“Nos anos 1980, todo mundo era bissexual.” Afirmou, entre um gole e outro de Pepsi.
“Como assim, todo mundo era bissexual?” Eu, na minha onipotência juvenil, não queria acreditar no que estava ouvindo.
“Exatamente como estou dizendo.” Amassou a latinha e jogou no lixo reciclável. Pelo menos era ecológica.
“Todo mundo era bissexual, podia pender mais para um lado do que para outro, mas era “gilete” como diziam naquela época.” Olhou para mim, talvez para ver se eu havia entendido. “Entendeu? Gilete…corta dos dois lados.”
“Eu sei o que é gilete, mas hoje não se usa mais esse termo. É politicamente incorreto.”
“Sim, tem que ser tudo muito certinho. O vocabulário tem que ser clean. Gilete, viado, sapatão, puta, traveco, tudo coisa do século passado.” Abriu a bolsa e tirou de lá um tijolinho de maconha, pegou a seda e começou a montar o cigarro, o qual ela chamava de “beque”. “Veja o caso do beque, quando a gente queria convidar alguém para fumar era só dizer: ‘vamos dar uma bola’, ‘vamos apertar um’. Hoje, nem sei como vocês se referem a essa prática.”
“Não sei, não conheço os termos canábicos.” Abri o computador e acessei um dos sites lésbicos que seguia, talvez houvesse alguém online para conversar.
“Vai conversar com as suas amigas?” Esparramou-se na poltrona, pôs os pés sobre a mesinha de centro e acendeu o “beque”, pelo menos não fedia como cigarro. Ela sempre odiara cigarro.
“Não são minhas amigas, a gente troca uma ideia online, nunca as vi.” A conexão estava lenta, provavelmente por causa da chuva que caíra.
“Você sabe que até agora não consegui captar essa coisa de vocês, jovens lésbicas, se conhecem online, conversam online, fazem sexo online, mas ninguém menciona ter um tête-à-tête. Vocês não vão a bares, boates ou o que valha? No meu tempo era onde a gente se encontrava. Será que ninguém mais trepa no banheiro do bar?”
Senti meu rosto queimar. Sexo no banheiro do bar? Eu nunca nem pensara nisso, encostar onde todo mundo se encosta. “Eu não gosto de sair. E não sei se acharia alguém interessante em um bar.”
Ela se levantou. “Bom, não posso negar que é uma modalidade de sexo bem higiênica, não há contato.” Parece que ela lera meus pensamentos. “A não ser o contato espiritual. Ou também não tem esse tipo de contato?” Postou-se em pé atrás de mim e lia o chat que eu abrira na tela do laptop.
“Geralmente não, é difícil encontrar alguém que se proponha a cultivar um contato maior, é mais flerte e sexo online.”
Agora pusera os óculos e lia com mais atenção as conversas. “Mas isso parece mais coisa dos viados, as lésbicas sempre foram mais passionais, já querem ir morar junto e tudo e tal. Não funciona mais assim?”
“Funciona, o comportamento padrão não mudou. O que mudou foi o meio. Se der certo de o relacionamento virtual progredir, pode ser que em menos de um ano mais um casal esteja morando junto.” Agora ela puxara uma cadeira, estava mais e mais interessada.
“Nesse caso, seria como aquela seção de cartas do jornal para arrumar um par, só que com elementos mais ousados?”
“Mais ou menos isso. Quer experimentar? Conversar com alguém?” Ela parecia tentada.
“E pensar que nós nos achávamos “modernas”, saindo da ditatura, colhendo os frutos da revolução sexual, ouvindo rock nacional e fumando o melhor beque do planeta, aquele do verão de 19881.” O “beque” havia apagado e ela acendeu-o novamente. “Não quero conversar com ninguém. Como dizia o Renato Russo, sexo verbal não faz meu estilo.”
“Experimenta tia, não vai acontecer nada demais, ninguém vai te morder, é tudo virtual. Se você não gostar é só apertar esse botão aqui e sumir da web, como se nunca tivesse existido.” Resolvi insistir para ver se ela ficava de saco cheio e ia embora, assim eu poderia conversar com as meninas.
Mas para minha surpresa, ela mudou de ideia. “Me dá isso aqui, deixa eu ver como funciona.” Pegou o laptop e levou-o para o sofá.
“Tia, você tem meia hora no máximo, depois disso preciso falar com uma pessoa.”
