Quem sou eu?
A mulher ao meu lado afirmou com a cabeça. Me preparei emocionalmente para àquele momento.
– Bem… Eu sou o que fizeram de mim durante a infância. Cresci em um colégio interno, perdi meus pais antes de ter cinco anos, minha avó faleceu antes deles, então fui criada pelo meu avô Ivan, tive uma primeira infância feliz, apesar de não lembrar em detalhes sei que tive uma vida feliz ali. – Dobrei os joelhos até conseguir abraçar minhas próprias pernas. – Quando perdi meu avô, aos sete anos, fui direto para o conselho tutelar, passei alguns dias aguardando a abertura do testamento, por pouco não parei no sistema de adoção, eu não sei se fico triste ou feliz por isso, sei como as crianças desses lares sofrem pela expectativa. Mas ter expectativa também era bom e fui privada disso, cada natal, aniversário, enfim, qualquer data comemorativa era passada sozinha. Fiz algumas amizades ao longo dos anos naquele lugar, estudei e me formei com boas notas, mas daí fiz o tão esperado 18 anos e o fim da estadia no colégio interno, basicamente fui jogada na vida. – Respirei fundo, lembrar daquela época era mais difícil do que imaginava, nunca havia me exposto daquela forma, nunca havia deixado ninguém me ver daquela forma. Senti o toque de sua mão quente em meu ombro, me confortando. – Antes disso o advogado me entregou um cartão de conta, a casa que vivi com meu avô foi vendida após sua morte e o valor depositado nesta conta, era bastante dinheiro, mas eu não queria usar de forma leviana. Usei um pouco, apenas para comprar algumas roupas, comida e conseguir um lugar para ficar. Arrumei um trabalho num restaurante e como eu não tinha experiência fiquei lavando pratos durantes meses, minha vida era do trabalho para o pequeno quarto banheiro que havia conseguido pagar com meu próprio dinheiro. Passei a tentar uma vaga na faculdade federal, estudei, passei noites em claro, fiz o vestibular e passei, na noite que fiquei sabendo que havia passado, estava trabalhando, alguns funcionários tinham faltado então me pediram para ajudar retirando a louça de cima das mesas que já haviam sido desocupadas, foi quando Yara me viu, senti seu olhar me acompanhando, eu era uma adolescente sozinha e ela me prometeu sucesso. Dois dias depois ela bateu em minha porta, com uma passagem e um sonho, me transformar na próxima top model mais famosa do Brasil, ela sempre dizia: Quando eu nascer de novo, quero vir com esses belos olhos verdes e cabelo castanho dourado. Menina, você tem a aparência do sucesso. Passei por médicos, dentista, academia, cursos de modelagem, como andar, como olhar, como me mover, era cansativo, mas eu estava motivada. Atingi o auge um mês depois, um mês morando na casa da estranha que me prometeu o sucesso, perdi a vaga da faculdade, o emprego, o lugar que eu havia alugado, era minha única chance, se eu não me agarrasse àquilo estaria de volta a rua. Meu primeiro desfile foi um sucesso, logo estava fazendo publicidade para diversas marcas, me tornei o rosto mais requisitado no Sudeste, depois do Brasil e logo conquistei a Ásia, Europa, América do Norte, nos primeiros três anos me tornei a modelo iniciante mais bem paga, no quinto ano de modelagem eu já havia conquistado meu primeiro milhão, havia conquistado uma ótima posição no mundo da moda. Fiz minha faculdade, me formei em administração e publicidade e marketing, nessa época eu já falava inglês, espanhol, francês e italiano. No sétimo ano de trabalho conheci meu ex noivo, mesmo que ainda ele ainda não saiba que é meu ex. Ele é filho da Yara, quem me descobriu. No início eu não o suportava, achava ele mimado, mas com o tempo ele foi se mostrando um homem gentil, romântico, carinhoso. Bem, eu nunca havia namorado em minha vida, não um relacionamento longo, e menos ainda com homem, nunca foi meu ponto