Texto: Carolina Bivard
Ilustração: Táttah Nasciscimento
Parte 3
Na manhã seguinte, a detetive de polícia fez o desjejum cedo com Elizabeth e partiu para a delegacia. Edwin já estava a postos em sua suposta atividade diária na mansão Evernood. Assim que Margareth saiu, ele entrou no escritório para levar um “chá” para a detetive particular.
— Foi Browen que invadiu a casa dos Blindwar?
O mordomo-detetive acenou com a cabeça afirmativamente, sem nada dizer.
— O joalheiro está cooperando?
— Bem, você disse que eu não poderia usar força e ele não cooperou.
Evernood sorriu de lado para o amigo.
— Edwin, você não é um bárbaro, se lembra? – Ela sorriu mais aberto. – Conseguiu o livro caixa dele?
— Está comigo. – Edwin coçou o queixo, incomodado. – Por que não falou para Meg o que estamos fazendo? Ela não ficará brava se você contar depois?
— Ela não deixaria que fizéssemos o que seria preciso para conseguirmos as informações e eu a entendo. Ela é uma agente da lei. Se eu contasse, ela teria um dilema em suas mãos.
— Compreendo isso, mas você está arriscando. Ela pode ficar zangada com você quando descobrir.
— Vou me preocupar com isso quando acontecer… se acontecer. Não deixarei de protegê-la, ou melhor, proteger o cargo dela, só pelo simples fato de imaginar que se zangará comigo.
— Está pronta?
Edwin questionou, se colocando de prontidão para sair. Estava cansado, pois havia feito inúmeras diligências na noite anterior a pedido de Elizabeth e chegou tarde para dormir.
— Estou. Vamos, que a tortura do joalheiro será em outro tom.
Eles saíram de casa e Edwin atuou como o motorista particular de Evernood. Foram ao mercado, onde ela comprou alimentos para entregarem na mansão. Depois, partiram para a rua dos tecidos e ela fez mais compras e ao final da manhã, pegaram o caminho de uma das propriedades fora da cidade, onde Evernood tinha o depósito de carvão de suas minas.
Realizaram as atividades normais para disfarçar a real intensão do que fariam. Tudo foi planejado para despistar possíveis espiões. Não sabiam muito sobre os capangas de Mcvar e o se eles ainda procuravam Browen.
Ela vigiava o trajeto, enquanto Edwin dirigia. Detestava ter que fazer algo escuso a luz do dia, pois tentava manter a sua aparência social.
— Não tem ninguém em nosso encalço. Pode pegar o caminho da cabana.
Evernood avisou para seu parceiro e ele imediatamente virou em uma trilha na estrada, pegando um caminho em direção a floresta. Após quinze minutos e muito sacolejo, Edwin parou o carro na frente de uma cabana de madeira, no coração da mata, isolada a quilômetros de qualquer estrada importante. Quando entraram, Evernood viu um homem amarrado em uma cadeira no centro do pequeno espaço.
— Você não o tratou muito bem. Ele está sujo, meu amigo.
— Me desculpe. – Edwin respondeu para a detetive particular, cinicamente. – Não tive muito tempo para cuidar de nosso hóspede.
— Tem roupas limpas aqui?
— Eu trouxe. Imaginei que ele precisaria, após uma noite escutando somente os sons da mata na escuridão.
— Leve-o para fazer suas necessidades e se limpar. Dê as roupas limpas e vamos conversar lá fora. Aqui está muito fedido.
O homem estava com um capuz e só escutava o diálogo entre os seus captores. Tremia e Elizabeth desconfiava que não era de frio, pois Edwin deixara a lareira acesa. Não era inverno e embora não houvesse mais chamas, a madeira ainda ardia e estava agradável.
A conversa entre os amigos servia somente para confundir o joalheiro. Evernood queria quebrar a coragem dele, para conseguir informações e cooperação.
Edwin soltou as amarras do pé e o conduziu para fora. Quando se limpou e se vestiu com roupas limpas, o detetive-sócio de Evernood a chamou. Ela saiu e encontrou o joalheiro sentado em outra cadeira, porém, continuava amarrado e encapuzado.
— Sabe quem sou, Sherman?
Ela o chamou pelo nome.
— Não! Não, senhora.
— É lógico que sabe quem sou, Sherman. Quantas vezes fui até sua loja comprar algum conjunto de brincos e colar?
Ela arrancou o capuz dele de súbito. O medo do joalheiro era que ela o matasse por ele saber a identidade.
— Não preciso saber quem é você, por favor!
Ele fechou os olhos, como que mostrando que não havia visto quem o prendia. Elizabeth gostou da reação. Ele era um homem que faria tudo para preservar a vida. O problema é que esse tipo de homem não era nada confiável e eles teriam que se precaver contra uma traição.
— Pare com isso, Sherman! – Ela foi firme. – Sou Elizabeth Evernood e você sabe disso. Olhe para mim!
Ela ordenou e o homem de meia idade abriu os olhos. Espremia-se de encontro ao espaldar da cadeira, amedrontado.
— Não vou lhe matar, homem! Tenho muitas coisas contra você e nada do que dirá para as autoridades farão com que acreditem no que falaria para eles.
Ela mostrou um caderno de capa dura preto para ele. Eram os seus apontamentos, onde tinha escrito todas as transações que fizera com seu comparsa importador.
— Acha mesmo que o traria aqui sem ter algo na manga para negociar?
Ela foi inclemente na revelação.
— Você pegou isso ilicitamente. Estava no meu armário, na minha oficina da joalheria.
— Não achei na sua oficina. Eu caminhava pela rua das pedrarias, quando vi um rapaz, que não sei quem é, escondê-lo em um bueiro e fui ver o que era. Qual não foi a minha surpresa em ler no livro diversas operações de importação de pedras preciosas, escritas com a sua letra!
O homem tomou um susto. Entendeu que não tinha crédito junto as autoridades para rebater a alegação da sua captora. Ela poderia dizer o que quisesse, pois era uma detetive particular que trabalhou, diversas vezes, com a polícia, que a tinha na mais alta conta. Na sociedade, ela era descrita como uma mulher de caráter ilibado.
— Quero que me entregue Lions. Mcvar e você são a base. Quero o topo.
— Não tenho nada contra Lions.