“Não vou levar nem dez minutos.” E deu mais uma tragada no fininho, o qual parecia não acabar nunca. “Aproveita que você vai à cozinha e me traz uma taça de vinho. O branco que está na geladeira.”
Quando voltei com a taça de vinho, ela digitava sem parar. “Encontrou alguém para conversar?”
“Estou falando com uma mulher que diz ter minha idade, mas eu não estou acreditando, ela não sabe quem é a Angela Ro Rô2 nem quem foram os Dzi Croquettes3.”
“Isso é uma conversa ou uma prova oral sobre o papel da cultura pop na História do Brasil?”
Ela tomou um gole de vinho e, finalmente, apagou o beque. “Eu preciso me previnir, não tenho nenhuma intenção de me envolver com uma menina como você.”
“Mas você não vai se envolver com ninguém, é só um bate-papo.”
“Aprenda uma coisa enquanto estou aqui para te ensinar: a gente nunca sabe a intenção das pessoas, principalmente das pessoas virtuais. E se for uma louca?”
“Loucas a gente pode encontrar ao vivo também, não tem como saber até conhecer a pessoa.” Abri uma caixa de chocolate, me sentei ao seu lado e lancei um olhar para a tela.
Havia quatro conversas em andamento. “Você fez progressos, está conversando com quatro! Para quem não sabia nem como iniciar um bate-papo, é louvável.”
Ela me olhou por cima dos óculos, como costumava fazer quando eu falava demais. “Já estou acabando. Fora aquela que finge ter minha idade, apareceram mais três garotas de vinte anos. Se eu quisesse uma filha, teria ficado grávida quando era novinha.”
Me passou o laptop e saiu da sala. Fiquei olhando para as telas de conversa, as meninas já tinham saído e partido para outro bate-papo, a que se fazia de mais velha continuava digitando, talvez nem soubesse que não havia mais ninguém ali. Desliguei tudo e fui até o seu quarto, ela estava sentada no chão e brincava com a minha cachorrinha.
Me abaixei e a abracei. “O que foi?” Ela perguntou enquanto me afastava e olhava para mim com aquele olhar de céu.
“Me leva para passear?”
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Havia quase seis meses que eu viera morar com ela e ainda não me acostumara com a bagunça, na casa da minha mãe tudo ficava no lugar, não havia nem um grão de pó sobre os armários. Mas, ao menos, ela não me incomodava me mandando estudar, fazer isso ou aquilo, confiava em mim, assim como eu estava aprendendo a confiar nela. Porém, não estava sendo fácil a adaptação.
Ela era irmã da minha mãe, como vivia sozinha na capital e sabia que eu precisava de um lugar para ficar enquanto estudava para o vestibular, me convidou para morar em sua casa, havia espaço físico suficiente para nós duas, só não sabia se o espaço mental e emocional eram suficientes. Éramos o oposto uma da outra, e isso, somado à diferença de gerações, provocava uma mistura, muitas vezes, explosiva.
Quando eu resolvi sair do armário, minha mãe me disse: “eu sempre achei que você era muito parecida com a sua tia.” Ela não poderia estar mais enganada. Eu era um produto do começo da virada do milênio, criada em um mundo conectado, uma típica nativa digital, uma menina pertencente a iGeneration, meus valores eram muito diferentes dos da minha tia, a qual sobrevivera aos caóticos anos 1980 e agora dividia a casa e os dias comigo.
“Eu te levo para passear se você parar de me chamar de tia. Me chame Elô, ou, ao menos, tia Elô. Quando você me chama só de tia, eu me sinto uma velha de 100 anos e não uma jovem senhora de cinquenta e cinco.” Levantou-se e foi até o banheiro. “Vou tomar um banho, depois podemos sair.”
Enquanto ela tomava banho, fui pôr a coleira na minha cachorra, que se tomara de amores pela Elô e insistia em passar horas deitada no quarto dela. O que não era de estranhar, afinal fora ela quem me dera a cachorrinha, disse que me achava muito triste e que nada melhor do que ter que cuidar de alguém para a tristeza sumir, e, assim, fomos as duas à feirinha de adoção que havia perto de casa. Havia uma infinidade de cachorros esperando por um lar, andamos de lá para cá olhando os cães, pegando-os, brincando com eles, e eu não conseguia me decidir.
