O tempo nem sempre cura tudo. Tenho feridas que já cicatrizaram, mas que insistem em latejar quando o dia está nublado.
Clarissa Corrêa

Nova Esperança estava em polvorosa com a compra das Fazendas Esplanada, Quinta da Boa Vista e Vale Verde que pertenciam a fazendeiros da região, mas a grande surpresa foi a compra pela mesma pessoa da Fazenda Recanto das Cerejeiras que estava abandonada há muitos anos, desde que os Camargo foram expulsos daquela terra pelo patriarca da família Medeiros de Alcântara, que estas terras eram consideradas malditas, muitos donos passaram por ela e nenhum conseguiu dar a ela o esplendor de antigamente.

Todas as fazendas tinham em comum o fato de serem vizinhas, férteis e cortadas por rios e córregos que ajudaria ao novo proprietário no que ele pretendesse fazer com as propriedades.

A compra do Recanto das Cerejeiras deixou todos na região abismados, não era segredo que o Dr Mário odiava aquelas terras após o assassinato do filho mais velho, o jovem médico Dr Otávio.

Ele estava tentando a todo custo descobrir quem comprou, não permitiria nunca que aquelas terras voltassem para as mãos dos Camargo.

– Como você não conseguiu descobrir quem comprou essas fazendas Gabriel? – Dr Mário perguntava ao filho sem esconder a raiva por este não ter conseguido as informações que ele havia pedido.

– O senhor me desculpe pai. Mas, as fazendas foram compradas por uma imobiliária da capital. Além de que já passaram por dois ou três donos. – Gabriel respondeu engolindo seco com medo da reação do pai.

– O que? – Perguntou Dr Mário entredentes.

– A imobiliária se recusa a dar os nomes.

– Às vezes me pergunto o porquê eu ainda peço que você faça algo Gabriel. Afinal é impossível para você fazer algo simples como descobrir quem está comprando tantas áreas próximas a nós. E o que mais me espanta é você não se perguntar o porquê disso, não é?

– Pai… Os donos dessas terras estavam com problemas financeiros.

– Eu sei disso muito bem seu idiota! Eu mesmo queria comprá-las. Só que você com sua incompetência não conseguiu fechar o negócio e ainda por cima não consegue descobrir quem as comprou.

– Vovô… Certas tarefas o senhor não devia delegar ao meu querido e amado titio.

– Ana Carolina! Quando você chegou meu amor? – O velho Dr Mário abriu um sorriso e abraçou a neta que entrava no escritório.

– Agora a pouco vovô e não pude deixar de ouvir o assunto.

– Sempre mantendo o costume de ouvir atrás das portas não é Ana Carolina? – Gabriel perguntou com desprezo.

– Eu? Jamais meu amado titio… Só que os gritos de vovô foram ouvidos da sala. – Ana Carolina respondeu com um sorriso maroto.

– Perdemos ótimos negócios meu amor… Negócios que não teríamos perdido se você estivesse aqui.

– Com certeza vovô.

Avô e neta abraçaram-se com carinho.

– E o que você teria feito? Pode me dizer minha amada e querida sobrinha? – Gabriel perguntou entre dentes e de punhos fechados vendo a cena de amor.

– Ah! Titio!!! Eu teria comprado às fazendas. Até mesmo aquelas terras do Recanto das Cerejeiras seriam nossas.

– Aquelas malditas terras eu não sei se iria querê-las, minha querida. Eu mesmo me desfiz dela depois daquela tragédia.

– Vovô… Aquelas terras são muito férteis. As vezes como o senhor me ensinou é preciso passar por cima de algumas situações.

– E por acaso você sabe quem comprou as terras?

– Claro! Eu afinal sei bem como fazer as coisas meu querido titio.

– E quem foi?

– Diana Camargo de Freitas.

– CAMARGO? – Gritou o dr Mário.

– Sim, vovô. E pelo que pude ver a nossa nova vizinha, é filha de Lucas Camargo de Freitas.

– Quem?

– Um empresário da capital. Cuja família não é dessas bandas, por isso tenho certeza que ele não é parente dos Camargo daqui.

– Pelo menos isso, mas mesmo assim, ainda tem esse sobrenome maldito.

– Como…

– Tenho meus métodos querido titio, afinal a inteligência ao que parece pertence a apenas um lado da família. – Ana Carolina respondeu sorrindo ironicamente.

