloma, eu sei, estamos bem, querida, nossos filhos estão bem, vamos sempre proteger a nossa família, para sempre.

Clara afasta o corpo e cola seus lábios. Isso era a realidade, elas juntas com dois filhos, os culpados de todo o sofrimento pagaram, e quem se arrependeu conseguiu seguir em frente e encontrar a felicidade, essa era realidade.

…………………………………………..

(Dezembro de 2027 – Cinco anos depois)

Ela estava sentada na areia da praia, observava os dois filhos correrem com os filhotes de cachorro que Paloma deu de presente de aniversário para eles.

– Mamãe, estou com sede. – Paulo chega perto de Clara que sorri e entrega a garrafinha com água para o filho. – Obrigado mamãe, vou correr com o Bob de novo.

Diz animado e volta para onde o irmão e os dois cachorros, ela adorava a conexão dos dois, talvez o que falavam sobre gêmeos fosse verdade, até porque eles são idênticos, quem não convivia com eles não saberia quem é quem, mas quem os via todos os dias sabiam as diferenças, do tipo, Paulo era um pouco mais alto, Pedro tinha uma cicatriz pequena no queixo, os cabelos de Pedro também estavam mais claros. Detalhes que as mães sabiam. Ela divagava quando sente um pequeno ser puxar de leve seus cabelos por trás.

– Olha vocês, resolveram acordar belas adormecidas.

– Bom dia amor. – Paloma senta ao seu lado e beija de leve seus lábios.

– Bom dia minha querida e você coisa linda da mamãe, vem aqui.

A garotinha logo se joga no colo da mãe. Ana Júlia, a pequena de apenas sete meses, com seus cabelinhos castanhos e pele morena, pois agora fizeram ao contrário, usaram os óvulos de Paloma com o doador com características de Clara, a menina fora gerada na barrida da morena, mas tinha uma ligação tão forte com a outra mãe que era se de admirar.

– Porque não nos acordou?

– Vocês estavam tão lindas dormindo e aqueles dois ali queriam vir para a praia, eles se deram bem com os filhotes, compramos essa casa de praia na hora certa, aqui eles podem correr à vontade.

– Sim, eles são tão lindos juntos, assim como nossa princesa. – Paloma disse emocionada.

A garotinha no colo da mãe brincava com seus cachos, ela os adorava. Clara olha para baixo e tem sua pequena de olhos avermelhados lhe encarando, parecia que ela fora até o passado onde em um sábado, viu pela primeira vez os olhos da esposa e ali teve a certeza que aquela mulher seria sua, seria seu amor para toda a vida.

– Nós conseguimos, nossa família, nossos filhos, nós conseguimos. – Clara fala sem encarar a mulher, ainda olhando para a filha.

– Sim meu amor, nós conseguimos.

Paloma se aproxima mais dela e beija sua cabeça de leve, depois segura na mão da filha que sorria para as duas. Assim ficaram por um tempo até verem aqueles dois seres suados, melados de areia, mas completamente felizes se aproximarem e se jogarem na toalha ao lado, estavam exaustos.

– Mamãe Paloma, estou com fome. – Pedro disse manhoso.

– Claro que está campeão. Que tal pedirmos para Maria preparar um lanche bem gostoso para nós?

– Isso, isso, eu quero. – O garoto fala animado e sai correndo em direção à casa.

– Ele puxou a você essa fome toda. – A loira disse para a esposa.

– E a nossa filha puxou a você dormir tanto.

Então sorriram, Paloma segura na mão do outro filho e a da esposa que segurava a filha no colo, mais a frente Pedro chamava a todos, apressando-os para entrarem. Imagem linda, perfeita, ideal, uma família perfeita. Paloma Marrie Fonseca e Clara Marrie Fonseca conseguiram, de fato, eram plenamente felizes.

Obrigada…

Raquel Amorim

Leia outros capítulos desta história<< XXXIX – Filhos e Mães
Raquel Amorim
Raquel Amorim

Latest posts by Raquel Amorim (see all)

Deixe um comentário

Este site apresenta conteúdo erótico, sendo indicado somente para maiores de 18 anos. Permanecendo no site, você afirma ter idade requerida, eximindo a administração do Lesword de qualquer responsabilidade legal mediante a quebra das leis de Censura e de Proteção ao Menor e Adolescente. Literatura Lésbica. Cultura Lésbica. Histórias Lésbicas.