O encontro inesperado, as situações inusitadas, o que não foi combinado, mas tinha que acontecer. – Rubem Alves
O sol se escondia atrás das árvores, tingindo o céu de cobre e violeta. Diana cavalgava lentamente, guiada apenas pelo instinto — sem rumo, sem destino. Quando chegou à margem do rio, parou. Havia alguém ali.
Uma mulher, a mesma do outro dia.
Ela estava de costas, ajoelhada na beira da água, com os cabelos soltos e molhados, lavando o rosto. O vestido claro colava ao corpo com a brisa úmida. Diana desceu do cavalo em silêncio, mas não conseguiu evitar o som das folhas sob seus pés.
Carol se virou bruscamente.
— Quem é você? Resolveu se mostrar dessa vez? — Disse, com os olhos semicerrados enquanto se levantava sem pressa e sem medo.
— Eu poderia dizer o mesmo — respondeu Diana, com um meio sorriso.
— Como? Não fui eu que me escondi nas sombras das árvores para espionar, isso é com você.
Diana sorriu diante da percepção de que foi descoberta.
— Acho que você é que está me seguindo!
— Não – respondeu Diana sorrindo. — Mas se estivesse, você saberia. Eu não sou boa em ser discreta.
— Ah, isso eu já percebi.
— Hummm… Mas… O que uma linda mulher faz sozinha, seu namorado…
Carolina a olhou com indiferença e disse: — O que faz você acreditar que eu não possa me defender?
— Desculpe! – Disse levantando os braços e sorrindo– Na próxima você me engole…
— Ta aí uma coisa em que você é boa…
Diana se aproximou, parando a poucos passos dela e pergunta: — No que?
— Em me provocar.
— E você não é boa em esconder o quanto está incomodada comigo.
Carol cruzou os braços.
— Incomodada? Não. Só… intrigada. Você aparece do nada, compra terras que não são suas, e ainda tem a audácia de achar que pode andar por aqui como se fosse dona de tudo.
— Eu sou dona legalmente. E emocionalmente, talvez mais do que você imagina.
Carol riu, um riso curto, quase nervoso.
— Você tem respostas afiadas. Mas não me convence.
— E você tem raiva nos olhos. Mas não me assusta.
O silêncio entre elas era denso, quase palpável. O rio corria ao fundo, como se escutasse a conversa com atenção.
— Cuidado, Diana. Eu sou boa em odiar.
— E eu sou péssima em resistir a quem me desafia.
Os olhos se encontraram. Havia faíscas, havia dor, havia desejo. Mas também havia história. E feridas abertas. Carol parou por um segundo, como se quisesse dizer algo. Mas não disse. Montou no cavalo e partiu, deixando Diana sozinha à beira do rio, com o coração acelerado, o gosto do desafio ainda na boca, e a certeza de que aquele encontro não seria o último.
#######
Carol chegou em casa bufando de raiva, como se o encontro tivesse acendido algo que ela não sabia conter.
— Aquela… aquela… Ahhhh! – Disse com raiva.
— Carol? Aconteceu alguma coisa meu amor?
— Não vó, só encontrei com a nossa nova vizinha.
— Ela fez algo com você? Te disse alguma coisa? – Dona Estelita perguntou se aproximando para abraçar a neta.
— Ela não é nem louca de fazer algo comigo, vó, só foi um encontro inesperado, não se preocupe.
— Ah minha neta! Como não me preocupar seu avô está com os nervos à flor da pele por causa dessa mulher, seu tio está ainda mais nervoso ultimamente e você chega em casa assim!
— Ela é provocadora, audaciosa, sagaz e linda…
— O que? O que você falou Ana Carolina? Me parece que essa tal Diana realmente mexeu com você filha.
— Comigo? Até parece vó…– disse saindo em direção ao quarto
Dona Estelita sorriu olhando a neta: — Parece que você encontrou alguém que mexe com você mais do que o esperado.
###########
O corredor branco do hospital estava silencioso, exceto pelo som apressado dos passos de Diana com Brito ao lado, pressionando um pano contra o braço ferido.