“Escolha o que você achar que mais precisa de sua ajuda.” Elô me falou enquanto esperava pela minha decisão.
Ao ouvi-la, não tive mais dúvidas, peguei uma cachorrinha branca e peluda que devia ter perto de dez anos. Ao preencher a ficha de adoção, a moça da ONG me agradeceu, pois dificilmente os cães mais velhos são adotados.
A porta do banheiro fez barulho ao abrir, o que me trouxe de volta ao presente. Terminei de ajeitar a coleira e saí. “Vou esperar na sala.”
Depois de uns minutos ouvi uma música vindo do quarto, logo identifiquei a voz de Inger Marie Gundersen4, a Elô sempre a ouvia quando estava se arrumando, era como um ritual. Bati na porta. “Tia…Elô, queria pegar o que resta do sol. Vai demorar?” Nunca vi ninguém demorar tanto para se arrumar, ela não era ligada em roupas, mas até passar o óleo pelo corpo todo e o perfume, suas únicas vaidades, levava uma eternidade.
“Estou pronta. Vamos?” Pegou um chapéu Panamá aba larga que deixava pendurado no cabideiro da sala e saímos.
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A luz do fim de tarde era um emaranhado de tons amarelos com uns poucos fios vermelhos que começavam a se esparramar. Descemos a rua até chegar ao parque que ficava atrás de nossa casa. Depois de uma caminhada em silêncio pelas trilhas do parque, nos acomodamos numa cafeteria que ficava de frente para o lago, o qual àquela hora tinha a superfície quase toda dourada.
“Cacau, você vai querer um café ou algo gelado?” Me perguntou enquanto acenava para o garçom. Ela sabia que “Cacau” não era meu apelido preferido, mas como todos me chamavam assim desde bebê, por que ela haveria de me poupar?
“Ice Tea de pessêgo, por favor.” Amarrei a guia da Lelé no pé da mesa e ela se deitou embaixo da minha cadeira.
“Para mim um café expresso, sem açúcar e sem leite.” O garçom anotou e nos deixou a sós.
Pus meu smartphone sobre a mesa e logo ele começou a vibrar, peguei-o e comecei a responder uma mensagem.
“Você precisa responder agora? Não podemos simplesmente aproveitar o final da tarde? Foi você quem quis sair.” O garçom chegou com nosso pedido e ela parou de falar.
“Já estou terminando, é uma mensagem importante.” Tentei responder o mais rápido possível e coloquei o smartphone dentro da mochila.
“Era alguma namoradinha?” Ela tirou os óculos de sol e colocou-os sobre a mesa. Era uma mulher atraente, alta, com o cabelo bem curto e com poucos fios brancos, provavelmente, seu cabelo iria branquear muito mais tarde, como o pai dela, e olhos azuis claros e luminosos como dois faróis. Quando sorria, o que era frequente, as marcas de expressão em volta dos olhos e da boca ficavam evidentes, o que eu achava muito charmoso.
“Não. É só alguém do chat. Começamos a conversar fora do ambiente do site. Ela parece ser uma pessoa bacana.” Não queria dar muitos detalhes, pois sabia que com essas poucas informações ela já me cravaria de perguntas.
“Por que você não a convida para ir lá em casa?”
“Claro que não vou fazer isso. Nem sei se vamos nos encontrar um dia, só estamos conversando online, ela nem mora aqui.”
“Se vocês tiverem um real interesse uma pela outra vão dar um jeito de se encontrar. Eu já cheguei a viajar a noite toda de ônibus para visitar uma pessoa que amei.”
Chamei o garçom e pedi um copo, não gostava de beber nada usando canudinho. “Acho que por enquanto não é necessário a gente se encontrar, está bom desse jeito.”
“Você tem medo de ‘ao vivo’ ser diferente? Quebrar o encanto?” Ela tomou um gole do café e me olhou esperando uma resposta que a convencesse não sei do quê.
“Não é isso, só não quero compromisso. Falo com ela e com mais outras meninas, não preciso dar privilégios a nenhuma delas.” Terminei meu ice tea e perguntei se podíamos ir caminhar mais um pouco antes que escurecesse totalmente.
Quando chegamos em casa, resolvi perguntar o que estava me atormentando desde a conversa na cafeteria. Minha curiosidade não me deixaria dormir em paz. “Quem era essa pessoa que você viajava a noite toda para ver?”
