Família é o lugar onde o amor começa — e às vezes, onde ele precisa ser reconstruído.” — Eliane Brum


A casa estava cheia de vozes, risos e cheiro de café fresco. Pela primeira vez em semanas, Diana sentia que o peso no peito havia diminuído. Estava sentada à mesa com Rico, enquanto a pequena Clara, sua irmã de 12 anos, falava sem parar sobre os desenhos que fizera para eles.

— Esse aqui é você, Rico, com um chapéu de vaqueiro e um cavalo branco. E esse é você, Diana, com uma capa de super-heroína. Porque vocês são meus heróis.

Diana sorriu, emocionada. Rico bagunçou o cabelo da irmã com carinho.

— Você é nossa heroína, Clarinha. A única que consegue fazer a gente rir mesmo quando tudo parece desabar.

Clara se encolheu entre os dois, abraçando os irmãos com força.

— Prometem que vão voltar logo? E que vão me levar da próxima vez?

— Prometemos — disse Diana, beijando a testa da irmã. — Mas dessa vez, é melhor você ficar aqui. Nova Esperança não é lugar pra criança agora. Quero curtir um pouco mais nossa família, pode ser minha princesa?

— Siiimmmm. – Clara falou agitada como toda criança.

Era sempre assim, estar com os irmãos que ela amava fazia toda a diferença, desde que eles voltaram, as viagens de Diana e Rico para cuidar dos negócios da família, os três juntos acabaram se tornando momentos ainda mais prazerosos.

— Ei princesa, o que você acha de ir no shopping?

O sorriso brilhou no rosto da criança.

— Podemos brincar, ir no cinema?

— Com certeza, não é Di?

Diana apenas sorriu.

— Oba! Vou avisar a mamãe.

Saiu correndo para avisar Dona Sandra.

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Na sala, Mariana — esposa de Brito — conversava com Sandra sobre os planos para a fazenda. Veterinária experiente, ela estava animada com a ideia de ajudar na recuperação dos animais e da estrutura rural.

— A fazenda tem potencial. Com um bom manejo e cuidado, podemos transformar aquele lugar. E Liz está empolgada com a parte agronômica. Já fez até um plano de cultivo.

— Eu fico mais tranquilo por saber que Diana não está sozinha em Nova Esperança.

— O Brito tem me contado como estão as coisas por lá, tenha certeza Sandra que não vamos deixar a Di sozinha ou correr perigo.

—Ah! Mari, só de minha filha estar naquela cidade ela já corre perigo.

— Você…

— Não é uma questão de apoio. É medo, muito medo do que pode acontecer por ela estar remexendo nesse passado. Entendo e apoio ela desejar limpar o nome do pai. Mas, quem disse que isso impede de uma mãe ter medo? Pavor do que pode acontecer com seus filhos? Por mim já teria pego eles e colocado numa redoma.

— Sandra… as vezes a nós temos que deixar eles simplesmente irem…

— Não é fácil…

— Quem disse que é? A única coisa verdadeira que podemos fazer é prepara-los para o futuro. Dar as direções corretas e estar de braços abertos todas as vezes que eles voltarem.

Sandra passou a mão nos olhos, como quem tenta afastar o medo com um gesto simples. Mariana se aproximou, sentando-se ao lado dela no sofá.

— Sabe, Mari… às vezes eu me pergunto se fiz certo. Se esconder os filhos, mudar os nomes, fugir… foi mesmo proteção ou só mais uma forma de silenciar a dor.

Mariana segurou a mão da amiga com firmeza.

— Você fez o que podia com o que tinha. E fez com amor. Isso nunca é errado.

Sandra olhou para ela com os olhos marejados.

— Mas agora eles estão voltando. E eu não posso impedir. Não posso proteger. Só posso esperar. E isso… isso me mata um pouco por dentro.

— Eu entendo. Mas olha pra eles, Sandra. Diana é uma mulher forte, determinada. Rico é firme, leal. E Clarinha… é luz pura. Isso não veio do acaso. Veio de você.

Sandra sorriu, um sorriso triste.

— Eles são tudo o que eu sonhei. E tudo o que eu temi perder.

Mariana respirou fundo, como quem carrega também seus próprios medos.

— Quando Brito me contou sobre Nova Esperança, sobre tudo o que aconteceu… eu senti um peso. Mas também senti que era hora de enfrentar. De reconstruir. E não só a fazenda. Mas a história. A verdade.

Sandra olhou para ela com gratidão.

— Obrigada por estar com eles. Por ir junto. Por acreditar.

— Eu não vou deixar que nada aconteça com Diana. Nem com Rico. Nem com você. E se depender de mim, essa história vai ser contada como deve ser — com justiça.

Silêncio. Mas não o silêncio da dor. Era o silêncio da escuta. Da presença. Da promessa.

Sandra apertou a mão de Mariana com força.

— Então vá com eles. E volte com eles. Inteiros.

Mariana assentiu.

— É tudo o que eu quero.

Liz entrou na sala com uma prancheta nas mãos e um sorriso no rosto. Alta, decidida, com olhos que pareciam sempre observar mais do que diziam.