– Sua fedelha…. – Gabriel foi até ela de mãos levantadas.

– GABRIEL! – Gritou dr Mário.

– DEIXE VOVÔ. VAMOS TITIO! BATA! – Ela respondeu firme olhando nos olhos do tio.

– Não me provoque fedelha…

– Faça… Bata… Esse é um costume seu não é? Bata em mim e tenha a certeza que você nunca mais vai encostar suas mãos imundas em mais ninguém.

O dr Mário chegou perto do filho e disse: – Abaixe esse braço, porque eu te juro Gabriel que se você encostar um dedo em Ana Carolina te expulso desta casa sem direito a nada!

Gabriel respirou fundo, fechou as mãos e saiu do escritório sem olhar para trás.

– Você deveria parar de provoca-lo Ana Carolina.

– Ah! Vovô… – Ela riu.

– Agora me conte o que sabe sobre essa tal Diana Camargo de Freitas.

– Claro vovô.

Gabriel saiu do escritório botando fogo pelas ventas.

– Maldita fedelha!!!! Quem ela pensa que é? Quem???? E o velho miserável dá corda aquela machona dos infernos. Deixa-a fazer o que bem entender!!! Maldita, maldita sapatão!!!!! Eu a odeio!!!!

– Quem você odeia Gabriel? – Elisa perguntou saindo do banheiro.

Gabriel olhou a mulher e disse: – Você sabe muito bem de quem estou falando Elisa. Não sabe? Ela voltou… A vadia da minha sobrinha voltou…

Elisa parou o que estava fazendo e respirou fundo.

– Gabriel.

– O que foi querida? Hum?? – Ele se aproximou e puxou a esposa para que esta olhasse em seus olhos, apertando seus dedos no braço de Elisa marcando-a e machucando-a.

– Para… Esta machucando…

– Você ainda não viu nada vagabunda.

Ao dizer isso ele a jogou na cama de qualquer jeito. Aproximando-se pegou em seu rosto e disse: – Eu não a quero perto de você, entendeu?

– Sim…

– Se eu ver ela perto de você…

– Eu e ela nunca tivemos nada Gabriel…

– Não????? Será mesmo? Porque não foi isso o que eu e todos vimos… – Ele respondeu soltando o seu rosto.

– Eu…

– Cale-se…

– Me ouça, você nunca quer ouvir o que tenho para falar sobre aquela noite.

– Ouvir o que? Mais mentiras? Eu vi Elisa! Eu vi vocês duas abraçadas. Eu sei muito bem que aquela sapatãozinha não perde a chance de ter varias mulheres na cama dela. Ela já fez isso com outras com que eu mantive algum tipo de relacionamento.

– …

– O que foi? Achou que era a única? Ana Carolina adora mostrar-se em relação as suas conquistas. E tirar as mulheres que frequentam a minha cama ou as que eu tenha tido algum interesse é motivo de orgulho para ela.

– Eu nunca tive nada com ela.

Ele sorriu e disse: – Eu a mato. Simples, assim… Então não me provoque. Fique longe dela.

– Gabriel… O que aconteceu com você? Onde está o homem por quem me apaixonei? Conversa comigo…

Ele a olhou e antes de ouvir o que a esposa tinha para falar, Gabriel saiu do quarto. Saiu de casa em direção aos estábulos.

– Sele o Apollo.

– Sim, senhor.

Gabriel saiu em seu cavalo, precisava espairecer após todos os acontecimentos do dia.

– Ela é igual ao pai. Sempre tendo toda a atenção. Todos aos pés deles. E o Dr Mário sempre como um bobo pronto pra fazer todos os desejos do filhinho e da netinha querida. Quanto a mim sempre os questionamentos, porque você não é igual ao seu irmão? Olha pra o Otávio, porque você não faz como ele? Ele sim é um exemplo de filho, você só me dá desgosto! – Com uma puxada mais firme o cavalo parou perto de um riacho, desceu e sentou-se a beirada do mesmo, as lágrimas banhavam seu rosto.

Otávio era seu irmão e a diferença de idade entre ambos era de 15 anos. Gabriel era o filho temporão do Dr Mário com a dona Estelita. Além de Otávio havia ainda Maria Adelaide e Esther, essas realmente as irmãs mais velhas. Apesar de ser o caçula Gabriel nunca conseguiu ter a atenção do pai como o irmão Otávio tinha. Qualquer traquinagem ou molecagem de criança era severamente castigada pelo pai.