A vida sentimental da Elô sempre fora um segredo para a família. Todo mundo sabia que ela era lésbica, mas ninguém comentava nem perguntava nada, e como ela saíra de casa quando foi fazer faculdade e depois disso continuou morando sozinha, nunca se sentiu obrigada a dividir sua vida privada com as irmãs ou com quem quer que fosse.
“Você nunca leu nenhum dos meus livros, não é?”
Não, eu nunca havia lido nada que ela escrevera, nem os livros de ficção, nem os relativos ao curso que ministrava na faculdade. Sempre soube que ela era uma professora muito respeitada em sua área e que seus livros de ficção eram bem comentados, mas nunca me interessara em lê-los. Eu nunca lera muito coisa além da coleção do Harry Potter e dos livros obrigatórios na escola. Não me restava outra alternativa a não ser confessar que não os lera.
“Se você tivesse lido, talvez soubesse mais a meu respeito. Minha vida está toda lá, em forma de ficção.” Ela sorriu para mim com condescendência e foi até a cozinha preparar o jantar.
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À noite, antes de dormir, aproveitei que estava navegando e procurei por alguma versão digital dos livros da Elô. Não queria pegar nenhum dos livros que havia na casa, na verdade não queria que ela soubesse que eu estava, de um jeito ou de outro, fuçando em sua vida. Tenho certeza que se eu insistisse nas minhas perguntas ela acabaria respondendo, mas preferia descobrir por mim mesma, acho que morreria de vergonha quando ela começasse a me responder daquela maneira tão desbocada que ela tem de falar.
Não achei nenhum disponível para free download, mas na livraria virtual havia três de ficção e um acadêmico. Um deles era de contos, este estava descartado, o outro era um romance histórico, também não me traria nenhuma novidade, porém o terceiro era o que eu buscava. A sinopse falava que o livro deixava o leitor em dúvida, se a narrativa era mesmo ficcional ou se a escritora usou muito de sua biografia para compor o livro. Era isso o que eu buscava, cliquei e imediatamente já estava entregue para ser lido.
No final de semana, vi Elô só durante as refeições. Ela estava ocupada corrigindo uns trabalhos e eu dividida entre as apostilas, o chat com as garotas e o livro. Como, praticamente, todas estas atividades eram online, pude me sentar na mesa do jardim com o laptop e tomar um pouco de sol, que naquele outono andava escasso. A Elô parece ter sentido a mesma necessidade de sol, pois no domingo a tarde quando cheguei à mesa, ela já estava sentada por lá com um maço de papéis.
“Olá, estranha.” Disse ao me ver puxando a cadeira para sentar. “Precisa de uma extensão para ligar o seu computador?”
“Não, a bateria está carregada. Obrigada.”
Ela abaixou a cabeça e continuou concentrada nos trabalhos. Eu estava apenas no começo do livro e já tinha um milhão de perguntas a fazer, mas achei melhor deixá-la e ir para o meu encontro virtual. Coloquei meu fone de ouvido e abri o Whatsapp Web para conversar. Senti o olhar da Elô sobre mim enquanto eu digitava. Não demorou muito e ela começou a me interrogar.
“Eu queria te fazer uma pergunta, e espero que você não se ofenda.” Colocou os óculos e o trabalho que corrigia sobre a mesa. “Você já transou com alguma mulher…ao vivo? Não me responda que já ‘ficou’, quero saber se transou mesmo, de tirar a roupa, deitar na cama e fazer de tudo, e bem feito.”
Senti minhas orelhas pegando fogo, um ardor que logo tomou conta do meu rosto todo. Olhei para a tela e vi que a garota com quem falava mandava mensagens sem parar, diminui a tela de conversa e me endireitei na cadeira. Não conseguia fazer com que minha voz saísse. Puxei uma força de dentro de mim que fez com que eu vocalizasse algumas palavras.
“Não, mas já passei pelas preliminares com uma ex-colega de escola.”
“Vocês eram namoradas?” Pela primeira vez desde que eu chegara a sua casa, ela não demonstrava ironia e parecia realmente interessada em ouvir sobre mim.
Resolvi me desarmar, um pouco. “Não sei, acho que não. Acho que apenas tivemos um caso. Foram só uns encontros durante todo o segundo ano do ensino médio. Quando chegou o final do ano, a família dela mudou de cidade.”
“Foi quando você saiu do armário para sua mãe?”
