A terça-feira amanheceu cedo na fazenda, Ciço foi o primeiro a levantar, se antes ele já madrugava, naquele dia, em especial, o dono da fazenda estava nervoso e ansioso, era a maior feira da região, a pandemia trouxe coragem e medo, mas Simone era mais corajosa do que o próprio irmão e mais ambiciosa também.
De início, Ciço se incomodava um pouco com a ambição da irmã, mas depois começou a compreender melhor, principalmente, depois das humilhações que ela sofrera na terra natal, Simone sabia que dinheiro era poder, o irmão sabia que ela já tinha adquirido várias casas no interior do Ceará, tinha um empreendimento de uma fazenda de energia solar, tudo sem sequer pisar no local, quando voltasse, ela dizia, seria para comprar a cidade inteira, e o irmão não duvidava, por isso, no fundo, entendia.
Ciço sentiu o cheiro de café invadindo a cozinha, ao lado, quase num cantinho havia um forno à lenha, tudo era feito ali, desde bolos, pães, costelas assadas, biscoitos de cacau, que também eram torrados ali, foi com aquele forno que ele conquistou de vez Bené, a filha de um fazendeiro, estudada, meio afrancesada, mas que se engraçou por um homem robusto, bonito, mas maltratado, Ciço era bonito, alto, forte, mudou muito depois que a irmã chegou e que começaram a fazer dinheiro, era simples, mas tinha um guarda-roupa de fazer inveja, e se queria impressionar a mulher, portava-se como um caubói, apesar do pouco estudo, aprendeu a falar melhor, a se comportar melhor e a se vestir, muito, muito melhor, ainda estava de pijama, foi até o fogão que tinha o bule de café e serviu-se, Marlene, a fiel escudeira da casa devia estar na dispensa.
– Bom dia, seu Ciço, tá nervoso, já de pé?
– Bom dia, Marlene, estava aqui pensando na sorte que eu tenho de a Bené ter olhado para mim.
– Ihhhh, D. Bené é doidinha no senhor, todo mundo sabe disso por aqui.
– Eu sei, por isso, sou um homem de sorte, ela além de linda é toda estudada e eu sou apenas esse cara que lida com a terra, todo bruto. Tirei a sorte grande, Marlene.
– Ela também, seu Ciço.
– Chamando meu marido de um pedaço de mau caminho, Marlene, você deixe de ser enxerida, viu? Esse homem aqui tem dona e ela é valente, até com a família ela brigou. Bom dia, meu amor.
– Ai, ai, D. Bené, a senhora também, viu? Deus me livre que meu coração tem dono também.
– Pois avise a esse bando de urubu fêmea, que esse homem aqui tem dona.
– Bom dia, meu amor, levantou cedo assim por quê?
– A cama estava vazia e eu fiquei com frio, nervoso?
– Um pouco, já finalizamos quase tudo, apenas pequenas coisas, não quis acordar Simone, você sabe que ela está bem abalada esses dias, cansada, muita coisa administrativa nas costas dela.
– Metade da preocupação dela tem um nome: Flora.
– Ela está gostando mesmo dessa mulher?
– Sua irmã foi acostumada a vida inteira de ter mulheres atrás dela, de não querer se envolver, de não achar ninguém que valha a pena, aí, de repente, aparece uma advogada meio brasileira, meio francesa, super chique, inteligente, bonita, cheia de traumas, é um combo perfeito para Simone, ela não está acostumada a ir atrás, como tem que ir agora, o problema é que ela está com medo de sofrer, ela é pragmática, vamos ver o quanto de coragem ela tem.
– Coragem? Ela é uma das pessoas mais corajosas que já conheci, aliás, você e ela.
– Coragem para sofrer, eu tive coragem para ser feliz, agora vamos cuidar de tudo porque receberemos hóspedes, o café deve ficar lotado e nossa fazenda vai receber milhares de pessoas, minha prima me ligou ontem, disse que nas redondezas só se fala na feira.
– Simone tem mania de grandeza, e eu fico em pânico, com medo de alguma coisa dar errado.
