“Não era mais possível. E mesmo assim, doía como se fosse.”

Caio Fernando Abreu

Gabriel caminhava como quem foge de si mesmo. O céu começava a escurecer, mas ele não via nada. Só sentia. Sentia o peso de uma vida inteira de cobranças, de comparações, de amor não dito.

Dr. Mário o alcançou alguns metros adiante, sem chamar. Apenas caminhou ao lado, em silêncio.

— Você veio me impedir? — Disse Gabriel, sem olhar.

— Vim te ouvir — respondeu o pai, com a voz firme, mas sem dureza.

Gabriel parou. Virou-se com os olhos em fogo.

— Ouvir? Agora? Depois de anos me calando com olhares, com exigências, com esse maldito silêncio que você chama de autoridade?

Dr. Mário não respondeu de imediato. Olhou para o chão, depois para o filho.

— Eu perdi um filho. E nunca soube como lidar com o que sobrou.

Gabriel riu, um riso amargo.

— O que sobrou? É assim que você me vê?

— Gabriel… Não. Mas foi assim que eu me vi. Seu irmão era meu orgulho. Meu herdeiro. E quando ele se foi, eu me perdi. E você… você era jovem demais. Eu não soube te amar do jeito que você precisava.

Gabriel engoliu em seco. As palavras do pai eram como pedras que finalmente caíam.

— Ele me protegia de você. Sabia disso? Quando você gritava, ele me escondia. Quando você cobrava demais, ele me dizia que eu era suficiente. E quando ele morreu… ninguém mais disse isso.

Dr. Mário se aproximou, com os olhos marejados, vendo pela primeira vez o filho.

— Eu te amei. Sempre te amei. Mas fui duro. Porque achei que era o único jeito de te preparar para o mundo. Só que o mundo não precisava de mais dureza. Precisava de afeto. E eu falhei.

Gabriel abaixou a cabeça. O corpo tremia. A raiva, o luto, o amor — tudo misturado.

— Eu não sou ele. Nunca fui. E você nunca me deixou ser só… eu.

— E eu nunca soube como ser seu pai sem ser o pai dele.

O silêncio entre os dois era pesado.

Dr. Mário tocou o ombro do filho.

— Volta pra casa.

— Não se preocupe Dr Mário. Volte para casa o senhor e diga a minha mãe que não se preocupe, não vou sair da fazenda ou a cavalo.

— Gabriel…

– Não, pai. Eu agora não preciso disso, há alguns anos atrás, sim. Agora não. Me deixe só, por favor.

Dr. Mário hesitou. Queria dizer algo, qualquer coisa que quebrasse o abismo entre eles. Mas respeitou o pedido. Levantou as mãos para tocar o ombro do filho uma última vez, como quem pede perdão sem palavras, mas, não conseguiu, recolheu a mão e voltou para casa com passos lentos e o coração apertado.

Gabriel ficou ali, parado, olhando o céu que agora se tingia de tons escuros. Sentou-se sobre uma pedra, como fazia quando era menino e o irmão o levava para passear ou simplesmente sentava ao seu lado. Lembrava do riso fácil, da paciência, da forma como ele o fazia sentir importante — mesmo quando o mundo o fazia sentir pequeno.

As lágrimas vieram sem aviso. Não eram só pelo irmão. Eram por tudo o que não foi dito, por tudo o que foi cobrado, por tudo o que ele tentou ser e nunca conseguiu.

Ele não queria ser o herdeiro. Não queria ser o substituto. Queria ser apenas Gabriel. Mas ninguém nunca perguntou quem era Gabriel.

A brisa da noite tocou seu rosto com suavidade. Pela primeira vez em muito tempo, ele se permitiu sentir. Sem raiva. Sem defesa. Sem máscaras.

Na casa, Dona Estelita chorava em silêncio, sentada na poltrona com um terço entre os dedos. Dr. Mário entrou, cansado, e se aproximou devagar.

— Onde está meu filho Mário? — Perguntou ela, sem levantar os olhos.

— Ele pediu pra dizer que não sairia a cavalo ou da fazenda.

— Eu perdi um filho Mário, minhas filhas moram longe. Gabriel foi a alegria quando não imaginava ainda ser mãe…

— Meu amor!

