Os Estranhos Casos de Evernood & Blindwar

Décimo Primeiro Caso: Pedras Preciosas, Sangue Derramado – Parte 1

Os Estranhos Casos de Evernood e Blindwar

Décimo Primeiro Caso: Pedras Preciosas, Sangue Derramado

Texto: Carolina Bivard

Ilustração: Táttah Nascimento

Parte 1

Margareth dormia o sono dos justos. Era domingo e não tinha hora para acordar. Sua vida era ótima em detrimento a perversidade que via, enquanto detetive. A nível romântico, havia encontrado uma pessoa maravilhosa e que amava. Mesmo tendo que se esconder socialmente, estava feliz. Evernood era atenciosa, carinhosa e a respeitava como pessoa e profissional, além de ser a mulher mais linda que ela já havia visto. Pelo menos, aos seus olhos, assim lhe parecia.

Batidas na porta chegaram a seus ouvidos. Remexeu-se. Não queria se levantar, porém em sua semiconsciência, algo a avisava que não dormiria por mais tempo. Foi despertando aos poucos, enquanto escutava ao longe a governanta da casa entrar, como sempre fez durante anos nos fins de semana. Sentiu um peso afundar o colchão no lado esquerdo da cama e puxou a manta e o lençol cobrindo a cabeça.

— Não quero me levantar agora, Joan. – Falou manhosa. – É domingo e ontem tive plantão na delegacia. Você não é mais minha babá.

A governanta e ex-babá de Margareth sorriu. Conhecia-a desde a tenra idade e sabia que a sua “garotinha” gostava de dormir até tarde, contudo há tempos ela não fazia o desjejum com seus pais e sua mãe exigira a presença dela à mesa.

— Vamos lá, minha menina.

Chamou a detetive carinhosamente, e com a voz baixa para não a perturbar, fazendo um suave carinho em seus cabelos.

— Quando não acorda cedo e vai trabalhar sem tomar o desjejum em casa, está dormindo na casa de sua amiga. Sua mãe está impaciente por quase não lhe ver. Quer que ela comece a implicar com seu trabalho novamente? Ou quer que ela comece a arrumar novos pretendentes para você?

A última pergunta da governanta foi falada aos sussurros e com uma entonação contundente. Margareth destapou a cabeça e a olhou, com desânimo. Joan estava certa e falava-lhe daquele jeito porque queria protegê-la.

— Sabe bem me convencer, não é? Tudo menos arrumar pretendentes. O gosto de minha mãe é duvidoso.

A verdade é que Margareth sabia que nenhum homem lhe agradaria. Se foi algo que aprendeu durante aquele ano com Evernood, é que a felicidade delas dependia da discrição. Entristecia-se grandemente em pensar que nunca poderia declarar o seu amor e a sua felicidade publicamente. Em compensação, tinha certeza de que era mais feliz ao lado da namorada, do que qualquer amiga jamais seria com seus respectivos maridos.

— Se o gosto de sua mãe é duvidoso, então acha que seu pai é um homem ruim?

— Lógico que não Joan! Entretanto, acredito que meus avós souberam bem escolher um partido para minha mãe. Devo dizer que não é o que ela faz por mim. Por ela, eu me casaria com qualquer “lambe-botas”, contanto que me casasse.

— Não fale isso, minha filha. Ela ama você. Apenas acredita que a felicidade de uma mulher só acontece com casamento e filhos.

— Sei. Isso se as pessoas fizerem vista grossa. Veja Ivy; o marido é um mandrião bêbado. O pai dela só concordou com o casamento na base de acordo lavrado em cartório. O irmão dela é quem cuida do dinheiro do espólio, até que o filho dela cresça e possa assumir. Já a Patsy coloca tanto “pancake” para esconder as marcas de surra do marido, que virou sinônimo de constrangimento em festas.

— Nem todos os homens são assim, minha menina…

— Não. Mas se um dia me casar, será porque amo e, também, por ver o comportamento comigo, família e amigos.

A governanta fez um carinho no rosto da detetive de polícia, sorrindo. Levantou-se da cama e enquanto caminhava, falou:

— Não se demore, Meg. Seus pais disseram que esperariam por você e sabe que se demorar, dará pala para sua mãe reclamar.

— Eu sei, eu sei. Diga a eles que fui me banhar e logo descerei.

Margareth respondeu à governanta demostrando a sua chateação. Meia-hora depois ela entrava na sala de jantar, onde seus pais a esperavam. Beijou-os e se sentou.

— Estava com saudades de você. Há tempos que não comemos juntos…

— Daisy, por favor!

O pai de Margareth chamou a atenção da esposa. Ele queria desfrutar da presença da filha. Se orgulhava dela e queria dar uma notícia que sabia que a alegraria. Margareth suspirou, diante da fala da mãe.

— Está bem. Não quero causar aborrecimentos, apenas… apenas sinto saudades de sua presença, filha.

Margareth olhou para a mãe. Ela estava sendo sincera e não falava com ironia ou retaliação.

— Eu sei que tenho ficado pouco em casa. Também sinto saudades de ficar com vocês. Apenas acontece que meu trabalho não me permite um horário muito certo e, às vezes, quando estou de folga, gosto de espairecer das coisas ruins que vejo. Por isso também tenho ido relaxar na casa de campo dos Evernood.

A senhora Blindwar iria retrucar, mas o marido a deteve, segurando-lhe a mão.

— Bem, tenho uma notícia a dar para vocês e acredito que as duas gostarão. – O senhor Blindwar comunicou. – Thomas está vindo para casa. Recebi ontem à noite o telegrama. Ele deve chegar depois de amanhã.

Daisy Blindwar colocou a mão no peito, com uma expressão de surpresa e alegria. Há dois anos não via o filho e só sabia notícias dele por telegramas e cartas.

— Por que não me contou ontem à noite? Tenho que cuidar de tudo para a chegada dele!

— Se eu contasse Daisy, você não deixaria ninguém dessa casa dormir. Provavelmente colocaria todos para trabalhar a madrugada inteira como se ele chegasse ainda hoje.

Daisy Blindwar fechou o cenho, porém, logo depois abriu um sorriso. Margareth evitou rir, diante da alegria da mãe e da chacota do pai. Seria bem capaz dela fazer o que ele acabara de dizer.

Com a chegada do irmão, provavelmente a sua mãe deixaria de lado as implicâncias com ela. Também estava feliz.

Sentia saudades de Thomas, muito embora achasse que ele era um fanfarrão. Às vezes se incomodava, pois o irmão em nada era cobrado e ela, por sua vez, a família teimava em se meter em sua vida e suas escolhas. No entanto, sabia não ser culpa dele. Thomas sempre tivera a mente mais aberta e lhe dizia para agir com inteligência e conquistar aos poucos seu espaço e felicidade.

Evidente que Margareth entendia que era a opinião de um sonhador e que ele nada entendia de como era ser uma mulher. Para a sociedade em que viviam, mulher não tinha espaço, a não ser dentro de casa cuidando de marido e filhos.

— Esse bufão! Só me mandou umas poucas cartas.

Margareth falou rindo, enquanto tomava seu chá com leite.

A manhã fora agradável, entre conversas e planejamentos para a chegada de Thomas. Em dado momento, o telefone tocou.

— Residência dos Blindwar. – Joan atendeu.

Senhora Evens? Quem fala é Elizabeth Evernood. Eu poderia falar com a senhorita Blindwar?

— Claro, senhorita! Já vou chamá-la.

Menos de um minuto depois, Margareth atendeu. Seu coração estava apertado. Naquele dia não veria a namorada. Concordou em ajudar a mãe nos preparativos para uma festa para receber o irmão.

— Oi.

— Bom dia! Está zangada comigo?

— Eu? Lógico que não, Beth. – Margareth sorriu pela brincadeira. – Recebemos a notícia de que meu irmão chegará esta semana. Minha mãe está em polvorosa e me fez prometer que a ajudaria com a festividade de boas-vindas.

— Que emocionante!

Evernood respondeu rindo, sabedora que sua namorada odiava aquele tipo de atividade doméstica.

— Não ria de mim, pois sou capaz de requisitar você para auxiliar. Afinal, a senhorita Evernood tem bons relacionamentos pela cidade e será de grande ajuda.

Bem, se eu puder vê-la hoje, não seria um grande sacrifício. Quer ajuda? Basta dizer sim e me troco para ir à sua casa.

Margareth sentiu seu peito aquecer. A dedicação e compreensão da namorada, cada vez mais a encantava. Evernood não era uma mulher monótona e nem pegajosa, todavia, em pequenos atos demostrava carinho e amor, sempre que podia.

—  Não precisa oferecer duas vezes. Pode vir, que estamos fazendo lista de convidados e elaborando os detalhes da festa.

