Ayra estava eufórica, ansiosa e temerosa. Afinal, depois de ano e meio de doutorado, concurso público, havia conseguido estar efetivada como pesquisadora e professora de História na Universidade Federal e, Gabriela, professora titular da matéria que gostava dela, colocou-a naquele trabalho em campo. Seria sua primeira vez e não poderia, de forma alguma, decepcionar a professora Gabriela que era a responsável do evento.
Tudo arrumado, encontraram-se com o pessoal de Arqueologia, no avião, desceram em Manaus. Um avião menor, fretado para um campo hora e meia distante. Veículos, por mais quatro horas e, finalmente, a pé, cada uma carregando suas malas e, muito material delicado por algumas mulas. Descansaram e comeram em um acampamento que já fora montado dias antes e no dia seguinte, assim que o sol apareceu, foram acordados para prosseguirem viagem, acompanhando guias Tukanos, só parando para comerem alguma coisa e se “aliviarem”. Chegaram à noite no acampamento-base, onde passariam durante a expedição.
Quase se arrastando, principalmente os que não faziam alguma atividade física, desmoronaram pelo chão mesmo. Ajudados pelos contratados, conhecedores da floresta, os quais sem eles nada poderia ser feito. Além do povo Tukano, havia alguns outros de etnias diferentes, como os Ticuna e Tenharim. Naquela noite, rede nunca foi tão confortável. Por volta das 06h00, todos de pé, um café reforçado porque ainda teriam que andar meia hora para chegar ao sítio arqueológico.
Escondida pela mata, uma pirâmide típica da América do Sul, próxima às ruínas de uma cidade antiga. Só descobriram o local por satélite. Um brilho diferente, de algo que ficava no topo da pirâmide, chamou a atenção de alguém e agitou a comunidade cientifica. Seis meses depois, com a ajuda dos povos mais próximos que agora eram seus guias, conseguiram encontrar. Agora era a vez dos historiadores, arqueólogos e paleontólogos. A pirâmide havia sido construída a 50 metros de uma caverna e a 10 metros da cidade.
Enquanto os arqueólogos começaram a cuidar das ruínas da cidade, os paleontólogos dirigiram-se para a caverna com os historiadores. A pirâmide seria a última a ser estudada em conjunto.
Adentraram à caverna repleta de desenhos e símbolos nas paredes da entrada. Parecia um corredor de aproximadamente 150 metros que em seguida se bifurcava em quatro caminhos diferentes, que devido a polidez das paredes deixava dúvidas de serem naturais. Pareciam ter sido perfuradas por alguma máquina potente. O pessoal estava encantado, anotando tudo, fotografando tudo, procurando objetos, indícios quaisquer que fossem.
Ayra se sentiu irresistivelmente atraída por uma pequena abertura lateral de um dos corredores. Não era longa, dava pra ver o fim dela do corredor, talvez por isso não chamou a atenção de mais ninguém. Dos símbolos que vira, tinha certeza que conhecia um deles, mas não se lembrava de onde. Assim que entrou na abertura, à sua esquerda havia uma “placa” com fundo vermelho esculpida na rocha, com uma mensagem em idioma desconhecido. Ayra sabia, ou mais sentia, ser uma mensagem, mas como interpreta-la?
– Você a encontrou, então não esqueça dos símbolos e logo poderá entendê-los, eu prometo.
Assustou-se. Não ouvira nenhum som e uma mulher que nunca tinha visto, estava ao seu lado, com um sorriso tranquilizador.
– Eu nunca vi esses símbolos antes! Apenas um que vi ali na entrada.
– Talvez. Quem sabe há quanto tempo e a quantas tribos você já caminhou por essas terras, não é? A memória permanece no sangue, nas células.
– Quem é você?
– Isso, no momento, não importa, mas quem você é sim.
– Ayra, você estava falando com alguém?
– Gabriela! Olha isso!
– Uau! Já fotografou?
– Não, já vou fazer isto.
– Pessoal, venham ver.