— Não, você agora vai me escutar!

Dr Mário respirou fundo e esperou o que sua mulher e seu grande amor tinha pra falar, não seria bonito, mas, ele ouviria!

Dona Estelita apertou o terço com força, como se quisesse segurar o tempo entre os dedos. Os olhos ainda fixos no chão, mas a voz saiu firme, embargada pela dor.

— Você sempre foi duro, Mário. Com os filhos. Comigo. Com você mesmo. E eu aceitei. Porque sabia que, por trás dessa dureza, havia amor. Mas o amor precisa ser dito. Precisa ser mostrado. Ou vira pedra.

Dr. Mário abaixou a cabeça. Não tentou interromper. Sabia que ela precisava falar.

— Quando nosso filho morreu, eu vi você se quebrar por dentro. Mas nunca se permitiu chorar. Nunca se permitiu sentir. E Gabriel… Gabriel cresceu tentando ser o que você esperava. E falhou. Porque você nunca disse o que esperava. Só cobrava. Só comparava.

Ela levantou os olhos, agora marejados, mas firmes.

— Ele não é o irmão. Não é o herdeiro. Não é o político. Ele é Gabriel. Nosso filho. Nosso último filho. E se você não aprender a enxergar isso, vai perdê-lo também.

Dr. Mário se aproximou, ajoelhou-se diante dela, como quem finalmente se rende.

— Eu sei. E hoje… hoje eu ouvi o que ele nunca teve coragem de dizer. E doeu. Porque ele tem razão. E porque eu o amo. Mas não soube mostrar.

Estelita tocou o rosto do marido com mãos trêmulas.

— Então mostra agora. Não com discursos. Com presença. Com escuta. Com afeto.

Ele assentiu, os olhos cheios.

— Eu vou tentar. Por ele. Por nós.

Ela sorriu, um sorriso triste, mas cheio de esperança.

— Ainda há tempo, Mário. Ainda há tempo.

Na varanda, Ana Carolina observava em silêncio. Tinha voltado da cozinha com uma xícara de chá para a avó, mas parou ao ouvir a conversa. Sentiu o peso daquelas palavras. Sentiu o amor que ainda resistia. E, no fundo, sentiu que talvez, só talvez, aquela família tivesse chance de se reconstruir.

Ela olhou para o céu escuro, onde as estrelas começavam a surgir. E pensou em Diana. No beijo. No caos. Na colisão como ela mesma havia falado.

Talvez o amor fosse isso mesmo: um campo de batalha onde, às vezes, o que resta é aprender a ficar.

########

Gabriel voltou para casa com os olhos inchados e o corpo pesado. A conversa com o pai ainda ecoava em sua mente, mas o que o aguardava ali era outra ferida aberta.

Elisa estava no quarto sentada na cama, com uma mala ao lado e os olhos fixos na janela. Quando o viu, não disse nada. Esperou.

— Você vai mesmo? — Perguntou Gabriel, a voz rouca.

— Eu preciso — respondeu ela, sem hesitar.

— A gente não vai nem tentar?

— Tentar? Não me faça rir Gabriel, a gente tentou. E vem tentando por anos. Tentou entre gritos, entre silêncios, entre ciúmes que me sufocaram. E agora… agora tem um bebê. E eu não quero que ele cresça nesse campo de guerra que nossa vida se tornou.

Gabriel se aproximou, mas parou a poucos passos.

— Você e Ana Carolina…

— Meu Deus, Gabriel! Não é possível! Ainda com essa história absurda!

— Elisa, vocês sempre tão próximas, rindo, se olhando. Você acha que eu não via?

— O que você via? Hein? Fala? Eu quero entender essa sua cabeça doentia… FALA.

— Ela sempre próxima a você, sondando, sendo amiga, abraços carinhosos. Ela é uma caçadora, uma sonsa. Sabe quantas namorada minha ela ficou? Quantas passaram pela cama dela? A queridinha dos meus pais, dos meus amigos, das minhas irmãs, das minhas namoradas.

— Senhor! Isso é doentio Gabriel. Você precisa não de um terapeuta ou psicólogo, teu caso é de internação psiquiátrica.