Muito bem, senhorita Blindwar. Estarei aí o quanto antes. Mas lembre-se: Terá uma assistente cerimonial bem dispendiosa, viu?

— E o que cobrará pela prestação desse serviço?

Ah!  Farei o orçamento ainda…

Margareth gargalhou e logo tapou a boca, contendo o riso para não chamar atenção de ninguém da casa.

— Pare de brincadeiras e venha logo para cá. – Margareth baixou o tom da fala. – Tenho saudades… – Falou tímida.

Pouco tempo mais tarde Evernood tocava o sininho da porta dos Blindwar. Embora se escondesse por trás de brincadeiras, cada vez mais se sentia carente da presença da namorada. Os dias andavam calmos para as duas, sem assassinatos, roubos ou grandes crimes e as desculpas para ficarem juntas nesse contexto de bonança, perdiam-se.

Não que por esse custo, quisesse que os crimes bárbaros voltassem a ocorrer, contudo, precisaria montar uma estratégia para ver a mulher que amava com mais frequência.

— Como vai, senhora Evans? A Meg me chamou para auxiliar na festa de Thomas.

— Entre, minha filha! Não me chame de senhora, ainda não me casei. De qualquer forma, amigas de minha menina podem me chamar de Joan.

A governanta abriu passagem para Evernood com um sorriso aberto.

— Ainda bem que a senhorita chegou. A senhora Blindwar e Meg estão discutindo no escritório. Elas não conseguem se entender, nem mesmo, quando estão elaborando uma festa. – A governanta riu com gosto. – Uma é água e outra é vinho, se é que me entende.

Riu outra vez, abanando as mãos, pois aquele tipo de discussão não a abalava mais. Evernood gostou do jeito da governanta. Era descontraído e alegre. Tomou o gesto como uma intimidade que a governanta permitiu a ela e falou com entonação jocosa:

— Então, veremos se eu consigo abrandar as discussões. Acha que consigo?

Joan Evans abriu a porta para dar passagem à Evernood, revirando os olhos.

— Apenas tente.

Sussurrou como se fosse um segredo íntimo e desta vez, sorriu discretamente.

— A senhorita Evernood está aqui. – Anunciou.

— Ai, que ótimo! Quem sabe consegue entender o que minha mãe quer!

— Meg, por favor!

A senhora Blindwar ralhou com a filha, envergonhando-se do jeito que ela falava diante de uma pessoa de fora da casa.

— Não se preocupe, senhora Blindwar, conheço o jeito de Meg. Espero que não se constranja por ela ter me chamado para ajudá-las.

Elizabeth falou, reparando na namorada. Seu coração se alegrou e palpitava ao vê-la, após dois dias separadas.

— Claro que não. Tenho certeza de que a senhorita conseguirá ver meu ponto de vista… – olhou para a filha com expressão de enfezada – … coisa que minha filha não consegue.

Evernood sorriu, retirando as luvas, se aproximando da mesa, onde jaziam diversas provas de cartões-convites. Mãe e filha pareciam travar uma discussão sobre que estilo de convite escolheriam para mandar para a gráfica fazer. Elizabeth também reparou em uma lista que continha nomes, alguns rabiscados e recolocados diversas vezes.

— Bem, vejamos. Em que poderei ajudar? Na escolha do convite, ou na relação de convidados?

— Os dois!

Ambas falaram juntas e foi impossível Evernood não sorrir. Após uma hora entre argumentações e controvérsias, em que mãe e filha se debatiam e, Elizabeth conciliava, chegaram a um consenso. A cor do cartão seria branco-pérola e as letras em dourado. Já a lista, reduziu ao meio termo. A senhora Daisy Blindwar parecia querer chamar a cidade inteira e Margareth, parecia querer chamar somente amigos próximos a Thomas.

— Obrigada, senhorita Evernood. Vou sair agora mesmo, para entregar a prova ao Senhor Crysp da gráfica. Ele concordou em me receber para poder fazer os convites amanhã e deverá ficar pronto após o almoço.

— A senhora pretende entregá-los amanhã mesmo?

— Claro, senhorita Evernood! Senão, não dará tempo das pessoas se arrumarem para virem na quarta-feira à noite.

— Quarta à noite?! A festa não será quinta-feira?

A senhora Blindwar tocou a cabeça, como se o gesto fizesse com que a memória retornasse.

— É quinta-feira, sim. Eu que estou com tanta saudade do meu filho que até confundi as datas. Sabe a quanto tempo ele não vem para casa?

— A Meg me contou que ele não vem à cidade há alguns anos.

— Pois é, aquele desnaturado! Vou me apressar, senão ficará tarde para entregar a prova do convite. Mais uma vez, obrigada, senhorita Evernood.   

— Me chame de Beth, senhora Blindwar. Meg é minha melhor amiga e acredito que não precisemos dessa deferência.

A senhora Blindwar tocou o rosto de Elizabeth com a palma da mão, num carinho sincero.

— Mãe, está quase a hora do almoço. Não seria inconveniente passar na casa dos Crysp a essa hora?

— Ele concordou em me receber e disse que me atenderia. Se deixar para depois do almoço, não teremos tempo para tratar do restante da festa. – A senhora Blindwar se voltou para Evernood. – Almoçará conosco, não é, senhorita Evernood? Adorei a sua ajuda e gostaria muito que continuasse a nos auxiliar. Você gostará do Thomas e faço questão que jante conosco na quarta-feira. Eu mesma quero apresentá-la a ele.

A mãe de Margareth estava eufórica e demostrava isso nas palavras, fazendo com que Evernood espremesse os lábios para não rir da velha senhora.

— Aceito, sim, senhora Blindwar. Terei imenso prazer.

Margareth que estava às costas da mãe e observava atentamente a conversa e, o rosto da namorada, não se conteve e abriu um enorme sorriso. 

— Me chame de Daisy, minha filha.

A mãe de Margareth tomou o rumo da porta.

— Quer que eu vá com a senhora, mãe?

— Não precisa, filha, seu pai prometeu que iria comigo. Ele está na sala de estar, lendo o terceiro jornal do dia, fumando seu cachimbo. Eu não sei que tanto jornal ele lê. – Resmungou. – Todos trazem as mesmas notícias…

Elizabeth e Margareth se entreolharam e Evernood correspondeu o sorriso da amada, diante da forma efusiva da senhora Blindwar. A detetive de polícia se aproximou, sem desviar o olhar do rosto de Evernood e pegou a mão da namorada, num gesto delicado, após a saída da mãe.

— Estava com saudades… Ainda bem que pôde vir para aliviar meu sofrimento com a minha mãe.

— Posso dizer que vir auxiliá-las foi o maior prazer que tive no dia de hoje. Não suportaria passar mais um dia sem ver você.

Margareth soltou a mão de Elizabeth de súbito, quando reparou que a porta da sala abriu. Joan entrava com uma bandeja de um drink de gin e canapés.

— Trouxe algo para refrescá-las e abrir o apetite.  Sua mãe já saiu, arrastando seu pai pela porta.

— E ele não reclamou, Joan?

— Ah, sim. Mas sabe que seu pai faz tudo para não se aborrecer com a sua mãe, não é?

As três mulheres riram.

— Vou para a cozinha verificar como está indo o almoço. Provavelmente, hoje atrasará ao menos uma hora.

— Ainda bem que meu pai deu a notícia da chegada de Thomas somente hoje de manhã. Imagina se ele falasse da chegada do telegrama de Thomas ontem à noite?

— Seu pai conhece bem com quem se casou, minha filha. Ninguém nessa casa dormiria e você viraria a noite aprontando essa tal festa, juntamente com ela.

— Nesse caso, Elizabeth estaria aqui em casa por outro motivo.

As outras mulheres olharam para a detetive sem entender e Margareth se apressou em explicar.

— Ela estaria aqui investigando um matricídio.

Evernood e a senhora Evans não conseguiram segurar a gargalhada, cujo som se espalhou pelo ambiente.  A governanta saiu do escritório, deixando as duas a sós. Imediatamente Blindwar foi até as janelas e as fechou. Depois se dirigiu à porta e a trancou.

Tudo foi observado com paciência e divertimento pela detetive particular, que antevia a ação da namorada e esperava por ela com urgência. Margareth se jogou nos braços de Elizabeth e as duas se beijaram com paixão durante muito tempo. Afastaram seus rostos, mantendo-se abraçadas, fitando-se amorosas.

— Vou ter que abrir as portas e janelas novamente, mas tinha que beijar você. Não estava aguentando a nossa distância.

— Então deixe-me aproveitar mais um pouco.

Evernood voltou a beijá-la e os corpos aqueceram, além do que desejavam. A libido se acumulava pungente e num vislumbre de lucidez, Elizabeth se apartou, tentando forçar seus corpos à calma.

— Acho melhor abrir as janelas e portas, senão, não responderei por mim, senhorita Blindwar.

