— O que foi que a minha mãe te falou? — Isadora perguntou.
Estavam a poucos quilômetros de Cascabulho. O meio da tarde se aproximava e Dakota já demonstrava o cansaço físico das horas atrás do volante. Embora tivessem compartilhado essa tarefa, coube a ela dirigir na parte ruim do caminho.
O silêncio foi um companheiro constante, interrompido apenas pelo rádio. Não era incômodo ou desagradável. Na verdade, parecia muito acolhedor para ambas, como se as palavras entre elas quase não fossem necessárias.
— Quando? — Dakota perguntou, sem desviar o olhar da estrada esburacada.
— Um pouco depois do café da manhã, vi que ela foi atrás de você no jardim.
— Ah…
— Ah? Como assim “ah”, Dakota?
— Apenas “ah”, Isadora — deu um sorrisinho de lado. — Não precisa se preocupar. Como uma boa mãe, ela só queria saber como você está, de verdade. E eu disse o que sabia.
— E? — pegou a garrafa de água no suporte da porta e abriu.
— E aí, ela me perguntou o que eu queria com a filhinha dela.
— Aff! — revirou os olhos, levando a garrafa aos lábios.
— Não se preocupe, tirei de letra! Mas acho que ela não gostou muito da ideia de me ter como nora.
Isadora engasgou-se, gerando na motorista uma gargalhada alta e vibrante.
— Calma, garota! Estou apenas brincando.
— Brincadeira sem graça! — devolveu a garrafa para o suporte.
— Uau! Acabou de partir meu coração.
— Palhaça, você! Falando sério, Dakota. O que ela queria?
A curiosidade estava lhe consumindo desde que pegaram a estrada. Dakota só respondeu um minuto depois, quando entraram na cidade.
— Eu disse a verdade sobre ela querer saber como você está após o término com Alice e sobre as minhas intenções contigo.
— Foi só isso mesmo?
Ela estacionou diante do bar, desligou o motor e se virou para olhar Isadora.
— Sim, foi apenas isso — garantiu.
— O que… o que você respondeu?
Dakota deu um pequeno e quase imperceptível suspiro.
— Que nós estamos curtindo a companhia uma da outra, construindo uma amizade querida.
— E ela?
— Me olhou nos olhos e afirmou que não sou mulher para você e que acha que estou me aproveitando do seu momento de fragilidade.
— Não acredito! Como ela pôde?
Dakota segurou a mão dela, delicada. Isadora estremeceu, a face corada de indignação.
— Ei, não precisa ficar assim! Ela é sua mãe e está coberta de razão. Você namorava Alice e num curtíssimo espaço de tempo me apresenta para os seus pais, deixando claro que a nossa amizade está um pouco além do convencional. É natural que se preocupe.
— Eu sei… é só que…
Ela passou a mão livre pelo rosto. Ajustou os óculos sobre o nariz e fitou a rua.
— Eu entendo a preocupação dela, só fiquei chateada por ela te emboscar dessa maneira. Não é como se a gente estivesse planejando se casar.
— Fale apenas por você, eu já estou pensando na tipografia dos convites.
O sorriso dela desmanchou o incômodo de Isadora, que lhe deu uma tapinha no ombro.
— Besta!
— Que foi? Você sabe o que dizem das lésbicas: vão morar juntas no segundo encontro.
Isa riu mais abertamente.
— Só que nós nunca tivemos um encontro, boba!
— Nem precisou, né? Pulamos essa fase e o primeiro beijo direto para o morar juntas.
Elas saíram do veículo e se reuniram na calçada. Isadora balançava a cabeça, tentando conter o riso.
— Você não presta, Dakota!
— Olha só! Já está concordando com a sua mãe.
As duas riram novamente. Dakota fez menção de entrar no bar, mas Isadora segurou sua mão e a trouxe para perto, seus corpos quase se encostando. Bastaria um pequeno inclinar de cabeça para se beijarem.
— Hmm, tentando escandalizar Cascabulho, Isadora? Eu topo! Sempre!
Isa riu novamente e passou mão pelo rosto dela.
— Não. E para falar a verdade, nunca me importei com o que o povo dessa cidade pensa sobre mim — a mão escorregou até a dela, outra vez. — Só queria te agradecer.
— Não sei pelo quê, mas aceito sexo como agradecimento. Só para deixar claro.
— Você não presta mesmo! — seu sorriso cresceu. — Bom, não me importo mesmo de fazer o sacrifício de te dar um orgasmo.
A outra riu alto, sem se importar com a atenção que começavam a cativar, oriunda do interior do bar e das poucas mesas na calçada.