As lembranças da época vieram à tona.

– Ele sempre preferiu o Otávio. Para mim eram sempre as sobras, as migalhas de atenção, de carinho. Tudo o que eu fiz… Tudo foi em vão… Ele nunca me olhou com amor… Tenho certeza que ele preferia que fosse eu o morto.

O Dr Mário Medeiros de Alcântara, nunca foi homem de chorar, ter medo ou fraquejar. Mas, quando viu o corpo do filho querido em uma cova rasa e crivado de balas, ali eu pude ver todos esses sentimentos. As lágrimas que ele derrama até hoje, a raiva incontida para com cada um dos Camargo…

– Quando eu era criança, seguia o Tavinho por toda a fazenda, aonde ele ia, eu o seguia. Otávio era um irmão amoroso, parecia que queria compensar o que o Dr Mário fazia. Até que ele foi para a faculdade de Medicina na capital. O orgulho do papai foi para o céu. Um filho médico, o filho adorado que apenas dava alegrias…

Os anos que o irmão passou na capital foram terríveis para Gabriel. A todo instante ele era lembrado das qualidades do irmão e o quanto ele era cheio de defeitos. Nada o que ele fazia parecia agradar ao pai.

Quantas brigas os pais tiveram por conta dessa diferença de tratamento entre os filhos.

– Homem, pare de fazer isso! O Gabriel também é seu filho.

– Ele é um mal criado, mimado e a culpa é sua Estelita.

– Mário, eu te peço…

– Ele não gosta de fazer nada! Não tem o menor jeito com a lida na fazenda. Não sabe cavalgar direito, na idade dele o Otávio já montava e percorria a fazenda comigo. Só que você não permite. Esta transformando ele num menino mimado e cheio de vontade.

– Desde que o Otávio nasceu você o carregava com você montado em um cavalo. Ele praticamente cresceu em cima de um cavalo. O que você queria?

– Que esse menino fosse ou tivesse metade do que o Otávio tem. Culhões é o que falta a ele.

– Mário!!!

E papai saiu porta a fora sem olhar para trás. Eu estava escondido ouvindo tudo. Pouco depois dessa conversa, aprendi a cavalgar, tomei verdadeiro gosto. Quando mamãe disse a ele que estava montado a cavalo, ele simplesmente respondeu: – Já não era sem tempo.

– Eu vou provar pra você pai que mereço o seu respeito. Você se arrependerá de toda a humilhação que passei. O seu filhinho querido já foi pra terra dos pés juntos. E pelo andar da carruagem a sua netinha também… E quando isso acontecer eu vou estar aqui…

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Meu avô estava de costas para mim calado. Sentia que o que lhe tinha acabado de falar não o havia agradado.

– Eu jurei para mim mesmo, que um Camargo nunca mais teria aquelas terras. – Ele finalmente falou.

– Pelo que pude averiguar ela não tem nenhum laço com…

– Ela tem o mesmo sobrenome. E isso para mim basta. – Ele respondeu virando-se para mim sem me deixar terminar a frase que começara.

Assenti balançando a cabeça em silêncio.

– O que eu não entendo é porque investir aqui? Pelo que você falou eles são milionários. E até pouco tempo não moravam na capital.

– Eles voltaram há pouco mais de dois anos para cá.

– Continue…

– O irmão do dr Lucas faleceu há três anos e foi esse o motivo da volta deles. Ele veio assumir os negócios que ficavam a cargo do irmão. A filha é que gosta de investir em terras e por esse motivo os investimentos em fazendas, e são algumas espalhadas pelo Brasil. O filho mais novo está se formando em administração e fica com o pai. A esposa não costuma aparecer muito. São bastante reservados, não são de fazer badalações ou escândalos.

– Era só que faltava… Além de terem esse sobrenome ainda serem dados a escândalos.

Não pude deixar de sorrir.

– Vovô, eles não tem nada a ver com o que se passou. A gente nem sabe se eles virão por aqui.

– Essa filha deles tem alguma formação? Porque o interesse em terras?

– Ela é engenheira florestal, mas também tem formação administrativa e agropecuária.

– E o que quer dizer isso?