Ela inspirou fundo e olhou para Edwin taciturna.
— Solte-o.
— O quê?
Edwin questionou sem entender e muito menos o joalheiro.
— Eu disse solte-o! – Ela reafirmou para seu amigo em tom de ira. – Já tenho o que preciso para denunciá-lo para o governo federal. Ele que se vire para justificar esse livro-caixa e se entender com os seus comparsas. Certamente Mcvar ou Lions cuidarão dele. Não vão querer que esse sujeito, – ela olhou o joalheiro com desprezo – os associe a qualquer uma das denúncias que faremos.
Edwin não questionou e soltou as cordas que prendiam o joalheiro. Por dentro sorria, embora seu semblante estivesse sério. Evernood pegara o homem no medo que tinha dos companheiros de crime.
— Espere! Não vão me deixar por conta do Lions, ou vão?
Ela já estava caminhando em direção ao carro e se virou para o encarar.
— Não estou te deixando por conta de ninguém. Você quem escolheu seu lado e destino.
— Não, volte… – O joalheiro suspirou. – Eu tenho o que você quer, mas quero um acordo.
— Vai depender do que tem para mostrar e do meu convencimento junto a polícia. Mas, acredito que se dará melhor do que com Lions ou mesmo com Mcvar.
O homem relaxou os ombros e assentiu, desanimado. Mais calmo e liberto, pensou racionalmente. Ele tinha família e era somente o comerciante e, embora soubesse das irregularidades, poderia alegar que havia sido coagido pelos verdadeiros bandidos. Por outro lado, a senhorita Evernood tinha o atributo de ser alguém justo e de palavra.
Ele começou a falar sem travas, após ela se comprometer a negociar a liberdade dele e segurança como delator.
Evernood chegou ao distrito policial como combinado com a namorada, enquanto Edwin levava o joalheiro para a sua casa. Ela foi diretamente à Crimes Graves. Assim que entrou, a detetive Blindwar se levantou de sua mesa e foi recebê-la.
— Estava quase saindo para ir almoçar.
— Precisamos falar com Greendwish. Tenho informações importantes e acredito que ele gostará de saber, antes de conversarmos.
Blindwar estreitou o olhar, porém a conduziu à sala de seu comandante. Dashwood e Reymond as reparavam intrigados de suas mesas e Evernood se voltou para cumprimentá-los.
— Oi, rapazes! Me desculpem estar tão eufórica, mas é um assunto que elucidará também o desaparecimento do amigo do senhor Thomas Blindwar.
— Se descobriu algo, também precisaremos saber. É nossa investigação.
Dashwood foi categórico, levantando-se de sua cadeira e Evernood o interrompeu.
— E virei falar com vocês, após conversar com o comissário, pois o problema é que, o que descobri, não foi no âmbito da investigação de vocês. É algo bem maior. Se não falar com o comissário antes, eu é que terei encrenca com ele. Vai depender do que ele decidir, me entende detetive?
Reymond, embora mais novo que Dashwood, compreendeu de imediato que o assunto devia envolver pessoas proeminentes.
— Dash, vamos esperar. A senhorita Evernood sempre nos apoiou e protegeu.
O detetive mais velho passou o olhar entre a detetive particular e o seu companheiro de equipe e fez um gesto com a cabeça em sinal de concordância.
Elas bateram à porta do comissário e ouviram ele autorizar a entrada. Meia hora mais tarde, o comissário saía com as duas detetives da sala.
— Dash e Rey, vão almoçar e daqui há uma hora nos encontrem na mansão Evernood. Levem com vocês somente dois policiais de extrema confiança.
— Quando chegarem, – Evernood intercedeu – Entrem e deixem os policiais na porta. Nada que ouvirem poderá sair de dentro da casa.
Eles fizeram um gesto de aceitação e Evervood saiu acompanhada de Blindwar e o comissário da Crimes Graves. Os detetives sabiam que estariam dentro de uma grande operação, visto a discrição que o comissário exigiu entrelinhas.
Na mansão Evernood, Edwin esperava pela pequena comitiva e assim que Elizabeth passou pelo portal, ele os conduziu a sala de jantar. O almoço estava posto, somente esperando pelos convidados, como condizia a etiqueta.
— Comissário, discutiremos melhor a estratégia se estivermos confortáveis. Aceita almoçar comigo?
— Não me enrole, Beth, e não me chame de comissário. Você costuma me chamar de Green particularmente e só aceitei vir, porque pretendia que me elucidasse a relação do senador e diplomata Lions com toda essa escumalha do rapto do amigo do Thomas.
— Vamos nos sentar e almoçar, Green. Seu estomago ficará agradecido, pois perderia o apetite se contasse tudo antes. Só não sei se embrulhará, quando souber o que tenho a dizer.
O almoço transcorreu entre conversas e as descobertas de Evernood, que supostamente começaram quando ela foi contratada pelo senhor Blindwar pai, no dia anterior. Descobriram que quem invadira a casa havia sido o amigo de Thomas, na perspectiva de contatá-lo para falar-lhe sobre seu sequestro no cais.
Evernood combinou os fatos de sua investigação particular para que coincidissem com a delação do joalheiro.
— Então, você estava investigando a invasão da mansão Blindwar, antes de nós?
— Não estava investigando a invasão da mansão Blindwar antes do pai de Margareth me solicitar; estava investigando antes de vocês o desaparecimento de Browen, pois fui contratada por Thomas.
— Quem pediu para que Thomas fosse a polícia abrir uma ocorrência, quanto ao desaparecimento de Browen, foi a senhorita Evernood. – Margareth pontuou.
— E você sabia disso, Blindwar?
— Não, senhor. – A detetive de polícia mentiu para o seu chefe. – Meu irmão resolveu me falar, quando invadiram a minha casa. Só soube ontem que ele havia contratado Beth. Peço desculpas por não ter lhe dito logo cedo, mas Thomas é meu irmão e não pude negar a ele um pedido para que esperasse até hoje à tarde.
Margareth baixou a cabeça disfarçada e cinicamente, esperando que o comissário a repreendesse. Era o preço a se pagar pela sua mentira e ela aceitaria sem ressalvas. Valia à pena proteger a investigação de sua namorada, se elas conseguissem desbaratar a organização criminosa em que o senador Lions era o cabeça.