As pessoas se revezavam para ver a placa. Tentaram fotografá-la, mas ela não aparecia nas fotos. Usaram aparelho para verificar alguma radiação e nada. Tentaram tocá-la e parecia haver uma barreira “elétrica” impedindo. Quiseram copiar e parecia que os símbolos dançavam, mudavam a sequência quando começaram.
– Gente! Acho que não poderemos deixar de examinar todas as reentrâncias da caverna!
– De fato! Vamos levar mais tempo do que poderíamos supor, mas olharemos tudo com cuidado. Mas como vamos decifrar isso se não conseguimos fotografar nem copiar? Vamos ver se encontramos mais algumas “tábuas”.
O pessoal começou a se dispersar e a procurar com mais cuidado ainda. Assim que ficou a sós com Gabriela
– Você pode achar que fiquei louca, mas assim que encontrei essa placa apareceu uma mulher ao meu lado e disse para que eu não esquecesse o que está escrito nela que logo eu conseguiria decifrar.
– Então estava mesmo falando com alguém!
– Você não a viu quando chegou? Será que tive uma alucinação?
– Diante do que tem acontecido aqui tudo é possível. Melhor não comentar com mais ninguém sobre a conversa, mas tenta memorizar o que está vendo. Leve o tempo que quiser.
Ficando sozinha Ayra tentou tocar, com reverência, na placa. Esperou o choque que não veio, ela podia tocar, somente ela entre todos do grupo. Estava cada vez mais estranho, mais difícil entender, mas queria muito. Não saberia precisar o tempo que ficou ali parada, mas ao ouvir o pessoal voltando, falando muito, impressionados com o que tinham encontrado, “acordou”. Gabriela se aproximou.
– Ficou aqui até agora?
– Não percebi o tempo passar.
– Há coisas impressionantes nessas cavernas. Várias placas que podemos tocar, claro que com todo cuidado possível, mais desenhos nada rupestres, mas muito bem detalhados sobre uma história de deuses que teriam ajudado na construção da cidade e da pirâmide. Acho que aconteceu uma guerra, ou uma disputa por poder que desagradou esses deuses e eles partiram depois de espalhar seus descendentes. Só essa inscrição que você achou é diferente, no idioma e na proteção dela.
– E quanto a artefatos?
– Ah existem sim! Embora não saibamos o que são alguns. São diferentes, tecnológicos. Vamos precisar investigar para descobrir. Muita coisa para analisar e imenso volume de material para todo tipo de pesquisadores trabalharem. Agora vamos comer porque já está quase anoitecendo e passamos tempo demais aqui dentro devido a empolgação.
Todos saíram e, realmente, o sol já estava em seu ocaso. A euforia da descoberta era quase palpável. Comeram sem parar de comentarem, só dormiriam pelo cansaço.
Na manhã seguinte acordaram cedo, todos dispostos a explorar mais. As fotos foram enviadas, não só para as Universidades nacionais, mas para diversos países, bem como para os Ministérios envolvidos e dois patrocinadores. Claro que tinham algum interesse em todas descobertas, nunca se sabe o que pode ser descoberto que possa gerar algum lucro.
Após catalogar, as peças eram divididas por entendimento, quer dizer, o que se sabia o que era de um lado e o que se desconhecia de outro. Recolhidas, acondicionadas em recipientes próprios para assegurar a integridade, levados para o acampamento. Dessa vez levaram lanches e perto do meio dia pararam para se alimentar. Gabriela procurou Ayra e a encontrou sozinha olhando para uma parede com desenhos.
– E aí, algo estranho nessa parede?
– Tem algo que, pelo que vi nas fotos das outras, só ela possui.
– O que seria?
– Os deuses estão em quase todas, o povo parece feliz, mas nessa estão todos sérios e tem uma coisa bem ali, olha. Não sei o que é, mas parece importante, como uma porta a ser encontrada.
– É mesmo! Bem aqui.
Tinha se levantado e apontava para um lugar que parecia ter sido pintado em perspectiva, uma porta longe no fundo de um corredor na caverna. Gabriela continuou.
