Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.
Acordei na manhã seguinte com a sensação de que seria um dia de fortes emoções. A visita de Gabriel Medeiros de Alcântara não foi mera cortesia. Algo maior viria e eu deveria estar preparada.
Desci para tentar encontrar o Brito antes de ele sair e a mesa do café da manhã já estava posta.
– Bom dia dona Diana!
– Bom dia Lucia!
– Você sabe onde o Brito está?
– Ele saiu logo cedo para o estábulo. Disse que a senhora poderia ir lá quando terminasse o café.
– Certo! E sua mãe tudo bem com ela?
– Sim. No próximo fim de semana, se a senhora não precisar de mim, irei busca-la.
– Fique a vontade Lucia.
Logo após o café sai à procura de Brito. Encontrei-o ainda no estábulo conversando com alguns trabalhadores.
– Bom dia a todos!
Eles prontamente responderam. Fiquei esperando Brito terminar o que estava conversando e pelo que pude entender era sobre novas cercas nos limites da fazenda.
– Que cercas são essas Brito?
Ele olhou para os lados e disse: – São as cercas que fazem divisa com as terras de seu tio e do Dr. Mário.
– Elas estão tão ruins assim? Porque pelo que me pareceu você quer a troca feita imediatamente.
Ele respirou fundo e disse: – Elas foram quebradas Diana. Não sei quem fez ou porque fez. Mas, você sabe que esta fazenda é o que separa ambas as famílias. E a parte quebrada é justamente onde as cercas deles mais se aproximam.
– E você acha o que?
– Que alguém fez isso de caso pensado. Quebram justamente as cercas com a fazenda do Dr. Mário e nos próximos dias levaríamos alguns animais para aquele lado…
Entendi o que ele queria dizer.
– Acho que o Dr. Mário não está muito satisfeito… – Falei sorrindo.
– Acredito que não seja ele.
– Como assim?
– Tenho sérias dúvidas sobre ele fazer algo assim tão à vista e movido à raiva…
– Continue.
– Seu tio não gostou muito das cercas, já que ele usava indiscriminadamente as terras abandonadas… Já se falava até em uso capião… E também há o filho do Dr.. Mário, o tal Gabriel.
Respirei fundo.
– Quero ver essas cercas.
– Fica perto de onde aconteceu a tragédia.
Olhei para ele como que o interrogando.
– Foi ali que se suspeita terem feito à emboscada que matou o Dr. Otávio e um pouco mais adiante foi onde encontraram o corpo.
Baixei a cabeça com a forte lembrança daqueles dias.
– Quero ir lá.
– Ok! Antes preciso que você veja algumas coisas aqui para irmos até lá. O pessoal já esta saindo para resolver esse problema e deverá passar o dia inteiro. Temos tempo.
Fomos para o escritório e por mais que eu prestasse atenção no que Brito dizia, a sensação estranha persistia.
Depois de ver tudo o que Brito queria, fomos até onde os trabalhadores estavam consertando a cerca. Quanto mais nos aproximávamos da área em questão uma angustia sufocante dentro de mim aumentava.
Brito dirigia o carro em silencio. E eu agradecia por isso. As paisagens faziam com que lembranças alegres e as tristes viessem à tona.
Ao chegarmos lá os rapazes já estavam com os trabalhos bem adiantados, pude notar que até mesmo eles não queriam ficar ali por muito tempo, um clima pesado, uma energia ruim vinha daquele lugar.
– Você está bem Diana?
– Sim…
Pouco depois um homem aparece a cavalo, seguido por três capangas armados.
– O que vocês estão fazendo aqui nas minhas terras? – Ele gritou colocando o cavalo em cima de alguns de meus empregados que caíram no chão.
Reconheci aquela voz no mesmo instante, apesar do longo tempo sem ouvi-la. Uma onda de ódio invadiu e eu gritei:
– Alto lá! Estas terras são minhas!
– Eu sou o dono dessas terras por direito! Tudo isso aqui pertence a minha família!
– Eu sou a dona dessas terras por direito e de fato! E essas terras pertencem a mim! – respondi chegando perto de onde ele estava.
Ele desceu do cavalo e veio pra cima de mim gritando:
– Dona por direito e de fato? Você tem ideia de quem eu sou?
-Sim, dona. E pra mim você é apenas mais um que se acha muito mais importante do que realmente é. – Eu respondi.
– Não brinque comigo menina! Eu sou Décio Camargo e posso muito bem ser o seu pior pesadelo.
– Acredito que o senhor esteja se achando demais. Meu pior pesadelo?- Eu ri e continuei: – Em que época o senhor vive? Acha mesmo que pode intimidar as pessoas? Que me fará teme-lo? Ou que sairei daqui correndo?