— Mas quero mesmo é agradecer por me ajudar e cuidar, escutar e até proteger. Essas últimas semanas foram difíceis, mas também especiais.
A mão de Dakota afagou uma mecha dos cabelos negros dela.
— Eu tenho um fraco por mulheres bonitas e sexys, então disponha. Use e abuse — beijou a testa dela e se afastou. — Vem.
Isadora corou violentamente. Ela não se achava bonita, tampouco sexy. Tinha boa aparência, mas era só. Definitivamente, não chegava aos pés da ex-mulher dela. Vira algumas fotos no apartamento de Rachel, de antes da transição. Graziela poderia ser confundida com uma supermodelo.
Entraram no bar, arrastando consigo os olhares dos fregueses enquanto atravessavam o salão até o balcão. Como era um domingo à tarde, o Gota Serena estava lotado. O ambiente cheirava a cerveja barata, cachaça e fritura, o que fez as duas mulheres sentirem um aperto de saudade de seu falecido dono.
Ao passo que Dakota se inteirava dos acontecimentos dos últimos dias com Júlio, Isadora foi reabastecer sua garrafinha de água na cozinha e não ficou surpresa ao encontrar Rosalinda, mãe de Júlio, no comando do fogão. Nos fins de semana, a mulher se responsabilizava pelos petiscos servidos no estabelecimento.
— Oi, Rosa!
— Isadora! Que bronzeado bonito! Pelo visto, se divertiu na viagem. Júlio me contou que você foi com a Dakota.
Isadora se limitou a confirmar com um inclinar de cabeça e se aproximou do bebedouro. Rosalinda não era fofoqueira como Seu Mariano, mas, naquela altura, já não era segredo que o seu relacionamento com Alice acabou de vez e que ela estava ficando na casa de Dakota, sem falar na viagem juntas.
Sua amiga, Roberta, mandou algumas mensagens sobre o assunto. Normalmente, seria com ela que conversaria sobre o fim do seu namoro, mas com toda a confusão com Alice, Dakota e Nando, não o fez. E até que achava bom não ter procurado os ombros de Roberta.
Não havia dúvidas de que a amizade das duas era forte e sincera, mas Roberta, infelizmente, tinha dedo podre para homem e casou-se com um sujeito desagradável, misógino e preconceituoso. Desde o momento em que foram apresentados, ele fez questão de mostrar seu desagrado pela amiga sapatão da esposa.
Não conseguia entender como Roberta suportava Gerson, sendo que se identificava como uma mulher bissexual. Coisa que o marido jamais ouviu da boca dela, nem ouviria. Em toda sua vida, a única pessoa para quem a amiga expôs sua sexualidade, foi Isadora.
Como uma mulher que saiu do armário muito jovem e cresceu em uma família carinhosa e receptiva, às vezes, Isa achava difícil compreender os temores da amiga. Nem por isso, deixava de respeitá-la e apoiá-la, menos quando o assunto era Gerson.
— Aproveitei um pouco, sim — aproximou-se do bebedouro. — Fui à praia e visitei os meus pais. Como estão as coisas por aqui?
— Tudo na mesma, mas o teu nome tá na boca do povo.
— Alice, Dakota e eu?
Depois de quase beijar Dakota na calçada, há poucos instantes, a fofoca iria intensificar. A outra mulher deu uma risadinha e confirmou com um meneio de cabeça.
— Pois, que continuem falando. Ninguém tem nada que ver com a minha vida.
— Isso é verdade.
— O que andam dizendo, exatamente?
Não que ela se importasse de verdade, mas ficou curiosa pelo jeito que Rosa a fitou.
— Eita, é tanta coisa… Sei lá! A principal é que você trocou Alice pela Dakota.
O riso de Isadora foi solto e gracioso.
— Imagino que sejam as mesmas pessoas que contavam os chifres que Alice me colocava.
Rosa não conseguiu esconder a risada, pois o modo como Isadora falou foi leve, sem qualquer nota de rancor. Ficou satisfeita em perceber que parecia bem após o término. Estava preocupada, visto que, em várias ocasiões, presenciou ela conversando com Tonho sobre Alice e suas traições. Mas agora, Isa não parecia triste, nem chorosa. Parecia resignada, como alguém que decidiu procurar o próprio bem e seguiu em frente.
— Errada você não está. Eu não tenho nada a ver com isso e, como você não disse que sim nem que não, só posso opinar sobre o pouco que percebi.
— Que seria?
— Eu gosto de Alice. É uma boa mulher, esforçada, honesta, mas não te merecia. E se você estiver mesmo com a Dakota, não precisa dizer se está, acho que fez uma boa troca.