forte, sempre preferi as mulheres. – Sorri com o segredo. Sequei algumas lágrimas com o dorso da mão. – Mas por um bom incentivo da Yara aceitei o pedido de namoro do Ricardo, um ano após o início do namoro Yara e seu marido falecerem em um trágico acidente, Ricardo passou a tomar conta da agência, quando completei dez anos como modelo, por insistência do Ricardo deixei de modelar para ajudá-lo com o trabalho, me tornei diretora de moda da agência e principal recrutadora. Após minha saída das passarelas o comportamento do Ricardo mudou, passou a fazer viagens sem minha companhia, sempre com a desculpa de precisar que eu ficasse ali para resolver as reuniões. Passou a fumar incansavelmente, beber cada vez mais, pouco tínhamos encontros, o relacionamento esfriou e o que já não me satisfazia deixou de me importar, passei a ter relacionamentos extraconjugais. Não me orgulho disso, não foi a melhor coisa que fiz. Também descobri traições da parte dele, com nossas próprias modelos algumas vezes. Passei a mergulhar cada vez mais no trabalho, deixei de ser a noiva empenhada, me tornei a mulher de negócios que você vê hoje. Antes de vir para Milão, na noite anterior, minha casa foi invadida, reviraram cada móvel buscando algo que eu não sei o que é, parece que tem pessoas me seguindo e eu realmente não sei o que fiz de errado. Sem falar de uma das modelos que foi encontrada morta na Europa oriental depois de simplesmente mandar um e-mail informando que iria sair da agência para se reencontrar, não sei se está tudo conectado, mas eu tenho medo de agora estar com minha vida por um fio, não queria morrer com 35 anos. – O choro veio forte, o pôr do sol ao longe contrastava com minhas lágrimas, senti as mãos de Asrael secarem meu rosto, seu corpo já estava de frente para o meu, sua respiração era profunda, o brilho dourado parecia molhado.
– Eu queria ser capaz de tirar toda a dor que sente. Eu sinto muito que tenha passado por todas essas coisas desde tão nova. – Seu abraço foi forte e reconfortante, me senti protegida pela primeira vez em muitos anos. Chorei sem mais amarras, Asrael era uma verdadeira desconhecida, mas a desconhecida que naquele momento zelava pelo choro de uma total estranha. Me deixei relaxar em seu abraço, então as pontes sensoriais começaram a me conectar a ela, o cheiro tão próximo ao meu nariz, ali, a disposição para toda absorção que pudesse fazer, a pele macia do pescoço tocando meu rosto, senti um intenso pulsar de seu coração na minha bochecha, era uma batalha do bombear contra suas veias.
– Seu coração está batendo forte. – Disse ainda na mesma posição. – Seu cheiro é tão bom. – Havia cansado de tentar burlar minhas próprias palavras, ela não se afastou, pelo contrário, senti seus dedos acariciarem meus cabelos em uma lentidão quase dolorosa, enquanto sua respiração quente roçava o topo da minha cabeça.
– Ele nunca bateu assim antes, Lily. – Ela confessou em um sopro de voz e havia um tom de vulnerabilidade tão genuína que meu peito doeu. – Nunca por ninguém. – Não havia dúvida naquelas palavras.
– Eu não quero que esse momento termine. – Mantive a sinceridade do momento.
– Ele não precisa terminar. – Se afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar em meus olhos. – Que tal você ir jantar comigo? No lugar que você escolher. – Ela sorriu.
– Jantar? – Percebi que já havia anoitecido. – Eu quero. – Ela se afastou para levantar, mas segurei seu corpo por um segundo, deixando nosso rosto bem próximo. Quase me esqueci da pergunta após sentir seu hálito tão próximo da minha boca, me perdi no trajeto dos olhos aos lábios. – Obrigada, Às. – Seu olhar parecia perdido, tanto quanto o meu. Ela quebrou a proximidade, parecia lutar contra a própria vontade, respeitei seu espaço e me mantive tranquila, certas coisas precisam de tempo.
