Não era longe, chegaram quinze minutos depois de saírem do restaurante. O lugar era limpo, aconchegante cheio de árvores frutíferas. Bateram à porta e uma senhora simpática atendeu.
– Talia! Anahi! Que surpresa boa! Entrem, entrem.
– Desculpa pela hora, mas estávamos na cidade e resolvemos dar uma passada para nos despedirmos.
– Vó, ela é descendente também, não é? – Ayra questiona.
– Essa é sua neta, Talia!? Que linda! Sim, menina, eu sou descendente, mas distante. Muitos humanos na família, só há pouca coisa do povo de Anahi em mim, como muitos outros por aí. O pai de sua avó ajudou muitos de nós, assim como outros que a gente chama de originais.
– O que quer dizer isso? – Ayra pergunta outra vez.
Anahi resolveu explicar.
– Lembra que algum tempo depois de saírem de Inkenaré-itá, os descendentes acabaram se voltando para os seus iguais? Mas antes disso, alguns haviam se acasalado com humanos comuns e tiveram filhos que continuaram a ter relações com “humanos normais”. O pessoal, mesmo estando já na Ilha, não os esqueceu, continuaram cuidando deles. Às vezes, como o pai de Talia, colocando-os perto. Nunca foram deixados à própria sorte.
– Está chegando a hora, senhora?
– Sim. Você vai querer ficar, ou ir?
– Tenho meus filhos e netos, quase bisneto já. Eu e a maioria de nós com os quais conversei, vão ficar. Há poucos ainda em dúvida.
– É escolha de vocês e eu respeito.
– Neste envelope, está a documentação que passa para você e seus filhos essa propriedade. Nós não voltaremos. – Taila explica.
– É muita coisa! Nem sei como agradecer, já fizeram tanto por nós! Vou sentir saudades.
Abraçaram-se e Talia e Anahi indicaram a porta para suas “crianças” saírem.
– Gostei de saber que não abandonaram ninguém! – Iara pontua.
Foram para casa.
– Ô mãe dois! – Iara fala. – Se você fez, é porque é permitido, então suponho que há casais do mesmo sexo que se relacionam no planeta, mas e se forem dois machos?
– Havendo o sentimento verdadeiro e forte, podem usar energia para “fazer” um filho, se quiserem. Se tua mãe não tivesse nada de humana, poderíamos ter te feito assim.
– Sério!? Assim, do nada? – Ayra indaga.
– Não é do nada, minha filha! É do amor e da energia, como tudo. Energia faz parte de tudo, gera tudo. Para fazer um filho, podemos manipular a energia para criar as células e desenvolver outra pessoa, ou colocar em um útero que a queira e deixar seguir o fluxo até o momento do nascimento. Usamos a energia gerada pelo ato sexual que é fortíssima.
– Ah eu senti a fortaleza dela hoje mesmo! – Iara exclama.
– Meu Deus, você não muda, né, menina? – Taila fala.
Riram.
– Vovó, você disse que partiríamos em dois dias, esse já está terminando. Em seis dias o pessoal estará chegando para partir de vez. Não temos que preparar nada? Não temos que estar lá antes deles?
– Iremos amanhã à tarde para lá, já deixei tudo encaminhado para recebe-los à medida que forem chegando. – Anahi esclarece.
– Como vamos chegar lá antes deles que já estão se deslocando? – Intrigada, Iara pergunta.
– Da mesma forma que eu vim. – Anahi explica. – Daqui para lá, posso abrir a ponte para nós quatro, tranquilamente. Distância curta, posso controlar a máquina.
– Os portais usam máquinas? – Iara questiona.
– Sim. Seria bom se pudéssemos nos transportar como heróis de filmes, não é?
– Quer dizer que você é chegada em filmes! – Iara quer saber.
– Filmes, livros, escavações, todo tipo de culturas, religiões e o que mais existir no planeta.
– Não há dúvida que mamãe aceita o que vier, mas quando resolve perguntar, Deus me livre! – Ayra pontua.
Todas riram.
– Estou me sentindo meio criança outra vez. – Iara afirma. – Acho que passava o tempo todo perguntando, por isso quando cresci parei de perguntar, mas agora tem muita coisa que ainda não sei.
– Tem muita coisa que eu também, ainda não sei, minha filha. – Anahi concorda. – Vamos descansar que partiremos amanhã. Se importam se eu e Talia passarmos a noite no nosso lugar favorito?
– À vontade! Só segura a onda que pretendo dormir. – Iara brinca.