— Minha vontade é ignorar seu pedido, senhorita Evernood.

Embora brincassem, Margareth ofegava nos braços da amada e o que dizia era a pura verdade. Apesar de imprudente, pensava que Joan e seus pais demorariam a incomodá-las e talvez, pudessem extravasar a represa de emoções acumuladas. Tentou beijar Elizabeth outra vez.

— Nem tente. – Evernood a afastou, delicadamente. – E não ache que falo por mim. Suportaria qualquer escândalo, entretanto, me odiaria por saber que fui a causa de problemas para você. Pode abrir, agora mesmo, as janelas e a porta.

Blindwar foi até as janelas, emburrada.

— Você tem essa liberdade. Será que não poderei ter isso nunca?

— Eu tenho certa liberdade, dada pela morte de meus pais. É isso que gostaria para você?

— Lógico que não, Beth! Mas seu tio compreende. Não lhe critica ou poda. Será que meus pais não aceitariam?

— Entenda que meu tio é uma pessoa ímpar e minha mãe também era. Porém, não é fácil nossa situação para qualquer família. Vivemos num mundo de regras e nosso trabalho é tentar transformá-las. Sabe que já estamos fazendo isso, não sabe?

— Sei. Mas não alcançaremos uma tranquilidade para nos amarmos na nossa existência.

— Um dia talvez… – Evernood inspirou fundo e soltou o ar. – Vamos nos sentar. Temos drink e canapés para apreciar. Quantas pessoas na cidade tem o que temos?

— Não mude de assunto para me mostrar nossa boa-venturança, Beth. Sabe que detesto essa disparidade social, mas, nem por isso, vou me repreender pelo que tenho.  Eu faço meu papel, que é levar justiça a quem precisa e apoio as lutas sociais. Ninguém deveria passar fome e eu acredito nisso, tanto quanto você. Nem por isso me sentirei melhor, sabendo que não podemos expressar nossos sentimentos.

— E esse é um dos tantos motivos pelos quais a amo, Meg.

  •  

A recepção na casa dos Blindwar começou e como prometera para a senhora Blindwar, no jantar do dia anterior, chegou de tarde para se aprontar na casa. Estava feliz, pois durante aqueles dias, enquanto Margareth trabalhava, auxiliou Daisy Blindward nos preparativos e pôde colher o clima familiar que há anos não tinha. O único inconveniente foi escutar as maravilhas que uma esposa de Thomas teria em um casamento com ele. Evernood sorria e ignorava educadamente, apenas acenando com a cabeça. Tinha certeza de que a senhora Blindwar estava fazendo “às vezes” de casamenteira de seu filho com ela.  

Conheceu Thomas Blindwar e apesar de um homem agradável e educado, percebia certa tensão no rapaz, diferentemente do perfil que toda a família relatava sobre ele.

— Thomas está mais maduro. – Margareth comentou displicente, enquanto sua namorada se aproximava. – Não parece ele, o fanfarão que deixou a cidade para ganhar o mundo.

Ela tomou um gole da taça de champagne de sua mão, tentando disfarçar o olhar de admiração jogado sobre a namorada, sem muito sucesso. Evernood parou ao lado dela, observando os convivas que chegavam ao jardim, bebendo, como Margareth fazia.

— Estou me sentindo nua com seu olhar.

Elizabeth comentou aos sussurros, provocando um sorriso na companheira, que ainda tinha a borda da taça em contato com os lábios.

— O que poderia fazer diante de tamanha beleza?

A resposta provocou risos em ambas.

— Quem diria que há um ano, teria uma conversa dessas com você…

A detetive particular respondeu, observando a senhora Blindwar ao longe, enlaçada no braço do filho. Ela parecia irradiar a sua felicidade.

— Seu irmão não parece confortável com a festa.

Evernood afirmou, fixando o olhar nas expressões de Thomas Blindwar. Margareth acompanhou o olhar e fechou o cenho.

— Ontem reparei nisso e o procurei para saber o que ele tinha. Disse que nada, que só estava cansado da viagem, mas eu o conheço bem para não acreditar nas palavras dele.

— Acha que está com algum problema?

— Não sei, mas não ficarei muito tempo sem saber.  Se existe algo que cultivamos, ao longo de nossas vidas, é confiança um no outro. E, também, não sabemos esconder nada por muito tempo.

Evernood elevou uma de suas sobrancelhas.

— Terei que me preocupar com um irmão raivoso, após falar sobre nós para ele?

— Acredito que não, pois eu tenho pelo menos uma dúzia de coisas reprováveis sobre ele que minha família nem imagina.

  •  

No dia posterior a festa, Elizabeth conversou com Margareth somente por telefone. Embora não quisesse se sentir preterida, foi inevitável pensar que a detetive de polícia, após a recepção de Thomas, queria lhe evitar. Ela estava esquiva nas ligações, o que não era típico da namorada.

 Evernood se recolheu na biblioteca de sua mansão durante a tarde para fazer a leitura de algum livro de romance qualquer. Sua cabeça não parava nas palavras das páginas, imaginando se havia ocorrido algo, ou se Blindwar tinha falado da relação de intimidade das duas, ocasionando algum desentendimento entre os irmãos.

Batidas na porta lhe tiraram de seus devaneios.

  •  

A escuridão da noite tomava completamente o pub e Edwin não quis ligar as luzes, para não chamar a atenção da rua. Acendeu algumas velas em candelabros, deixando-as nas estantes de bebida atrás do balcão. Já havia fechado as cortinas das janelas e apesar da iluminação ser branda, percebia o semblante fechado da amiga.

— Isso é que dá se apaixonar. O amor está turvando o seu raciocínio?

Violet Lister se chocou, quando soube da relação que Evernood e Blindwar tinham. Edwin contou alguns meses antes, visto que a relação dos dois havia evoluído e ela se tornou parte atuante, daquele grupo seleto de investigação. Embora tenha se impactado inicialmente, naturalizou o relacionamento das duas com facilidade.

Ela também não tinha uma visão convencional a respeito do papel da sociedade e como legista, presenciou muitos atos desprezíveis praticados pela aristocracia, que eram ocultados em prol da estabilidade da elite. Com toda a certeza, o amor verdadeiro entre duas mulheres lhe parecia belo aos olhos.

— Não implique com ela, John! Eu certamente estaria aflita se estivesse no lugar de Beth.

Edwin não respondeu para a namorada. Colocou em três copos, as dose de whisky costumeiras em dias como aquele e pousou no balcão, à frente de cada um. Um farol de automóvel iluminou o interior através das cortinas. O barulho do motor roncava na frente do estabelecimento e logo silenciou. Em poucos segundos, a porta era aberta com chaves e Margareth entrava com seu irmão.

— Temos que resolver um grande problema e espero que possam nos ajudar.

As palavras ditas com aflição pela namorada, arrancaram Evernood do seu estado de abatimento, fazendo com que se levantasse do banco para receber a detetive de polícia.

— Estamos aqui para isso. – Recebeu a namorada com um abraço. – Estamos bem?

Fez a pergunta sussurrando, ao pé do ouvido, durante o abraço para que somente Blindwar escutasse, no que foi respondida no mesmo tom.

— Sim. Mas, Thomas não.

Blindwar se desfez o abraço e se voltou para Violet e Edwin.

— Pessoal, acho que já conhecem meu irmão da festa, Thomas Blindwar.

Virou-se para o irmão, que apesar de ser um homem alto e normalmente imponente, aparentava cansaço e seu olhar parecia disperso.

— Thomas, não sei se lembra de Violet Lister e Jonh Edwin da festa. Eles nos ajudarão com o problema de seu amigo.

— Lembro-me da festa, mas não conversamos muito. Sinto ter que trazê-los para o meu problema.

Thomas não estranhou o local, pois Margareth, apesar de não ter lhe contado toda a verdade, disse que aquele pub era de um amigo e que ele não estava funcionando. Deixava que o grupo se reunisse lá. Contou a dificuldade que ela, Evernood e Lister tinham em atuar na polícia por serem mulheres. Na maioria das vezes eram desprezadas e uniram forças para se apoiarem e avançarem em investigações.

Para Thomas, a ideia de que a irmã tivesse feito um grupo à parte da força policial era verossímil. Conhecia-a bem para saber que ela lançaria mão de artifícios para alcançar seus objetivos e dado às informações que o pai lhe contava nas cartas, entendeu que o subterfúgio de ter um grupo à parte para investigações. Esse foi o motivo pelo qual a irmã conquistava, pouco a pouco, o prestígio necessário dentro do departamento de Crimes Graves.

Prometeu-lhe que nunca falaria para os pais, ou quem quer que fosse, sobre esse grupo seleto do qual fazia parte e certamente ele morreria antes que alguém pudesse arrancar esta informação. Os dois irmãos sempre foram muito unidos e apesar de Thomas ter se distanciado de Margareth nos anos, a confiança que tinha nela retornou no instante que a viu. Foi como se nunca tivessem se desligado.  Razão pela qual se sentiu seguro para procurar o apoio e a expertise da irmã.