Descemos do telhado da Catedral de Milão em silêncio, após toda a confissão o silêncio se fez necessário para absorvermos melhor o que foi dito. No último degrau Asrael ofereceu seu braço para que eu segurasse, atravessamos a Piazza del Duomo dessa forma, com uma breve troca de olhares e sorrisos tímidos. Asrael faz um sinal com o braço e logo um táxi para; ela abre a porta para que eu entrasse e se sentou ao meu lado.
– Você escolhe o lugar. – Ela diz assim que se acomoda.
– Risoelatte Duomo, per favore. – O taxista deu partida e logo estávamos em movimento. – Conheci esse restaurante quando ainda era uma modelo iniciante, a melhor comida e um preço muito bom.
– Nada vai vencer a companhia. – Novamente a sensação de flerte me tomou. Senti meu rosto queimar e tinha certeza de que ele estava vermelho, agradeci pela pouca luz que entrava no carro enquanto estávamos parados no semáforo.
Asrael abriu a mão sobre a perna, com a palma voltada para cima. Acompanhei seu movimento e, com os dedos ainda um pouco trêmulos, pousei minha mão sobre a sua. Senti a forma lenta e firme com que nossos dedos se entrelaçaram; meu coração palpitou e a respiração ficou suspensa no ar. Olhei para frente e observei pelo espelho retrovisor que o motorista nos encarava com um sorriso discreto. Não havia má intenção ali, apenas a curiosidade simpática sobre um pequeno toque romântico. Apertei os olhos, intrigada. Seu sorriso não me era estranho. Voltei minha atenção para a sensação daquele toque, não tinha coragem de olhar diretamente nos olhos de Às.
O carro estacionou suavemente em frente à fachada charmosa do restaurante. Asrael, demonstrando o mesmo cavalheirismo de antes, pagou a corrida e abriu a porta para que eu saísse primeiro. Assim que meus pés tocaram a calçada e me afastei dois passos em direção à entrada do Risoelatte, Asrael se inclinou brevemente para trás, apoiando a mão na janela aberta do táxi antes de fechar a porta.
Mesmo distante, pude ouvir uma pequena frase.
– Sempre atento. – Ela disse em um sussurro firme. Pude ver apenas o motorista sair devagar com o carro, nenhuma palavra a mais foi dita, a mulher ajeitou sua roupa no corpo, virou-se em minha direção e deu um largo sorriso.
– Pronta para experimentar uma das melhores comidas de Milão? – Perguntei.
– Prontíssima. Os sabores ainda me parecem novidade. – Falou distraída enquanto entrávamos. O lugar tinha uma atmosfera acolhedora, parecia ter parado nos anos 1960, com suas cores pastéis e aroma de comida caseira. O atendente nos guiou até uma mesa mais reservada, ao fundo.
Assim que nos sentamos e o rapaz nos entregou os cardápios, apoiei os cotovelos na mesa, ainda intrigada com os segundos anteriores. Olhei para Asrael por cima do menu, buscando a forma correta para a pergunta.
– Às… Posso te fazer uma pergunta boba? – Comecei semicerrando os olhos de leve. – Eu tenho a leve sensação de já ter visto aqueles olhos através do retrovisor. O motorista… Ele não me é estranho, é algum conhecido seu?
A mulher em minha frente congelou por uma fração de segundo, os olhos dourados brilhando sob a luz fraca do restaurante, mas logo relaxou a expressão, abrindo um sorriso enigmático que me desarmou.
– O mundo é cheio de rostos familiares, Lily. – Ela respondeu, a voz mansa e tranquila, enquanto folheava o cardápio com elegância. – Às vezes, as pessoas que cruzam nosso caminho são apenas reflexos de algo que precisamos ver naquele momento. Talvez ele só tivesse um olhar bondoso. – Sorriu. – Não o conheço, apenas disse para ficar sempre atento, no trânsito é sempre necessário manter atenção. – Seus olhos prenderam minha atenção. – Me conte sobre esse lugar. – Inclinou-se para frente, os olhos fixos nos meus. – Qual prato você me sugere para nossa primeira noite juntas?