Ele pensou em tudo que representava uma investigação como aquela, política e concretamente para o distrito.
— Então, deixe-me colocar de forma mais concisa o que estão me relatando: Primeiro Thomas chega e vê que seu amigo não chegou. Depois contrata a senhorita Evernood para investigar o sumiço do amigo e a casa de vocês é invadida. Tudo está ligado a uma organização criminosa de extração de pedras preciosas na África, onde as minas são exploradas através do rapto e escravidão da população. E, quem faz o contrabando para cá é um proeminente senador e diplomata de nosso país.
— Resumindo, é isso mesmo, Green. – Evernood certificou.
— O que poderia dar errado nessa história? – Ele falou retoricamente. – Só me enfiarei nesse meio, se nada respingar para mim. – Greendwish foi categórico. – Tudo tem que ser muito bem documentado, senão, minha carreira estará na lama e minha aposentadoria será recolher restos de lixo no cais do porto.
Evernood sorriu, sabendo que o comissário compraria a briga, depois que ela apresentasse o informante e as provas.
— Green, acho que sua aposentadoria será bem confortável. Há somente uma coisa que deve ser feita: Garantir a segurança de Sherman, o joalheiro. Ele tem tudo para destruir o castelo de Lions e Mcvar. Somente teme por sua vida.
— Então, vamos terminar com isso. – Ele olhou para Evernood assim que se levantou da mesa. – E Browen? Sabe onde está?
Evernood sorriu placidamente, levantando-se também.
— Primeiro, converse com Sherman que está nos esperando em meu escritório, e se assegure de todas as provas contra Lions e Mcvar. Depois, conversaremos sobre a situação de Browen.
— Dash e Rey já chegaram?
O comissário perguntou para o mordomo de Evernood.
— Estão com dois policiais na porta, senhor Greendwish.
— Mande-os entrar. Eles participarão da conversa com Sherman.
— Sim, senhor.
Edwin saiu, indo até a porta para conduzir os dois detetives até o escritório. O comissário se apressou para acompanhar a detetive particular e Margareth se juntou a ele. Quando entraram, o joalheiro estava sentado em uma das poltronas, aguardando pacientemente seu destino.
De forma alguma tentaria fugir, pois em todas as alternativas futuras em que pensou para sua vida, a mais segura era o oferecimento de Evernood. Ele se orgulhava de ser precavido.
Conversaram por mais de duas horas para que o joalheiro apresentasse todos os documentos que havia guardado das transações com Lions e Mcvar. Ele poderia ser um covarde, porém não era ingênuo.
— E então, comissário? O que me diz? Posso me assegurar que me protegerá?
A vontade do comissário era colocar aquele rato numa cela e esquecê-lo, entretanto, também tinha consciência de que o infeliz era somente o rabo do roedor. Para extirpar a cabeça e as pernas do animal, teria que livrar o traseiro de Sherman.
— Será protegido até prendermos Lion e Mcvar, mas sob custódia e as provas ficarão conosco.
— Como assim, sob custódia?
— Você ficará em uma propriedade do distrito sob vigilância, até o julgamento deles.
— Você está dizendo que ficarei em algum lugar isolado até que eles estejam presos definitivamente?
— Sim, é isso mesmo. É pegar ou largar. Não vou me arriscar a você fugir e não testemunhar contra eles.
— Mas não quero fugir. Por isso que estou entregando as provas. Tenho família e quero que ela não seja arrastada para a minha bagunça.
— Então aceitará de bom grado, pois o que estou oferecendo, ainda terei que conversar com o promotor público e dessa forma, sei que o convencerei.
O joalheiro baixou a cabeça, pensativo. Dash e Reymond estavam parados ouvindo os relatos e embora estivessem pasmos com o que ocorria, não mostravam qualquer sentimento.
— Está certo. Eu concordo.
— Então nos dê licença, pois tenho que ver onde poderá ficar em segurança nesse tempo.
O comissário saiu, rebocando seus detetives, juntamente com Evernood. Edwin ficou no escritório, para conversar com Sherman.
Assim que saíram, o comissário se voltou para seus detetives.
— Onde podemos alocá-lo?
— Tem uma propriedade do distrito na área rural. – Reymond se lembrou.
— Acho muito deserto e é conhecido por todos os departamentos da polícia… Aliás, por muita gente de fora da polícia também. – Margareth pontuou. – Se quisermos escondê-lo sem que ninguém saiba, teremos que arrumar outro local.
— Para isso teria que despender um valor do departamento da Crimes Graves para um aluguel e de qualquer forma, o local ficaria exposto. — O comissário retrucou.
— Deixe-o aqui. – Evernood Interveio. – Eu tenho quartos vagos e ele estando aqui, não precisamos deslocá-lo. Tenho também como acomodar os policiais de vigilância. Basta que sejam honestos e de confiança do senhor, comissário.
Greenwood pensou um pouco e assentiu.
— Não tenho como lhe agradecer, Senhorita Evernood. Trabalhamos já há algum tempo e sei que é uma pessoa ilibada e de palavra, mas desta vez, tenho medo das repercussões dessa empreitada.
— Eu compreendo, senhor. – Evernood foi sincera em sua empatia. – Nunca imaginei que alguém tão proeminente quanto Lions pudesse se envolver em uma corrupção desse calibre. Pode ter certeza de que terá meu apoio em qualquer situação ou esfera política que se apresentar.
O comissário pareceu relaxar da postura. Ele estava preocupado com as repercussões de uma prisão como aquela. Ele se virou para seus detetives.
— Vou ao gabinete do promotor levar essas provas e conversar com ele…
— … Senhor, – Margareth chamou a atenção do comissário – não seria melhor levar essas provas e verificar quem está envolvido? Não sabemos para quem esses livros do Sherman apontam.
Greendwish se alarmou. A sua detetive estava certa. E se o promotor público estivesse envolvido com a escumalha, ou alguém próximo a ele?
— É verdade. Venha comigo para verificarmos as provas, Meg. – Virou-se para seu detetive mais velho. – Veja um grupo de seis bons homens para se revezarem na segurança aqui. Confio no seu julgamento. Conhece a maioria dos destacamentos da polícia.
— Sim, senhor.
— E você, Reymond, ficará aqui até começar os revezamentos da guarda. Não posso perder tempo preocupado com esse verme. Infelizmente não podemos perdê-lo de vista.