– Se alguma coisa der errado, a gente conserta, não precisamos ser perfeitos, não fique nessa tensão toda também, não é necessário, nossos filhos chegam hoje, tudo sairá como o programado, temos uma equipe forte e competente que veste a camisa da nossa fazenda, que, de certa forma, também é o lugar deles, ontem no parque todos estavam felizes, foi tudo lindo.
– As crianças estavam maravilhadas, muitas delas nunca foram num parque, fiquei feliz em proporcionar isso aos filhos dos nossos colaboradores.
– Tudo dará certo, acredite. Marlene, receberemos hóspedes, preciso que arrume o quarto que tem a varanda, Sofia e Marina ficarão lá, Flora ficará com a Simone e arrume um quarto extra, sempre aparece alguém, peça para alguém instalar a mesa grande de madeira na varanda, como não está muito frio, tomaremos café nela a partir de amanhã, solicite a estufa de madeira para que seja instalada ao lado dela para os pratos quentes do café e traga os bancos grandes acolchoados, chame quantas pessoas forem necessárias para lhe ajudar, não se sobrecarregue, você não precisa disso , entendeu?
– Não gosto de muitas mãos no meu trabalho, D. Bené, a senhora sabe disso.
– Você pode delegar o trabalho, não precisa ficar se matando, quero mais duas pessoas aqui em casa trabalhando com você, não é um pedido, é uma ordem, a senhora entendeu?
Bené conhecia sua fiel escudeira, veio da fazenda do seu pai junto consigo, Marlene era maravilhosa, mas concentrava todo tipo de trabalho sem necessidade, ouviu umas palavras feias baixinho, umas reclamações, sabia de mau humor da amiga, mas queria poupá-la, em vários momentos já tinha oferecido um trabalho administrativo, mas ela não queria, sua filha era a gerente administrativa e trabalhava diretamente com Simone, mas a mãe amava a cozinha e foi por causa dela que Bené resolveu estudar culinária, suas melhores lembranças de casa circundavam a mesa de Marlene na casa de seus pais, quando o pai começava a brigar, era para a cozinha que ela ia, sentir o cheiro da paz, dos bolos e dos biscoitos de Marlene.
Sofia terminou de arrumar a mala, conferiu tudo, iriam de carro, pegaria Marina na Pegasus e de lá partiriam, foi em direção ao Aquarela, precisava fazer a segunda checagem e deixar tudo organizado com seus colaboradores.
O primeiro caminhão com insumos sairia às 16h, o caminhão com os chopes já tinha ido, chegou ao bar quase onze da manhã, almoçaria por lá mesmo, perguntou se Marina queria que mandasse o almoço e ela disse que queria, estava finalizando umas demandas estava sem tempo para comer, pediu que um funcionário fizesse a gentileza de entregar uma marmita linda para a namorada com uma salada e um bolinho de sobremesa, que ela comesse bem pelo menos, já que estava trabalhando feito uma louca e é provável que trabalhasse muito também.
O dia passou corrido para todos e quando perceberam já era mais de quatro da tarde, Sofia conseguiu deixar tudo organizado, apesar do atraso, tinha combinado com Marina que a pegaria às 16h, mas eram quase 17h já, mandou mensagem e disse que já estava saindo.
Na Pegasus, tudo estava acelerado, o COO da empresa pediu para falar com sua gerente de projetos sobre a feira, queria saber se tudo estava em ordem, era um passo da empresa importante e que geraria muita visibilidade, tudo em ordem, celular de Marina apitou indicando que sua carona já havia chegado, finalizou a reunião, pegou três tablets da empresa com o sistema instalado, seu notebook, pediu para a secretaria fazer a mala de brindes que levaria para a fazenda e desceu com a ajuda de um dos seus colaboradores, assim que Sofia a viu, desceu do carro e foi ajudá-la.
– Oi, meu bem, quer ajuda!? Deu um beijinho em Marina e já foi pegando a bolsa para colocar na mala.
– Oi, meu amor, quero sim.
Marina passou a bolsa com uns brindes, dentro tinha um mimo para sua namorada, colocaram tudo na mala, enquanto eram observadas de longe por uma francesa raivosa que fotografava tudo, só não sabia por qual motivo estava fazendo isso.