— Foi só um rasgão, mas está fundo — disse ele, tentando disfarçar a dor. — Aqueles bois estavam possuídos hoje.
— Você devia ter esperado ajuda — respondeu Diana, preocupada. — Mas não, quis bancar o herói. Aguenta firme, já estamos chegando — disse ela, com o rosto tenso.
Ao entrar na sala de atendimento, Diana parou. Atrás da máscara e do jaleco, estava Ana Carolina.
— Você? — disse Diana, surpresa.
Ana Carolina ergueu uma sobrancelha.
— Eu sou a médica responsável. E você trouxe um paciente…
— Não. Trouxe ele para conhecer as instalações médicas.
— Veio provocar? Enquanto você ta ai falando ele está com dor e sangrando.
Diana sorriu, sem humor.
— Se eu soubesse que era você, teria vindo com mais cautela.
— E eu teria vindo com armadura e luvas duplas — disse Ana, sem desviar o olhar, como se cada palavra fosse uma flecha.
Brito olhou de uma para outra, desconfiado.
— Vocês se conhecem?
— Infelizmente — disseram as duas ao mesmo tempo.
Ana Carolina examinou o ferimento com precisão. Diana observava, braços cruzados, tentando não parecer afetada.
— Vai precisar de pontos — disse Ana, sem olhar para Diana. — E talvez de um pouco mais de juízo. Retirar boi preso em cerca com o braço nu é pedir pra virar churrasco.
— Olha só a doutora também conhece lida de fazenda, pensei que vivesse apenas entre bisturis e salas com ar—condicionado.
Ana Carolina parou por um segundo, depois sorriu por trás da máscara.
— E você vive entre cercas e faíscas. Deve ser difícil manter a calma com tanto fogo por perto.
Brito tossiu, tentando disfarçar o riso. Diana se virou para ele, irritada.
— Brito, quer que eu te deixe aqui sozinho?
Diana bufou, virando o rosto. Ana Carolina apenas sorriu, satisfeita terminando os pontos e curativos de Brito.
Mais tarde, no refeitório do hospital, Alice se sentou ao lado de Ana Carolina.
— Então…
— O que?
— A famosa Diana Camargo?
Ana Carolina revirou os olhos.
— Não começa, Alice.
— Interessante…
— O que é interessante?
— Você está mexida e não admite.
Ela é irritante. Arrogante. E linda. O pacote completo pra me tirar do sério.
Alice riu. Ana Carolina olhou pela janela, pensativa.
— Ela me desafia. Me provoca. E me faz sentir coisas que eu não queria sentir.
— Então talvez seja hora de parar de fingir que é só implicância. Porque o hospital inteiro percebeu.
Ana Carolina não respondeu. Mas no fundo, sabia que Diana estava mexendo com partes dela que há muito tempo estavam adormecidas.
########
Diana estava sentada na varanda da sede, com uma taça de vinho esquecida ao lado. O céu escuro parecia mais silencioso do que o normal, como se até as estrelas estivessem esperando por uma resposta.
Ela passou a mão pelos cabelos, ainda inquieta.
— Médica responsável… — murmurou, lembrando da postura firme de Ana Carolina, do olhar por trás da máscara, da voz afiada.
O hospital inteiro parecia ter desaparecido quando as duas se encararam. Era como se o mundo tivesse se resumido àquela sala, àquele embate.
Diana se levantou, caminhando até o parapeito da varanda. O vento da noite tocava seu rosto, mas não acalmava o turbilhão por dentro.
“Ela me provoca. Me desafia. E me desmonta com uma frase.”
Brito tinha notado.
— Linda, irritante, sagaz… — disse em voz baixa, como se confessasse para o escuro.
Mas havia mais. Havia algo nos olhos de Ana Carolina que a fazia lembrar de si mesma. Uma dor contida. Uma força que não pedia licença. Uma vontade de não se render — e ao mesmo tempo, de ser vista.
Diana fechou os olhos. Respirou fundo.
“Isso não é só atração. É colisão. ”
Ela sabia que aquele encontro não seria o último. E que, da próxima vez, talvez não fosse só palavras que iriam ferir — ou curar.