— Certo, comissário.
— Eu compreendi como Browen está ligado a essa investigação, – Dashwood comentou virando-se para Evernood – mas, na delegacia você disse falaria o que descobriu sobre ele, pois nossas investigações se convergiram.
Evernood esperava que o detetive esquecesse da investigação do sumiço de Browen diante de tantas informações. No entanto, ele era um bom profissional. Elizabeth não poderia se eximir de dar as informações que acordou em falar.
— Venham comigo, antes de saírem.
Ela tomou o rumo das escadas para o andar superior, esperando que os detetives e o comissário a seguissem. Chegou a primeira porta à esquerda, após o hall da escada. Abriu, pedindo silêncio em um gesto. Todos entraram e viram um rapaz preto deitado na cama dormindo e uma acompanhante velando pelo seu sono.
Evernood saiu do quarto esperando que os convidados a acompanhassem para o piso inferior da mansão, novamente. Assim que chegaram no saguão ao pé da escada, ela se voltou para todos.
— Encontramos o rapaz, na noite de ontem, desacordado em um beco adjacente a mansão Blindwar. Foi ele quem entrou na propriedade para tentar conversar com o amigo Thomas, mas estava enfraquecido e com medo. – Evernood tomou um ar para continuar o relato. – Assustou-se com o próprio amigo e fugiu, levantando o alarde na família. Infelizmente ele estava muito enfraquecido pela perda de sangue.
— Como descobriram através do relato de Sherman, – Edwin que saía do escritório comentou – ele foi capturado pelos capangas de Mcvar e quando fugiu, havia sido esfaqueado.
— E como meus homens não o encontraram? Se ele estava nas redondezas da casa, os policiais deveriam tê-lo achado!
— Acredito que ele tenha se escondido de alguma forma, senhor. – Edwin contemporizou. – Contudo, depois que a polícia diminuiu as buscas, deve ter tentado sair do esconderijo, mas não conseguiu ir muito longe devido ao ferimento. Eu o encontrei porque a senhorita Evernood me pediu para dar uma outra olhada no bairro.
— O trouxe para cá e não o levou para um hospital, por quê?
O questionamento do comissário era uma reprimenda a Edwin e Evernood.
— Acha que com tudo que descobri sobre o envolvimento de Lions e Mcvar, o levaria para um lugar em que eles pudessem encontrá-lo? Não mesmo, comissário! – Evernood foi categórica. – Ele recebeu todos os cuidados de meu médico particular e tem uma enfermeira em tempo integral a lhe monitorar. Pretendo manter o meu acordo com o senhor Thomas e com a família Blindwar. Browen só sai daqui quando estiver bem e em segurança.
O comissário, apesar de manter sua postura rígida se satisfez com a resposta da aliada de investigação. Sabia bem o que poderia ocorrer com o rapaz, se estivesse em um local público como um hospital. Somente não podia concordar livremente com o ato da detetive particular. Tinha que manter a aparência de um agente da lei durão.
— Muito bem… Não vou condenar seu julgamento, detetive…
— … E nem pode. A lei está comigo nesses casos. Fui contratada legalmente para os interesses de Thomas.
Evernood não era ingênua e pegou a oportunidade. Sabia que o comissário estava dando todas as deixas para que ela encampasse a proteção do rapaz sob seu teto, livrando o agente da lei de uma acusação pela defensoria por favorecimento.
— Certo. Você tem esse direito. – O comissário passou a mão pela cabeça, ajeitando os cabelos. – Então, ficaremos assim: Você toma conta de Browen, enquanto agilizaremos a prisão dos envolvidos.
Evernood se despediu de todos os policiais. Precisaria fazer mais uma coisa: Chamar Thomas e tranquilizá-lo quanto ao amigo. Todavia, a calmaria da investigação não duraria muito.
Chegando ao departamento, Margareth e Greendwish se afundaram nas provas do joalheiro para analisar quem estava envolvido no conluio. Quem sabia dos fatos criminosos envolvendo Lions?
Eles viraram a noite destrinchando os documentos e finalmente concluíram que poderiam contar com o promotor público. Em nenhum momento, os documentos envolviam a promotoria. Na certa, Lions temeu por colocar seu “império” em perigo se envolvesse a magistratura e seus colaboradores.
— Vá descansar, Meg. – Greendwish ordenou. – À tardinha retorne. Deixe que os mandados de prisão, eu conseguirei.
— Ainda hoje?
— Pode ter certeza de que Lions será preso antes da meia-noite.
Greendwish falou seguro, após reverem tudo que tinham em mãos. Se tudo desse certo, se aposentaria em um cargo proeminente.
Margareth chegou a sua casa sendo recebida por seu irmão. Ela estava cansada e precisava dormir. Rebocou Thomas em seu encalço, até chegar ao quarto.
— Sua amiga conseguiu! Browen está seguro. Conversei com ele ontem à noite.
— Que ótimo, meu irmão, mas agora preciso dormir. Depois agradeça a Elizabeth, pois quando ela o resgatou, ele estava muito mal. Não precisaria buscar você para vê-lo. Ah! Cale essa boca, porque meu chefe tem outra versão da história. Para todos os efeitos, você ainda não falou com ele.
— É lógico que não falarei nada. Só direi o que vocês me orientarem.
— Fale mais baixo. – Margareth ralhou com o irmão. – Não alerte mamãe com a sua conversa estrondosa.
Ela fechou a porta de seu quarto atrás do irmão para que a voz dele não chamasse a atenção.
— Esse caso não terminou. Passei a tarde de ontem e a noite inteira levantando provas contra os escravagistas e contrabandistas. Então, só peço algumas horas para descansar.
— Ah, lógico! Desculpe, minha irmã. – Ele a abraçou forte, constrangendo a detetive de polícia. – Pode deixar que distrairei nossa mãe. – Beijou a face dela. – Descanse bem.
Desejou, saindo verdadeiramente agradecido.
— Faça um favor por mim. Peça para Joan me acordar daqui a quatro horas.
— Pode deixar, irmã.
Ele saiu e Margareth desabou na cama. Ela não acreditava que a prisão de Lions e Mcvar seria tão tranquila como o seu comissário gostaria. Horas mais tarde, Joan a sacodia na cama.