– Que provavelmente essas terras compradas serão convertidas em grandes plantações, pasto para gado de corte já que eles têm contratos para fornecimentos de carne para um grande frigorífico nacional. E são donos de uma fábrica de produtos alimentícios.

– O que mais?

– Ela é responsável por toda a área ambiental e social dos negócios do pai. E já investiu em dois hotéis fazendas no Mato Grosso por conta própria, o que vem dando certo.

Ele apenas assentiu e silenciosamente saiu do escritório. Eu sabia que quando ele quisesse saber mais me procuraria por enquanto o que falei seria o suficiente para ele pensar no que fazer.

Ao sair do escritório vi quando meu amado tio saiu em disparada na direção do estábulo. Nunca consegui entender como uma mulher como a Elisa se casou com ele.

– O que você está olhando Carol?

Sorri e virei-me lentamente.

– Nada vó.

– Sei… Ele nunca conseguiu entender a relação que você e seu avô têm. Gabriel, sempre quis a aprovação do pai.

– Só que ele não vai conseguir ver o vovô falar que o aprova ou demonstrar isso de maneira teatral como ele deseja. O tio Gabriel nunca olha os pequenos sinais que o vô mostra para ele, os sorrisos quando ele faz algo certo.

– Filha…

– Vó… A senhora sabe que estou falando a verdade. O tio sempre acha que estamos contra ele, que estamos sempre com uma arma apontada para a cabeça dele.

Minha avó abraçou-me e disse: – Seu tio é diferente de você, do seu avô ou até de seu pai. E vocês não conseguem entender isso…

Retribui ao seu abraço e subi ao meu quarto, no caminho vi a porta do quanto dele entre aberta e vi Elisa sentada na cama chorando. Respirei fundo.

– O idiota vai acabar perdendo a única mulher que realmente o amou.

Sorri comigo mesmo balançando a cabeça lembrando-me da raiva que ele sentia ao ver que algumas de suas ex-namoradas acabavam na minha cama. Mulheres que sempre estiveram muito mais interessadas no dinheiro e prestigio da família Medeiros de Alcântara do que nele. Elas nem se faziam de rogadas quando jogava meu charme para elas que praticamente se atiravam em minha cama.

Balancei a cabeça em negação e fui para meu quarto.

O tio Gabriel sempre teve ciúmes de mim. Da relação de amor e respeito que desenvolvi com o vovô. Tudo era motivo para crises de raiva por parte dele.

Olhei a foto na cabeceira de minha cama, lá estávamos eu, Rafael, papai e mamãe.

– Sinto tanto a tua falta pai.

Coloquei a foto no lugar e fui ao banheiro. Abri a torneira da banheira. Iria tomar um banho relaxante.

Tirei a roupa e entrei na banheira. Impossível não relembrar os últimos acontecimentos.

– Diana Camargo de Freitas… Quem realmente é você? E o que pretende fazer aqui?

Há 22 anos meu pai foi assassinado por Dário Camargo. Desde então esse sobrenome virou sinônimo de desgraça em minha vida. Eu tinha 10 anos na época, meu pai saiu de casa para encontrar o seu algoz e nunca mais voltou. O vovô junto com alguns homens da fazenda o procurou por dias até encontra-lo numa cova rasa.

Respirei fundo e me remexi na banheira.

Éramos muito mais que pai e filha. Papai era a personificação do que sempre conheci como herói. Um pai presente e amigo, que chegava em casa um pouco mais cedo apenas para cavalgar comigo, conversar sobre os afazeres da fazenda, saber como estavam as coisas comigo e o Rafael. Minha mãe nunca gostou muito dessas cavalgadas.

– Você trata essa menina como um moleque Otávio!

– Deixe disso Marina. Ela é uma criança, mora numa fazenda. O que você quer que ela faça e aprenda? E outra coisa, onde já se viu a neta de Mário Medeiros não saber cavalgar?

Eu ria e saia com papai e às vezes com vovô para cavalgar. Ali entre os dois homens que formarão meu caráter eu me sentia a mais feliz das crianças.

E isso tudo foi tirado por aquele assassino. Se ele não tivesse morrido, eu mesma já teria feito isso com minhas próprias mãos.

A dor de saber como ele foi brutalmente assassinado por alguém em que ele confiava. Eu conhecia o Dário, papai já havia me levado para a fazenda deles algumas vezes, mesmo a contragosto de vovô, que não via aquela amizade com bons olhos. E ao que parece o sexto sentido do velho Mário Medeiros de Alcântara estava certo.