Sofia abraçou Marina antes de abrir a porta para ela, se beijaram novamente, entraram no carro e partiram para a Fazenda Cariri, estavam felizes, leves e apaixonadas, muito apaixonadas.
Dom estava finalizando os processos pendentes, Ella já estava em casa com Priscila terminando de arrumar as bagagens, era a mais empolgada de todos. Ainda estava esperando a decisão da medida protetiva que havia pedido, inclusive solicitou alguns favores, geralmente, nesse tipo de caso, elas saíam rápido, mas ele precisava de algo mais do que rápido. Queria viajar sabendo que na manhã de quarta, Lis teria um oficial de justiça na sua porta comunicando da decisão do juiz. E assim conseguiu, foi avisado pelo representante do Ministério Público que estava previsto que a medida fosse entregue amanhã, arrumou as coisas, deixou algumas instruções com a secretária e pediu que se tivesse algum problema em relação a esse caso específico que ela ligasse imediatamente.
Assim que chegou em casa ouviu a filha correndo já prontinha para viajar, estava a coisinha mais linda do mundo, quase uma mini fazendeira, toda de calça jeans, uma blusinha xadrez e um casaquinho também jeans, mas, nos pés, ainda eram tênis. Para o look completo, faltava o chapéu e as botas, Dom morreu de rir.
– Papai, papai, veja como estou!
– Está a coisa mais linda desse mundo todinho, meu amor e sua mãe cadê?
– Ela está terminando de se arrumar, papai. Eu já estou pronta, toda pronta.
– Eu estou vendo, meu amor, vamos lá em cima, aproveito e tomo logo o meu banho e saímos em meia hora, sua madrinha já está no caminho.
Dom subiu segurando sua mini fazendeira no colo, toda feliz e sorridente com sua garrafinha de água, Ella sempre tinha que tomar muita água, tinha essa doença autoimune e os rins funcionavam de forma diferente, a garotinha sabia disso e tudo era muito explicado, conversado, às vezes, mesmo não estando com vontade sabia que tinha que beber.
Priscila estava terminando de se arrumar, quase como uma fazendeira, Dom achou engraçado, de onde essas roupas tinham surgido?
– Você foi às compras, meu bem? Todo mundo tem roupa de fazenda? Eu também!?
– Mas é claro, só não comprei suas botas, achei que você não combinaria com elas, mas suas blusas de xadrez e a calça jeans apertada, eu fiz questão.
– Meu deus….
Priscila riu e Dom foi para o banho, já estavam atrasados.
Flora ainda estava no escritório, finalizando as pendências, inclusive sobre a audiência que teria amanhã, as lanternas de Simone já tinham sido entregues, de repente, a secretária liga avisando que ela tinha uma visita, perguntou se estava agendado, não lembrava disso. A secretária disse que não, que a visita estava ali para tratar de algo pessoal, perguntou quem era, e a resposta não a surpreendeu, pediu que ela deixasse entrar.
Lis Marie continuava imponente e arrogante, foi essa a impressão que Flora teve quando ela entrou na sua sala.
– Boa noite, Flora, podemos conversar?
– Estou curiosa sobre o que você gostaria de conversar, Lis.
– Podemos sentar?
– Por favor, sou toda ouvidos.
– O Dom me procurou e me ameaçou, dizendo que vai solicitar uma medida protetiva, para que eu não me aproxime de Marina. Achei isso muito invasivo e, até onde sei, Marina é adulta, ela mesma pode dizer que não quer que eu me aproxime.
– Sabe o que é invasivo? Você ir mais de uma vez na empresa onde minha filha trabalha, mesmo ela afirmando que não quer mais nada com você. Sabe o que é invasivo? É você seguir minha filha e a namorada dela e tirar fotos. Sabe o que é mais invasivo? Depois de toda a violência física e psicológica que você promoveu a ela, durante o relacionamento tóxico que vocês tiveram, você aparecer na empresa em que ela trabalha, como se nada tivesse acontecido e querer que minha filha trate você com amor, carinho e respeito, minha filha está em um relacionamento, está feliz, aqui não é Paris, temos leis e você vai respeitá-las, quer queira quer não.
