Meses se passaram.
A rotina de Dani se estabilizou em torno de sua nova prioridade: Lexia. Todas as manhãs, a jornada começava na Cafeteria Central, onde Dani, mesmo em luto, fazia questão de manter um ritual de normalidade para a irmã. A diferença é que Letícia não estava mais lá.
A policial havia, de fato, dado espaço a Dani e Lexia após a morte dos pais, focando em ser apenas um porto seguro em vez de uma presença constante. A herança, que havia saído algumas semanas antes, dava a Dani a segurança financeira para custear a educação de Lexia e organizar a vida delas na cidade do interior, permitindo que ela se concentrasse em ser irmã e mãe substituta.
A amizade com Letícia se mantinha firme, mas com menos encontros. Letícia ligava para perguntar sobre Lexia, mandava mensagens de apoio e ajudava com conselhos sobre segurança, mas o toque, o olhar prolongado e a proximidade que existiam na primeira semana pós-tragédia haviam desaparecido.
Dani se descobriu sentindo falta. Sentindo falta da firmeza da policial, da sua tranquilidade. Mas ela atribuía isso à gratidão e ao conforto da amizade.
O Encontro no Parque
Em um sábado de sol, Dani e Luísa se encontraram em um pequeno parque da cidade. Lexia, mais adaptada e menos tímida, brincava perto de Luísa com uma bola nova. Dani estava com uma taça de suco de laranja, rindo de um caso engraçado que Luísa contava.
“É sério, Dani, você precisava ver a cara do juiz quando eu disse que…” Luísa parou no meio da frase, olhando por cima do ombro de Dani.
“Ah, mas que coincidência boa! Raizel, há quanto tempo!” Luísa exclamou, levantando-se para abraçar uma mulher que acabara de se aproximar.
Dani se virou. A mulher, Raizel, era linda, com cabelos cacheados e longos, vestindo uma camisa da polícia (não o uniforme completo, mas uma camiseta de treinamento), o que sugeria que ela também pertencia à corporação.
“Luísa! É bom te ver,” Raizel respondeu, sua voz melodiosa e seu sorriso vasto. “Eu estava por perto e resolvi dar um oi. Você está mais radiante do que nunca!”
Enquanto Luísa e Raizel conversavam animadamente sobre amigos em comum da capital, Lexia, que havia corrido para longe para pegar a bola, voltou.
De repente, Letícia apareceu no campo de visão de Dani. Ela estava com uma bola maior e colorida. “Ei, Lexia! Olha o que eu achei para a gente treinar umas embaixadas!”
O sorriso de Letícia se congelou ao ver a mulher conversando com Luísa. O rosto da policial, geralmente um retrato de calma controlada, ficou pálido. Dani viu a tensão rígida nos ombros de Letícia e a confusão instantânea em seus olhos.
“Letícia! Você por aqui! Acabei de encontrar a Raizel,” Luísa disse, puxando Letícia para perto.
Letícia demorou um momento para processar, mas recuperou a compostura. “Oi, Lu. Oi, Raizel.” Sua voz estava baixa e estranhamente formal.
Raizel, no entanto, não parecia nem um pouco constrangida. Ela sorriu maliciosamente para Letícia. “Ah, Lê! Pensei que você não viria. Viemos visitar uns amigos por aqui e aproveitei para dar um pulo no quartel. Sua cidadezinha é charmosa.”
O foco de Dani estava totalmente em Letícia. A maneira como seus olhos traíram um nervosismo que a Dani advogada raramente via era fascinante. Por que Letícia estava tão abalada?
Letícia tentou sorrir e apontou para Dani. “Raizel, esta é a Dani, minha… amiga. Ela é advogada.”
Dani sorriu para Letícia, um sorriso genuíno de cumplicidade. Era um sorriso que dizia: “Eu vi que você ficou nervosa, mas estou aqui. Estamos juntos nisso, como amigos.”
O olhar de Letícia se encontrou com o de Dani, uma mistura de alívio e pânico.
Foi nesse momento que Raizel agiu. Ignorando completamente o ambiente, ela se virou para Letícia com um brilho sedutor nos olhos, colocou as mãos nos ombros da policial, a puxou para um abraço apertado e, então, deu um beijo rápido e possessivo na boca de Letícia.
Raizel se afastou, olhando diretamente para Dani e Luísa, com um sorriso de superioridade.
“Desculpa a grosseria, meninas. É que eu morro de saudades da minha namorada! Não nos vemos há tanto tempo.”
A taça de suco de laranja na mão de Dani balançou perigosamente.
Letícia estava imóvel, o rosto vermelho e a expressão de puro horror e traição.
Dani sentiu uma fisgada no estômago, um sentimento ardente e desconhecido que definitivamente não era amizade. Era ciúme e a dor aguda da perda de algo que ela nem sabia que queria.

