O sorriso profissional de Dani nunca falhava, mesmo quando seu mundo interior desabava. A dor aguda do ciúme e a traição explícita (pelo menos na cabeça dela) acenderam instantaneamente seu mecanismo de autoproteção.
Dani ajeitou o vestido, respirou fundo e forçou o sorriso no rosto. Ela olhou para Raizel, a “namorada” que acabara de beijar Letícia na sua frente, e a tratou com a polidez glacial que usava com advogados adversários.
“É um prazer, Raizel. Sejam muito felizes.” Sua voz era firme e cortês. Ela nem olhou para Letícia, que estava imóvel, o que só reforçou a narrativa de Dani: Letícia era mais uma pessoa desonesta, e seu trauma de relacionamento estava 100% justificado.
Ela chamou Lexia, que estava distraída com a bola. “Lexie, querida, vamos para casa. A Dindinha tem muito trabalho para amanhã.”
“Mas já, Dani? A gente estava se divertindo!” Luísa protestou, percebendo a tensão no ar, mas sem entender a dimensão da bomba que Raizel havia lançado.
“Eu preciso mesmo ir, Lu. Agradeço o tempo. Foi ótimo,” Dani disse, dando um abraço rápido na amiga e arrastando Lexia.
Letícia finalmente quebrou a rigidez, mas tarde demais.
“Dani, espera. Não é o que você está pensando,” Letícia tentou, estendendo a mão.
Dani a ignorou com eficiência cirúrgica. Ela apenas acenou para Letícia, um aceno formal de despedida, e se afastou. A frieza era seu escudo, e, naquele momento, era impenetrável.
A Urgência da Tia
No carro, Lexia percebeu a mudança no humor da irmã e ficou em silêncio. Assim que chegaram em casa, o telefone de Dani tocou. Era sua Tia Sônia, a irmã de sua mãe.
“Dani, que bom que te encontrei! Eu liguei para Luísa. Eu sei que é um momento difícil, mas é sobre a fazenda dos seus pais. A chuva da última semana foi terrível.”
Ouvir sobre a fazenda, um local repleto de memórias felizes da infância, deu um novo foco à Dani.
“O que aconteceu, tia?”
“O telhado do celeiro cedeu, e a cerca principal caiu. É um prejuízo grande. Teria que gastar uma fortuna para contratar um administrador de lá, e você sabe que os vizinhos não são confiáveis. Se ficar parada, vai virar sucata e você vai ter que vender por migalhas.”
A palavra “vender” atingiu Dani como um soco. A fazenda era o último elo físico com seus pais e o patrimônio que garantira o futuro de Lexia.
Naquele momento, Dani viu a solução perfeita. A fazenda seria sua fuga, sua redenção e a cura para o seu coração ferido.
“Tia, não se preocupe. Eu não vou vender. Eu vou cuidar disso. Eu vou para lá.”
Dani, com sua capacidade de organização e persistência, agiu rapidamente. No dia seguinte, ela revisou sua agenda no escritório e descobriu que, com a herança garantindo a estabilidade e o trabalho atual podendo ser terceirizado ou suspenso (dado que era seu próprio escritório), ela poderia tirar um ano sabático.
O Plano Secreto
Ela marcou um almoço com Luísa.
“Lu, eu estou indo embora,” Dani anunciou, a voz firme.
Luísa quase engasgou. “O quê? Para onde? E o escritório? E a Lexia?”
“A Lexia está indo comigo. A fazenda dos meus pais teve problemas sérios com a chuva, e eu não confio em mais ninguém para cuidar daquilo. Eu vou tirar um ano de licença para reestruturar tudo. Vai ser bom para a Lexia, ar puro, e para mim, que vou ter um foco que não seja tribunal ou… drama.”
A referência ao “drama” era clara.
“Você está fugindo da Letícia, não está?” Luísa perguntou, cética.
Dani a encarou com a intensidade de um promotor. “Eu estou protegendo a minha sanidade, Lu. E se a Letícia tem uma ‘namorada’, isso só me prova que eu não estou pronta para nada e que eu fiz a coisa certa ao me afastar no carro. Eu não vou ser a outra, nem a dúvida de ninguém. Eu tenho uma filha para criar agora.”
“Mas a Letícia estava pálida, Dani! Ela tentou te explicar!”
“E ela beijou outra mulher e não negou o título de namorada. Isso é tudo que eu preciso saber. Fim do assunto.” Dani pegou nas mãos de Luísa. “Eu preciso de você agora, Lu. Eu preciso que você me prometa uma coisa.”
“O quê?”
“Você não vai contar a ninguém — e quero dizer ninguém — para onde eu e Lexia estamos indo. Ninguém pode saber que estamos na fazenda. Por favor, Lu.”
Luísa viu a determinação nos olhos da amiga e soube que não adiantava discutir.
“Tudo bem, Dani. Eu prometo. Mas eu vou te ligar todos os dias.”
Dani sorriu, aliviada. “É tudo que eu peço.”
O Novo Cenário: A Fazenda
Duas semanas depois, Dani fechou as portas de seu escritório e partiu com Lexia para a fazenda no interior do estado, mas longe de São Brás.
Na fazenda, Dani, a Advogada de Defesa foi substituída por Dani, a Administradora Persistente. Ela vestia jeans puídos e botas enlameadas, lidando com construtores, eletricistas e o gerenciamento do pouco gado restante. Lexia, por sua vez, estava se adaptando ao novo ambiente, explorando os riachos e o celeiro.
A dor do luto ainda estava lá, mas o trabalho pesado e o foco em Lexia a impediam de pensar demais na traição e, principalmente, em Letícia.
Mas a distância tem um efeito traiçoeiro. Longe dos encontros casuais, Dani começou a se lembrar não da traição, mas do apoio incondicional de Letícia após a morte de seus pais. O muro estava reconstruído, mas a base agora era a amizade, e a fissura era a incerteza.