— Chegamos! E trouxemos café, charme e disposição!

Douglas vinha logo atrás, com o estojo de tintas pendurado no ombro e um olhar curioso que parecia escanear cada canto da sala como se fosse uma tela em branco.

— Finalmente! — Disse Diana, saindo da cozinha para abraçar a amiga. — Achei que vocês iam desistir da missão.

— Missão dada é missão cumprida — respondeu Liz, apertando Diana com força. — E eu não ia perder a chance de ver Nova Esperança com meus próprios olhos. Nem de te acompanhar nessa jornada.

Douglas se aproximou, estendendo a mão para Diana com um sorriso que misturava charme e provocação.

— E eu não ia perder a chance de ver você de novo, Di. Tá cada vez mais… inspiradora.

Diana riu, balançando a cabeça.

— Você continua um exagerado, Douglas.

— Exagerado, não. Artista. E artistas têm licença poética.

— Licença pra jogar charme, você quer dizer.

— Apenas para você, minha querida. Meus olhos brilham diante de tamanha beleza.

— Um galanteador nato. Igualzinho ao Rico…

— Ei… – Douglas piscou, teatral.

Rico apareceu no corredor, secando as mãos com uma toalha. Ao ver Liz, abriu um sorriso.

— Olha só quem chegou pra deixar a casa mais bonita.

Liz ergueu uma sobrancelha, divertida.

— E você continua com esse jeito de quem coleciona elogios prontos.

— Não são prontos. São personalizados. Só uso com mulheres inteligentes e perigosas.

— Então vou tomar como um aviso.

Diana observava os dois com um sorriso no canto da boca. Liz era sua amiga de longa data, e sabia exatamente como lidar com homens como Rico — com charme, mas sem perder o controle. Era bom ver Liz se divertindo. E Rico… talvez estivesse finalmente distraído do peso que carregava. Ela sabia que Nova Esperança não seria fácil, mas com eles ao lado, tudo parecia menos impossível.

A cena era vista por Sandra e Mariana que riam das brincadeiras dos filhos.

— Tia Liz! – Clara gritou animada correndo para abraçar a jovem.

— Olá meu amor!

— Tia, você também vai com meus irmãos?

— Sim, e vou estar esperando lá por você.

Douglas se aproximou de Rico, dando um tapinha nas costas.

— E aí, deixe minha irmã longe das suas garrinhas, ok?

— O que é isso? Por quem me tomas?

— Te conheço Rico… Mas, pronto pra voltar pro campo de batalha?

— Sempre. Mas dessa vez, com reforços.

Liz olhou para Diana, depois para Rico, e disse com leveza:

— Vamos fazer história. E talvez… algumas boas confusões também.

Diana assentiu, sentindo que, com eles ao seu lado, a volta a Nova Esperança seria menos solitária — e muito mais interessante.

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No escritório, Diana, Rico e Lucas estavam reunidos em torno da mesa, os documentos espalhados como peças de um quebra-cabeça antigo. A caixa de madeira estava aberta, e as folhas amareladas pareciam respirar memórias.

— Esse contrato aqui… — disse Rico, apontando para uma cláusula — mostra que o acordo entre papai e Otávio era legítimo. Sem juros, com divisão de produção. Isso derruba toda a narrativa de dívida.

Lucas assentiu, os olhos atentos.

— E essa carta aqui, escrita pelo próprio Otávio, confirma que ele confiava em Dário. Isso precisa ser entregue a alguém que saiba o que fazer com isso.

Diana passou os dedos pelas bordas do papel, como quem toca uma ferida antiga.

— Vamos organizar tudo. Criar uma linha do tempo. E depois… levar ao advogado. Mas antes, quero entender tudo. Quero sentir o que Nova Esperança ainda guarda.

Lucas olhou para os dois com orgulho silencioso.

— Vocês estão prontos. Mais do que imaginam.

No jardim, Liz e Mariana estavam sentadas com mapas, pranchetas e uma pasta cheia de anotações. Clara observava curiosa, com um lápis na mão.

— Aqui, vamos começar com a recuperação do solo — explicou Liz, apontando para uma área da fazenda. — E depois, a rotação de culturas. Nada muito agressivo. A terra precisa respirar.

— E os animais? — perguntou Clara.

Mariana sorriu.

— Vão receber cuidados especiais. Vacinas, alimentação adequada, e muito carinho. A fazenda vai voltar a viver, meu amor.

Diana se aproximou, observando os planos com interesse.

— Estou gostando do que vejo, podem me apresentar agora?

— Claro Di, senta que vamos mostrar o que pensamos.

As duas passaram a apresentar passo a passo do planejamento das ações, manutenções, aquisições e manejos que seriam feitos a partir do já havia sido implantado.

— Gostei do que vocês me apresentaram. Com certeza vamos realizar cada passo com cuidado. Aquelas terras são muito especiais para mim, vocês sabem.

— É mais do que trabalho, Di — disse Liz. — É reconstrução. E eu quero estar com você em cada passo.

Diana sorriu, mas havia algo em seu olhar. Liz percebeu.