Edwin não perguntou se queriam beber algo. Somente colocou mais dois copos sobre o balcão e derramou a bebida âmbar, empurrando-os para os dois irmãos. Eles agradeceram com um gesto de cabeça, pegando a bebida.

— Então Thomas… Posso lhe chamar de Thomas?

— Certamente, senhorita Evernood.

— Então me chame de Beth, que é como todos aqui me chamam.

 Ele assentiu e tomou a bebida de um só gole. Colocou o copo sobre o balcão e Edwin derramou mais um pouco de whisky. Não encheu o copo para que o rapaz não saísse dos eixos.

— Conte-nos a sua história, Thomas. Por que precisa de nossa ajuda?

— É uma longa história, senhorita… Beth.

— Queremos ouvi-la inteira. – Foi a vez de Edwin se colocar. – Nada como uma história bem contada para entendermos a situação.

Thomas suspirou. Intuiu que a noite seria longa.

— Muito bem. Sabem que há mais ou menos uns quatro anos eu resolvi viajar pelo mundo para conhecê-lo, entretanto, o verdadeiro motivo para isso era desconhecido pela minha família… – ele olhou para Margareth -… Desculpe-me irmã, por nunca ter lhe contado.

— Disso tratamos depois. Não pense que quando essa confusão terminar, não puxarei suas orelhas. – Margareth respondeu carinhosa.

— Voltando ao assunto. – Thomas falou. – No meu último ano de faculdade conheci através de um amigo um grupo de pensadores. Eles queriam ser muito mais que isso. Muitos haviam lutado na guerra e na época, compadeceram-se pelas populações atingidas pela devastação que ela causou. Outros, somente se alinhavam com os pensamentos de socorristas do grupo.  

— Pensamentos de socorristas? – Violet perguntou intrigada.

— Sim, eu chegarei lá. – Thomas tentava ser suscinto, não sabendo muito bem como. – Os debates do grupo giravam em torno de como o mundo era injusto e, como em muitos países as populações passavam fome e eram miseráveis. Debatíamos sobre como seria melhor se as pessoas saíssem da miséria e se tornassem produtivas.

— Discussões boas, contudo na prática não é muito viável, vista pelo ponto de governos autoritários e exploradores. Pessoas miseráveis geram mais lucros para quem tem poder e quer mais dinheiro.

Edwin se posicionou, sorvendo um pouco do seu whisky, antevendo onde a história do irmão de Margareth chegaria.

— Ah, isso eu vi por mim mesmo! Mas, na época, eu era um jovem cheio de ideais e louco para atuar. – Thomas deu uma pausa para beber um pouco e continuou. – Não me arrependo do que fiz. Conheci muitos lugares com esse grupo e auxiliamos muitas pessoas na medida que podíamos. Fomos à Ásia, América do Sul e por fim, estávamos na África. Éramos um grupo pequeno, mas fazíamos certa diferença, ajudando vilas esquecidas por Deus e pelos homens.

Thomas suspirou e Margareth colocou a mão sobre seu ombro, dando-lhe forças.

— Ainda não compreendo como escondeu tudo isso de mim…

— Por favor, Meg, não me recrimine. – Thomas pediu com certa tristeza. – Eu imaginava que se lhe contasse, uma hora, as lamúrias de nossa mãe sobre as minhas viagens lhe atingiriam. Não queria deixar você com esse peso.

Ao longo do dia anterior, o irmão de Margareth havia lhe contado as dificuldades, a pobreza que viu e o sofrimento. Se agraciou por saber que seu irmão não havia se tornado o homem supérfluo, no entanto, entristeceu-se por ver que aquele rapaz de coração bom e suave, que lhe acompanhou em sua infância e adolescência, estivesse com a alma desgastada por tudo que viu e passou.

— Fomos expulsos de muitos lugares pelas forças locais, pelo trabalho que fazíamos e por interferir no andamento da exploração dessa mão de obra barata e descartável. Eu estava cansado e voltaria para casa, me refazer e rever minha família. A África do Sul seria a minha última parada antes de retornar e foi lá que conheci Browen.

— Prevejo que esse tal de Browen seja o seu “problema”.

— Seu sentimento está correto, Beth. Ele é negro, mas nem tanto. – Thomas sorriu desolado com a fala. – Digo isto porque Browen era um empregado na casa de um embaixador e a mãe dele também. Entretanto, me chamou a atenção que ele tivesse um tratamento diferenciado e uma educação melhor, mesmo sendo quem era.

Thomas passou a mão pelos cabelos para dar-lhe tempo de recompor seus pensamentos. Continuou o relato.

— O embaixador permitia que ele circulasse por espaços comuns aos brancos e era quem servia diretamente a ele. Bem, me afastei da capital com o grupo para atender vilas miseráveis no interior do país e cinco meses depois, me deparei com Browen numa dessas vilas.

— O que me chamou a atenção o nome dele. – Violet expressou. – Ele não tem um nome africano, por quê?

— Ah, senhorita Lister, isso também foi algo que assim que o conheci, me chamou atenção e intuía o motivo. Entretanto, eu era convidado na casa do embaixador e aprendi a não afrontar os governos locais diretamente. – Thomas sorriu e via-se o desconforto na expressão de seu rosto. – Ele estava lá, por ter sido dispensado da casa, assim como a mãe dele. O embaixador morreu de um problema de coração e a esposa do embaixador colocou os dois para fora no mesmo ato.

— E vocês travaram uma amizade depois disso, presumo.

— Exatamente, Beth. Levou algumas semanas para que ele confiasse em mim, porém, depois que viu o que o meu grupo fazia pela aldeia de sua mãe, ele começou a se chegar. Vocês já devem ter interpretado parte da história dele.

— Um embaixador que se apaixonou ou somente se forçou sobre a mãe dele porque podia, e ela engravidou.

Evernood levava um tom de ira às palavras. Ela odiava quando uma mulher era violada, simplesmente porque os homens tinham essa vantagem anatômica da força bruta e, também, social.

— Sim, o embaixador se forçou sobre a mãe dele, porém, se apaixonou pelo filho recém-nascido. Browen cultivou carinho pelo pai desde a infância, mas também, desde muito cedo viu que seu lugar era diferente do que o pai gostaria para ele. Já a sua mãe, ele cuidou com carinho. Seguiu no jogo para que ela não sofresse consequências.

— Presumo que a esposa do embaixador sabia de tudo e se calou durante anos, até que ele morreu.

— Exatamente, senhor Edwin. Ela teria que voltar para seu país e antes disso ocorrer, demitiu os dois. Ninguém na embaixada tomou as dores, afinal, Browen era um párea e a mãe uma local preta. O fato é que o embaixador o educou da melhor forma. Ensinou-o a ler e escrever e, também, ensinou-lhe cálculo. Estimulava-o a ler pensadores e ele se tornou um homem crítico. Juntou-se a nós na tentativa de melhorar a vida da aldeia e formamos uma bela amizade. O problema é que Browen não se conformava que seu povo sofresse daquele jeito.

— O fato é que ele não conhecia a vida nas aldeias, a não ser pelas histórias de sua mãe, que sempre foi submissa ao embaixador. – Margareth afirmou. – Só se atinou, depois que saiu da embaixada. O mundo que o pai criou para ele se desfez, porque na verdade era uma ilusão.

— Sim. Mas o verdadeiro problema vem agora: Ele começou a se interessar por uma coisa que ninguém enxergou. Pessoas sumiam das aldeias sem deixar pistas. Os locais atribuíam o sumiço, à morte por animais selvagens e muitas vezes até a fugas. Ele foi a fundo nessa história e descobriu muita coisa.

— Esses homens das aldeias estavam sendo capturados para trabalhar nas jazidas de pedras preciosas.  

Evernood afirmou com veemência e Edwin assentiu com a cabeça, concordando com a amiga. Era como já conhecesse essa realidade. A expressão do rosto de Thomas tomou ares de nojo, presumindo que aquelas pessoas amigas de sua irmã concordavam com aquele fato.

— Isso é errado! Não temos mais escravidão aqui. Como podem concordar com isso?

— Ei! Acalme-se Thomas. – Evernood falou com suavidade. – Quem disse que concordamos? Nós viajamos o mundo como você e sabemos sobre esses fatos que ocorrem em países africanos. Nada mais que isso.

— Sabemos que existe. Não quer dizer que já nos deparamos com algo assim. – Edwin apoiou a fala da amiga para tentar acalmar o rapaz. – Continue sua história para que possamos ver se conseguiremos ajudá-lo.

 Thomas Blindwar inspirou fundo na tentativa de aplacar a revolta.