— Senhorita… Senhorita! Sua amiga Evernood está aqui. A cidade está em um reboliço…
— Hã… o que?
— Parece que estão cassando um senador…
Margareth acordou com dificuldade, mas escutou as palavras “cassando e senador” que a despertou de súbito.
—- Merda!
— Olha a boca, menina!
— Desculpa, Joan. Mas, tenho que me arrumar rápido. A coisa vai ficar feia aqui em casa. Tente acalmar os ânimos. A prisão que faremos hoje não cairá bem para papai.
— Ele se enrolará, Meg?
— Graças aos céus, não. Mas, amigos dele, sim.
— Ah, meu Deus! Por que se enfiou nessa profissão?
— Porque eu gosto de prender pessoas desonestas. Não acha bom?
Margareth respondeu para a governanta divertidamente, enquanto se vestia.
— Vamos descer Joan. Comerei alguma coisa na cozinha, antes de ir. Tenho bandidos para prender.
Margareth falou orgulhosa, saindo do quarto para se encontrar com Elizabeth. Assim que desceu as escadas, a namorada a esperava no hall. Ela segurou a mão de Evernood a rebocando para a cozinha.
— Preciso comer alguma coisa antes de ir, Beth. Virei a noite na delegacia com Greendwish, destrinchando os documentos que Sherman nos deu. Cheguei de manhã para dormir e não comi nada ainda.
— Coma com calma, pois a polícia já está à procura deles. Parece que alguém do Distrito ou da Promotoria vazou a operação.
— O que aconteceu? Eu e Greendwish trabalhamos para escolher a dedo os policiais.
— Bem, esse tipo de prisão nunca é tão silencioso quanto gostaríamos. Greendwish tinha que pedir um mandado de prisão para a Promotoria…
— … Além de agitar todos os setores do Distrito. – Margareth concluiu. – Sempre vaza alguma coisa.
Joan escutava, enquanto fazia um sanduiche para Margareth e resolveu opinar.
— Segredo não é segredo se tem mais de uma pessoa sabendo. A cidade toda já está comentando que estão à procura de um senador.
— Se esse homem escapar, nunca mais o pegaremos.
Margareth comentou impaciente.
— Por isso que devemos nos juntar a força policial. Se Edwin ficou atento a casa de Lions, ele saberá onde procurá-lo.
— É o senador Lions que está sendo preso?
O pai havia entrado na cozinha segundos antes e ouviu parte da conversa. Thomas estava atrás dele fazendo um sinal, insinuando que tentou segurá-lo, mas não conseguiu. Margareth que havia pegado um dos sanduiches que Joan havia aprontado e o pousou novamente no prato.
— Pai, por favor, fique em casa hoje e não contate seus amigos. Muitos estão envolvidos e sabiam das tramoias de Lions.
— Você auxiliou a essa cassada ao senador?
— Claro que sim. – Margareth foi incisiva. – Aprendi com o senhor a ser correta e honesta. É isso que levo para minha vida profissional. O senhor não aprova?
O senhor Blindwar se chocou com o pragmatismo da filha. Ela estava certa. Sempre ensinara a seus filhos a honra e a honestidade. Ele suspirou, deixando seu corpo relaxar, derrotado. Não era hora de fazer a política da lealdade para com seus amigos e conhecidos.
— Faça o seu trabalho, filha. Somente sinto por pessoas próximas a mim estarem nessa encrenca.
— Pai, embora já tenha visto que o senhor não aparece nos documentos que investigamos tenho que perguntar: O senhor comprou pedras preciosas do joalheiro Sherman?
— E quem não comprou, filha?
— Seu pai está certo, Meg. – Evernood tocou gentilmente o braço da namorada. — Eu mesma já comprei pedras preciosas dele. Há um ano me ofereceu em um preço melhor e comprei, mas depois ele não me ofereceu mais.
— Foi o que aconteceu comigo. Lions me indicou para ele e comprei há um ano e meio da primeira vez. Me ofereceu mais duas vezes e quando perguntei por que ele estava com o preço tão bom, ele falou que havia conseguido de espólio familiar, mas nunca mais me contatou.
— E o senhor não desconfiou? – Ela se voltou para Evernood. – E você também não?
— Desconfiar não é o mesmo que saber, Meg. A mim, ele ofereceu somente uma vez e não achei nada demais.
— Infelizmente eu desconfiei, depois que não me ofereceu mais. Após o questionar, vi que amigos meus comentavam que ele continuava vendendo a preços bons. Mas, o que eu poderia fazer? Falar para você que Sherman contrabandeava pedras preciosas? Que provas eu tinha a não ser desconfianças?
Meg pegou os sanduiches que Joan havia preparado e os embrulhou em um pano.
— Vou comer no caminho, Beth. Vem comigo?
Margareth estava visivelmente contrariada. Passou pelo pai e o encarou, antes de sair.
— Devia confiar em mim e ter me alertado. Não me pegaria de surpresa e eu teria investigado sem alardes. Provavelmente a cidade não estaria em polvorosa e eu, não teria passado a noite inteira vendo documentos apreensiva, com receio de ver seu nome no meio dessa falcatrua. Infelizmente vejo que o senhor não confia na sua filha.
Ela saiu de rompante, constrangendo todos da cozinha. Elizabeth caminhou devagar e quando chegou ao lado do senhor Blindwar parou.
— Ela está nervosa e cansada. Depois que tudo terminar, estará mais calma e pensará melhor.
— Obrigada, senhorita Evernood, mas temo que ela tenha razão. Na época, minhas desconfianças eram fortes e eu simplesmente me omiti.
Elizabeth saiu em silêncio para acompanhar Margareth. Entendia a frustração da namorada, no entanto, o senhor Blindwar também tinha seus temores e razões.
A detetive de polícia entrou no carro, fechando a porta mais forte do que desejava e Elizabeth se calou, ligando o carro e deixando que o silêncio tomasse o ambiente. Quem sabe Margareth dissiparia um pouco a ira e puxasse uma conversa mais calma. Ledo engano da detetive particular.
— Pai é inacreditável! – Blindwar esbravejou. – Sempre me apoiou, mas quando seus amigos estão envolvidos, não confia em mim para fazer uma investigação silenciosa?
— A parte importante da sua frase parece não estar fazendo o papel dela em sua consciência.