Enquanto fechava a garrafa, Isadora fitou o rosto corado da outra mulher. E teve a impressão de que Rosalinda estava satisfeita por dizer o que pensava.
— Por que acha isso, Rosa?
— Bom, como você disse, Alice aprontou demais contigo e você merece mais.
Isadora sorriu para ela, pensando em fazer um comentário qualquer, mas optou por satisfazer a curiosidade:
— E você acha que Dakota é esse mais?
Rosalinda encolheu os ombros num gesto quase dramático.
— Ah, se ela é, não sei! Mas gosto dela, sabe? Tonho sempre falava com carinho dela. A gente se conheceu quando ele pediu para ela cuidar da Isabela. Sempre que a menina vinha visitar o tio, contava sobre a vida com a Dakota. Ela era feliz e bem cuidada. Então, apesar do jeito meio birrento, sei que tem mais caráter que Alice no quesito romance.
Emudecida, Isadora fitou o chão. Não esperava ouvir essas coisas de Rosalinda. Ainda mais, que ela apoiasse com tanta empolgação um romance que sequer tinha certeza se existia. Forçou um sorriso natural e se despediu da mulher com um aceno.
Ao retornar para o salão do bar, avistou Dakota conversando com uma mulher. Seu bom humor azedou no mesmo instante, pois se tratava do estopim que findou o namoro com Alice. Sentiu um arrepio de raiva percorrer seu corpo, os pés se moveram sem que percebesse.
— Você não deveria estar tirando leite de vaca ou curtindo namoradas roubadas? — falou para a mulher, cujo sorriso interessado que dirigia a Dakota, murchou rapidinho.
— Isadora… oi. Olha, não quero me meter na sua história com Alice de novo. Não vejo ela há semanas. Nem na cidade estava. Então, se ela te corneou, não foi comigo! — Érica soltou como se fosse uma metralhadora.
— Bom, você deveria aproveitar. Agora ela tá soltinha no mundo. Terminamos. — bufou.
— E, pelo visto, você já tá ciscando para outras bandas — a mulher baixou a vista para a mão que ela, inconscientemente, sentou na cintura de Dakota.
Divertida com a cena e a atenção das pessoas em volta, Dakota passou o braço sobre o ombro de Isadora, trazendo-a para mais perto. Notou-a trêmula e fez um carinho ligeiro em seu ombro.
— Eu diria que ela está fazendo bem mais que “ciscar” — ergueu a sobrancelha um par de vezes e beijou a bochecha de Isadora, cuja face adquiriu um tom intenso de vermelho.
A veterinária murchou o sorriso de vez.
— Ah…
— Bom, legal te conhecer, mas acabamos de chegar de viagem e… — notou uma picape estacionando ao lado da sua, o adesivo na porta revelava ser um veículo da Fazenda Rocha.
Dakota trincou o maxilar e Isadora falou:
— Se acalma.
— Estou calma.
— Você entrou em modo combate, isso sim!
— Você já me conhece tão bem, querida! É só aquele imbecil não entrar aqui e vai ficar tudo bem.
— Eita lasqueira! — Isadora resmungou, a seguindo até a calçada.
Rochinha desceu do veículo, acompanhado de outro homem, seu pai. Apesar da idade avançada, ele mantinha o mesmo porte físico da última vez em que Dakota o viu. Silvestre Rocha lançou uma olhada rápida para as mesas dispostas na calçada, cumprimentou algumas pessoas e depois encarou Dakota, que se escorou na entrada, os braços cruzados com expressão altiva.
Rochinha parecia um adolescente miúdo perto do pai, claramente envergonhado.
— Então, é você que anda causando alvoroço na cidade?
A motoqueira fez uma careta de desdém.
— A cidade se alvoroçou por conta própria, não tenho nada a ver com isso. Você quer alguma coisa, velhote?
O silêncio se acomodou no local, os clientes do bar pareciam ter prendido o ar à espera da confusão que se seguiria. Rochinha tentou colocar mais fogo na conversa:
— Eu te falei, pai! Essa mulher não tem respeito!
— Respeito se conquista, mauricinho — Dakota retrucou, entediada. — E vocês não fizeram nada para merecer o meu. Nunca.
Silvestre empurrou a aba do chapéu para o alto da cabeça, os olhos presos aos dela. Miúdos e intensamente negros. Ele deu um sorriso bufado, como se não acreditasse no que estava ouvindo, então disse:
— Você ficou com algo que pertence ao meu filho.
Ela deu de ombros, o sorriso escarninho acomodado entre seus lábios, como se a qualquer instante uma provocação ácida pudesse lhe escapar.