— Ela fez por onde! Sempre se metendo, sempre querendo ser mais do que devia!

— Ela foi minha amiga quando você me deixava sozinha. Quando você me fazia sentir pequena. Ela me escutava enquanto você me julgava. Carol sempre foi minha amiga, é isso que você não consegue entender e aceitar.

– Amiga… sei bem o quanto ela é amiga. Era amizade também com as outras…

— E você acha que eu devia parar de viver porque você não sabe lidar com a amizade entre duas mulheres? Isso é loucura Gabriel! Ela é sua sobrinha! É minha amiga! Nunca tentou nada comigo, NUNCA! – Gritou exasperada.

Gabriel passou as mãos pelo rosto, desesperado.

– Eu te amo Elisa!

– Que amor é esse Gabriel? Que machuca, que magoa e faz sofrer… que agride!

– Me perdoe! Talvez…

– Não Gabriel, sem talvez.

Respirando fundo Gabriel diz: — E agora eu vou ser pai. E não sei como lidar com isso. Não sei como ser pai desse jeito. Não sei como ser marido. Não sei como ser nada.

Elisa se aproximou, tocou o rosto dele com ternura. Ainda havia amor.

— Eu ainda te amo, Gabriel. Mas o amor não é suficiente quando tudo o resto machuca. Eu preciso de paz. E você precisa se encontrar.

Ele segurou a mão dela, como quem tenta impedir o inevitável.

— Me perdoa?

— Eu te perdoo. Mas preciso ir. Por favor, sai e dorme em outro quarto.

Gabriel saiu do quarto como quem carrega o próprio naufrágio. Cada passo até o corredor parecia mais pesado que o anterior. Entrou no quarto de hóspedes, jogou-se na cama sem tirar os sapatos, e chorou. Chorou como um homem que não sabia mais onde doía — porque doía em tudo.

Elisa. O bebê. O irmão morto. O pai. Ana Carolina. A sombra de Diana. A própria sombra.

Ele não sabia mais quem era. Só sabia que estava perdendo tudo.

O tempo passou sem que ele percebesse. A madrugada chegou, e o silêncio da casa parecia zombar dele. Levantou-se nos primeiros raios do sol, saiu pela porta dos fundos, buscando ar. Mas o ar também parecia pesado.

Foi até o estábulo, selou o cavalo e seguiu sem rumo. Precisa respirar, pensar.

Gabriel cavalgava sem rumo, mas não era o caminho que o preocupava. Era o que vinha depois. O que restaria dele quando tudo desabasse.

Viu uma silhueta encostada na cerca, fumando com calma. O cheiro do cigarro chegou antes da voz.

— Noite difícil, Gabriel?

Ele franziu a testa. Reconheceu o homem de imediato.

— Décio.

— Em carne e osso. E com bons ouvidos, diga-se de passagem.

— O que você quer?

— Conversar. Ouvir. Talvez oferecer uma saída.

Gabriel se aproximou, desconfiado.

— Um inimigo da minha família, por que eu te ouviria?

Décio sorriu, um sorriso torto, cheio de veneno.

— Porque às vezes, Gabriel, os inimigos dizem verdades que os amigos escondem. E você está cercado de gente que te ama, mas não te entende. Eu, por outro lado… entendo muito bem o que é viver à sombra de um irmão morto. Sei o que é ser o filho que sobrou.

Gabriel congelou. A frase o atingiu como um soco.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Sei mais do que imagina

— Do que você está falando?

Décio jogou o cigarro no chão, pisou com calma.

— Só estou dizendo que há coisas acontecendo. Coisas que envolvem o passado. E coisas que, se você quiser saber… vai precisar abrir mão de algumas lealdades.

Gabriel o encarou, o coração acelerado.

— Você está me ameaçando?

— Estou te oferecendo uma escolha.

Décio se virou e começou a caminhar pela estrada em direção a seu carro.

Gabriel ficou ali, parado, com a mente em turbilhão. Pela primeira vez, sentiu que o passado da família — aquele que sempre foi enterrado — estava prestes a emergir. E ele não sabia se estava pronto para encarar o que viria.

– O que esse desgraçado sabe? Do que ele está falando?



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