E saiu gargalhando.
Na manhã seguinte, preparam o desjejum, comeram e Talia resolveu que estava na hora de irem de vez para Inkenaré-itá, já que não conhecia o lugar e queria estar pronta quando o pessoal chegasse. Anahi abriu a passagem e, segundos depois, estavam no interior da pirâmide, onde o grupo de pesquisadores não conseguia acessar. De lá podiam “ver” através de alguns aparelhos, tudo que acontecia em um raio de três quilômetros.
– Onde estamos? – Ayra não segura a curiosidade.
Andaram pelas dependências que parecia se perder de vista, área toda iluminada. Eram como alojamentos completos, mas diferentes dos comuns a humanos.
– No interior da pirâmide, onde vocês nem imaginariam existir. Quando partirmos será “descoberto”.
– Ela é bem maior do que se percebe olhando lá de fora, não é?
– Muito maior! Era aqui que vivíamos, quando não estávamos nas naves.
– Tem passagem sem ser do modo que viemos?
– Tem, mas é bem protegida.
– Quero conhecer lá fora! Ayra já conhece, mas eu e mamãe não, queremos ver tudo. – Iara afirma.
– Por enquanto vou leva-las para fora da mesma forma que viemos, mas não estarei visível para os estudiosos, vou vigiá-las daqui. Venham.
Pegaram suas mochilas e Anahi as deixou onde seria a entrada do acampamento. O pessoal estava no horário do almoço, sentados em pequenos bancos, troncos, ou no chão. Muitos cumprimentaram Ayra. Enquanto as duas seguiam a mais nova da família que as conduzia para encontrar a professora Gabriela, os guias de diferentes tribos, abaixavam respeitosamente as cabeças à sua passagem. Estranharam e seguiram em frente.
– Professora Gabriela, voltei.
– Ayra! Que bom vê-la, menina. Está tudo bem na família?
– Está sim. Essa é minha mãe, Iara e, minha avó, Talia.
– Senhora! Há quanto tempo!! Jamais imaginei encontra-la em um lugar assim!
A professora e a avó se abraçaram.
– Olá Gabi, você está bem?
– Agora estou feliz por vê-la.
– Não sabia que conhecia minha avó! – Ayra exclama, surpresa.
– Essa é a pessoa que me mostrou a História, que me incentivou e ajudou, depois do falecimento dos meus pais.
– Ela é como a senhora lá do sítio de seu pai, não é, mãe? – Iara indaga.
– Sim filha, ela é. Como vê, nunca os abandonamos.
– Do que estão falando? – Gabriela questiona.
– Pode me mostrar a história desenhada da partida do povo?
Levaram-na até as paredes com os desenhos. Ela apontou o pequeno grupo que seguia em uma direção.
– Esse é o grupo que seu ancestral fazia parte e se envolveu com os humanos, não mais tendo contato com os descendentes. Você nunca foi considerada muito inteligente, com organismo muito forte, sem doenças que são comuns às crianças humanas?
– Sempre foi assim!
– Pois é, por isso Anahi a escolheu para contar nossa História! Mesmo se quiser ir conosco, acredito que já está quase tudo no seu computador, pronto para ser impresso. Só falta o final, ou a partida.
– Como sabe disso?
– Eu a conheço, Gabi. E Anahi deve ter passado tudo para você deixar pronto.
– Então você é a mulher de Sumé-Aiyra!
– A única!
– Estou impressionada! Então eu tive ancestrais que saíram daqui!
– Sim, você teve. Estão bem distantes, mas ainda corre um pouco deles em suas veias. Então vai pensando se vai querer ficar quando partirmos.
– Acha que virão muitos como eu?
– Acho que não. Nem sei se algum quer partir, mas se vierem…
– Por enquanto, quero ver tudo. Quero conhecer outros locais onde Sumé-Aiyrá esteve, conhecer suas outras histórias, ver até onde a humanidade vai antes de parar, pensar e fazer o que é certo.
– Está bem, foi um prazer revê-la. Não tem algo pra gente comer? Estamos famintas!
– Claro que sim, venham vou apresentar vocês duas ao pessoal.
Foram apresentadas apenas como mãe e avó de Ayra. Havia muito mais pessoas do que quando Ayra viajara. Perguntou à professora:
– São representantes dos patrocinadores, interessados em tudo que possa dar lucro, mas parece que quando estão conosco na caverna, no templo ou na pirâmide, as coisas ficam menos visíveis. Então resolveram esperar no acampamento e verificam o que trazemos e já está catalogado, fotografado e tudo o mais.