— Fiquei?
— Minha arma, sua vadia do caralho! Devolva!
— Que boca suja! Em vez do nariz, devia ter quebrado os seus dentes.
— Sua… — ele começou, mas um gesto do pai o fez silenciar.
Dakota chamou por Júlio, que estava a poucos passos atrás dela. Bastou um meneio de cabeça para ele entender o pedido e se afastar, quase correndo, para o interior do bar. Voltou instantes depois, com um objeto nas mãos, enrolado numa flanela vermelha e puída. Dakota o pegou e desenrolou, revelando ser a arma que ela tomou de Rochinha dias antes. Sem cerimônia, a jogou para o rapaz.
— Desculpe, joguei as balas fora.
Silvestre suspirou, a boca entortando no que parecia ser um sorriso irônico. Afirmou:
— Meu filho não teve nada a ver com o que aconteceu com Tonho.
— E eu devo acreditar nisso só porque o papai está falando?
— É a verdade, só isso.
Ela riu, um riso torto, quase descrente.
— Hm… acho que esta é uma das poucas vezes, na sua vida, que fala verdade. Me diz, velhote, como se sente?
— Ora sua… — Rochinha quis avançar para ela, mas Silvestre colocou o braço na frente do filho.
— Foi mais fácil do que imaginei — ele disse, agora com um sorriso abertamente debochado. — E você, vai continuar mentindo sobre quem é?
— Eu nunca menti sobre isso — abriu os braços. — Dakota é o meu nome. Ao menos, é assim que todo mundo me chama hoje em dia.
Isadora, assim como todos os presentes, não estava entendendo o que se passava. Dakota parecia mais chateada do que brava. O que era estranho, considerando o modo como tratou Rochinha na última vez que se viram.
Silvestre meneou a cabeça. Falou:
— Sabe, faz quase dez anos que não falava com Rosana, mas ela me ligou dia desses, contando que você voltou. Tive que ver com meus próprios olhos…
Dakota enfiou as mãos nos bolsos da calça, um sorriso arrogante ameaçando surgir a qualquer instante.
— E então, o que achou?
O fazendeiro inspirou fundo, deu de ombros e fez um muxoxo.
— Você parece bem diferente desde nosso último encontro, mas ainda me lembra a sua mãe.
— Hm — foi a vez dela balançar os ombros, com um ligeiro revirar de olhos.
— Acho que isso quer dizer que ainda não me perdoou — Silvestre supôs, cada vez mais curioso sobre ela e os anos de ausência.
— Ser rancorosa está no sangue, infelizmente.
Ele riu, divertido com a resposta. Rochinha o encarou como se estivesse diante de um estranho. Seu pai não era assim tão espontâneo e, com toda a certeza, não costumava deixar que o chamassem de velhote ou destratassem.
— Você tem idade pra beber agora, então que tal tomar uma cerveja com o seu avô? Me conte por onde andou.
— O quê? — Rochinha perguntou, a voz um pouco esganiçada.
— Boa tentativa, velhote. Mas eu não bebo com gente da sua laia. E apelar para o laço de sangue não vai me fazer mudar de ideia. Seu filhote não machucou mesmo o meu amigo, mas ainda não é bem-vindo ao meu bar. E se ele voltar aqui para fazer bagunça de novo, vai sair com bem mais que um nariz quebrado. Vamos, Isa!
— Lara — Silvestre a chamou.
— Lara é apenas para os amigos. Para você e o resto desta cidade, meu nome é Dakota — ela deu a volta na picape e abriu a porta do motorista.
Percebendo que não avançaria na tentativa de terem uma conversa tranquila, Silvestre perguntou:
— O Jonas… você fez o que prometeu?
Ela o olhou por alguns segundos, suspirou e inclinou o corpo para o interior do carro. Abriu o porta-luvas, pegou a carteira e foi até Silvestre. Abriu a carteira e de um bolsinho miúdo tirou uma correntinha dourada e a colocou na mão do avô.
— Eu sempre cumpro minhas promessas.
A expressão dele se tornou rígida e sombria. Silvestre balançou a cabeça algumas vezes, inspirou fundo e soltou o ar lentamente, como se o gesto expulsasse algum mal dos seus pulmões.
— Lamento que tenha terminado assim.
— Me poupe dessa conversa fiada. Eu não me importo com o que você sente. Remoa sua culpa sozinho. Eu não ligo. Sei que é impossível, numa cidade tão pequena, mas espero não te ver de novo.
