A Advogada e a Policial - A Ruína do Meu Álibi

Capítulo 1: O Cheiro de Livros e Recomeços

O ar da pequena São Brás era mais limpo e mais… lento. Em comparação com o ritmo frenético da capital que Dani havia deixado para trás, era como se o tempo tivesse engatado a segunda marcha. Fazia seis meses que ela havia montado seu pequeno escritório de advocacia na rua principal, focando em causas familiares e cíveis.

Aos 26 anos, com uma personalidade forte que a fazia argumentar com paixão e convicção, Dani tinha tudo para ser bem-sucedida, e estava sendo. Mas havia uma parte de sua vida onde sua persistência falhava miseravelmente: o amor. Seus traumas de relacionamentos passados, marcados por traições e desentendimentos, haviam deixado cicatrizes invisíveis. Ela não fugia das pessoas, mas certamente mantinha um distanciamento seguro.

Naquela tarde de terça-feira, Dani precisava desesperadamente de um respiro. Deixou para trás pilhas de processos e foi em busca do seu refúgio secreto: a única livraria de segunda mão da cidade, chamada O Capricho da Sereia.

Ao deslizar o dedo pela lombada dos romances policiais, um movimento brusco a fez esbarrar em alguém. Um livro grosso, de capa escura, caiu com um baque surdo no chão de madeira.

“Me desculpa! Eu estava totalmente distraída,” disse Dani, se abaixando rapidamente.

“Sem problemas. É o preço de estar hipnotizada por Dostoievski,” respondeu uma voz firme, mas calma.

Dani levantou o olhar. À sua frente estava uma mulher que parecia ser da sua idade. Cabelos castanhos escuros, presos em um coque que destacava sua nuca e ombros bem definidos, e uns olhos de um verde profundo que a encaravam com uma calma curiosa. Ela usava calça jeans escura e uma camiseta preta básica, mas havia algo na sua postura que sugeria disciplina e autoridade.

“Ele é um peso-pesado, literalmente,” Dani riu, entregando o livro.

“O que te trouxe para as prateleiras de clássicos russos em plena terça-feira?” perguntou a estranha, ajeitando o livro na estante. Seu sorriso era aberto, e de repente, a parede de segurança de Dani balançou um pouco.

“Fuga. Sou advogada. Às vezes, preciso da garantia de que o drama alheio tem uma capa final, diferente da minha vida. E você? Está aqui em busca de paz?”

A mulher sorriu ainda mais. “Gosto de advogadas detetives! Você acertou. Meu nome é Letícia. Na verdade, trabalho no Quartel, sou policial.” Ela notou a leve surpresa no rosto de Dani. “Vim pegar um livro para tentar desligar o ‘modo vigilância’, já que estou de folga.”

“Dani. Prazer. E esse é um ótimo palpite. A vigilância deve ser um trabalho em tempo integral,” comentou Dani, sentindo-se estranhamente à vontade com a presença firme de Letícia.

Elas falaram de livros, da tranquilidade da cidade e, claro, um pouco sobre a tensão inerente às suas profissões. Dani, com sua natureza comunicativa, se abriu mais do que pretendia, e a Letícia, com sua calma controlada, era uma excelente ouvinte.

O relógio marcava quinze para as seis quando Dani notou a hora.

“Meu Deus, eu preciso ir. Tenho uma audiência de conciliação amanhã de manhã e preciso rever umas petições.” Dani pegou a bolsa.

“Certo. Foi um prazer, Dani, a advogada detetive,” Letícia respondeu, fazendo um leve aceno.

Dani piscou. “O prazer foi meu, Letícia. Talvez eu precise de consultoria sobre segurança no escritório.”

Letícia riu. “Fico à disposição. É só me encontrar por aí… a cidade é pequena, não é?”

Dani assentiu, acenou e saiu. No carro, a sensação era estranha, mas boa. Era a primeira vez, em muito tempo, que ela tinha uma conversa tão leve, sem a intenção de manter o muro alto.

No dia seguinte, Dani estava almoçando um salgado na padaria com sua única amiga em São Brás, a Luísa.

“Lu, você não vai acreditar em quem eu conheci ontem. Uma policial, super interessante, chama Letícia…”

Luísa engasgou com o suco de laranja. “Letícia? A Letícia do Quartel? A minha prima?”

Dani paralisou com o salgado a meio caminho da boca. “O quê?”



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