“Há coisas que não se explicam. Só se sentem. E doem.” — Clarice Lispector
O céu estava encoberto, como se o dia tivesse esquecido de nascer por completo. Diana cavalgava em silêncio, o coração inquieto. O rio parecia chamá-la — ou talvez fosse a memória do último encontro.
Ao chegar à margem, viu Ana Carolina. De novo.
A raiva veio como uma onda, descontrolada. No dia anterior, ela havia visto Ana Carolina com uma jovem, depois soube que era Alice, uma médica. As duas estavam sentadas próximas, abraçadas, rindo de algo que Diana não conseguiu ouvir. Mas viu. E aquilo bastou.
Ela parou o cavalo, mas não desceu de imediato. Ficou ali, observando. O peito apertado, a respiração curta. Era ciúmes. Mas não só. Era raiva. Era dor. Era tudo o que ela não sabia nomear.
Diana queria ir embora. Queria fingir que não sentia nada. Mas não conseguiu. Desceu do cavalo com os olhos fixos em Ana Carolina, que permanecia sentada, como se esperasse o confronto.
— Veio espionar de novo? — disse Ana Carolina, sem se levantar.
— Vim ver o que é meu — respondeu Diana, com a voz cortante.
— Seu? O rio? A terra? Ou o direito de invadir momentos que não te pertencem?
Diana se aproximou, os passos firmes, o olhar em chamas.
— Você e a tal da Alice… estão juntas?
Ana Carolina franziu a testa.
— O quê? De onde você conhece a Alice? Como….
— Você ouviu a minha pergunta.
— Mas quem você pensa que é? Que satisfações eu te devo?
Diana hesitou por um segundo. O sangue pulsava nas têmporas. Ela queria respostas. Queria controle. Queria Ana Carolina longe e ao mesmo tempo, perto demais.
Sem pensar, puxou Ana Carolina pelo braço. As duas ficaram cara a cara.
Ana Carolina não recuou. Encarou Diana com firmeza. Passou a língua pelos lábios ao olhar sua boca.
— O que isso te importa? Disse se afastando, mas, sem deixar de olhar Diana nos olhos.
— Não deveria. Mas importa. E eu não sei por quê.
— Talvez porque você não sabe lidar com o que sente.
— Não brinque com fogo, doutora. Porque você pode acabar se queimando.
— E se eu quiser me queimar?
Ana Carolina ainda mantinha o olhar firme, mas havia algo nos olhos dela que tremia. Diana sentiu o coração acelerar, como se o próprio corpo tivesse decidido por ela.
Ela deu um passo à frente. Depois outro. O mundo pareceu silenciar — o rio, o vento, até os pensamentos.
Diana ergueu a mão e tocou o rosto de Ana Carolina. A pele quente. O olhar desafiador. E então, sem pedir permissão, a beijou.
Foi um beijo urgente, intenso, cheio de tudo o que não cabia em palavras. Ana Carolina hesitou por um segundo, mas depois correspondeu. As mãos se encontraram, os corpos se aproximaram, e por um instante, não havia passado, nem dor — só desejo.
Quando se afastaram, ofegantes, Diana manteve os olhos nos dela. Havia faíscas. Havia confissão. Havia algo que nenhuma das duas sabia nomear.
— Isso… — começou Ana Carolina, mas a voz falhou.
Diana sorriu de leve, com um brilho nos olhos que misturava raiva e ternura.
— Isso é o que você provoca em mim.
Sem esperar resposta, virou-se, montou no cavalo e partiu, deixando para trás o som dos cascos e o gosto do beijo.
Ana Carolina ficou ali, parada, com os lábios ainda quentes, o coração disparado e a mente em conflito. Encantada pelo beijo. Brava pela audácia. E sem entender o que estava sentindo.
O rio seguia seu curso, como se tivesse testemunhado algo que mudaria tudo.
Ana Carolina permaneceu à beira do rio, sentada sobre uma pedra úmida, com os braços cruzados e o olhar perdido na correnteza. O beijo ainda ardia nos lábios, como se tivesse deixado marcas invisíveis. Ela não sabia se estava furiosa, encantada ou simplesmente vulnerável.
Tinha vindo ali para pensar. Para fugir da casa, do hospital, da briga com o tio — que, mais cedo, a acusara de estar “se aproximando demais” da esposa dele. Um absurdo. Mas o tom, o olhar, a insinuação… tudo tinha mexido com ela, apesar de já estar acostumada com os ciúmes do Tio, naquele momento foi a gota d’água, a briga que veio a seguir foi apoteótica, acusações de ambos os lados, sua Avó Estelita precisou entrar na frente para que eles não se agredissem fisicamente. E agora, como se não bastasse, havia Diana.
Diana, com seus olhos de tempestade e sua presença que ocupava espaço demais. Diana, que aparecia sem aviso e deixava tudo fora de lugar.
Ana Carolina passou a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos. Mas não havia ordem possível. Como alguém que ela mal conhecia podia mexer tanto com sua cabeça?
“Ela me provoca. Me desafia. E me beija como se soubesse exatamente onde dói.”
O som de cascos interrompeu o silêncio. Ana Carolina se virou. Era ela. De novo.
Diana desmontou do cavalo com a mesma calma que usava para incendiar tudo. Caminhou até Ana Carolina sem dizer nada. Os olhos falavam por si.
— Você voltou — disse Ana Carolina, sem conseguir esconder a tensão na voz.
— Eu não devia. Mas voltei.
— Por quê?
Diana se aproximou, parando a poucos passos.
— Porque você me deixou sem ar. E eu não gosto de ficar sem ar.
Ana Carolina tentou manter a postura, mas o coração acelerava.