– Quer dizer que você está me seguindo?
– Não tenho tempo para isso, Lis, mas você está sendo monitorada, em relação à medida protetiva, ela está em vigor, você deve receber esse aviso hoje de um oficial de justiça, caso você insista neste tipo de comportamento, eu vou rescindir o contrato da exposição e tenha certeza de que você terá extrema dificuldade em expor no Brasil e na América Latina. Aproveite sua estadia no meu país de outra forma, nós temos uma cultura muito rica, a cidade é muito cultural e muito artística. Agora, se me der licença, tenho audiência com horário marcado.
Flora saiu de trás da mesa e foi em direção a saída de sua sala e abriu a porta para Lis se retirar, o que aconteceu de forma intempestiva, a francesa só não bateu e esmurrou a porta porque não era possível, mas saiu com tanto ódio que gritou no elevador de raiva.
Estava sendo seguida, isso era claro, mais precisamente monitorada e ficou impressionada com esse tipo de coisa, sabia que a família de Marina tinha dinheiro e que era influente no Brasil, mas não imaginava que eles faziam esse tipo de coisa, parecia coisa da máfia napolitana. Quem a estaria seguindo? Olhou para os lados, mas não conseguiu identificar ninguém que achasse suspeito, resolveu voltar para o hotel, estava repleta de raiva.
Assim que Lis saiu da sala, Flora ligou para Carlão, contou do acontecido e disse que tinha dado com a língua nos dentes, sabia que não podia ter dito isso, que deixaria a ex de sua filha mais atenta, mas não conseguiu se segurar, foi repreendida por ele, disse que inclusive tinha que mudar a pessoa que estava fazendo isso, já que ela poderia ser descoberta, porque Lis estava mais atenta, ou pelo menos, estaria mais atenta.
Carlão precisou ligar para o amigo, dono da empresa que prestava esse tipo de serviço, conversou sobre o que tinha acontecido e solicitou que a pessoa que estava fazendo a vigilância fosse trocada, optariam por uma mulher. Talvez fosse mais discreto e menos invasivo, com troca de turnos a cada oito horas, Flora tinha solicitado monitoramento 24 horas, o que era caro, bem caro, mas para ela o dinheiro nunca havia sido um problema e não seria agora.
A viagem até a Fazenda Cariri foi tranquila, Sofia e Marina chegaram já à noite, enquanto Dom chegaria umas duas horas depois, optaram por esperar para o jantar, a fazenda estava linda, toda iluminada, com ambiente de feira mesmo, o café com uma área externa ampliada e o forno à tinha dos pães estava funcionando a todo vapor, por isso o cheiro de fermento, farinha e azeite no ar, uma delícia.
Foram recebidas por Bené, na casa grande, Simone e Ciço estavam no parque de exposições checando tudo pela milésima vez, o cheiro de costela também invadia a casa grande, a mesa de madeira posta na área e a lareira vertical encostada, para que ninguém passasse frio. Marina ficou encantada com o cenário, Sofia o conhecia bem, mas percebeu, pela ampliação do café e pelo tamanho do forno, que naquele ano a feira seria muito, muito maior.
O cheiro de mato misturado com café, cheiro de bolo, de pão e de amor, o cenário era um filme romântico pronto, Marina estava se sentindo plena e ansiosa ao mesmo tempo em que estava vivendo uma pequena lua de mel, sabia que profissionalmente a feira seria um passo importante para subir um degrau acima na Pegasus, por isso, apesar do cenário, de estar com Sofia, havia um misto de sentimentos bons e uma ansiedade para que o projeto desse certo, uma coisa era oferecer uma máquina de reciclagem numa feira na Noruega, outra era oferecer cinco máquinas num evento daquele porte, então, havia uma misto de ansiedade e satisfação, sua equipe adaptou o software que já existia para dar conta do volume de lixo que iriam reciclar, todos na empresa estavam ansiosos também, afinal a região em que a feira iria ocorrer era conhecida pelos grandes eventos.
