De pés descalços desci do táxi, ainda sendo acompanhada pela leve música que tocava ao fundo da minha viagem, não tentei correr para fugir da chuva, deixei que ela salpicasse cada parte do meu corpo na breve caminhada até a porta de casa. Remexi na bolsa por alguns segundos em busca da chave, desejava um banho quente e uma bela taça de vinho no processo de arrumar a mala, uma viagem, mesmo a trabalho não cairia tão mal, no fundo seria bom fugir um pouco de toda confusão dos últimos dias, principalmente hoje. Me aproximei da porta, a leve iluminação brilhou na maçaneta, o que me fez a observar melhor, a porta estava entreaberta, meu coração acelerou e a descarga sensorial me fez entrar na casa sem antes pensar que poderia haver alguém ali. Acendi a luz com as mãos trêmulas e o que vi, assim que meus olhos se adaptaram à luz não era um lar, poderia facilmente ser confundido como uma violenta cena de crime, voltei para o lado de fora sentindo o tamborilar falho do coração, foram necessários alguns segundos para que controlasse todo o medo que havia me tomado.
Cada passo que dei em meio aos vidros quebrados no chão, me trazia insegurança, tentei fazer o mínimo de barulho possível, deixei a bolsa sobre o sofá que estava virado e me agarrei às sobras de metal do abajur caído, não tinha real consciência sobre o perigo, mas era a minha casa e nesse momento ela estava mais silenciosa que o normal. Observei a porta do escritório aberta e acendi a luz, a destruição da sala parecia pouca perto do revirado de livro e folhas que meu escritório havia se tornado, apenas o fio do computador sobreviveu sobre a mesa, as gavetas dela estavam espalhadas e quebradas no chão, quem esteve ali não se importou com o barulho que aquela destruição causou. Ainda com as pernas tremendo fui até a cozinha, acendi a luz branca, forte, percebi que era o cômodo que parecia menos afetado, peguei uma faca, a maior que havia ali, subi as escadas em direção ao meu quarto, que assim como o restante da casa estava revirado, roupas espalhadas, cama revirada, o colchão estava no outro canto apoiado contra a parede, olhei no banheiro e não havia ninguém, rapidamente voltei e tranquei a porta do quarto, ainda com as pernas trêmulas me senti desabar no chão ao lado do colchão. Sem deixar a faca de lado peguei com algum custo o celular que estava no bolso, liguei para a polícia informando a invasão, prometeram enviar uma viatura o mais rápido possível. A segunda ligação foi para a única pessoa que eu achava que poderia contar. Precisei insistir algumas vezes para logo em seguida ouvir uma voz rude do outro lado da linha.
– Oi, Lilith, estou ocupado, não poderia esperar? – Seu jeito cortante de me tratar naquele momento fez a descarga de adrenalina zerar e desabar num choro contido.
– Ricardo, minha casa foi invadida, está tudo quebrado. – Esperei por sua resposta que não veio. – Estou com medo, você poderia vir e ficar comigo enquanto espero que a polícia chegue?
– Deve ter sido um roubo, vou ligar para a portaria do condomínio e pedir que o vigilante se assegure de que apenas a polícia chegue até aí. Estou ocupado e não posso ir até aí, estou a caminho do aeroporto para ir à São Paulo. – Ele desligou e o silêncio tomou conta do lugar, me arrastei até a janela e olhei para o lado de fora, havia um carro parado próximo dali com as luzes apagadas que poucos segundos sob meu olhar, acelerou cantando pneu e sumindo em seguida. – Não foi apenas um roubo. – Repeti as palavras inúmeras vezes, consciente de que algo estava acontecendo, mas não sabia o que. Voltei a me sentar no chão, escondida, sozinha… Sempre sozinha, a solidão bateu mais forte que o próprio medo, não tinha para quem ligar, para onde fugir, com quem contar, estava exatamente como fui desde criança, sozinha. O nó que se criou em minha garganta sufocava as lágrimas que escorriam com a pressa que minha alma tinha de deixar de existir apenas naquele momento.
– Eu não consigo mais, Anael, não posso apenas ser a observadora, protetora ou o que quer que eu seja. Não consigo só observar o sofrimento dela. – Apontou para a janela do quarto.
– E o que mais poderia fazer nesse momento? – O rapaz disse com calma. – Se materializar em sua frente e causar ainda mais medo? Sabe o quão irracional o ser humano é quanto a isso.