– E conseguiram apanhar muita coisa? – Taila pergunta.
– Acho que nada de muita importância. Os aparelhos que não conseguimos entender ainda, não há como retirá-los e quando entram, uma barreira os esconde.
– Acho que mamãe não vai deixar nada ser usado apenas para lucros de alguns! – Iara afirma.
Logo todos estavam se alimentando. Gabriela disse que arrumaria uma barraca par elas dormirem.
– Não precisa, temos onde ficar, não se preocupe. – Taila agradece. – Talvez Anahi mostre a você mais tarde.
– Claro! Deveria ter imaginado. Então, está chegando a hora da abertura do portal?
– Está sim. A partir de amanhã, muita gente vai chegar. Sei que os representantes dos patrocinadores vão querer impedir, mas não há o que possam fazer, não se preocupe.
Depois de jantarem, foram dar uma volta com Gabriela, apenas para leva-la até o ponto onde Anahi fez a abertura para que todas entrassem na pirâmide.
Gabriela ficou completamente deslumbrada. Sumé-Aiyra entregou a ela um pequeno aparelho:
– Aqui está tanto a planta, como algumas fotos de todo o sítio e da antiga tribo. O aparelho está adaptado para seu computador, mas só funcionará com sua mão tocando-o, de mais ninguém. Peço que só o utilize depois que partirmos, porque já sei que não quer nos acompanhar.
– Pretendo mesmo ficar e escrever tudo sobre você!
– Aí também estão os locais e datas por onde passei e os nomes que me foram dados. Pode olhar à vontade, você será a única da expedição a fazê-lo. Depois que partirmos nada aqui ficará como está.
Gabriela não esperou outro convite. Ayra a acompanhou e viram que não teriam tempo de ver tudo antes do horário dos estudiosos dormirem e que Gabriela deveria estar lá fora com eles.
Quando o novo dia chegou, no mesmo local onde um dia existira uma tribo, havia algumas três grandes cabanas, construídas com material da floresta, como palha, troncos secos, cipós que estiveram caídos, nenhuma agressão à mata. Os guias da expedição ajudavam algumas pessoas estranhas a montarem mais duas com o mesmo material. Parecia que nascia ali uma nova tribo antiga. O idioma era totalmente dos povos originários.
Os representantes dos patrocinadores, assim que viram os cientistas parados olhando o inusitado, quiseram intervir.
– Hei! Quem são vocês? Não podem estar aqui, nem construir nada nesse terreno!
– Por que?
– Pertence à expedição.
– Você não é da expedição!
– Represento um dos patrocinadores e exijo que saiam daqui agora!
– Veja só, nós temos mais direito a estar aqui do que vocês todos, mais ainda do que os “patrocinadores”. Somos descendentes dos primeiros a pisar nesse solo.
O rapaz que respondia ao representante se virou e voltou a falar em tupi com os demais.
– Você! Você aí, estou apontando para você! É guia da expedição, nós pagamos vocês para isso e agora estão ajudando esses invasores?
– Não são invasores! Ele disse a verdade, seus ancestrais foram de Inkenaré-itá.
– Que diabos é isso? Inke… o que?
– É esse lugar que vieram estudar. Você nem sabe onde está, mas quer mandar os que têm direito de estar aqui, embora?
O homem fez sinal a alguns outros que pareciam seguranças.
– Nós vamos tirá-los daí.
O mesmo rapaz que estivera conversando antes com ele, voltou a falar.
– Eu não teria tanta certeza!
Gabriela chegou para verificar o que acontecia depois de alguém tê-la informado.
– O que está acontecendo aqui?
– Nada demais, professora, isso não te diz respeito, vamos expulsar esses invasores.
– Senhor, eles não são invasores. Vão chegar mais algumas pessoas, todas descendentes daqui, não há como impedi-los.
– É o que vamos descobrir! Vamos, tirem esse povo dali!
– Melhor não, senhor.
– Cumpram minha ordem!
Os homens avançaram e caíram. Todos em profundo sono. Os guias vieram, retiraram suas armas, alguns rapazes que montavam as cabanas resolveram ajudar, levaram os seguranças para as barracas deles. Jogaram as armas em um latão como se lixo fossem e, a munição no rio. E, voltaram para terminar as cabanas, sorrindo e brincando entre eles. O encarregado estava amedrontado.