– O guia Tenharim, conseguiu “ler” algumas das placas que não estão com a linguagem da primeira. Ele disse que era uma profecia que Timé Arandu havia deixado que explicando que os descendentes dos deuses que ficaram na Terra, um dia viriam aqui para irem para casa de seus ancestrais, através de uma grande porta aberta pela última filha de Nhanderequeí. Esses nomes fazem parte da mitologia dos povos originários.
– Ele traduziu bem, é quase isso. Então, professora Gabriela, já contou a Ayra porquê gosta tanto dela e lhe deu a grande oportunidade em tão pouco tempo de convivência?
– Quem é você?
– Essa é a mulher com quem eu falava depois de ver a primeira placa.
– Deslumbrante! Mas eu nunca a vi antes, você não é da expedição!
– Não. Tua professora teve uma filha que você lembra muito, não é, Gabriela?
– Por que quer contar isso pra ela? Como você me conhece tanto?
– Você vai me conhecer um pouco, Gabriela, vai escrever a história do povo de Inkenaré-Itá.
– Que povo é esse? Nunca ouvi falar!
– Pouca gente ouviu, apenas alguns dos que vocês chamam de povo originário. Por isso vai registrar e contar a história deles, já que vocês chegaram ao que, um dia, foi sua aldeia.
– Professora Gabriela!
Gabriela virou para ver quem a chamava.
– Estou aqui.
– Professor Clóvis pediu para chama-la, pretende recomeçar e quer acertar com a senhora a divisão de setor e trabalho até a noite.
– Já estamos indo. Então…
Ia falar com a mulher, mas ela havia desaparecido. Olhou para Ayra e ela simplesmente sorriu. Foram acertar detalhes do trabalho a ser feito.
*****
Por dois meses estiveram trabalhando duro e com cautela. Com a ajuda dos guias, decifraram mais uma das inscrições que conduzia, ao que parecia, um Santuário, onde faziam suas orações, que ficava a cerca de 1 quilometro da pirâmide. Receberam um recado de que a mãe de Ayra pedia-lhe para que fosse ao seu encontro, por causa da avó sem informar o que era, o que a deixou extremamente preocupada. Na mesma noite:
– Quando encontrar com sua avó, diga-lhe que mandei lembranças e que ainda sinto a falta dela.
– Conhece a minha avó?
– Conheço muito bem.
– E quem lhe manda lembranças?
– Tenho vários nomes e ela conhece todos. Sou Sumé-Aiyra (filha de Sumé, deusa responsável em manter as leis e regras), também fui conhecida por Anahi (bela flor que vem do céu) e ainda em outro continente sou Kieza (a que chega). Caso ela queira vir, estarei esperando. Boa viagem e bom retorno.
– Tem certeza de que vou voltar?
Sorriu, acenou afirmativamente com a cabeça e saiu.
Claro que Ayra estava preocupada com a avó e tentou falar com a mãe, mas depois que ela mandara o pedido, não conseguiu mais falar com dona Iara. Fez todo o caminho inverso, o mais rápido que pode até o aeroporto de Manaus, onde já havia uma passagem reservada e paga, para o voo direto para SP uma hora depois de sua chegada. Mais uma coisa inexplicável naquela viagem.
Enquanto Ayra seguia sua viagem solitária, a professora Gabriela havia ido até a margem do riacho mais próximo, quase no fim de tarde, pensando em tudo que viram até o momento e como ela escreveria a história daquele povo que um dia vivera ali.
– Boa tarde, Gabriela!
– Que susto! Você é sempre tão silenciosa e misteriosa assim?
– Não sou misteriosa! Minha história está nas paredes da caverna que vocês estão estudando.
– Como prefere ser chamada?
– Já tive tantos nomes, em tantos lugares que às vezes acho que me esqueci do verdadeiro – sorriu. – Como prefere me nomear? Afinal, você vai contar toda a lenda.
– Acho que vou mencionar os outros, mas ficarei com Sumé-Aiyra.
– O povo que viveu aqui me chamava assim. Então, que seja!
– Vai me contar algo, ou vou ter que descobrir com ajuda dos guias? Posso dizer o que já deduzi e você me diz se está certo?
– Por favor, pode começar.