– E o que faço? Fico aqui parada? – A chuva forte caia sobre as duas figuras paradas do outro lado da calçada, o que parecia não interferir em sua permanência silenciosa. – Consigo sentir sua dor, seu medo, seu abandono.
– É tudo o que podemos fazer agora. – O rapaz colocou sua mão sobre o ombro da mulher tentando lhe passar algum conforto, sentir a dor do outro ia além de seu conhecimento, ele sabia reconhecer e não sentir. – Atrasei o máximo o caminho que pude para que não chegasse enquanto ainda estivessem lá dentro.
– Obrigada por estar ao meu lado nesse momento, seria incapaz de protegê-la sozinha. – A mulher voltou seus olhos para a janela.
– Vá até lá, sua presença espiritual irá ajudar a acalmar seu pranto, por hora é o que pode fazer. – O homem caminhou pela rua pouco iluminada e sumiu antes de um novo trovão brilhar no céu. A mulher observou por algum tempo e caminhou na direção da casa.
Pensei ter ouvido alguns passos, mas depois de muitos minutos de silêncio percebi que era apenas meu medo tentando me assustar, o choro ficou brando até as lágrimas, por hora, cessaram. Vi a sirene luminosa se aproximar e parar na entrada da minha casa. Recolhi a faca e celular que havia deixado no chão, coloquei o chinelo que estava no banheiro, abri a porta sentindo aos poucos os movimentos das mãos voltarem, pois haviam travado com o medo, desci a escada a passos lentos, os policiais estavam na porta. Eles olharam cada canto da casa, tiraram fotos, fizeram perguntas, anotaram as coisas que dei falta e, à primeira vista, apenas o computador havia sumido. Joias e dinheiro ainda estavam ali. Tiraram fotos de cada vidro no chão, perguntaram minha profissão, se havia alguém insatisfeito, alguma demissão que poderia gerar esse tipo de invasão e nada, não havia nada que justificasse.
– Aconselho que a senhora busque ficar com alguma família ou amigo, vou solicitar a segurança do condomínio as imagens e iremos realizar uma investigação, caso a senhora tenha seguro deve acioná-lo, vamos fazer alguns procedimentos para tentar encontrar impressões digitais, mas enquanto isso é tudo o que temos e podemos fazer. – O homem anotou algumas coisas e voltou a me olhar. – Posso pedir para que coloquem um suporte na porta com cadeado para fechar.
– Pode ser por dentro e por fora? – Ele afirmou com a cabeça.
– Peço para que aguarde enquanto realizamos a perícia, logo liberaremos a casa da senhora. – Fiquei sentada do lado de fora, alguns vizinhos vieram após a sirene chamar atenção, criou-se um verdadeiro burburinho, ninguém reparou algo fora do comum durante o dia, uns estavam em casa, outros no trabalho. Alguém sempre tinha a velha frase do: Não temos segurança, mesmo pagando uma fortuna para isso. Onde estava o vigia nessa hora? Ele com certeza tem envolvimento. Todos, sem exceção foram entrevistados. Depois de algumas horas de trabalho eles foram embora me deixando a chave do cadeado, entrei em casa, tranquei o cadeado por dentro e tudo pareceu mais fora do lugar que antes, peguei a faca que havia deixado sobre a pia novamente, um pacote de uvas que estava dentro da geladeira e a garrafa de vinho dentro do armário, sem taças, não iria precisar dela, apenas da garrafa. Subi em direção ao quarto e tranquei a porta atrás de mim. Coloquei dentro de uma mala algumas roupas que não haviam sido mexidas, roupas que precisaria para o desfile, e outras coisas que nem eu mesma me lembro, mas a mala estava feita, no automático, mas estava feita. A garrafa de vinho cheia, deu lugar a uma garrafa vazia. O medo não me permitiu dormir, o choro foi apenas um coprotagonista na história, as horas passavam lentamente e eu havia desistido de olhar o celular esperando uma mensagem, um consolo daquele que em alguns dias se tornaria meu marido, mas não houve nada, nem a mensagem, nem uma ligação, apenas o silêncio.