Dom estava quase saindo do quarto para encontrar Priscila e Ella, quando o telefone tocou: era Flora.
– Oi, mãe, quase saindo para a fazenda, algum problema?
– Lis acabou de sair daqui do escritório, dizendo que você a ameaçou.
– Eu fiz uma promessa, é diferente, uma promessa que já cumpri.
-Eu não gosta dessa mulher, Dom, acho ela perigosa, egoísta e capaz de qualquer coisa para conseguir o que deseja, eu concordo com a medida, a Marina já sabe disso?
– Sabe, ela não se opôs, sabe como a ex funciona e Sofia também a procurou, deu um recado, óbvio que ela não gostou, ela se sentiu diminuída, o que para ela é um grande problema.
– Eu fui muito clara com ela, disse que se ela não se mantivesse distante, romperíamos o contrato e a mídia iria ficar sabendo desse assédio, ela ama a carreira, acredito que vá sossegar, pelo menos por enquanto.
– Você acha que é necessário um guarda-costas?
– Ela estava sendo monitorada, Dom, contratei uma empresa de segurança indicada pelo Carlão, mas acabei deixando escapar que eu sabia o que ela estava fazendo, inclusive tirando fotos da Sofia e da sua irmã.
– Como é que é?
– Exatamente, no relatório que recebi, ela foi flagrada batendo fotos da sua irmã e da Sofia, não sei para quê!
– Quando voltarmos, vou conversar com o Carlão, precisamos reforçar a segurança, não gosto de Lis, principalmente pelo passado que ela tem e pelos contatos os quais nós sabemos que ela tem.
– Meu filho, nós estamos no Brasil, os amigos mafiosos de Lis não podem nos alcançar, ela não seria louca a esse ponto.
– Mãe, ela é louca, o problema é esse, ela achou que a Marina estaria à disposição dela quando ela decidisse voltar, ela não tinha nenhuma dúvida disso, está frustrada, na volta vamos resolver isso de outra maneira.
– Você já está de saída para a fazenda?
– Já, Priscila e Ella estão lá embaixo me esperando, a senhora vai apenas amanhã mesmo, não quer uma carona, fazer uma surpresa, quem sabe?
– Não quero atrasar vocês, agora que estou saindo do escritório, a audiência de amanhã foi cancelada, irei amanhã mais cedo.
– Mãe, por que não vai agora conosco? Marina disse que estão todos na fazendo esperando para jantarmos, sei que tudo já está arrumado, a senhora toma um banho nós esperamos, pode ser dessa forma?
Flora pensou um pouco e acabou aceitando a proposta do filho, isso obrigaria Simone a trazê-la de volta, não deixa de ser um bom motivo.
– Tudo bem, meu filho, podemos fazer dessa forma, já estou aqui na garagem, tomarei um banho rápido, não vou atrasar muito vocês.
– Fique tranquila, mãe, vou descer, ainda vamos colocar as coisas no carro, vamos no carro grande, sei que tem umas caixas da Simone que a senhora está levando, teremos espaço de sobra, nos vemos daqui a pouco.
– Beijos, meu filho!
Dom desceu as escadas mais do que pronto, viu a esposa conversando com a filha que estava a coisinha mais linda desse mundo todo, ainda acordada, porque estava ansiosa demais para dormir.
– Oi, amor, demorou, está tudo bem?
– Mais ou menos, a ex de Marina reapareceu já dando muitíssimo trabalho, mas estamos resolvendo tudo isso, ofereci carona para minha mãe, amor, vamos pegá-la, tudo bem?
– Claro, Dra. Flora deve ter um bom motivo para mudar a rotina dessa forma, você não acha?
– Eu quero que ela tenha, minha mãe merece e precisa ser feliz, são anos de infelicidade, eu ainda acho que ela não vai conseguir, sabia?
– Dom, não pense assim, essa escolha tem que ser da sua mãe, e tenho certeza que ninguém nesse mundo opta por não ser feliz, essa nova felicidade da sua mãe precisa ser construída de uma forma muito sólida, acho que no fundo ela tem medo, ela deve ter vários medos, mas para além desse medo, há o remorso, o não perdão, no fundo, ela não consegue se perdoar pelo abandono do grande amor.