— Nos tornamos verdadeiramente amigos. A minha amizade com ele, ia além das minhas expectativas de melhorar a vida de pessoas desafortunadas. Quero que entendam que hoje, não vejo cor de pele ou procedência como algo que deva ser distinto na espécie humana.

— Você diz que hoje, “não vê cor de pele ou procedência como algo que deva ser distinto na espécie humana”. Algum dia já pensou diferente disso?

A pergunta de Violet deixou certo incômodo no rapaz. Ela não compreendia como as pessoas achavam que fazer distinções desse tipo fosse algo natural. Ao longo de sua vida como médica, tudo que pôde observar cientificamente era que a cor da pele e traços fisionômicos eram distintos e nada mais. No caso de miseráveis que viviam na cidade, nem isso era diferente, a não ser a classe econômica. Entretanto, a senhorita Lister tinha muitos colegas de profissão que se esmeravam em estudos para provar que havia diferenças, somente para manter o “status quo”.

O mais inacreditável estudo que um dia teve a oportunidade de ler e que foi enviado para a sua universidade para avaliação, fora um estudo sobre a comparação das dimensões de crâneos entre homens e mulheres. No experimento, o pesquisador tentava fazer uma relação entre inteligência e tamanho de crânio e cérebro, para caracterizar que o gênero masculino era intelectualmente mais dotado em relação ao gênero feminino.

Nada lhe deu mais prazer do que ler o parecer de sua mentora Catley Hollaway. Após várias páginas contradizendo o pesquisador, embasadas em inúmeros termos técnicos, ela colocou no parecer: A banca avaliadora rejeita a pesquisa.

Lister sorriu ao lembrar da mentora e amiga. Ela tinha alcançado um patamar entre os membros da universidade que Violet batalhava para alcançar. 

 — Está certa em me questionar, senhorita Lister. A verdade é que apesar de sermos um grupo progressista, ainda carregamos muito de nossa história de vida e lastimo em dizer que me envergonho de como pensava antes.

— Não se lastime por isso. O pior é ver o que está sob seus olhos e não mudar os pensamentos. Sinta-se afortunado por compreender que seres humanos são somente isso: Seres humanos e nada mais. Não há diferenças e quem sabe um dia, todos consigam ver dessa forma. – Lister fez uma pausa, suspirando. – Mas continue seu relato, Thomas.

— Para encurtar a história, devo dizer que Browen foi insistente em encontrar a verdade. Ele não só presenciou um sequestro, como descobriu para onde levavam as pessoas.  Também, investigou para descobrir quem estava por trás de tudo. Voltou à capital e entrou em contato com velhos amigos de seu pai.

— Não precisa dizer; a maioria não o recebeu.

— Exatamente, Beth. Apenas um amigo que era compadecido da história de Browen, e muito chegado ao embaixador, o recebeu. Pediu enfaticamente que ele deixasse essa história de lado e lhe ofereceu um emprego em uma empresa como chefe da estiva, imaginando que não conseguiria nada melhor na cidade com a condição dele.

Thomas tomou outro grande gole de whisky. Dava a impressão que tinha sede, da forma como vertia o líquido. Margareth o abraçou, confortando-o. Sabia que aquele ponto da história era nevrálgico para seu irmão.

— Foi a melhor condição que ele poderia ter para descobrir o que queria, pois o minério e as pedras preciosas tinham que passar pelo cais para sair do país. Eu não sabia o que estava acontecendo, pois continuava com meus companheiros visitando as aldeias pobres. Perdemos contato. Quando tratávamos das pessoas doentes e ensinávamos algum recurso para melhorarem, partíamos para outra aldeia. – Thomas suspirou. – O encontrei alguns meses depois, quando tive que ir à capital para pegar alguns remédios que um amigo nosso havia mandado e o encontrei no porto.

— E o que aconteceu?

Edwin questionou, colocando um pouco mais de whisky no copo que Thomas estendeu para ele no balcão. Todos estavam em silêncio, esperando o convidado se recompor. Não queriam interrompê-lo.

— Ele estava assustado. Disse que teria que sair do país, mas não sabia como. Me pediu ajuda, mas falou para nos encontrarmos à noite. Marcou em um local da cidade em que nem a polícia costumavam visitar. Tive medo, mas fui ao encontro.

— Por que teve medo?

— Ah, senhorita Lister, se conhecesse as cidades africanas maiores, que são dominadas por brancos, saberia que nenhum branco se aventuraria por determinados bairros. Nós segregamos os pretos em sua própria terra e delegamos lugares para eles que são deploráveis. A violência é algo que eles conhecem e passaram a se defender de “invasores”. Fomos nós que fizemos essa guerrilha.

— Imagino como deve ser, Thomas.

— Bem, fui ao encontro e embora tenha recebido olhares questionadores e enviesados, não impediram a minha entrada no bairro. Consegui chegar ao local. Era um galpão de madeira e terra batida. Tinha um cheiro horrendo. Pessoas viviam amontoadas e praticamente não tinham água para nada.

O irmão de Margareth silenciou, seu rosto parecia cansado e carregado de tristeza. Lembrou-se do dia.

— Por aqui, amigo.

— Quem são essas pessoas, Browen?

— Filhos de ex-escravos da capital e suas famílias. Praticamente ganham comida em troca de trabalho e não tem como terem suas próprias casas.

— Por que não partem para as velhas aldeias de seus parentes?

— Porque não podem. A maioria tem dívidas com seus empregadores, pois pegam dinheiro adiantado, quando alguém adoece, ou mesmo, quando seus filhos estão passando fome. A polícia não os deixa partir.

Thomas já havia visto isso em outros lugares e não contestou. Era uma história comum. Quando alguma dessas pessoas se rebelava, ou quando alguém vinha lhes auxiliar, logo era encontrado morto e as autoridades locais não se importavam, abandonando o caso. Esta era a forma de controle do novo tipo de escravidão.

— Venha. Tenho que mostrar algumas coisas que descobri.

Thomas voltou à realidade e relatou o que havia lembrado.

— E o que ele descobriu?

— Além do que já sabemos? Ele conseguiu documentos que colocam inúmeras embaixadas como cúmplices dessas empresas de exploração de pedras. Sabia que não poderia fazer nada diante da força dos governadores corruptos e de embaixadores de diversos países, mas queria explanar para o mundo. Queria mostrar para os países que seus enviados ganhavam dinheiro por fora. Queria tornar público para que cada governo se posicionassem.

— Queria que o mundo tomasse ciência da corrupção que acontecia lá, através de jornais? Boa estratégia. Assim não precisaria lidar com as consequências e ao mesmo tempo, levantaria a questão da corrupção.

— Exatamente, Beth. Pretos escravizados não sensibilizam, mas governos sendo acusados de exploração, através de seus enviados oficiais, seria uma vergonha mundial. Browen não era ingênuo e esse foi o único legado que ele agradecia de seu pai, pois descobriu que ele fazia vistas grossas para essa corrupção toda.

— Deve ter se revoltado mais, por conta disso. – Edwin saiu de trás do balcão, após dar sua opinião e ficou de frente para Thomas. – Presumo que tenham descoberto a ação de Browen e ele corria perigo. Você o ajudou a sair do país e agora ele está sumido?

— Eu o trouxe para cá, sim. Não literalmente. Arranjei dinheiro, um passaporte e coloquei-o em um navio. Ficamos de nos encontrar aqui, para não levantar suspeitas. Cheguei três dias antes do que havia falado para minha família. Iria encontrar Browen para acomodá-lo e o apresentaria para um amigo do “Hour Post”, que concordou em dar o furo na matéria. Porém, Browen não apareceu no nosso encontro e nem consegui achá-lo. É culpa minha!

— Já disse que está se culpando sem motivo, Tom. – Margareth o repreendeu. – Os riscos eram altos e Browen sabia. Se não o ajudasse a vir, ele seria pego lá e morreria.

— Sua irmã tem razão, Thomas. Não há motivos para que se culpe. Agora o mais importante; nos diga o barco e o dia que ele chegou e, onde se encontrariam. Depois, nos espere dar notícias.

  •  

Margareth rastreava todas as chamadas de assassinatos pela cidade, enquanto Evernood e Edwin tentavam investigar algo no bar do porto.  Browen e Thomas haviam combinado que o rapaz esperaria pelo irmão de Margareth naquele lugar.  

Não era um dos melhores lugares para uma mulher estar, porém com a presença de Edwin ao lado dela, não levantavam suspeitas. Era como se fossem um casal que chegaram à cidade, esperando o momento de irem para o hotel. Não era incomum.

— Seu disfarce está ótimo!

Edwin mexeu com a amiga, vendo que tinha adotado um vestido menos alinhado do que costumava vestir.

— O que é, Edwin? Não gosta de mulheres mais simples?

Ela respondeu sorrindo e ele colocou uma garfada de guizado na boca, olhando de esguelha à volta.