– Moleca atrevida! – Ele gritou.
– Não grite comigo! Porque não sou surda e muito menos capacho seu!
Então entre dentes ele disse: – Estas terras são e sempre foram da Família Camargo! E não é uma moleca atrevida da capital que vai me dizer o contrário.
– Então estas terras estão nas mãos da dona certa. Porque me chamo Diana Camargo.
O silêncio que se seguiu foi interessante. Ele parecia não acreditar no que ouviu.
– Diana Camargo?
– Sim.
– Isso é impossível… – Ele falou olhando pra mim atordoado.
– O que é impossível? – Eu falei rindo intimamente
– Quem é seu pai? De onde você surgiu? E como?
– O que meu pai tem a ver com isso? De onde eu surgi? Que tipo de perguntas são essas? Quer saber mais alguma coisa? O que tomei no café da manhã?
Ele então pegou meu braço e puxando-me falou entre dentes: – Quem é seu pai?
Quando eu iria responder, Brito se adiantou: – Ela é filha do Dr. Lucas Camargo de Freitas e se o senhor tem amor à própria vida, o melhor é solta-la imediatamente.
– Lucas… Quem é Lucas? Como… – Ele sussurrou.
Então olhou pra mim e disse: – Saiba moleca que estas terras são minhas. E não vou parar de brigar por elas.
Eu ri.
– Não ria! Ele disse avançando novamente para mim.
Eu não me movi e isso o fez ficar ainda mais raivoso.
– Estas terras são minhas. E tenha certeza que se o senhor e seus capangas invadi-las novamente serão expulsos daqui a ponta pés ou a balas…
– Com quem você acha que está falando? Eu é que vou por você pra fora dessas terras que pertencem a minha família.
Ele me olhava com raiva. Eu apenas ria.
– Quanto você quer por essas terras? Vamos diga? – Ele bradou enraivado.
Eu gargalhei e disse: – Há pouco iria me por para fora e agora quer comprar o que na sua cabeça lhe pertence? Nenhum dinheiro do mundo me fará vender essas terras, ainda mais para um…
– Um o que? Vamos termine essa frase.
– Diana! – Brito disse entrando entre mim e tio Décio.
Ele me afastou e disse: – Volto a dizer, saia daqui agora. Estas terras não lhe pertencem e o senhor está invadindo-a. E será tratado como um invasor…
– Meu assunto não é com você empregadinho de merda!
– Ele não é um empregadinho – Eu respondi atravessando a frente de Brito e continuei: – O merdinha aqui é você! Saia de minhas terras agora ou eu vou mandar enxota-lo.
– Tente…
Nesse momento olhei para os empregados e todos já estavam atrás de mim, alguns com armas. Éramos maioria.
– Vai realmente tentar algo?
Ele olhou e percebeu que estava em minoria.
– Saia enquanto é tempo senhor Décio Camargo e eu espero que nunca mais bote os pés em minhas terras.
– Eu vou voltar. – Ele disse entre dentes – Isso não termina aqui.
Deu as costas e montou no cavalo saindo acompanhado dos capangas.
Respirei fundo e disse: – Porque esses homens estão armados?
– Porque eles mesmos me disseram que vir aqui seria perigoso. Por isso deixei que alguns deles viessem armados. Se você perceber há mais homens que o necessário para consertar essas cercas.
– Como você previu isso?
– Não previ, apenas preferi resguardar você e a eles próprios, já que por aqui situações violentas são corriqueiras.
– Não deveria ser corriqueiro alguém ameaçar o outro.
– Eu sei. Só que aqui isso se tornou corriqueiro. Diana, vamos embora?
– Sim. Vamos. – Olhei para os homens que estavam ao meu lado e disse: – Muito obrigada a todos. E não se deixem intimidar por ele ou qualquer pessoa. O que peço é apenas cuidado e que não provoquem discussão, no mais, apenas defendam-se.
– Diana…
– Não Brito! Não quero nenhum empregado meu baixando a cabeça ou sendo humilhado por pessoas como Décio Camargo. Os tempos são outros. Na verdade nenhuma pessoa pode ou deve se submeter a humilhações. Que isso fique bem claro a todos.
Depois de alguns minutos e mais algumas conversas, saímos em direção à sede da fazenda.
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– Eu preciso saber quem é esse Lucas e de onde ele veio. Aquela moleca dos infernos vai pagar caro a humilhação que me fez passar.
– Décio, o que você esta ai resmungando?
– Nada pai.
