A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.
Soren Kierkegaard

O cheiro de café fresco se misturava ao vento da manhã quando o carro parou em frente à casa. Lucia correu até a varanda com os olhos brilhando.

— Mãe! — gritou, antes mesmo de Tita descer.

A mulher idosa, de passos lentos e olhar profundo, desceu do carro com a ajuda de Brito. Diana observava da porta, discreta, sem se anunciar.

Tita abraçou a filha com força, emocionada. Depois olhou em volta, absorvendo cada detalhe da casa que outrora conheceu tão bem. Seus olhos pousaram em Diana, e por um instante, ela congelou.

— Você… — murmurou, com a voz embargada.

Diana se aproximou, sorrindo com delicadeza.

— Seja bem-vinda, Dona Tita.

Tita franziu o cenho, como se tentasse puxar uma lembrança esquecida.

— Esse olhar… — disse, quase para si mesma. — Eu já vi esse olhar antes… – Falou um pouco mais alto.

Diana não respondeu. Apenas sorriu e a conduziu para dentro da casa dizendo: – Tenho uma fisionomia comum, por isso a senhora deve estar confundindo.

Tita nada respondeu e deixou ser guiada para dentro da casa.

Algum tempo depois na cozinha conversando com sua filha, Tita questiona:

– De onde a Dona Diana é filha?

Lucia olhou para a mãe, confusa.

— Mãe? Como assim? Dona Diana não é daqui de Nova Esperança…

— Pode não ser nada, filha. Só… me deu uma sensação estranha. Como se eu conhecesse essa moça de algum lugar.

– A família dela é da capital pelo pouco que ouvi, mas, ela morava no Mato Grosso, mãe. Eles são muito ricos e Dona Diana quer investir na região.

– O que uma mulher tão rica assim veio fazer aqui em Nova Esperança, ainda mais com esse sobrenome?

– Mãe… Isso já está dando o que falar aqui também… As duas famílias estão em polvorosa com um Camargo dono dessas terras e os Camargo daqui estão loucos e já fizeram confusão…

– Minha filha o que aconteceu há 20 anos atrás deixou marcas profundas nessa cidade. Ninguém sabe o que aconteceu com a família do Sr Dário, o que foi feito com a Dona Sandra, uma pobre criança vendo tudo aquilo acontecer…

– Eu sei mãe… A família da Dona Sandra também a abandonou… Nunca consegui entender o porque?

– Nem eu filha…Nem eu.. Depois de tantos anos uma Diana Camargo aparecer aqui e comprar essas terras…É claro que assombrou a todo mundo.

– Mãe…

– Você sabia que a família da Dona Sandra tentou comprar essas terras? Que o Sr Dário tinha brigado com o cunhado poucos dias antes do acontecido?

– Mãe! Pelo amor de Deus. Esquece isso. Nós não temos nada a ver com essa guerra.

Diana parada escondida ouvia atentamente aquela história. Foi pega de surpresa com essa informação, sabia que sua mãe e a família não se davam por conta do casamento com o pai por ter se casado grávida e feito o avô desfazer um compromisso de casamento com um amigo da família.

– O que será que ainda vou descobrir? – Exclamou baixinho para não ser ouvida – Preciso conversar com a Tita, ela será uma fonte nova de informações importantes para que eu possa limpar o nome do meu pai. – Logo saiu dali para não ser vista.

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– Ta tudo bem Diana?

– Sim, Brito!

– Te conheço menina! O que está passando pela sua cabeça?

– Eu vou precisar ir até a capital esse fim de semana!

– Certo! Só isso?

Diana sorri e responde: – Saudades de Dona Sandra… apenas isso.

Brito sorri entendendo e pergunta: – Liz e Mariana podem vir com você na volta?

– Claro Brito! No máximo na terça estou aqui! A Mariana vai ficar com você de vez?

– Sim. E a Liz vem pra vaga de Agrônoma…

– Nepostimo, quem diria Brito… – Fala rindo.

– Você sabe que… – Diana nem deixa ele terminar a frase e logo diz: – Não se preocupe homem, sei o quanto a Liz é competente. E o Douglas?

– Desde quando o Douglas quer alguma coisa com agricultura? Aquele lá só pensa em nas pinturas dele e vive num mundo da lua Diana.

Diana gargalha lembrando do amigo que é um pintor talentoso e que estando inspirado não lembra de mais nada.

Os dois riem seguem em direção a sede da fazenda conversando animadamente.

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A noite caiu silenciosa sobre a fazenda. Diana estava na varanda, olhando para o céu escuro salpicado de estrelas, quando ouviu passos lentos atrás de si.

— Dona Diana? — era Tita, com uma xícara de chá nas mãos.

— Pode me chamar só de Diana, Tita. Aqui não tem formalidade entre nós.

Tita sorriu, sentando-se ao lado dela.

— Esse céu… continua igualzinho ao de antigamente.

Diana olhou para ela com atenção.

— Tita… posso conversar com você um pouco?

A mulher, que mexia o chá com calma, olhou para ela com ternura.

— Claro, minha filha. Posso chamar você assim?

Diana sorri assentindo

– O que aconteceu aqui há anos atrás? Nos últimos dias as pessoas se enfurecem pelo meu sobrenome.

Tita respira fundo e olha nos olhos de Diana.

– É como se o tempo tivesse voltado. Já houve uma Diana Camargo aqui nessas terras, sinto um aperto no peito ao lembrar a maneira como ela e família saíram daqui.

Diana engole seco.

– Desde que cheguei, sinto um aperto no peito dona Diana, lembranças vem forte… De certa maneira você me lembra a minha pequena, seus olhos lembram muito os dela.

– Tita…

– Eu sei… Houve uma morte aqui nessa fazenda.

– Morte?

– Sim, uma que marcou profundamente a cidade, não apenas pela morte, mas, por tudo o que seguiu, pelas pessoas afetadas, muitos inocentes sofreram.

Diana se acomodou à mesa, olhando para a fumaça que subia da xícara.

— Eu ouvi sua conversa com Lucia hoje cedo. Sobre o que aconteceu há vinte anos…

Tita suspirou fundo, como quem carrega um peso há muito tempo.

— Eu não sabia que você estava ouvindo. Peço desculpas…

– Não Tita, só atiçou minha curiosidade.

– Uma coisa posso lhe dizer dona Diana, o verdadeiro dono dessas terras o Sr Dário era um homem honrado e nunca que faria o que disseram. Disso eu tenho certeza. A desgraça que aconteceu com essa família..

– Tita…

– É melhor deixar isso no passado Dona Diana. É o melhor para todos! Tenha uma boa noite!

Diana ficou olhando Tita sair apressada e mais do que nunca ela precisava descobrir a verdade. Precisava tomar cuidado ao falar com Tita, como estarão os outros empregados de confiança de seu pai? Iria a capital falar com sua mãe e quando voltasse muitas coisas mudariam…



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