O comentário de Elizabeth fez com que Margareth se calasse interrogativa. Esperou que Evernood explicasse.
— É certo que seu pai sempre a apoiou na escolha de vida que fez. Se não confiasse em sua capacidade como policial, ele faria o que todos os pais fazem: um casamento arranjado.
— Acha certo ele ter se omitido, mesmo desconfiando que o senador Sherman estivesse cometendo um crime?
— Eu não disse isso. Falei que ele confia em sua capacidade profissional e desconfio que foi exatamente por isso que ele se calou. Tinha medo pelos amigos e por você. Ele sabe que Lions é poderoso nas esferas do governo. Foi ele quem apresentou Sherman.
Margareth pensou sobre o que Elizabeth acabara de falar e, embora enxergasse a perspectiva da namorada, ainda estava zangada com o pai.
— Outro erro dele. É minha profissão e não posso ter medo de investigar pessoas porque são importantes.
— Você não, mas ele pode. Afinal, é seu pai. – Elizabeth contestou. – Que tipo de pai ele seria, se não se preocupasse com a sua segurança?
A detetive de polícia esfriou na sua raiva. Estava cansada e foi reativa.
— Droga, Beth! Você tem argumento para tudo.
Elizabeth sorriu de lado, satisfeita que conseguira acalmar a namorada. Elas precisavam ficar calmas para auxiliar na prisão dos envolvidos.
— Para onde vamos, Beth?
— Para a delegacia. O comissário está coordenando tudo no seu departamento. É possível que ele já tenha sob custódia alguns personagens dessa história.
— Ele ficou lá de manhã? Não dormiu nada?
— Ele dormiu algumas horas na sala dele, depois que dispensou você. Queria começar a ação cedo para pegar os envolvidos desprevenidos.
— Acho que não deu muito certo.
— Deu em parte. Mcvar e seus asseclas foram pegos. Os compradores que sabiam da negociata também. Somente Lions e alguns subordinados a ele fugiram.
— Ele é escória mesmo. Recebeu a informação da ação e nem se preocupou em advertir seus companheiros de delito. Como pudemos eleger um homem destes para nos representar no Senado?
— Não olhe para mim… e nem para você mesma.
— É incrível que eu possa ser uma detetive de polícia e ainda não possa votar…
Margareth bufou, e sua ira começou a saltar em suas têmporas outra vez.
— Você é a única detetive de polícia mulher, Margareth. Não se esqueça disso.
— Em relação a papai, você tem razão. Tenho que agradecer a confiança dele em mim. – Evernood se manteve calada para não provocar a namorada. – Se não fosse ele acreditar e me apoiar, não teria alcançado a posição que estou.
— E por isso, você e eu somos privilegiadas; você por ter o pai a apoiando e eu pela minha independência financeira, legada a mim por minha família.
Chegaram à sede do Distrito Policial. Assim que entraram viam a agitação e correria. Ignoraram a turbulência e caminharam diretamente para o Departamento de Crimes Graves.
— Desculpe, senhor. Não achei que…
— … Pare com as desculpas, detetive Blindwar e assuma seu posto para receber as ligações de nossas patrulhas. “Tempus Fugit”.
A detetive de polícia entendeu o recado de seu comissário. Tinham que estar a postos para receberem qualquer ligação das tropas de policiais de rua que avisassem sobre um possível avistamento do fugitivo Lions. Ela se sentou em sua mesa, onde seu telefone tocava insistente e atendeu. Evernood se manteve de pé, observando.
— Quer ajudar em algo, senhorita Evernood?
— Já estou auxiliando, comissário Greendwish. Estou esperando por meus rapazes trazerem a localização do Senador Lions.
Dashwood e Reymond pararam de falar em suas ligações para prestarem atenção. Margareth queria rir, mas se conteve e continuou a receber a ligação que foi passada para ela da central.
— Do que está falando, senhorita Evernood?
— Ontem, quando o senhor veio verificar os documentos com a detetive Blindwar, pedi que meus rapazes vigiassem a mansão do senador Lions, preventivamente. Lógico que eles não poderiam prendê-lo, muito menos enquanto os documentos estivessem sendo analisados. Por isso, pedi que eles seguissem o senador, onde quer que ele fosse. – Ela deu uma pausa dramática para que todos na sala a escutasse. – Assim que o senador se alocar no seu destino, eles ligarão para cá.
— Por que não me falou isso antes, Evernood?!
Greendwish estava raivoso e ao mesmo tempo aliviado.
— Porque sou uma detetive independente e entendo que este Departamento tem que seguir normas. Se eu falasse o que fiz, antes do senhor ter conseguido os documentos para a sua ação, teria que reportar à Procuradoria e a seus policiais. Eu, por ter sido contratada, não preciso desses procedimentos, já que estou em uma diligência à parte.
— Você é uma pedra no meu sapato, Evernood… Mas, a agradeço por isso. – Greendwish passou a mão pelos cabelos grisalhos e ralos. – Como seus rapazes contatarão? A central de telefonia está peneirando as ligações que mandam para cá.
— Falarão que são os policiais que estão fazendo a segurança da casa Blindwar e precisam falar com a detetive do caso.
— Ótimo! Eles passarão a ligação para Margareth.
Reymond falou efusivo, vendo uma luz no fim do túnel. Dashwoods relaxou da tensão e Greendwish os repreendeu.
— O que estão fazendo? Querem esperar que os rapazes da senhorita Evernood façam todo o trabalho? Voltem a seus postos, pois se um dos nossos ligar com informações legítimas, podemos atuar!
Ele entrou na sua sala, chamando a detetive particular para conversarem. Pela impressão que passou para seus detetives, a senhorita Evernood estava encrencada com o comissário.
— Como foi?
— O senhor convenceu, comissário. Acho que nosso plano dará certo.
— Não tem medo de que Blindwar fique brava com você?
— Não, mesmo. Contei a ela enquanto caminhávamos no corredor até aqui. Ela ficará de olho nos policiais que estão na sala e…
A porta foi aberta e Blindwar entrou sem cerimônia.
— … Rice é nosso homem. Ele saiu nervoso, assim que vocês entraram na sala.
— Vá com Jordan pegá-lo, antes que faça alguma ligação ou saia da delegacia.
— Sim, senhor.