Cada vez que me lembrava das palavras do policial o peito doía com a sensação de abandono e solidão. “Aconselho que fique com alguma família ou amigo”, não tinha nenhum dos dois e esse choque de realidade foi a maior revelação que tive. Ouvia o barulho de grilos, de carros que passavam na rua principal, barulhos do meu próprio coração. Cada novo farol que se fazia visível aumentava meu medo, medo de que voltassem, medo de permanecer aqui e virar apenas uma estatística sem nem mesmo saber o motivo. Não havia nada naquele computador, mas eles não sabiam, não havia nada aqui em casa, mas eles procuraram, mas o que estavam realmente procurando é um verdadeiro mistério.
Vi os primeiros raios de sol iluminar o céu e percebi que iluminavam diretamente a janela do quarto, deixei a luz me tomar por alguns minutos, desejei aquela luz em minha vida, que aquela luz me mostrasse o caminho que eu deveria seguir, que aquela luz me protegesse, desejei que um ser maior cuidasse de mim. Aqueles minutos de olhos fechados e a luz tocando meu rosto me trouxe um pouco da paz que eu buscava, respirei fundo antes de me levantar, segui até o banheiro e tomei um banho quente, deixei cada pedaço do meu corpo relaxar com o toque quente. Sem maiores luxos não sequei o cabelo, apenas penteei e me sentei na frente do que sobrou da penteadeira, as gavetas com minha maquiagem permaneceram intactas, me olhei no espelho e tentei a todo custo esconder as olheiras da noite em claro, a maquiagem tinha o poder de esconder por fora, mas cada vez que via meu reflexo podia enxergar a verdadeira confusão que estava por dentro. Uma roupa bonita, uma postura profissional e óculos escuro, foi assim que cheguei na agência naquele dia, portando minha mala, não pretendia voltar para aquela casa antes da viagem, deixei tudo que estava quebrado no chão, inclusive minha alma. Liguei para a seguradora do condomínio, prometeram realizar o levantamento assim que eu voltasse.
– Está tudo bem? – Larissa perguntou assim que me viu chegar.
– Sim. – Disse impassível, exalando uma segurança que eu não tinha naquele momento, mas jamais viriam minha fraqueza. – O Ricardo já chegou? Sei que foi para São Paulo ontem.
– Não, ele não vem para agência hoje. Não sei se já retornou. – Ela respondeu e parou na porta da minha sala. – Você tem uns minutos antes do casting, posso pegar um café e algo para você comer? – Dei um breve sorriso, ainda com os olhos escondidos por baixo da grande armação dos óculos.
– Te agradeceria se fizesse isso, não tive tempo de comer algo em casa. – Lembrei de tudo revirado e engoli o nó que tentava se formar. Em poucos minutos Larissa trouxe o pequeno lanche, agradeci por ela não querer ficar ali, além de secretária também era uma boa amiga de escritório, mas a relação de amizade estava um pouco distante depois do início do noivado. Deixei as informações da noite passada para mim, pousei os óculos sobre a mesa e virei de costas para a porta, apenas para apreciar a vista, o sanduíche desceu arranhando a garganta, o café me despertou da maneira que devia. Aguardei alguns minutos e tomei coragem de sair daquele pequeno espaço isolado e confortável.
– Já está tudo pronto. – Ela me acompanhou a passos rápidos, me entregando o portifólio de cada modelo. – Temos algumas caras novas, outras nem tanto.
– É bom ter um combustível a mais. Escaneie esses portifólios e me envie por e-mail, quero contratar uns rostos novos para a agência. – Entrei na longa sala com uma passarela montada no meio, uma das agentes de recrutamento estava lá, Kira, era a modelo mais antiga da agência, depois de mim, havia optado por continuar na agência conosco. – Kira, bom que esteja aqui. – Ela me deu um leve abraço.
– Tenho bem pouco tempo para estar no escritório. – A mulher sorriu. – Tenho bastante talento precisando ser lapidado. – Seu sorriso foi entusiasmado.
– Ótimo, podemos dar início. – Fiz um breve aceno com a cabeça e caminhei em direção às cadeiras e me sentei, sem retirar os óculos. Poderiam me achar soberba pela postura e os óculos que me acompanharam por todo o casting, eu não me importava, quando possível mudaria essa primeira impressão dos que continuassem, mas no momento eu precisava disso para me preservar.
A apresentação foi longa, cansativa, o corpo estava presente, mas minha cabeça estava distante, perdida em sentimentos, vidros e dúvidas, na impotência dos acontecimentos. Selecionei a quantidade necessária para a agência de publicidade e conversei com os que não foram selecionados.