– Eu sei que é isso, até ela sabe, eu só acho que ela não está sabendo como ser feliz, espero que a terapia realmente ajude e que Simone seja um excelente motivo para ela querer essa felicidade que ela deixou pra trás.
– Simone não é qualquer mulher, acho que isso também tem deixado sua mãe pensativa, como lidar com um mulherão daqueles: bonita, rica, gostosa, poderosa, dá medo mesmo.
– Priscila, estou impactado com sua descrição, com um pouco de medo também.
Os dois caíram na gargalhada, Dom se aproximou da esposa e a beijou, Ella estava entretida na TV com um desenho de Dora, aventureira, seu desenho predileto, não viu os pais se beijando, mas estava começando a ficar impaciente, por isso, resolver reclamar um pouquinho, o que tirou o casal do transe amoroso.
– Vamos, filhinha, vou terminar de guardar as coisas no carro e já vamos, vovó vai com a gente.
– OBaaaaaaa…..
– Você pegou tudo?
– Tudinho, papai, estou mais que pronta, Tia Simone disse que vai me dar um cavalo pequeno de presente, vou poder andar nele?
– Claro, filha, papai vai andar com você.
Ella estava empolgadíssima, garota da cidade, quando foi a primeira vez para a fazenda Cariri foi mimada demais, nunca esqueceu Bené, nem o café, nem os bolos, vivia perguntando quando voltariam lá, por isso, a felicidade estampada.
Arrumaram tudo no carro e partiram para pegar Flora, que estava praticamente pronta, tão linda, Dom achava a mãe lindíssima, altiva, elegante, era apaixonado pela mãe, por isso, torcia tanto para a sua felicidade. As caixas com as lanternas de Simone foram acomodadas na parte traseira, Flora carregava um sacolão e uma bolsa de mão que davam perfeitamente na parte da frente. Abraçou o filho e a nora, agradeceu a carona e beijou a neta e apertou demais, Ella morria de rir com os apertos da avó, contou do cavalo pequeno que Simone disse que ia dar, estava na dúvida do nome ainda, mas queria ver seu animal para dar o nome primeiro.
Dom mandou mensagem para Marina dizendo que estava pegando a estrada naquele momento, não avisou que a mãe estava indo, queria que Simone tivesse uma surpresa, disse que se quisessem ir comendo, quando eles chegassem comeriam.
Marina mandou um áudio, disse que ainda estavam finalizando umas coisas no parque de exposição e que Ciço nem Simone tinham chegado à casa grande ainda, que ele viesse devagar, sem pressa e com cuidado.
Marina foi chamada pela equipe na entrada da casa grande, seu gerente de operações entrou o rádio, disse que a equipe dos drones passou o dia com Simone para as filmagens que ela queria e que tudo estava ok, testado e pronto para ser utilizado, Marina recebeu o equipamento, entregou as bolsas com brindes e pediu que qualquer problema ela fosse avisada.
Uma hora depois, Ciço e Simone entram em casa, Marina, Bené e Sofia estavam na cozinha conversando e tomando um vinho com umas comidinhas preparadas, era quase oito da noite já, pelos cálculos Dom chegaria antes das 21, era o tempo que os anfitriões tomariam banho.
– Boas noites, que cozinha mais linda!
Ciço entrou mais feliz do que galinha em época de colheita de milho, seguido por Simone, visivelmente cansada, mas sorridente também.
– Oi, meninas, tudo bem? Estão bem instaladas? Os trabalhos já começaram pelo visto.
Estavam todos felizes, a conversa estava animada, a fome estava pelos cantos da cozinha, Bené pediu que Ciço e Simone fossem se arrumar, Dom estava chegando, em breve jantariam. Os dois se retiraram, os últimos preparativos foram finalizados e, quase cinquenta minutos depois, os demais hóspedes chegaram, Ella dormiu a viagem quase todos, para está esperta na hora que chegassem à fazenda, Flora foi calada e Dom estava pensando no perigo que Lis Marie era, mas, ao chegar à casa grande, todos estavam na varanda, numa mesa enorme e aquecida , a mesma cena de filme que Marine teve a sensação de estar vivendo, os ocupantes do carro também tiveram essa sensação, que foi consolidade quando Ella soltou um sonoro: UAU! Todos riram!