– Pra que estão construindo esse acampamento?
– Algumas pessoas estão vindo se despedir dos que vão partir.
– Alguns como eu?
– Sim, querida Gabriela.
– Vocês me conhecem?
– Conhecemos todos como você, garota! Só depois que partirmos, vocês poderão entrar na pirâmide, então estamos fazendo algo parecido com os primórdios dos antepassados, antes da chegada dos Mẽpit – Monã, como foram chamados. Alguns amigos que tiveram condições estão vindo se despedir e quisemos mostrar como foi no começo.
Gabriela sorriu e agradeceu. Algumas fotos para seu livro e foi acrescentar mais algumas linhas no notebook. Naquela noite, muitos chegaram, alguns ficaram na “aldeia” recém-construída e a maioria sumiu próximo à pirâmide. Também foram chegando vários indígenas de tribos relativamente próximas, inclusive de uma tribo que não tiveram contato anterior com a civilização. Os estudiosos ficaram alvoroçados para tentarem se comunicar com eles.
Com a ajuda dos guias, tiveram um pequeno êxito, mas ficou claro que preferiam se manter isolados. Havia reverência para com os que partiriam.
Quando amanheceu, os seguranças não sabiam o que tinha acontecido, o representante dos patrocinadores desistiu de se impor, os cientistas tentando se inteirarem de tudo, tentando conversar com a pequena “população” da “aldeia”. A alimentação atrasou naquele dia, para todos.
O sol foi sumindo, o céu ficando estrelado, os indígenas e os que vieram se despedir, sentaram-se em semicírculo voltados para a pirâmide. Gabriela havia posicionado filmadoras em três pontos pré-determinados por Anahi. Ela teria um breve documentário, antes de lançar o livro que já tinha Editora escolhida, afinal os descendentes como Gabriela, estavam em muitas posições.
Quase ao mesmo tempo em que a Lua começou a surgir, Ayra saiu por uma porta, antes invisível na base da pirâmide. Logo atrás dela Sumé-Aiyra, como uma deusa e, naquele momento as pessoas do semicírculo, começaram a entoar uma saudação em idioma antigo, quase totalmente esquecido, registrado no subconsciente deles para aquela hora. A reverberação era imensa, mesmo a céu aberto. Parecia que a pirâmide recolhia o som e jogava ampliado para a floresta inteira.
Onde uma porta se abrira para que as duas saíssem, na mesma linha, a parede toda se afastou e os 280 estavam enfileirados, a maioria vistos pela primeira vez pelos humanos “normais”. Anahi e Ayra, tocaram as testas. Ayra sentou-se no chão em posição Padmasana, Anahi tocou-a como quando demonstrou que cuidava dela. Os chacras do plexo solar (Manipura), cardíaco (Anahata) e do terceiro olho (Ajna), começaram a se iluminar. Os que partiriam se juntaram ao Mantra dos demais. O som era Místico, quase Sagrado, Universal. Ayra flutuou.
Sumé-Aiyra fez-se energia e se colocou bem acima de Ayra, unindo-se a ela em um único feixe pulsante, ligando o maquinário dentro da pirâmide. A luz era intensa, a pirâmide tornou-se um grande círculo energético. Os 280 viraram-se, deram um passo a frente e desapareceram. Anahi desceu suavemente, envolveu Ayra e ambas flutuaram energia adentro. E tudo se apagou. O Mantra cessou, muitos choravam, todos emocionados.
Passado alguns minutos, Gabriela recolheu seu equipamento de filmagem. Alguns rapazes dos que vieram se despedir, abraçaram-na e foram carregando tudo, levando para sua barraca. Ela agradeceu e sem nenhuma palavra, entregou a eles seu notebook onde tudo estava descrito e pronto para ser impresso. Sorriram e se despediram. Dali, ela iria para casa, apenas para se municiar de dados, verificar os nomes que Anahi lhe dera e, contar novas histórias de Sumé-Aiyra.
Do outro lado do Universo, uma recepção calorosa, uma família que teria tempo para viver tranquila, usufruindo da presença da Guardiã do Caminho, até a hora que ela faria parte das membranas cósmicas que dividem as dimensões, quando então, seu único e primeiro amor, se uniria de vez a ela. Sua neta Ayra era especial, ainda visitaria outros mundos, onde seus ancestrais passaram e ajudaria-os na compreensão de que tudo tem seu Tempo e Propósito. Ela era Amor Atemporal e se tornaria Profecia.
FIM