— Bom, não estamos chamando atenção. Escutou algo diferente ou interessante?

— Ainda não. Acho que teremos que fazer perguntas, em vez de observar somente.

— Pois eu acho que se não escutarmos nada interessante, teremos que recorrer aos meus contatos na cidade. Qualquer um nesse lugar nos venderia por centavos, a qualquer pessoa.

Evernood passou os olhos pelo ambiente, e voltou a encarar a sua comida.

— Tem razão. Um monte de bêbados e salteadores, misturados aos trabalhadores do porto.

— E uma ou outra família que vem comer algo, após desembarcarem. – Edwin complementou. –  Não sei, Beth, mas creio que realmente não seja a melhor abordagem. Ainda bem que Thomas nos deu uma foto do rapaz. Será mais fácil para identificá-lo.  

— Pedi o negativo da foto para ele e Meg deve ter levado na loja para revelar mais três, assim todos nós teremos uma foto do rapaz. 

— Ótimo. Você procura seus contatos e eu os meus. Veremos o que conseguimos.

— Tenho um amigo que é dono de um armazém aqui no porto. Vamos embora.

— Espera, que esse guizado está muito bom. – Edwin protestou. – Vamos terminar o almoço. Assim não notam a nossa saída apressada daqui.

— Sei…

Evernood queria rir do parceiro e se conteve. Tinham que ser discretos e, mesmo sabendo que o interesse dele era pela refeição, concordou que seria a melhor abordagem.

Após terminarem de comer com calma, eles pagaram a refeição e saíram, pegando a direção da rua principal. Afastando-se do cais. Evernood entrou no carro e partiu, enquanto Edwin foi na direção oposta a pé. Ela passaria em casa para se trocar, assim, poderia visitar seu amigo do armazém.  

  •  

— Está um tanto estranha hoje, Blindwar. Algum problema?

Margareth estava concentrada nos casos de morte ou atentados que circularam na delegacia, através do setor de Crimes Comuns. Embora a Crimes Graves pegasse a maioria dos assassinatos, numa reunião entre a prefeitura e o departamento de polícia, convencionou-se que alguns tipos de morte, a Crimes Comuns poderia investigar. Eram aqueles crimes em que existiam testemunhas oculares. Assim o setor de Crimes Graves não ficaria sobrecarregado, visto que havia poucos detetives e policiais à disposição.

— Não, nada. Só meu irmão, que por estar na cidade, requer a minha atenção constantemente.

— Ah, é normal. – Reymond entrou na conversa entre Dashwood e Blindwar. – Quando vou a minha cidade natal, também quero matar as saudades de minha irmã.

— Não sabia que não era da cidade, Reymond.

A detetive comentou, sem tirar os olhos dos papeis que estava analisando e não notou a aproximação de Dashwood por trás da mesa. Levava três copos de chá com gotas de leite na mão e pousou um ao lado dela.

— Está entediada, Blindwar?

— Hã! O que?

— Perguntei se está entediada. Você está analisando casos da Crimes Comuns….

— Ah, não é nada. É só para não ficar parada. Estou vendo se tem algum crime ainda não resolvido.

— Se Stain ainda fosse vivo, já estaria aqui comendo seu fígado. – Reymond comentou.

— Acha que não tem alguns detetives que queiram fazer isso? Se fosse você, Blindwar, tomaria cuidado para não dar motivos para esse sujeitos.

Blindwar fechou os arquivos, tentando encerrar aquele assunto. Notou que tinha levantado muita atenção e seria ruim, caso os detetives desconfiassem de algo.

— Vocês têm razão. Eu peguei os arquivos sem que notassem, mas se alguém descobrir que estou xeretando, podem vir falar com o comissário. Deixe-me devolver.

Ela tomou um gole do chá que Dashwood havia deixado para ela e saiu da sala levando os arquivos. O detetive mais velho ficou alisando com os dedos a costeleta bem aparada. Seu olhar seguia a detetive, enquanto ela passava pela vidraça da sala.

— O que foi, Dashwood? Por que está seguindo Blindwar com os olhos?

Reymond não reparara na colega de trabalho, porém, conhecia bem o detetive mais velho e sabia que ele havia captado algo.

— Blindwar está cheirando algo. Pode parecer bobagem, mas toda vez que ela fica silenciosa demais, é porque está percebendo alguma coisa que nós não estamos vendo.

— Acha que a Crimes Comuns deixou passar um assassinato grande?

— Não sei. Nem todos na Crimes Comuns são uns idiotas… Bem, a maioria é, mas não todos.

Dashwood chacoteou o outro setor, levando Reymond ao riso frouxo.

— Pode ser também algum caso daquela amiga dela, a Evernood. É detetive particular e pega casos encomendados. Talvez Blindwar esteja vendo se vale a pena a gente se meter.

— É, pode ser Reymond. Pode ser…

Margareth retornou e perguntou se Greendwish estava na sala, no que Reymond respondeu afirmativamente. Ela bateu na porta do comissário e ele mandou-a entrar. Alguns minutos depois ela saiu.

— Rapazes, pedi o restante do dia de folga para o comissário e ele me concedeu. Se por acaso surgir algo, podem ligar para minha casa. Prometi almoçar com meu irmão e se depender dele, não retornarei hoje. Como estamos tranquilos aqui…

Blindwar encolheu e relaxou os ombros, displicentemente.

— Tudo bem, Blindwar, eu também devo sair mais cedo hoje. Afinal, só temos folga nesses tempos tranquilos.

Blindwar acenou com a cabeça para Dashwood.

— Então, até amanhã, rapazes.

  •  

Evernood chegou ao escritório do armazém, levantando olhares dos trabalhadores do galpão. Enquanto passava, alguns insinuavam mexer com ela, entretanto reparava que sempre algum amigo os repreendia. Ela caminhava suavemente, porém com segurança, mostrando que não se intimidava. A atitude normalmente deixava os mais cautelosos desconfiados e os retraía nas investidas. Chegou ao escritório e bateu na porta, contudo não esperou resposta. Entrou.

Um homem corpulento, porém, alinhado nas vestes, elevou o olhar e sorriu. Ele se levantou da cadeira e saiu detrás da mesa, indo ao encontro dela para abraçá-la.

— Minha amiga! – Abraçou-a forte. – Se dissesse que viria, teria esperado para almoçar com você!

— Foi inesperada a minha vinda, Kendrall e infelizmente em circunstâncias não muito boas.

Ele fez um gesto como se ignorasse o que ela falara.

— E que circunstâncias que nos aproximam inesperadamente e ainda são boas? Você sempre procura por elas, Beth. – Ele sorriu e acenou para ela se sentar na cadeira de frente para ele. Tomou o seu lugar e pegou um charuto numa caixa, oferecendo um para ela.

— Não, obrigada.

Evernood dispensou o agrado e esperou que o amigo acendesse seu charuto. Viu-o baforar três vezes antes de fitá-la, como se perguntasse o que a levava ali.

– Preciso de sua ajuda para achar alguém.

— Isto já imaginava. Está sempre à procura de alguém, Beth. Que tal abandonar essa vida e simplesmente desfrutar de sua boa fortuna?

— É entediante, você sabe. – Ela retrucou rindo. –  Deixo esta parte para meus administradores.

— Um dia ainda lhe passarão para trás, sabe disso.

— Estou sempre a frente dos negócios de minha família, Kendrall,  mas eventualmente preciso de uma emoção e pego estes casos para satisfazer esta minha veia aventureira.

— O que quer desta vez, além de discrição?

— É ótimo que saiba sobre minhas exigências, pois não o procuraria se fosse um linguarudo.

Ela riu e colocou a foto de Browen sobre a mesa. Ele pegou e observou o rapaz.

— Está desaparecido e procuro por ele, Kendrall.

— Um de seus refugiados? Lembro de quando costumava trazer refugiados para cá e os escondia por um tempo, até conseguir dar-lhes emprego. – O homem riu.

— Sim, é um refugiado e é muito caro para mim. É um amigo.

— Trabalhou na guerra do nosso lado, Beth?

— Na verdade, ainda trabalha pelo nosso lado, só que na guerra silenciosa. Aquela que todos fingem não existir.

O rosto do homem endureceu. Olhava a foto com apuro.

— Sei. Tráfico, escravidão… Deixe comigo, que se ele foi visto por aqui, eu descobrirei.

Evernood retirou um maço de dinheiro do bolso e colocou sobre a mesa.

— Isto é para as despesas e para calar bocas nervosas.

O Amigo fez um sinal com a cabeça e ela se levantou.

— Diana está com saudades. Vamos marcar para almoçar num dia de domingo.

Ele falou, levantando-se para acompanhá-la até a porta.

— Vamos sim, Kendrall. Dê um abraço em Diana e diga que marcaremos um dia certo para essa visita, depois que eu terminar esse caso. – Sorriu para o homem. – Obrigada, amigo.