Dom desceu, depois Priscila e depois a porta traseira do carro se abriu e Flora Holanda desceu mais altiva do que nunca, toda de branco, com um casaco pendurado no braço esquerda e uma bolsa de mão à tira colo, o que fez Simone se levantar imediatamente da cadeira a qual estava sentada. A surpresa surtiu o efeito esperado. Ella foi retirada da cadeirinha pelo pai e todos foram em direção à mesa.
Marina correu para pegar sua mini vaqueira que estava a coisa mais linda desse mundo todinho, mais animada do que qualquer pessoa naquela fazenda, Flora ficou por último, olhou tudo em volta, a fazenda estava linda e sua fazendeira preferida um espetáculo, sorriu para Simone e, imediatamente, ela foi em sua direção.
– A que devo tanta honra pela vinda antecipada da Doutora?
– Você precisa de mim, Simone, fechará negócios amanhã, estará belíssima, quero que todos saibam que estamos juntas, estou com saudades.
Simone pegou na mão de Flora e a levou para cima, ficou feliz demais com a vinda antecipada, isso demonstrava que havia interesse, que Flora também a queria, porque estava ficando insuportável este clima de não saber como seguiriam com aquela relação, estava insegura e com medo, dois sentimentos que não conhecia e que não sabia lidar.
Foram muito bem recebidos, Ella correu para o colo de Bené, a menina adorava a dona da casa, tinha dito aos pais que ela era mágica, deve ser por causa do café, também havia sido providenciado uma cadeirinha de madeira para ela, feita especialmente na fazenda, com estofado de couro, porta copo, Ella adorou.
Todos estavam à mesa, a sopa quente servida num pão italiano de fermentação natural, a costela assada no bafo, o arroz no alho, salada, vinho, o barril de cachaça envelhecida de Ciço, que Dom resolveu provar, após o jantar, os doces foram postos, Ella estava cansada e com sono, Bené recolheu a menina e achou um canto muito confortável no sofá, foi coberta e teve a boquinha limpa com um lenço umedecido, havia um restinho de bolo de chocolate na boca. Priscila chegou logo depois, viu a cena e agradeceu o carinho e a gentileza a Bené.
– Quando ela nasceu, a gente pensou que ela ia morrer.
– O que ela teve?
– Ela nasceu prematura, eu ia entrar no sexto mês de gravidez e minha bolsa estourou, nasceu pequena demais, os pulmões fracos, mas foram os rins que geraram muitos problemas.
– Eu acho ela linda, Priscila, perfeita.
– Ela é mesmo, mas pequena, toda perfeitinha, mas bem pequena, o cognitivo dela é perfeito, inclusive acima da média, tem uma inteligência incrível, mas ficamos com algumas sequelas, ela física, eu e o pai psicológica, superprotegemos ela de todas as formas, sabemos que isso não é bom, mas foi a forma que achamos para mantê-la viva. Mas, os rins são traiçoeiros, um funciona somente 20%, o outro funciona, mas precisa ser estimulado.
– Por isso, a garrafinha de água?
– Exatamente, ela tem uma cota de água que precisa consumir todos os dias, desde cedinho conversamos com ela sobre isso, sobre a importância da água, que é a água que a mantém longe dos hospitais, então ela sabe que todos os dias, ela precisa consumir 4 garrafinhas dessa, nem menos, nem mais.
– Por que a quantidade exata?
– Essa quantidade é calculada a partir do pesa e da idade e da capacidade do rim dela não se sobrecarregar, é o nefrologista que faz esse acompanhamento, o nosso medo é que no futuro, ela precise de um transplante, ficamos atentos o tempo todo.