— Mãe…

— Pode deixar, já entendi. Vou falar com Sandra e Lucas… juízo vocês duas.

— Tá pensando nela, né?

Diana suspirou.

— Desde aquele beijo, tudo ficou mais confuso. Ela é filha do homem que meu pai foi acusado de matar. E mesmo assim… eu não consigo parar de pensar nela.

Liz tocou o braço da amiga com carinho.

— O coração não entende lógica.

— Liz, não estou em Nova Esperança para encontrar um amor, pra viver um romance épico, já imaginou o enredo onde, duas mulheres de famílias inimigas, onde o pai de uma é acusado de matar o pai da outra… Isso da um filme.

Liz sorri. Diana usa a ironia e a acidez como defesa e ataque.

— Eu diria um dilema ou romance shakespeariano, mas, pode ser também um Jane Austin.

— Liz!

— O que? Quem falou em romance e enredo foi você, só atualizei.

Elas riram.

— Sério Liz, não sei o que fazer. Ela mexe comigo, tem um jeito nervosinho que me faz querer instigar até ela reagir, se bem que não precisa de muito pra ela atacar, não… Ela é feroz… encantadora.

— Ihhh… Já vi que a Dra jogou o laço e você caiu nele direitinho.

Diana respira fundo e diz: — Estou perdida Liz.

— Di, pode ser que você não esteja perdida. Mas, assustada e ela pode estar tanto quanto você.

— Eu não estou assustada.

— Nããooo… De maneira alguma. Te conheço há anos Diana, somos melhores amigas. Ela te assusta, não por ser filha e neta de quem é, sim pelo que te faz sentir.

— Eu… eu… você está certa. O que eu faço?

— Vive isso. Vai até Nova Esperança, faz o que tem que fazer e vive isso. E quando puder conta a verdade pra ela. Porque ela merece saber com quem vai se envolver.

— Eu vou pensar no que fazer Liz.

— Só não fuja Diana. Se permita sentir e viver algo diferente de tudo o que você já viveu e sentiu. Apenas se permita.

No alpendre, Douglas e Lucas conversavam animados. Douglas gesticulava com entusiasmo, os olhos brilhando.

— Lucas, eu tô falando sério. Diana é incrível. Forte, inteligente, linda. Eu queria investir mais nela. Mostrar que tô aqui, sabe?

Lucas riu, balançando a cabeça.

— Douglas… você é um bom rapaz. Mas, você sabe que a Diana gosta de meninas, né?

Douglas ficou em silêncio por um segundo, depois sorriu.

— A Diana já teve envolvimento com homens, cara.

— Enquanto não se assumia, irmão. Ela não queria admitir que gostava de meninas. E por um tempo ela quis esconder isso dela mesma.

— Isso explica muita coisa. E tudo bem. Eu gosto dela como ela é. Posso tentar fazer ela me ver como opção também. Afinal, muitas pessoas gostam de pessoas, não do gênero.

— Douglas… Não faz isso, cara. É por pensar assim que muita gente machuca e sai machucado de relacionamentos. A Diana, é lésbica irmão. Gosta de mulher. Se por acaso, fosse a Liz no seu lugar, teria muita chance de acontecer algo. Você não tem chance alguma. Esqueça isso.

— Porra! Pensei que você era meu amigo e iria querer me ter como cunhado.

— Cara. Esquece isso. Você não tem a mínima chance com a minha irmã, então não poderia ser meu cunhado nunca.

— Vou flertar com a Diana. Se eu ver que tenho alguma chance, com certeza vou investir.

— Então espera sentado ou deitado. Porque você não vai ter a menor chance. Só avisando, por ser seu amigo.

Douglas baixa a cabeça, olha para o amigo e diz: – Sem chance?

— Zero chances.

— Então só amizade…

— Isso, Douglas, e fazer isso é sinal de respeito com a Diana e maturidade sua.

Douglas respira fundo.

— Irmão, em Nova Esperança deve ter várias mulheres para que possamos tentar algo meu amigo. Seremos a novidade. Dois homens bonitos, solteiros… Mas, tem que ser com respeito e sempre avisando que não quer nada sério. Só diversão.

— Você tem razão. Quem sabe não encontro outras musas inspiradoras para minha arte.

— Assim, é que se se fala.

Mais tarde, Liz e Diana estavam sentadas na varanda, observando o céu que começava a se tingir de laranja.

— Di… posso te dizer uma coisa?

— Claro.

— Eu sei que brinco com Rico, que dou corda nos flertes e as vezes uns cortes também… mas, no fundo, eu gosto dele.

Diana olhou para a amiga com ternura.

— É complicado. Rico tem medo de se envolver, adora diversão e mulheres. Além de ter muita coisa mal resolvida com relação a nossa família. Além da idade, né amiga…

— Tenho interesse nele.

— Então investe, mas, sabendo que pode não receber o que você quer.

— Eu não quero pressa. Só quero verdade.

— E você merece isso. Verdade. Amor. Tudo.

O silêncio entre elas era confortável. A casa estava cheia. A família reunida. E Nova Esperança os esperava.

Mas agora, eles estavam prontos.



Notas:



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