– Naquela caverna há artefatos iguais aos encontrados em pirâmides e na Esfinge do Egito, desenhos como alguns dos Sumérios. Das placas escritas, algumas com hieróglifos encontrados em outros locais, então poderemos interpretá-los. Também diz os desenhos que um povo desceu do céu, ajudou a pequena tribo que estava nesse local, cresceram, prosperaram, sempre ajudados pelo povo do céu. Aprenderam muitas coisas, sabiam ajudar quando os “celestes”, vamos chamar assim para facilitar, mexiam com aparelhos que não sabiam o que eram, nem o que faziam. Estou indo bem?
– Muito bem, continue.
– A pirâmide era usada para coisas que não entendiam, mas produzia luz que subia ao céu e às vezes, iluminava a noite escura. Grandes “aves” brilhantes apareciam sobre a pirâmide de vez em quando, sabemos o que devem ser essas aves. Alguns dos celestes acasalaram com os humanos da tribo e geraram filhos. Esses filhos eram muito inteligentes e viviam mais com os celestes, embora aprendessem todos os costumes daqui. Viveram por muito tempo em paz. Quando a aldeia já tinha crescido, tudo estava construído, os filhos “mestiços” sobreviviam muito aos de sua idade.
– Por que parou?
– Ninguém traduziu ainda o resto, é apenas dedução minha.
– Tenho certeza que você tem inteligência suficiente para deduzir corretamente, me conte.
– Os mestiços continuaram se casando, e procriando entre eles e com humanos. Viviam mais e mais saudáveis. Isso teria gerado ciúme dos nativos e discórdia na tribo.
– Acertou em cheio!
– Vi, em uma das paredes, desenhos de muitas pessoas indo em direções variadas, antes dos celestes irem embora. Acredito que seriam os mestiços partindo para o nosso mundo, em segurança, longe dos invejosos. Estava aqui pensando no motivo de não deixarem os mestiços aqui. O que o povo da tribo teria feito contra eles?
– O que de mais abominável alguém pode fazer. Forçar, com violência a realização de um ato sexual. Queriam de todo jeito ter filhos mais saudáveis, para tanto, usaram ervas que conheciam para que não oferecessem resistência. Isso nos entristeceu enormemente, sempre acreditamos no sentimento, todos que se relacionaram e tiveram filhos, foi por amor e, ver seus descendentes atacados daquela maneira… Foram enviados para longe, não expulsos como parece lá na parede.
– Por que você não partiu com seu povo?
– Fiquei como guardiã da “grande porta”, como você chamou.
– Existe alguma profecia quanto a tal porta?
– Sim, existe.
– Aquela que os guias traduziram e você disse que ele estava quase certo?
– Timé Arandu era considerado um visionário, um profeta como os humanos chamam. Ele disse que chegaria uma hora que nossos descendentes teriam saudades de casa e não se sentiriam bem nesse planeta. Deixaram um portal, um buraco de minhoca, para você entender, pronto para quando esta hora chegar e apenas a filha da última filha de Nhanderequei gerasse a última filha de Sumé-Aiyra pudesse ler as orientações para abrir a passagem.
– Aquela placa que Ayra encontrou!? Você teve uma filha?
– Exato, aquela placa que a menina encontrou e ninguém mais consegue tocar ou ler, ou fotografar. Sim, eu tive uma filha há 52 anos.
– Mas seu povo foi embora antes do grande dilúvio, segundo os desenhos! Como? Você não vive o tempo todo aqui?
– Seria muito maçante! Eu disse que tenho muito nomes, diferentes em cada lugar que passei ou fiquei por um tempo.
– Vocês são imortais?
– Não! Apenas nosso tempo, comparado ao de vocês, é quase uma eternidade – ria.
– Bom, acho que vou começar a anotar tudo no note para meu livro sobre a História de Inkenaré-itá.
Levantou-se. Sumé sorria.
– Espera aí! A ultima filha de Sumé-Aiyra abrirá o portal! Ayra é tua última filha?
– Ela é a ultima filha da minha última, primeira e única filha. Por hoje chega. Quando Ayra voltar estará sabendo o resto da História. Boa noite.
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