Ele a abraçou, com um ar de felicidade no rosto e quando viu seus trabalhadores repararam, fechou o cenho e os homens do armazém baixaram a cabeça e voltaram a trabalhar. Ela se foi e o homem fechou a porta do escritório, mas não antes de acompanhar com o olhar até ela sair. Arrancaria a cabeça do primeiro que falasse uma gracinha para a amiga.

Já na rua, Elizabeth entrou em seu carro e foi se encontrar com Margareth e Thomas na casa dos Blindwar.  Quando chegou, a senhora Blindwar a recebeu com sorrisos.

— Eles estão no jardim, tomando um licor digestivo. Já almoçou?

— Já almocei sim, senhora Blindwar, obrigada. Mas, aceitaria me sentar com eles para uma conversa no jardim e beber algum digestivo também.

— Pode ir lá, minha querida. Já é de casa. Pedirei para levar mais uma taça para você. Thomas me falou que a achou muito agradável e bonita.

A senhora Blindwar se afastou, deixando que Evernood caminhasse sozinha até o jardim. A mãe de Margareth levava um ar de contentamento no rosto. Evernood balançou a cabeça, caminhando para fora da casa. Intuía que a senhora Blindwar se animava com a perspectiva de um casamento de seu filho com uma nobre senhorita da aristocracia da cidade. Isto divertiu a detetive particular, imaginando que ela não estava de todo errada, somente errara no filho que se relacionava com ela.

Chegou ao jardim e assim que Margareth a avistou, levantou-se da cadeira para cumprimentá-la. Thomas a acompanhou com o olhar e se levantou também, para receber a detetive particular. Gostou de saber que a irmã tinha uma amiga que podia confiar. Margareth nunca fora dada a grandes amizades, dizia que não gostava das futilidades das conversas com a maioria das garotas que eram próximas a família Blindwar.

— Como vai, Beth?

— Estou bem, Thomas. Vim dar notícias e ver se Margareth já mandou fazer as cópias das fotos. E você, como está?

— Me fortalecendo, no entanto não deixo de estar ansioso e preocupado com o sumiço de Browen. Não entendo por que não posso contatar com meus amigos. Eles são confiáveis.

Todos se sentaram à volta da mesa de jardim.

— Confie em nós, meu irmão. Nesse quesito, estamos dando opinião de profissionais nessa área. Quanto menos pessoas souberem, maior as chances de encontrá-lo vivo.

— Sua irmã está certa, Thomas. – Evernood completou. – Se muitas pessoas começarem a fazer perguntas por aí, levantará suspeitas por quem o sequestrou. Não se preocupe, ele estando vivo, o acharemos.

Calaram-se, assim que uma empregada se aproximou com mais uma taça para o licor digestivo que estava sobre a mesa. Ela serviu a taça e ofereceu para a visitante.

— Obrigada.

Evernood agradeceu gentilmente e a empregada se retirou.

— Conseguiu levar o negativo da foto para fazer mais cópias?

— Consegui sim, Beth. O problema é que só ficará pronto amanhã.

— Ok. Não vou me demorar muito. Tenho que voltar para casa para esperar notícias de Edwin e de um amigo. Eles têm muitos contatos nas docas da cidade.

Evernood, bebeu um gole do licor. Esperava que Margareth fosse com ela, mas não podia exigir isso da namorada, afinal, não via o irmão há anos e certamente quereria ficar com ele nesse momento difícil.

— Hoje vasculhei alguns casos de corpos achados na cidade nas últimas semanas. Houve três assassinatos, mas nenhum deles era o seu amigo. –  Margareth falou diretamente para o irmão. – Dois foram mortos em brigas de bar. Ambos foram identificados e o terceiro era uma mulher, cujo marido a matou por ciúmes.

 Thomas balançou a cabeça em desânimo.

— Eu não acredito que o mundo esteja assim. Estamos chegando à barbárie. Como alguém mata outra pessoa por uma bebida ou mesmo por ciúme?

— Não se torture, Thomas. Matar nunca é a melhor forma de resolver as coisas, entretanto, o ser humano nunca foi sensato. Nem na antiguidade, e muito menos agora.  – Evernood levantou-se. – Tenho que ir, mesmo.

— Eu vou com você para ajudar nas buscas. – Margareth olhou para Thomas. – Fique aqui com papai e mamãe. Tente ser gentil com eles e não demostre preocupações.

— Acho que vou auxiliar papai nos negócios… Mamãe me exaspera, tentando marcar encontros com as garotas da cidade. Não estou com cabeça para esse tipo de coisa.

Margareth sorriu do desespero estampado na face do irmão. Colocou a mão sobre o ombro, num gesto de compaixão pelo que ele passava.

— Pelo menos, o foco da mãe desta vez não sou eu. Não vou me penalizar por vocês.

Gracejou e quando as duas estavam prestes a sair, a mãe de Margareth apareceu no hall de entrada.

— Vocês vão sair? Por que não levam Thomas para dar um passeio com vocês?

Evernood se aproximou da senhora Blindwar, segurando-lhe as mãos gentilmente.

— Não queremos atrapalhar os planos de Thomas. Ele disse que procuraria o pai para auxiliá-lo nos negócios.

— É. Parece que meu irmão está começando a se interessar e quer tomar pé do que papai faz. – Margareth foi assertiva.

— Além do mais, Thomas não gostaria do que vamos fazer, senhora Blindwar. – Elizabeth Evernood confidenciou. – Vamos passar no mercado central para comprar algumas coisas lá para casa, pois pretendo convidá-lo esta semana para conhecer a minha casa e apresentá-lo a alguns amigos.

Dayse Blindwar não poderia estar com um sorriso maior no rosto. Na percepção da senhora, Deus estava ouvindo as suas preces, colocando uma moça com nome de família no caminho dele.

— Então, vão. Tenho que ir à cozinha. Vou mandar preparar codornas para hoje à noite. O Thomas adorava quando era criança.

A senhora Blindwar se retirou, com ares de felicidade e as duas se entreolharam, diante da reação dela. Margareth prendeu o riso, até sair da porta da casa para fora, para depois gargalhar da ração da mãe.

— Você é muito má, Beth. Sabe mesmo como mexer com a imaginação de minha mãe. Ela vai criar expectativas, sabia?

— Não serão expectativas vãs. – Evernood respondeu, abrindo a porta do seu carro para Blindwar entrar. – Depois que acharmos Browen, se seu irmão quiser modificar alguma coisa na estrutura de nosso governo, ele tem que atuar aqui, para modificar o “status quo”.

— Ele realmente acredita no que faz pelo mundo afora, Beth.

— Sim, mas existem pessoas que não tem tanta influência como ele para fazer esse trabalho. Essas pessoas têm que ter alguém, aqui dentro do governo, para poder dar força à luta delas. Mudar leis, ter apoio interno e financeiro de forma oficial. É como podemos modificar tudo que achamos errado, Meg, e quanto mais rápido seu irmão entender isso, mais rápido modificaremos nosso país para a melhor.

— Está querendo dizer que ele deve entrar na política?

— Não. Ele não precisa entrar na política. A família Blindwar tem um peso na nossa sociedade. Seu pai participa de grupos de empresários, de clubes aristocráticos. Acha mesmo que seu pai não atua dentro das rodas políticas da cidade? – Evernood emudeceu alguns segundos, tentando se fazer entender. – Assim como eu, com meu nome de família e como empresária, seu irmão pode estabelecer contatos e fazer articulações. Veja bem, eu não sou de me envolver diretamente, pois não tenho paciência para essas rodas, mas sei como me intrometer, quando acredito que vale à pena.

— Como assim?

— Tenho um administrador que é muito bem pago e tenho um braço direito confiável. Eles também atuam de acordo com o que penso. Quando vejo algo que precisa da minha interlocução direta, converso diretamente com quem de direito.

— Como fez com o departamento de Crimes Graves na polícia.  Convenceu o prefeito a instituí-lo.

— Exato!

Chegaram ao pub-refúgio do grupo. Esperavam que Edwin já tivesse chegado com novas notícias. Entraram e não o viram. Evernood retirou sua luva de couro que usava para dirigir e colocou sobre o balcão. Foi pega de surpresa pelo abraço e beijo ardente que recebeu da namorada.

Há dias que não ficavam a sós e como ela, intuiu que Margareth sentiu falta desse momento de carinho. Enlaçou a cintura da namorada e intensificou o beijo, que fazia dias queria sentir em seus lábios. Permaneceram naquele beijo até o fôlego de ambas faltar. Entreolharam-se e riram, encostando as testa.

— Já não aguentava mais ficar próxima a você sem poder te tocar.

Margareth sussurrou, no que foi beijada novamente pela detetive particular.

