Corações em Conflito

Capítulo 7 – Corações em Conflito

— Vinte e cinco por cento do hospital? — Guilherme perguntou, perplexo, enquanto eu compartilhava as informações sobre minha viagem a Vintervile.

— Sim, Guilherme. No mínimo, isso é suspeito. Apesar de não ter tido a melhor relação do mundo com meu pai, eu deveria ser a única herdeira — comentei, ganhando a completa atenção de Guilherme.

Quando retornei a Porto Grande, senti a necessidade de compartilhar tudo o que havia acontecido com alguém de confiança, alguém que pudesse oferecer uma perspectiva objetiva sobre a situação. Então, liguei para meu amigo e colega de trabalho, Guilherme, e marcamos um encontro em um barzinho que costumávamos frequentar.

— Te confesso que a ficha ainda não caiu, sabe… Meu pai está morto. Não consegui me despedir dele. Não lembro nem da voz dele direito. Não tive acesso ao seu prontuário médico e estou cheia de dúvidas sobre o que fazer em relação ao hospital. Me sinto culpada. Não chorei, nem sei se vou conseguir chorar. É uma sensação estranha — disse, com a voz carregada de emoção.

— Helena, o fato de seu pai estar morto não é motivo para você se sentir culpada. Se vocês se afastaram e mantiveram esse afastamento, foi uma decisão dos dois lados. Não entendi ainda suas dúvidas em relação ao hospital. Você tem uma carreira aqui, Helena. Tem seus casos aqui. Inclusive, a Bia perguntou por você — disse Guilherme, soltando uma leve risada.

Sorri de maneira maliciosa. Refleti que, em Porto Grande, minha vida social era movimentada, do jeito que eu gostava. Tinha muitos contatos e amizades com várias mulheres da cidade. Minha carreira ia de vento em popa e eu trabalhava no hospital mais qualificado de Porto Grande, como médica-chefe do setor de cardiologia. Mudar para uma cidade do interior e comandar um hospital, mudando toda a minha vida, parecia uma verdadeira loucura. Ou não?

— Sabe, Guilherme, minha cabeça está tão cheia ultimamente que mal tenho tempo para pensar em… mulheres — menti descaradamente, sabendo que a médica loira de Vintervile frequentemente ocupava meus pensamentos. Tudo isso em Vintervile… a herança, a carta do meu pai pedindo que eu fique na cidade e comande o hospital, toda essa sombra sobre a política local… Tudo isso mexeu comigo.

Guilherme olhou para mim com empatia, reconhecendo o peso que eu estava carregando.

— Entendo, Helena. Mas lembre-se de que a corrupção na política existe em muitos lugares, e não é algo que você pode mudar sozinha. Você tem uma carreira brilhante aqui, e fazer a diferença na medicina já é uma forma de causar impacto. Não se sobrecarregue com o peso do mundo, minha cara.

Assenti, mas sabia que havia algo mais, algo que me atraía para Vintervile.

A noite se desenrolou em conversas descontraídas entre mim e Guilherme, enquanto o ambiente do bar se enchia de risos e música suave. Mais uma bebida havia sido servida, e eu começava a me sentir mais leve, menos tensa em relação a tudo. O convite de Guilherme para estender a noite em um outro barzinho movimentado pairava no ar, como uma tentação para cair na noitada e me perder na companhia de uma linda mulher. No entanto, conhecendo a mim mesma, sabia que adiar minhas decisões não fazia parte do meu feitio.

— Guilherme, agradeço sua companhia. Esta noite foi tudo o que eu precisava, mas tenho que ir para casa. Tenho muito o que resolver — disse, levantando-me.

Guilherme assentiu compreensivamente, sabendo que, apesar da diversão, havia assuntos que eu precisava resolver sozinha. Ele se levantou e me abraçou.

— Tudo bem, Helena. Boa sorte com tudo. Se precisar de mais conversas, estarei aqui.

Sorri e me despedi de Guilherme antes de dirigir até o meu apartamento em Porto Grande. Lá, me encontrei sozinha na sala, onde a luz suave criava uma atmosfera tranquila. Peguei a carta de meu pai mais uma vez, lendo as palavras que ele havia deixado para trás. Um misto de emoções me invadiu.

À medida que a noite avançava, decidi tomar um banho quente. A água morna envolveu meu corpo, e em meio àquele momento de relaxamento, uma lembrança de minha infância surgiu. Eu tinha cerca de seis anos de idade, e meu pai havia me levado ao hospital onde ele trabalhava. Apesar de me advertir de que o lugar era pouco higiênico, ele me deixou vestir seu jaleco, que ficava absurdamente grande em meu pequeno corpo.Enquanto a água escorria sobre mim, permiti que as lágrimas se misturassem com a água, liberando as emoções que estavam represadas. Apesar de todas as falhas de meu pai, suas traições à minha mãe e suas tentativas de limitar minha vida ao que ele considerava correto, eu sabia que havia amor ali, amor que sobreviveu ao teste do tempo e à distância. Após anos sem mensagens, ligações ou visitas, aquele amor ainda estava ali, e sempre estaria, independentemente das escolhas que eu teria que fazer.



Notas:



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