A detetive Blindwar saiu imediatamente ao encalço do policial traidor e Greendwish e Evernood relaxaram nas cadeiras.
— Foi uma boa emboscada para esse canalha, Evernood. Nunca pensou em entrar para a força policial? Eu avalizaria a sua contratação imediatamente.
— Tem certeza do que está me propondo, Green?
Evernood perguntou, jocosamente.
— Tem razão. – Ele respondeu fazendo uma careta. – Você é a pessoa mais insubordinada que conheço e um soldo da polícia não faria cosquinhas na sua fortuna. — Ele pensou por uns segundos. — Mas, o soldo de detetive, também não faz cosquinhas na fortuna da família Blindwar e Margareth segue conosco.
— Ela é apaixonada pelo que faz e quer trilhar seu destino. Eu já trilhei o meu, se não percebeu.
— É… tem razão. A detetive Blindwar faz história nesse departamento e apostaria minha aposentadoria de que um dia chegará a Comissária Geral.
O telefone do escritório do comissário tocou e os dois se entreolharam. Greendwish atendeu.
— Comissário Greendwish…
Ele escutou a voz do outro lado e passou para Evernood.
— É um dos seus. Ele falou o código.
— Alô! – Evernood atendeu. — Perfeito. Já estamos indo. Não faça nada e apenas observe. Se ele sair, siga de longe.
Ela desligou.
— Lions está em outra cidade, comissário. O que quer fazer?
— Ir até lá e prendê-lo. O mandado que consegui foi federal e cobre todo o território. Não teremos problemas quanto a isso. Ele está numa casa exposta na cidade?
— Não. Está em uma propriedade rural em Yarkville. Se me permite uma sugestão, acredito que devemos ir em carros civis, mesmo que os policiais estejam uniformizados e armados.
— Concordo. Levantaremos menos atenção. Não quero repórteres nos seguindo.
A porta se abriu outra vez e Margareth apareceu.
— Entre detetive.
O comissário pediu e Blindwar entrou.
— O pegamos. Falei com Dashwood e ele está na sala de interrogatório com Rice.
— Perfeito, Blindwar, mas infelizmente teremos que sair e quero Dashwood e Reymond estejam conosco.
— Ligaram?
— Sim, e temos a localização de Lions.
— Colocarei Rice em uma cela e falarei com Dash e Rey.
— Vá. Depois nos encontrem na garagem do Distrito. Tenho que arrumar quatro carros civis.
Meia hora mais tarde, carros civis saíam do Distrito Policial com espaços de três minutos entre eles. Todos tinham somente os condutores; pessoas em trajes comuns. Os policiais armados seriam pegos em pontos distintos a duas ou três quadras da delegacia. Como a cidade estava em alarme de fuga, a maioria das pessoas não se incomodava com os policiais em massa andando pelas ruas e podiam pegá-los para a missão sem alardes.
Elizabeth e Margareth foram no carro da detetive particular. Eram seguidas por um repórter, que se desinteressou, assim que viu o carro entrar na mansão Evernood.
— Vamos chegar depois da ação! Esses repórteres são um pé no saco!
Evernood a olhou rindo. Margareth não era chegada a falas chulas e isso a divertiu.
— O que? – Margareth perguntou para a namorada. – Acha bom que tenhamos que despistar repórter para fazermos nosso trabalho?
— Não… Acho engraçado a linguagem que tem usado nesse caso. Você anda ansiosa.
— Ah, sim! O que acharia se seu irmão voltasse depois de anos e, enquanto achava que ele se divertia, descobre que ele fazia missões humanitárias? Depois, constata que ele está sendo perseguido por pessoas poderosas, que contrabandeiam pedras preciosas, vindas da extração de sangue; o amigo de seu irmão some; sua casa é invadida e seu pai poderia estar envolvido e o principal: o real bandido foge?
Margareth disse tudo em um só folego, não dando tempo para a detetive particular interrompê-la. Quando parou para respirar Evernood falou calmamente.
— Não falei que seu nervosismo não se justifica. Só acho engraçado.
Evernood arrancou com o carro que mantinha no beco do pub. Não se importou com os impropérios que sua namorada falava. Margareth tinha motivos e tinha que extrapolar. Quando a detetive de polícia se acalmou, percebeu que estavam na estrada, quase alcançando o último carro da polícia da diligência.
— Você é má.
— O quê?
Evernood estava aturdida com a afirmação da namorada.
— Você se diverte quando estou raivosa.
— Não, mesmo. E não vamos discutir isso agora. Aprendi que você raivosa é pior do que eu.
Uma hora depois, estavam próximas a propriedade que Edwin falara e pararam o carro junto aos carros do Distrito. Evernood havia pedido para que Edwin não aparecesse. Não queria que soubessem no Distrito quem era seu informante.
— E agora Evernood? Estou confiando em seus informantes.
Ela saía do carro se juntando a tropa, que já estava de armas em mãos. A propriedade era pequena e só havia cercas. Eles se abrigavam entre as árvores que cercavam o lugar.
— Eles nunca me falharam, comissário. O problema é que há um descampado entre nós e a casa.
— Não é um problema. Mandarei metade dos homens pela mata que ladeia. Eles se posicionarão na parte detrás da casa. Esperaremos o sinal para o restante avançar pela relva do descampado da frente.
Quinze minutos mais tarde escutaram um pio, como se fosse um pássaro nas árvores, todavia, sabiam ser o sinal para avançarem.
Os policiais agacharam e rastejaram sem meio a relva alta que antecedia a parte da frente da propriedade e pararam com seus rifles em prontidão, esperando ordens. O comissário não quis alardear de onde estava e resolveu que ele e seus detetives se aproximassem rastejando também.
Margareth não se incomodou com a ordem, sendo a primeira a rastejar e imediatamente Dashwood e Reymond a seguiram. Evernood preferiu se distanciar e se embrenhar pelas árvores para chegar à parte detrás da casa. Assim que se identificou para os policiais, se alocou ao lado do cabo que comandava o grupo.
— Fique atento cabo…
— …Cabo Jones, senhorita.
Ele se identificou, satisfeito em estar ao lado de alguém que tinha prestígio junto ao comissário.