Os dias que se seguiram ao desaparecimento de meu pai foram terríveis. A dúvida sobre o que tinha acontecido. Ainda me lembro de como fiquei esperando ele chegar para cavalgarmos no final da tarde daquele dia.

Estava sentada na varanda a sua espera. Usava botas e calça de montaria, um presente recém-ganho de vovô. Ainda lembro-me de suas palavras um pouco antes dele sair: – Carol, quando papai voltar vamos cavalgar, eu quero ver você com o presente que seu avô te deu.

Ele nunca me viu com ela. E eu nunca mais a vesti por causa das más lembranças. Chorei durante todos os dias que o procuravam, minha vontade era sair a cavalo e eu mesma o procurar. Cheguei até a fazer isso um dia antes dos empregados o encontrarem no Recanto das Cerejeiras, a fazenda de Dário Camargo.

– Onde você pensa que vai Carol? – Meu avô perguntou.

– Vou procurar o meu pai. – Respondi olhando-o nos olhos e continuei: – Se ninguém é capaz de encontra-lo tenha certeza que eu vou.

Meu avô sorriu brevemente e me abraçou. Deixei as lágrimas virem sem conseguir me conter. Durante vários minutos chorei abraçada aquele homem que já sabia ter perdido o filho e que a única coisa que desejava era poder ter o corpo para enterrar.

– Minha criança…

– Não vovô… Eu vou achar o meu pai. Vou trazê-lo aqui para casa.

– Carol… – Ele tentou falar.

– Não! Meu pai não tá morto! Deve ter acontecido alguma coisa, ele pode tá machucado e esse idiotas não o encontraram ainda…

– Ana Carolina Medeiros de Alcântara!

Olhei para ele.

– Você não vai sair daqui. Eu te prometo filha que trarei seu pai de volta.

– Eu quero meu pai vivo… – Falei chorando.

Ele não respondeu. Saiu deixando-me ali sentada abraçada as minhas pernas, foi assim que minha mãe me encontrou.

– Carol…

Não respondi. Ela sentou-se ao meu lado ficando em silêncio, eu apenas olhava a estrada da entrada da fazenda esperando que meu avô retornasse com papai.

O dia passou e quando meu avô chegou sem olhar em meus olhos e no silêncio que estava apenas ouvi os gritos desesperados de minha vó, mãe e tias na conversa silenciosa entre eles.

Rafael chegou correndo e me abraçou. A raiva que sentia naquele momento misturava-se a dor de perder o meu pai.

– Carol… Tão dizendo que o papai morreu… – Rafael falou chorando. – É mentira, não é?

Abracei o meu irmão e nada falei. Choramos juntos ali na varanda até que nossa avó veio nos buscar.

Aqueles momentos passaram como se estivessem em câmera lenta. Nada parecia real. As pessoas chorando em casa, minha mãe apática num canto. O caixão lacrado. Não pude me despedir, até isso aquele maldito tirou de mim.

Rafael não saiu de perto de mim um minuto. Eu não podia deixar meu irmão desamparado em meio a todo aquele rebuliço. As palavras de papai me vinham à mente o tempo inteiro: – Cuide do seu irmão Ana Carolina.

Após o enterro de papai, meu avô não descansou até que o assassino fosse preso e condenado. O sobrenome Camargo virou sinônimo de ódio e fúria aqui em casa. As velhas brigas voltaram com toda a força. Um dia pude ouvir meu avô falando com meu tio Gabriel: – O maldito estava devendo dinheiro para o Otávio, foi por isso que ele o matou… Desgraçado!!!

– O senhor tem certeza disso pai?

– CLARO QUE TENHO – Vovô gritou.

– O que o senhor pretende fazer?

– Tomar tudo o que ele tem! Vou deixa-los na miséria!!!!

Entrei no escritório naquele momento.

– Vovô… Me deixe ir com o senhor. – Falei com raiva.

– Aqui não é lugar de criança. – Meu tio falou me empurrando para fora do escritório.

– Vovô…

– Sai fedelha. Já falei.

– Deixe-a! Venha aqui Carol

– O senhor dá muita corda a essa menina pai.

– Cale-se Gabriel. Sei o que devo ou não fazer. Agora saia ou fique quieto e me deixe a falar com minha neta.

