A Advogada e a Policial - A Ruína do Meu Álibi

Capítulo 8: A Polícia Bate à Porta

Seis meses se passaram na Fazenda Esperança.

O sol queimava, mas era um calor honesto, de trabalho. Dani estava irreconhecível. Trocara os ternos de corte impecável por camisas de flanela e as scarpins por botas enlameadas. Seu bronzeado era de sol do meio-dia, e suas mãos, calejadas, seguravam um martelo com mais firmeza do que jamais seguraram uma caneta-tinteiro. Lexia floresceu no campo, e a fazenda, pouco a pouco, voltava a ter o brilho que seus pais haviam cultivado.

O luto ainda era uma sombra, mas a dor do ciúme e da traição (a cena de Raizel beijando Letícia) havia sido enterrada sob quilos de argamassa e reparos na cerca.

Em uma manhã, enquanto Dani inspecionava o celeiro recém-reformado, o capataz da fazenda, Seu Jorge, a procurou com o rosto fechado.

“Doutora Dani, roubaram uma dúzia de cabeças de gado na noite passada. Os portões estavam abertos e as marcas de pneu são grandes. Não foi coisa de moleque,” ele informou, a voz grave.

Dani sentiu a adrenalina da advogada voltar. “Roubo de gado? Seu Jorge, chame a polícia local. Eu não vou aceitar isso. Esse gado é o nosso investimento.”

A polícia de São Sebastião, o município vizinho, era, para ser gentil, ineficaz. Eles anotaram a ocorrência, prometeram investigar e, em três dias, não apresentaram nenhum progresso.

O roubo de gado estava virando uma onda na região. O delegado local, sobrecarregado, fez o que era de praxe: pediu reforço ao Quartel Regional.

A Oficial de Apoio

Na quarta-feira da semana seguinte, Dani estava na sede da fazenda, preparando uma lista de inventário para a seguradora, quando ouviu um carro robusto se aproximar. Não era a velha viatura picape de São Sebastião.

Ao sair, ela viu um SUV preto discreto, e ao lado, uma figura inconfundível.

Letícia.

Ela estava de calça cargo, colete tático e uma pistola no coldre, o uniforme de trabalho de campo. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto. A policial que havia ajudado Dani a organizar a casa, mas que Dani havia fugido, estava na sua porta, a mais de 300 quilômetros de São Brás.

O choque foi mútuo e avassalador. O ar se tornou denso e eletrizado.

“Dani…” Letícia começou, a voz rouca, a compostura abalada.

“Capitã Letícia,” Dani respondeu, recuperando o profissionalismo. Ela cruzou os braços, a postura de advogada (e administradora) em pleno vigor. “O que te traz ao meio do nada?”

Letícia respirou fundo, recuperando seu semblante de autoridade.

“Fui designada pelo Quartel Regional para coordenar a investigação de roubo de gado na área, Doutora Dani. O crime está organizado. Eu não sabia que a propriedade era sua.”

“Pois é. O mundo é, de fato, incrivelmente pequeno,” Dani ironizou, lembrando-se da desculpa de Letícia na livraria. “E eu não sabia que a sua jurisdição se estendia a roubos de gado. Achei que você estivesse ocupada em São Brás.”

Letícia entendeu a indireta. A referência à vida pessoal era clara, mas ela manteve o foco profissional.

“Não vou tocar no seu assunto, Dani. Estou aqui a trabalho. A Sra. é a proprietária, e preciso de todas as informações. Preciso do mapa da área, dos depoimentos do capataz e da lista do gado roubado.”

Dani, a persistente, não recuaria. Ela não ia deixar Letícia invadir sua fortaleza emocional.

“Certo. Você está aqui a trabalho, eu entendi. Não vamos misturar as coisas. Os documentos estão no escritório principal. E por favor, a sua… equipe precisa se hospedar na cidade. Aqui não temos quartos disponíveis.”

Letícia piscou, surpresa com a rigidez de Dani. Ela sabia que estava sendo punida pela mentira de Raizel.

“Não temos equipe, Dani. Sou eu e o policial local, que já me passou o caso. E eu não vou ficar na cidade, não. Eu vou ficar no alojamento de funcionários,” Letícia rebateu, apontando para uma cabana de madeira ao longe. “Não vou deixar o roubo de gado acontecer de novo no meu turno. A fazenda não precisa se preocupar com a minha presença, mas o ladrão precisa.”

Letícia, com sua autoridade natural, contornou a resistência de Dani com a própria determinação. Ela não pedia; ela agia.

A Convivência Forçada

A convivência forçada começou.

Letícia se instalou no alojamento e, imediatamente, trouxe ordem ao caos da investigação. Lexia, que tinha um carinho especial pela policial, foi a primeira a quebrar o gelo.

“Tia Lê! Você veio brincar comigo!” Lexia gritou, correndo para Letícia assim que a viu.

Letícia se ajoelhou e sorriu, um sorriso genuíno que Dani não via há meses. “Oi, Lexie. Eu não vim só brincar, vim caçar ladrão. Mas no meu tempo livre, a gente faz embaixada, combinado?”

Dani assistia à cena do batente. A ternura e o carinho que Letícia demonstrava por Lexia eram impossíveis de ignorar.

Nos dias seguintes, elas se viam constantemente: no escritório, discutindo a logística de segurança da propriedade; no celeiro, analisando as marcas de pneu. A tensão era palpável, mas o profissionalismo de Letícia era impecável. Ela era a parceira de trabalho ideal: focada, prática e forte.

Uma noite, durante o jantar (Dani cozinhava para ela e Lexia, mas Letícia insistiu em dividir a refeição para discutir as câmeras de segurança), Dani não aguentou.

“Letícia, sobre a Raizel…”

Letícia a interrompeu, pousando o garfo. Seu rosto estava sério, mas não defensivo.

“Ela não é minha namorada. Ela é minha ex. Uma ex que não aceita o término e que gosta de drama. Ela veio me visitar no Quartel e Luísa a encontrou. O beijo e a declaração foram uma tentativa de me encurralar, especialmente depois de eu ter te contado que eu gostava de você. Eu não consegui reagir a tempo porque fiquei paralisada. Eu sinto muito por ter deixado você pensar o que pensou.”

Dani sentiu um turbilhão de emoções. Raiva (pela Raizel, não pela Letícia), alívio e uma imensa culpa por ter fugido daquela maneira covarde.

“Por que você não me ligou, então? Por que não me procurou, sabendo que eu tinha fugido por causa disso?” Dani perguntou, a voz embargada.

Letícia a encarou com a honestidade brutal que Dani já conhecia. “Você estava de luto e estava se protegendo. Eu vi o quão determinada você estava a sumir. Eu não quis te pressionar no momento mais vulnerável da sua vida. Eu te dei o espaço que você pediu. Eu queria que você voltasse porque queria, e não porque eu te convenci.” A persistência de Dani havia encontrado sua igual, mas com a paciência que lhe faltava.



Notas:



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