— Cabo Jones, fique atento, pois quando o senador Lions vir que está cercado pela polícia na parte da frente, é provável que retorne a casa e tente fugir por aqui. Mas…
Ela deu uma pausa de impacto na fala para despertar a atenção do jovem.
— … Mas, o que, senhorita?
— Mas… se eu fosse você, pediria que seus homens empunhassem os rifles, sem atirar. Ele pode estar desarmado e isso seria complicado para sua carreira. Você é quem tem que dar o comando para o senador se render, me entende?
— E se ele estiver armado?
— Se estiver armado, não aceitar seu comando para se render e atentar contra vocês, poderá dar o comando de disparo.
Evernood tentava fazer com os policiais agissem sem violência. Entretanto, sabia que as tropas não eram treinadas para negociação. Se o senador fosse morto por determinação do comissário, o peso político seria outro. O cabo aceitou a sua sugestão e fez correr entre os homens as suas determinações.
Escutaram a voz do comissário na parte da frente, pedindo para que Lions se rendesse.
— Senador Lions, está cercado! Saia com as mãos para o alto e se renda!
O comissário gritou, escondido pela relva. Lions se assustou, pego de surpresa e pediu que sua mulher levasse o neto para o quarto e se escondessem. Seu filho e nora estavam cuidando de seus “negócios” no outro continente e a sua esposa quem cuidava do neto.
A casa tinha apenas a sala, cozinha e dois quartos e assim que sua esposa se escondeu, ele pegou seu revólver e olhou disfarçadamente através do vidro da janela.
— Não vou me entregar coisa nenhuma! O que vocês acham que são? Sou um senador e um diplomata!
Ele esbravejava como louco e era ouvido pelas tropas do lado de fora da casa.
— Ele não vai se render. Acredita que não pode ser tocado.
— Se ele não se render, Dash, ficaremos aqui até a água e a comida dele acabar. – O comissário afirmou com irritação. – Uma hora terá que sair.
— Deixe-me falar com ele, senhor. Talvez consiga trazer alguma clareza.
Margareth pediu e o comissário olhou para ela a seu lado, pensando no pedido.
— Pode falar, mas não se levante. Ele não sabe nossa localização e não quero que saia atirando em nós abertamente.
— Sim, senhor.
Ela compreendeu que o comissário tentava manter a segurança de todos. Pensou nas palavras que falaria com o senador por uns instantes e elevou a voz.
— Senador Lions! Meu nome é Margareth Blindwar. Sou filha de um amigo seu…
— … Blindwar nunca foi meu amigo! É um ricaço prepotente que se acha melhor que todos!
Margareth constatou que Lions nunca se renderia com o apelo sobre seu pai. Mudou o discurso.
— Sua esposa está com o senhor? E seu neto? Sei que vocês cuidam dele, enquanto seu filho toma conta dos negócios da família no exterior. Não se importa com a segurança deles? Se invadirmos a casa será pior, Senador.
Depois que a detetive Blindwar o confrontou, não escutaram mais nada na casa durante um tempo, até que a voz de um dos policiais da parte detrás da casa cortou o vento.
— Está cercado, senhor! Largue a arma e se entregue!
Escutaram um estrondo de uma porta e silêncio completo. A ansiedade aumentou, durante alguns minutos em que nada se ouvia; nem dentro da casa e muito menos na parte detrás.
Repentinamente a porta da frente se abriu e o senador saiu atirando em direção a relva, berrando como um louco. Espingardas dispararam de todos os cantos, alvejando o senador. Ele caiu de joelhos e antes de desabar no chão, balbuciou:
— Vocês vão pagar por isso…
O comissário se levantou da relva e todos os policiais o acompanharam. A tropa que estava atrás da casa seu juntou aos policiais que cercavam o corpo do senador. Elizabeth se aproximou de Margareth, que tinha na face uma expressão de angústia.
— Ele foi responsável pela própria morte, Meg.
— Eu sei. E isso que me entristece. Ele não precisava de mais fortuna. Tinha um bom soldo como diplomata e senador e herança de família. Por quê?
— Ganância e poder. – Evernood foi categórica. – Existem pessoas que não querem somente o dinheiro. Para eles, o dinheiro compra pessoas e prestígio. Querem ser ovacionados, e o mais revoltante; mandar em todos.
…
A semana passou rápido com as fofocas circulando por toda cidade, relacionadas ao maior caso de corrupção no governo nos últimos tempos. Browen se recuperava rapidamente e passou a circular pelas mansões de Evernood e Blindwar e, o comissário estava nas nuvens. Sua atuação no departamento da Crimes Graves estava repercutindo nas esperas mais altas do governo.
Evernood, diferentemente dos outros, estava mais interessada em resolver outro assunto. Ela conversou com antigos colegas na Agência de Inteligência e diante da gravidade do caso das “Pedras de Sangue”, se propuseram a trazer a mãe de Browen para o país e legalizar a situação deles.
Em uma tarde qualquer, Elizabeth chamou seus amigos detetives para se juntarem a ela no pub. Ela levou Browen pela parte da frente e quando chegou com o rapaz, todos já estavam presentes.
— O que está esperando, Edwin? Sirva uma dose para todos.
Edwin estava do lado de dentro do balcão e sorriu, pegando o melhor whisky que havia na prateleira. Serviu nos copos e esperou que todos pegassem para brindar.
— Ao que brindaremos hoje?
Violet perguntou. Tinha acompanhado toda a ação dos amigos, porém desta vez, ela não pôde contribuir muito na sua função.
— A abertura do pub “Desaparecidos”. – Evernood anunciou. – A partir de hoje, Browen será o sócio deste lugar e ele abrirá para o público. Se sustentará na cidade. A única coisa que terá que fazer é se calar, quando usarmos para nossas reuniões a parte de trás.
— Pode ter certeza de que além de me calar, ajudarei nas investigações.
Ele levantou seu copo e todos brindaram. Depois de beber, Elizabeth olhou para o grupo sorrindo e fazendo brincadeiras. Ela se sentia bem com o que estava acontecendo.
Uma nova etapa em sua vida começava. Um dia ela arranjaria um jeito de morar com Margareth, sem que elas fossem criticadas. Antes disso, a sociedade teria que aceitar um homem preto, sendo dono de um pub em uma área nobre.
Ah! A cidade vai aceitar! – Evernood pensou resoluta. – Vamos garantir isso.
Fim.