Olhei para meu tio e sorri, empurrei-o para o lado e fiz sinais para que ele saísse da sala. Meu avô nesse momento me olhou com os olhos sorrindo.

Tio Gabriel ficou revoltado bateu a porta do escritório fechando-a sem sair da sala como eu esperava que ele faria.

– Vovô…

– Não Carol, você não vai.

– Mas…

– Nada de me questionar Ana Carolina!

Fiquei em silêncio olhando-o com lágrimas nos olhos.

– Eu e seu avô vamos botar aqueles miseráveis para fora de lá a ponta pés. –

– Vou lá fazer algo que não me deixa orgulhoso apesar de tudo Gabriel. Odeio aquele homem e por mim ele já estaria morto. Mas, aquela infeliz e a filha não têm culpa.

– Claro que ela tem! Ela é filha daquele assassino, tem o mesmo sangue. É uma assassina também. – Falei com raiva. Eu odiava a todos os Camargo.

Ele respirou fundo e me disse: – Apesar do ódio que sinto por aquela família Ana Carolina, apesar da dor que aquele assassino me causou, não posso culpar uma criança. Vou botar eles para fora de lá apenas isso e depois verei o que fazer com tudo aquilo.

– Ele merece morrer como o meu pai. Ela merece sofrer como eu e o Rafael!

– Não diga isso minha filha!

– A Carol tá certa! O miserável tem é que morrer mesmo.

Ele me olhou e nada disse. Fomos interrompidos por minha avó.

– Mário o Delegado está aqui.

– O que ele quer?

– Falar com você, ele não adiantou nenhum assunto.

– Mande-o entrar. E quanto a você mocinha…

– Não vou sair daqui.

O Delegado entrou e sem rodeios falou: – Me desculpe pelo incomodo Dr Mário, D. Estelita, mas o que me traz aqui é um assunto sério.

– Então desembuche homem.

– O senhor por acaso tem algo a ver com a morte de Dário Camargo?

– Como é?

– O senhor me desculpe, mas, é meu dever investigar. Ele foi encontrado morto com um bilhete do lado com os dizeres “morte ao traidor”.

– E o que meu avô tem com isso?

– Mário? – Minha avó perguntou temerosa.

– Não fiz isso! Sou um homem de honra. Se o quisesse morto teria feito isso antes de deixar o senhor prende-lo. Mas, não vou mentir que me alegra aquele infeliz estar morto. Se for apenas isso delegado, Estelita mostre a ele a saída, por favor.

O delegado engoliu seco. Minha avó acompanhou o delegado até a porta. O mesmo saiu sem dizer mais nada. O silencio no escritório era absoluto.

Meu avô pediu para ficar só.

Eu subi para meu quarto. Saber que o homem que matou meu pai estava morto me causou vários sentimentos, uma espécie de alegria misturado com repulsa por estar alegre com a morte de alguém. Eu o odiava, na verdade o odeio até hoje.

Depois de um tempo meu avô saiu para o Recanto das Cerejeiras. Nunca mais ouvimos falar sobre a família daquele infeliz. Meu avô vendeu aquelas terras por não querer ficar com o lugar onde o filho havia sido assassinado. Eu nunca concordei com essa ideia, mas não pude fazer nada.

Algum tempo depois, minha mãe resolveu mudar-se da fazenda, sair de Nova Esperança. Na capital casou-se com um empresário para ter a vida de dondoca que ela sempre quis e meu pai nunca deu.

Eu e Rafael sempre que podíamos estávamos com nossos avós, até que resolvi morar com eles definitivamente o que provou uma briga homérica com mamãe.

Até hoje ela não me perdoa por ter escolhido eles a ela. Eu nunca seria o que ela desejava. Fiz medicina como meu pai e ela pensou que ficaria na capital, ledo engano. Assim que terminei voltei de vez para Nova Esperança, para meu lar.

O Rafael também voltou para Nova Esperança, só que fica na estrada indo e vindo para a capital, ele adora aquela efervescência, as baladas e as mulheres. E foi por meio dele que descobri sobre essa tal Diana.

– Diana Camargo de Freitas… Porque acho que você é sinônimo de problemas?

Após mais alguns minutos no banho, Ana Carolina saiu e acabou por dormir, pois no dia seguinte ela iria voltar a trabalhar no hospital da cidade.



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