Retornou para a picape e Isadora mal tinha se acomodado ao seu lado quando acelerou o veículo. A agrônoma esperou um minuto inteiro antes de falar:
— Silvestre Rocha é seu avô? Sério?
— Infelizmente.
— Você é mesmo uma caixinha de surpresas, mulher!
Apesar de chateada com o encontro com Silvestre, Dakota brincou:
— Uma caixinha que você adora e quer “proteger”, pelo modo como me segurou na frente daquela mulher.
— Ah, para! — ela ficou intensamente vermelha. — Não tenta desviar do assunto.
— Como é que você nunca ouviu isso enquanto morava na Mimosa?
— É uma excelente pergunta para a qual não tenho resposta. Mas, levando em consideração que mal tocavam no assunto “Lara”, falar do seu outro avô não é surpresa. Sempre achei que os motivos de Dona Rosana não gostar de Silvestre Rocha eram os mesmos de toda a região: os mandos e desmandos dele.
A poeira se elevava na estrada à medida que se afastavam da cidade. Dakota desviou de um buraco, as mãos apertando o volante com mais força que a necessária.
— Meu pai era filho da Rosana e a minha mãe era filha do Silvestre. É isso! Quando eles morreram, Rosana me acolheu e criou. Silvestre nunca me deu muita atenção, mas foi presente. E isso é tudo que irei falar sobre este assunto.
— É o suficiente — Isadora notou o esforço que ela fez para respondê-la. Arriscou outra pergunta: — O que teria feito se ele ou o Rochinha fosse mesmo o responsável pela morte do Tonho?
Dakota reduziu a velocidade, mas não parou a picape.
— Você não quer saber de verdade — falou, sombria.
— Sim, eu quero — apressou-se a dizer.
A motorista olhou para ela e foi sincera:
— Sangue é apenas sangue, Isadora. A minha verdadeira família não é definida por algumas gotas vermelhas, mas pelo carinho e amor que compartilhamos. Nós nos encontramos, nos escolhemos e formamos laços. E por essas pessoas, sou capaz dos melhores e também dos piores gestos.
O silêncio se acomodou no carro enquanto ela conduzia o veículo pela estrada poeirenta até que se tornou tão pesado que decidiu parar a picape perto de uma cerca caindo aos pedaços. Suspirou longamente e voltou a olhar para Isadora.
— Isso… isso não é nada charmoso, né? — falou, branda e tentou fazer piada: — Agora tenho certeza que você concorda com a sua mãe.
Às vezes, se assustava consigo mesma, mas não poderia estar sendo mais sincera.
— Sinto muito, Isa. Eu não sou uma boa pessoa. Sou arrogante, provocadora, esquentada, violenta, cruel… Como você acha que conheci Rachel? Eu tava na merda, Isa! No fundo do poço. Metida com gente errada, fazendo muita porcaria. E aí… Aí me apaixonei pela Grazi. Ela era puro caos. Um caos que completava o meu. Ela não me tirou da lama em que estava afundada, mas trouxe Rachel para a minha vida e aquela mulher me ergueu. Tonho, Amanda e Rachel são os irmãos que a vida me deu. Por eles e por Isabela, eu viro fera e não tenho medo de me tornar monstro.
Isadora encarou os olhos dela, cujo brilho era uma tempestade de verdades e certezas. Então, segurou a nuca dela e a beijou. De início, apenas um encostar demorado de lábios, mas logo o beijo se tornou intenso, quase violento e muito necessário.
— Eu não me importo, Dakota — Isa sussurrou ao se afastar por meros centímetros. — Eu sei que deveria, mas não me importo. Você diz que é monstro, sei que pode mesmo ser, mas você também é uma pessoa boa. E o desejo de proteger quem ama a qualquer custo é prova disso! — fez um carinho na bochecha dela. — Você é a mulher mais incrível que já conheci. E até que consiga me fazer enxergar o contrário, continuarei te admirando e confiando em você.
Isso desmontou Dakota, foi como receber uma lufada de ar puro. Também foi como receber um tapa que a fez retornar, mais uma vez, para aquela conversa na cozinha com sua amiga Rachel. Sem pensar, disse baixinho, quase como se estivesse contando um segredo:
— Não faça eu me apaixonar por você, Isa. Você vai pulverizar meu coração, garota.
Isadora sorriu, pensando ser mais uma de suas piadas. Mesmo assim, sentiu o descompasso no peito e a vontade de suspirar. Respondeu em tom de brincadeira, no entanto, no fundo do seu coração, havia uma nota de verdade:
— Talvez, eu queira que você se apaixone. Talvez, também queira me apaixonar por você.


Que show que retornou. Gosto muito da História.
Parabéns!