— Você não pode simplesmente aparecer, me beijar e ir embora como se nada tivesse acontecido.
— Eu não vim pra fingir que nada aconteceu.
Diana tocou o rosto dela com delicadeza. Ana Carolina fechou os olhos por um segundo, como se o toque fosse uma resposta que ela não queria ouvir.
— Você me confunde — disse Ana Carolina, num sussurro.
— E você me desmonta.
O silêncio entre elas era denso, carregado de tudo o que ainda não sabiam dizer. Diana se inclinou, como se fosse beijá-la de novo, mas parou a milímetros da boca.
— Isso não é só desejo. É colisão — murmurou.
E então se afastou, montou no cavalo e partiu, deixando Ana Carolina ali, com o corpo em alerta, o coração em guerra e a mente em ruínas.
Ela não sabia se queria correr atrás ou fugir para sempre.
Mas sabia que, depois daquele beijo, nada seria como antes.
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Ana Carolina chegou em casa com o corpo cansado e a mente em ruínas. O beijo de Diana ainda pulsava em sua memória, como uma marca invisível que teimava em arder.
Entrou devagar, como quem carrega o peso de um dia inteiro nas costas. Tirou os sapatos no corredor, passou os dedos pelos cabelos e parou diante do espelho da sala. O reflexo mostrava olhos vermelhos, lábios ainda quentes, e uma expressão que ela mal reconhecia.
Sentou-se no sofá, abraçando os próprios joelhos. O silêncio da casa parecia maior do que o normal — ou talvez fosse ela que estava menor por dentro.
“Isso não devia ter acontecido”, pensou. Mas sabia que não era verdade. Porque tudo nela gritava que aquilo — aquele beijo, aquele toque — era exatamente o que precisava.
Respirou fundo. Queria silêncio. Queria tempo. Queria entender o que estava sentindo.
Mas o silêncio não veio.
— Então agora você some o dia inteiro? — a voz de Gabriel cortou o ar como uma lâmina.
Ana Carolina se virou devagar. O peso do mundo ainda estava ali. E agora, mais uma vez, ela teria que carregar o peso da família também.
— Não vai responder? Some o dia inteiro? E ainda tem coragem de voltar como se nada tivesse acontecido? – Gabriel estava com um copo de uísque nas mãos vindo de algum lugar da casa, provavelmente da varanda.
Ana Carolina levantou-se e ainda no corredor parou, respirou fundo e respondeu sem hesitar:
— Eu fui respirar. Coisa que você não permite nem à sua esposa.
Gabriel jogou o copo e avançou dois passos, o rosto vermelho.
— Você sempre se mete onde não é chamada. Vive se aproximando da Elisa como se fosse sua confidente. Isso não é normal!
— Não é normal o seu ciúme doentio! — Rebateu Ana Carolina. — Você controla, acusa, sufoca. E agora quer jogar a culpa em mim?
Você sempre se meteu onde não devia… sempre quis o que era meu… até minhas namoradas… sua… sapatão dos infernos!
— Olha do que você me chama… Me respeite.
— Respeito? O que você sabe sobre respeito: hein? O que? Minhas namoradas, com quantas ficou? Até meu pai e minha mãe você tomou de mim!
— Olha o que você está falando, maluco? Suas ex? Fiquei sim! Fiquei e ficaria de novo, até porque foi com as que queriam ficar comigo e que nunca tiveram sentimentos verdadeiros por você. Até te fiz um favor mostrando isso, seu mal-agradecido! E não coloque meus avós nessa conversa, eles são seus pais e te amam. Você que é um destemperado que vive com raiva do mundo, um infeliz, um coitado que se faz de vítima.
A discussão escalou rápido. Dona Estelita apareceu na sala, aflita.
— Chega, vocês dois! Pelo amor de Deus, parem com isso! Mário! Mario vem aqui rápido! Eles vão se agarrar!
Mas ninguém parou. Ninguém ouviu! Gabriel estava transtornado as humilhações sofridas por parte do pai cobraram o preço, a raiva saltava pelos olhos, o ódio para com Ana Carolina o estava cegando.
— Você sempre defende ela! — Gritou Gabriel para a mãe. — Desde criança! Como se ela fosse perfeita!
— Porque ela não é você! — Respondeu Dr. Mário, surgindo firme no batente da porta. — E se você não percebe o que está fazendo com a Elisa, talvez seja hora de alguém abrir seus olhos.
O silêncio que se seguiu foi cortado por um soluço. Elisa estava parada na escada, pálida, com os olhos marejados.
— Eu estou grávida — disse, com a voz trêmula.
Todos se viraram.
— E eu não aguento mais. Amo você, Gabriel, mas, esses ciúmes está me destruindo. Está minando tudo o que eu sinto por você. E agora… agora eu tenho que pensar no nosso filho.
Gabriel tentou se aproximar, mas Elisa recuou.
— Eu vou embora. Vou passar um tempo com minha família na capital. Preciso de paz. Preciso proteger meu bebê.
Dona Estelita levou a mão à boca, chocada. Dr. Mário se aproximou de Elisa com delicadeza.
— Você tem todo o apoio que precisar, minha filha.
Ana Carolina olhou para o tio. Pela primeira vez, ele parecia pequeno. Desmontado. Sem palavras.
Ela sentiu pena. Mas também alívio.
Talvez, enfim, as máscaras estivessem caindo.
E no fundo, ela sabia: tudo aquilo — a briga, o ciúmes, o caos — só deixava Diana ainda mais viva em sua mente.
Gabriel saiu de casa transtornado.
Dona Estelita em prantos se desespera: – Por Deus, Mário ele é seu filho, o único filho que nos resta! Não deixe ele sair daqui assim!
Dr Mário respira fundo e sai atrás de Gabriel.