– O não agora não é definitivo e menos ainda quer dizer que vocês não têm talento. Quero cada um de vocês aqui novamente em duas semanas, quero fazer uma seleção de novos talentos para a agência. – Percebi o sorriso de empolgação em cada um deles. – Obrigada por estarem aqui e até logo. – Apertei a mão de todos eles.
– Paula Braga enviou um e-mail solicitando uma reunião ainda hoje. Mas avisei que seria impossível. – Olhou o celular. – Ela insiste, o que faço?
– Vou ligar para ela do escritório, saber o que de tão urgente precisa ser discutido ainda hoje. – Fechei a porta assim que entrei, olhei para a mala desejando já estar no avião.
– Lilith, querida. Sua secretária não está sendo nada fácil comigo.
– Olá, Paula. Ela está fazendo apenas o que solicitei. – Deixei os óculos sobre à mesa. – Tenho compromisso hoje, só estarei disponível daqui a alguns dias.
– Nem mesmo para mim teria alguns minutos? – Em outros tempos eu teria aceitado, o voo estava marcado para o final da noite, mas eu não tinha disposição para atender ninguém, muito menos a pessoa que tem abertamente interesse por flerte.
– Nem mesmo para você, marcamos no meu retorno, sei que pode aguardar um pouquinho mais. – Seu suspiro frustrado quase me tirou um sorriso.
– Como quiser. – Desligou sem esperar mais. Me levantei por alguns segundos apenas para trancar a sala e me deixei cair na cadeira novamente. As cenas da noite passada ficavam passando em minha cabeça, mantive um choro silencioso, ninguém além do Ricardo sabia o que estava passando e o mesmo não se importou, nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nada. Estava frustrada e decepcionada, sozinha e magoada, meu desejo mais profundo era sumir, por uma semana, um mês, uma vida. Olhei para a aliança em meu dedo, rodopiei ela por alguns segundos, puxei observando os detalhes, quanto mais bonito o anel, menos vale o relacionamento, puxei a gaveta a abrindo, larguei o anel ali dentro, para mim era o fim. Peguei um copo de água e fiz um brinde ao momento.
Me despedi de Larissa um pouco após o horário do almoço, puxei minha mala até a portaria de entrada, um carro já me esperava, olhei para os lados antes de entrar no veículo, a sensação de estar sendo observada não passou e resolvi me manter alerta a qualquer sinal, seja lá quem invadiu minha casa sabia quem eu era, onde trabalhava, agora o que de tão interessante eu poderia ter para que fizessem o que fizeram eu não sabia.
Cheguei no aeroporto do Galeão às 16 horas, faria escala em Guarulhos para então ir para Milão, fiz o check-in sem maiores problemas, despachei minha mala e fiquei no Starbucks, mais um lanche leve e por volta das 19 horas embarquei, cheguei em São Paulo em menos de cinquenta minutos. Mais algumas longas horas de espera, já que voo partiria às 11 horas da noite. Dei algumas voltas pelo Duty free, comprei algumas coisas banais, perfume, maquiagem e chocolates, passei pela Polícia Federal e fiquei no saguão me afundando em chocolates e café.
O embarque foi tranquilo, me sentei em uma fileira sozinha, em poucos minutos estávamos decolando, observar as luzes ficando cada vez mais distantes era reconfortante, estar longe do Brasil, por poucos dias que fosse, me deixava tranquila, estava farta de me sentir com medo em cada lugar que estava. Logo a luz de alerta do cinto foi desligada, estava satisfeita de tudo o que comi durante a espera, apenas solicitei um cobertor, observei com calma, algumas famílias felizes, algumas pessoas sozinhas, alguns casais apaixonados. Logo a aeromoça me trouxe o cobertor, inclinei o máximo a poltrona, tirei os sapatos e me encolhi após tapar meu corpo, a escuridão do lado de fora era o que era, escura, fria. Senti os olhos pesarem, as últimas 24 horas haviam cobrado demais da minha sanidade, meu corpo implorava por descanso. Após alguns minutos de olhos fechados senti um toque quente no rosto, um carinho suave e reconfortante, a calma que me invadiu foi forte, relaxou cada músculo do meu corpo, mas forcei os olhos, olhei para o lado e havia apenas pessoas cuidando de sua própria vida. Resolvi aceitar o leve toque de calor, minha cabeça estava tão cansada que alucinar não me parecia a pior ideia, ainda mais recebendo um afago doce de toque quente. – Obrigada. – Agradeci a força invisível que tentava me acalentar.