Aquelas palavras me tomaram todo o ar que havia em meus pulmões: nossa primeira noite. Senti um leve pulsar em meu coração, de uma forma que eu não sentia há muito tempo, tentei buscar na memória, mas no fundo eu não conseguia me recordar de já ter me sentido dessa forma antes. Ela deixou o cardápio de lado e disse que queria comer meu prato favorito, chamei o garçom.
– Dois Mondeghili alla milanese, dois Riso al salto, duas taças de vinho tinto, aceito a sugestão. – O garçom anotou tudo, pediu licença e saiu.
– Eu nunca tomei algo com álcool. Espero não te fazer passar vergonha. – Me surpreendi com sua fala.
– Posso pedir outra coisa, não precisa tomar vinho.
– Acho que hoje é o dia propício para experimentar coisas novas. Sei que se causar qualquer constrangimento, tenho alguém para me dar cobertura.
– Eu te protejo. – Por um segundo seu rosto de iluminou de uma forma única, inédita, o brilho de seus olhos pareceu realçar ainda mais a cor intensa, desci meus olhos, tentando resistir à tentação de me demorar em seus lábios, vermelhos, úmidos, convidativos.
– Se estiver tentando me hipnotizar, devo dizer que está tendo sucesso. – Sua mão tocou na minha, em um carinho lento, apenas a ponta dos dedos, esse simples toque era capaz de despertar cada desejo mais oculto da minha alma.
O garçom retornou, quebrando o transe por um instante para servir os pratos fumegantes e encher as duas taças com o vinho tinto encorpado. Asrael observou o líquido escuro com uma curiosidade quase infantil. Ela ergueu a taça, imitando meu gesto, e brindamos em silêncio. Quando ela deu o primeiro gole, o sabor forte e quente do vinho pareceu desestabilizar algo dentro dela. Sua pose segura deu lugar a uma pessoa mais relaxada, ela provou uma segunda vez, pousando a taça logo em seguida sobre a mesa. Seus olhos brilhavam, seu sorriso pareceu mais solto, maior, seus dentes brancos e a pontinha da sua língua entre eles deu um charme, como uma criança que estava fazendo algo indevido.
O jantar transcorreu em um transe de confissões silenciosas, risos contidos e olhares que prometiam o mundo. Quando finalmente deixamos o Risoelatte, a noite parecia mais quente. Asrael fez questão de me acompanhar de táxi até a porta do meu hotel. Na despedida, uma força magnética me impedia de querer me afastar daquela presença calma, suave…
– Hoje pareceu um ano inteiro… – Falei tentando evitar minha partida. – Você e eu, isso parece algo que vai além do tempo físico.
– Você não faz a menor ideia… – Seu corpo se aproximou do meu, seu abraço me envolveu quente, seguro, calmo. – O tempo é lento demais para os que esperam, rápido demais para os que temem, longo demais para os que lamentam, curto demais para os que celebram… mas, para os que amam, o tempo é eterno. – Recitou Van Dyke com a leveza de quem domina cada palavra. – Durma bem, Lily. – Seu lábio tocou meu rosto, fechei os olhos sentindo o contato, alguns segundos a mais do que um beijo comum.
– Como te encontro novamente? – Perguntei enquanto ela retornava para dentro do táxi, com o medo desesperado de perder aquele contato.
– Te encontro, afinal, sei onde você “mora”. – Fez aspas com as mãos.
– Mal posso esperar. Durma bem, Às.
– Dormirei como um anjo. – Pude ouvir seu riso alto enquanto o táxi se afastava, fiquei ali, olhando até o carro virar a esquina. Peguei o celular na bolsa, havia esquecido da existência dele.