– Vai dar tudo certo, Priscila, Ella é muito amada e cuidada, pode deixar que vou garantir que essa garrafinha dela esteja abastecida com a quantidade necessária, não se preocupe, quero que você relaxe também, nós cuidaremos dela, será um enorme prazer.
Bené se apaixonou por Ella, ela e Ciço tentaram muito ter uma menina, mas nunca veio, os filhos eram sua felicidade, isso era inegável, mas lá no fundo se sentia um pouco frustrada com a ausência dessa menina, não tomava nenhum comprimido que impedisse a gravidez, mas não tinha mais idade, estava na menopausa já, sofrendo com alguns sintomas inclusive, quem sabe um dia adotasse, essa ideia sempre esteve na vida de Ciço, mas ela sempre resistiu.
O jantar transcorreu absolutamente bem, alegre, com comidas maravilhosas, mas todos estavam cansados e o dia amanhã prometia. Dom e a família foram levados ao chalé que havia sido reservado a eles, Marina e Sofia foram para o quarto na casa mesmo e Flora e Simone permaneceram mais um pouco na varanda bebendo uma taça de vinho. Ficou combinado que todos tomariam café da manhã no café, no primeiro dia, ainda haveria vaga, nos dias seguintes, seria na casa grande mesmo.
– Fiquei surpresa com sua antecipação de chegada.
– Surpresa e feliz? Ou somente surpresa?
– Flora, você sabe que estou feliz com sua vinda, vai ser importante estarmos juntas na abertura da feira, você também é minha advogada e acho que teremos problema com aquele caso, posso proibir a exposição, mas não a entrada.
– Por que você acha que vai ter problemas com aquele coronel do século XV?
– Porque ele adora chegar, chegando, mas de certa forma, vamos aguardar, não sofro por antecipação.
– Você não me respondeu, ficou feliz?
– Flora, eu confesso a você que essa situação todo não é um fato vivido por mim, estou com alguns incômodos, incertezas, num momento mantemos distância, no outro você antecipa sua vinda para que as pessoas vejam que estamos juntas, fica difícil entender, eu estou tentando, mas confesso que fica bastante difícil.
– Simone, eu gosto de você, estou um pouco assustada, estou dando passos à frente, tentando ser feliz, você é a primeira mulher que despertou interesse em mim, é muito bonita, inteligente, forte, mas eu preciso aquietar meu coração.
– Acho que você tem remorso, que não quer ser feliz, tenho certeza que deve estar tratando essas questões na terapia, mas vou confessar uma coisa pra você: não quero sofrer, aliás não gosto de sofrer, eu tive um início de vida muito difícil, de muito sofrimento, somente Ciço sabe o que eu passei, eu fiz um trato comigo mesma, então eu não vou mentir pra você, eu estou apaixonada, não tenho problemas em falar sobre isso, mas não sou mais uma criança, também não sou tão paciente. Sei que você vale o risco, por isso estou arriscando, porém se eu perceber que não estamos caminhando, eu mesma coloco um ponto final.
– É uma ameaça?
– É uma promessa, e eu cumpro minhas promessas.
– Meu quarto está pronto para você, por favor fique lá, irei dormir no quarto do meu sobrinho, amanhã será um dia importante, preciso de você, obrigada por ter vindo.
Flora sentiu um banho de água fria, tão fria que se serviu de uma taça a mais de vinho, estava destreinada em relação a relacionamentos, precisava se livrar da culpa, de tudo, mas se livrar de sua história com Ida, era tirar um pedaço de si que ela não queria. Achou melhor dormirem separadas naquele dia, nos últimos tempos, só pensava, pensava e pensava, estava na hora de agir.
Lis Marie andava de um lugar para o outro, tinha sido humilhada pela família da ex, estava revoltada, parecia que ia explodir, resolveu pegar o celular e fazer uma ligação que há tempos não fazia.
O telefone tocou quatro vezes, quando deu linha, Lis Marie ouviu um barulho, já sabia onde o primo estava, na boate, era previsível demais.
– Cherie, bonsoir….
– Paolo, estou precisando de um favor, um grande favor.


Que delícia capítulo novo! Obrigada!