— E muito menos eu. – Evernood falou entre os lábios unidos. – Ficará em minha casa esta noite?

— Ficarei. E que ninguém me impeça disto.

Riram novamente e escutaram um barulho nos fundos do pub. Separaram-se.

Edwin entrou pela porta de serviço que era ligada a mansão Evernood. Não gostava de chegar ao pub pela porta da rua. Dizia que não precisava se expor. Evernood concordava com ele, porém, algumas vezes, não queria que os empregados da casa soubessem que ela havia retornado à casa e acabava por optar pela porta da frente do estabelecimento.

— Novidades?

— Não muitas, Beth. Um de meus contatos viu um rapaz negro estrangeiro na companhia de outro, também negro, daqui da região no dia da chegada de Browen. Depois desse dia, não viu mais nenhum dos dois perto das docas.

— Pode não ser Browen.

— Não sei não, Meg. Não há muitos estrangeiros negros que entram legalmente no país. A maioria vem em barcos de contrabandistas e pagam para entrarem ilegalmente. Eles não circulam pelo cais se expondo.

A detetive particular levantou a questão e ambos os amigos concordaram.

— Ah, desculpe, Beth. Um mensageiro chegou com esse bilhete para você. A senhora Blister me entregou para lhe dar.

Edwin deu o bilhete para Evernood, que o abriu rapidamente. Leu atentamente duas vezes.

— É um recado da minha fonte. Parece que o rapaz estrangeiro visto no cais, através da sua fonte, é mesmo o nosso alvo.

— O que sua fonte escreveu no recado?

Margareth perguntou animada.

— Disse que, no dia em questão, foi visto pelas redondezas acompanhado de um outro rapaz preto. Esse moço, trabalha em um grupo de criminosos no cais que atuam com sequestro e morte encomendada.

— Isso não é nada bom. – Edwin afirmou.

— Não podemos presumir o pior. – Evernood pontuou. – Eles não o matarão, sem saber quem auxiliou Browen a chegar legalmente no país.

— Legalmente, mais ou menos…

Margareth não estava com a mesma esperança de Elizabeth. As palavras foram ditas em um tom desanimado.

— Thomas falou que conseguiu um passaporte para Browen e é isso que importa. Ele chegou em um navio que atracou no cais e todos os passageiros passaram pela aduana. Não é como se tivesse entrado escondido.

O que Edwin expôs, deixou Evernood muda durante uns segundos.

— Conheço esse seu olhar, Beth. No que está pensando?

— Ah, meu bom amigo, você me conhece como ninguém.

A detetive particular inspirou fundo. O que diria, não agradaria à namorada e tinha certeza.

— Se ele entrou legalmente, alguém pode abrir uma investigação a respeito do paradeiro dele. Tornamos oficial essa investigação, a partir da denúncia de desaparecimento. Assim, quem contratou esse grupo, terá medo de o matar e ganharemos tempo.

— E quem denunciaria?

A pergunta de Margareth pareceu ingênua para os dois detetives particulares, que não emitiram palavra alguma. Permaneceram calados, observando a reação da detetive de polícia. Ela franziu o senho e finalmente compreendeu.

— Não. Não e não! Não deixarei que Thomas faça esse tipo de denúncia. Ele se tornará um alvo!

— Ele já é um alvo, Meg. – Evernood foi contundente. – Acha que quem mandou sequestrar o rapaz não sabia a forma como ele saiu da África? Já o estavam esperando no cais quando desembarcou. – Evernood foi enfática. – Browen não seguiria com alguém tão facilmente, se a pessoa em questão não o tivesse convencido a acompanhá-lo. Certamente usaram o nome de seu irmão.

— Beth está certa, Meg. Provavelmente a única forma de seu irmão se proteger, será trazer parte da história à tona. – Edwin foi direto e duro nas palavras. –  Não digo para ele falar sobre tudo. Não deve falar a parte da escravidão nas minas de pedras preciosas, mas tem que dizer sobre a parte em que Browen é amigo dele, e que se conheceram na casa do embaixador; que Thomas queria auxiliar o amigo a uma nova vida aqui.

— Acham que quem está por trás, poderia atentar contra Thomas?

— É uma possibilidade, mas não se assuste, Meg. Lembra do que falei para você no carro sobre seu irmão ter poder de atuação?

Margareth sinalizou que sim com a cabeça.

 — Ele pode ter que contar com essa proteção. Não seria simples, alguém que esteja por trás de tudo isso, sequestrá-lo e sumir com ele. – Evernood falou, segurando a mão da namorada para fitá-la. – A ação dessa gente ocorre nas sombras. Não querem chamar atenção para si. Sequestrar um imigrante sem família é uma coisa, entretanto, sequestrar alguém da nata da sociedade, cuja família tem ligações políticas, é outra completamente diferente.

— Mesmo assim, – Edwin tomou a palavra – seria muito mais fácil sequestrá-lo, quando ninguém sabe em que ele está envolvido, entende?

Margareth andou de um lado para outro, aflita, raciocinando sobre o que a sua namorada e seu amigo falaram. Mordia o lábio inferior, na tentativa de apaziguar a ansiedade que crescia. Evernood e Edwin permaneceram calados, observando a detetive de polícia. Compreendiam que jogaram sobre ela preocupações e que era dela a decisão do que fariam. Finalmente Margareth acalmou.

— Isto será o que faremos. – Blindwar se decidiu. – Concordo com vocês. Thomas fazendo a denúncia, ele pode falar diretamente com o comissário e puxamos a investigação para a Crimes Graves.

— Só tenho um pedido a fazer. Não diga que quer o meu auxílio. Embora a maioria saiba que em determinados casos eu atuo junto com a polícia, desta vez poderá ser uma vantagem se não souberem que estou auxiliando.

— Entendo… Acredita que quem está por trás possa ter influência e conhecimento nas altas esferas políticas.

— Exatamente. Por isso é melhor que eu e Edwin fiquemos na retaguarda. Desta forma, podemos investigar, enquanto a atenção está voltada para a polícia.

— Vou falar agora mesmo com Thomas.

— Sei que combinamos de você dormir aqui, mas fique com ele hoje. Precisará conversar muito com Thomas para que ele tenha clareza do que deve fazer. Lembre-se de nossa conversa. Seu irmão pode contribuir muito, perante as autoridades e as pessoas de poder, se souber como lidar com eles.

Antes de sair, Blindwar se voltou para os dois detetives amigos.

— Por favor, me ajudem a protegê-lo. Não sei o que faria se perdesse meu irmão.

Evernood se aproximou da namorada e a abraçou carinhosamente.

— Não deixaremos nada acontecer com ele. Vamos resolver isso.

A detetive particular apertou mais a namorada no abraço, beijando a testa. A encarou e disse suavemente.

— Não esqueça que temos algumas cartas na manga com a Agência de Inteligência. Se algo sair do nosso controle, temos como pressionar para que eles entrem em ação.

— Não quero metê-los nessa história…

— Não iremos acioná-los por alguma coisa qualquer. Não se preocupe. Mas ao menor sinal de perigo para seu irmão, sei que poderemos lançar mão dessa vantagem.

— Obrigada. Sei o quanto é penoso para você. – Margareth olhou para Edwin — … para vocês dois. Contar com a Agência não é seguro para vocês.

— Não se preocupe conosco, Meg. Sabemos lidar com eles.

Ela sinalizou afirmativamente para o amigo e beijou o rosto de Evernood antes de sair. Elizabeth a acompanhou com o olhar e quando a porta se fechou, virou-se para Edwin. Estava com um ar de contrariedade no rosto.

— Vamos entrar. Temos que arrumar algumas coisas e sair.

Edwin não discutiu, apenas franziu o cenho, tentando entender por que a amiga reagia daquela forma. Tomaram o rumo da saída dos fundos da loja para a passagem que havia para a mansão.

— Minha fonte falou no recado, que precisa se encontrar comigo. Sabe o que significa, não é?

— Encrenca na certa. Não quer que Meg nos acompanhe. Por isso que a incentivou a ficar com o irmão.

— E você discorda disso?

— Não! Logico que não. Dependendo do que seu contato falar, ela não será a melhor pessoa para lidar com o assunto.

A tarde estava avançada e em breve escureceria.

Edwin ficaria na retaguarda, escondido nas sombras, para proteção da amiga. O local de encontro não era, nem de longe, o melhor da cidade. Este fato não era algo incomum no tipo de atividade que faziam, porém, ela não exporia Edwin ao seu contato e vice-versa. Era uma proteção para todos os envolvidos.

Continua…



Notas:

Boa tarde!

Como estão? Estou há uns meses afastada e com projetos pessoais em curso. Senti muita falta de postar e resolvi fazer mais um caso das nossas detetives para matar a saudade.

Espero colocar mais uma parte até sexta-feira, mas caso não consiga, não passará da semana que vem.

Um beijão a tod@s!




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