– Você foi ao limite com a Recanto das Cerejeiras e voltou bravo, o que aconteceu lá?
– Nada! Já falei! Que droga!
– Então porque você está assim? E tenha respeito que sou seu pai!
– Estou assim porque conheci a suposta dona daquelas terras. Ou melhor, a infeliz que está usurpando o que nos pertence por culpa daquele imbecil que o senhor chama ainda de filho.
– O que…
– Sim, pai. Uma infeliz que teve a audácia de me afrontar! Que se acha melhor que eu! Uma moleca da cidade.
– Décio…
– Sabe o nome da infeliz? Sabe? Como uma maldição do destino ela se chama Diana.
– Diana?
– Sim… Diana Camargo.
– Mas… Você disse… Como isso é possível?
– Eu sei o que eu disse pai. Eu sei muito bem o que eu disse.
– Décio… O que você pretende fazer? Ela falou algo mais?
– Muitas coisas pai… Ela me afrontou. Me humilhou diante de vários empregados.
– Filho… Pelo amor de Deus! Você está preocupado com humilhação? Eu quero saber como é possível uma Diana Camargo aparecer aqui e justamente naquela propriedade.
– Diana Camargo de Freitas. O nome do pai dela segundo um empregado qualquer, é Lucas Camargo de Freitas.
– Quem é esse?
– Não sei. E se o senhor me der licença, vou agora mesmo procurar saber mais sobre esse talzinho ai… É muita coincidência…
– Diana… Lucas…
– Pai… Eu não estou gostando nada disso, pra mim coincidência não existe.
– Décio! Não quero saber de confusão com essa Diana até que saibamos bem com quem estamos lidando.
– Isso eu não posso lhe garantir, porque ela é cheia de si. – Disse isso saindo de onde estava.
– Deve ser apenas uma mera coincidência… Não é possível.
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Cheguei em casa ainda perturbada, Brito respeitou meu silêncio durante todo o trajeto de volta. Assim que cheguei fui direto para meu quarto e pedi pra não ser incomodada. Passei todo o restante do dia e da noite trancada. As memórias iam e viam sem controle.
– Eu vi surpresa e depois ódio nos olhos dele. Por quê?
Essa pergunta não saia de minha cabeça. À noite, pedi algo para comer no quarto. Por mais que tentasse o sono foi agitado. Dormi pouco e muito mal.
Na manhã seguinte, logo cedo fui para os estábulos e pedi que selassem um cavalo para mim. Saí pouco depois, gostaria de cavalgar um pouco só, sem preocupações e sem destino. Por precaução fiquei longe dos limites das terras com meu tio.
– Ele ficou assustado quando falei meu nome. Ficou preocupado. Não foi como eu queria, mas, o que não tem remédio, remediado está.
Cavalgar sempre me fez muito bem, nesses momentos as lembranças boas de partes de minha infância vinham fazendo com que eu me acalmasse. Foi com meu pai Dário que aprendi a cavalgar e tomei gosto.
– Não existe maneira melhor de acalmar as ideias e resolver os problemas do que uma boa cavalgada, Diana! – Ele sempre dizia quando o acompanhava por estas mesmas terras há anos atrás.
Parei perto do rio e resolvi descer para ver a paisagem que era belíssima. Naquela parte o rio era largo com pequenas caídas d’água pelas pedras ali existentes.
Sentei embaixo de uma arvore admirando a calma daquelas águas.
Fiquei ali por um bom tempo até que ouvi o som alguém chegando também a cavalo. Era uma mulher que nunca havia visto ou tinha lembrança. Ela desceu do cavalo e foi até a beira do rio onde lavou o rosto
Eu estava tentando lembrar quem era ela, de onde ela estava não podia me ver. E isso foi muito bom porque ela pareceu sentir a presença de alguém e olhando para os lados perguntou: – Há alguém ai?
Nada respondi. – Espero que o cavalo não faça nenhum barulho – Como eu estava numa parte do rio mais escondida por matos e pedras e o cavalo pastava um pouco afastado ela não podia nos ver.
Ela levantou-se aproximando de onde eu estava e pude perceber o quanto ela era bonita.
– Quem está aí? Apareça agora?
Eu sorri pensando: – Se fosse um tarado? Um bandido? Que chance ela teria?
Em silencio estava, em silencio fiquei.
Ela me pareceu ficar com raiva e saiu apressada pegando o cavalo e saindo logo em seguida.
– Quem será que é ela? O que fazia aqui? – Senti um friozinho ao lembrar do jeito dela.
Não demorei mais tempo ali. Peguei meu cavalo e segui para a fazenda, havia muito que se fazer ainda.