“Sim. Ela me pressionou um pouco e eu falei. Eu sabia que ela não iria surtar. Ela nunca teve problemas quanto a você ser lésbica.”
“Não, nunca teve, mas eu não sou filha dela. Talvez, devido a esse pequeno detalhe, as coisas complicassem para você.” Ela tinha, definitivamente, deixado os trabalhos de lado.
“Felizmente, não foi o que aconteceu. Disse que o amor dela por mim não era subordinado a com quem eu dormia.” Levantei-me para buscar um copo d’água.
“Trouxe uma Pepsi para você.” Coloquei a latinha na frente dela. “Eu comecei a ler o seu livro.” Não tinha certeza nenhuma se devia ter lhe dito sobre a minha leitura, porém a intimidade do momento me levou a isso.
Ela me olhou e levantou as sobrancelhas, como sempre fazia quando estava, de fato, surpresa com algo. “Mas eu não dei falta de nenhum livro, será que estou ficando velha e descuidada?” Ela sempre sabia o movimento dos livros, se eles se mexiam, subiam ou desciam, às vezes acho que seus livros eram uma das poucas coisas em que ela prestava atenção, eles faziam parte de um universo que pertencia só a ela e a que poucos eram convidados a entrar.
“Eu comprei um, em formato digital.”
“Qual deles?” Tomou um gole da Pepsi e chamou a Lelé, que resolvera aparecer por ali.
“ Estranho é o amor quando já não está.”
Alguma sombra que até então eu nunca vira em ninguém passou por seus olhos, parecia um misto de saudade, lembranças e no fundo um ponto de tristeza, mas foi difícil para eu entender a extensão daquela sombra, provavelmente devido a minha escassa experiência de vida.
“Esse livro tem um significado muito especial, todos têm, mas esse foi o que eu coloquei mais de mim.”
“Então é verdade o que li sobre o livro, que é autobiográfico?” Vi uma mensagem piscando na tela e resolvi responder (Falo com vc às 20h. Bj.). Fechei o laptop e fiquei atenta a resposta da Elô.
“Não, é ficção, com muitas partes da minha vida, porém ficção.”
“Tia Elô, ou é ficção ou não, ou, no máximo, um mix dos dois.”
“Cacau, escrever não é algo simples, sempre há um tanto de verdade, porém, algumas vezes, uma dose de ficção precisa tomar o comando da história para que alguns ajustes narrativos sejam feitos.”
“Vou ler um trecho que achei interessante e você me diz o quanto tem de verdade e o quanto tem de ficção.” Peguei o smartphone e procurei o trecho. “A lembrança dela, muitas vezes, me escapa. O formato do rosto, a textura do cabelo, o jeito de olhar para as pessoas com quem conversava, a voz. O que mais me acompanhou, e ainda acompanha, durante esses anos todos, foi a última vez que nos vimos. Ela entrando num táxi e eu acenando do portão. Será assim que o amor se perde, com um olhar demorado, com um aceno de mão, com um ‘até breve’?”
Quando terminei de ler, desliguei o aplicativo e levantei meus olhos. Ela chorava, silenciosamente, e eu que nunca a imaginei chorando por nada, de tão emocionada, não sabia o que fazer.
1Verão de 1988
Também conhecido como o verão da lata. No verão de 1987-1988, o navio Solana Star, vindo de Cingapura, despejou no litoral brasileiro 22 toneladas de maconha embalada em latas de alumínio. Quando as latas chegaram às praias, os veranistas as coletaram e passaram a consumir, e alguns a vender, a erva. O verão de 1988 é considerado o último verão com ares de liberdade, antes da chegada do neoliberalismo e dos yuppies dos anos 1990.
2 Angela Ro Ro
Cantora, compositora e pianista brasileira. Muito conhecida nos anos 1980, tanto por suas músicas quanto pela rouquidão de sua voz. Angela Ro Ro foi uma das primeiras artistas brasileiras a assumir sua homossexualidade publicamente.
3 Dzi Croquettes
Grupo de teatro e dança brasileiro que atuou nos anos 1970. Formado por homens, a androginia do grupo chocou as autoridades do regime militar brasileiro e o espetáculo foi censurado. A trupe se exilou em Paris, onde estreou na casa de shows Le Palace, sendo um enorme sucesso de público.
4 Inger Marie Gundersen
Cantora de jazz de origem norueguesa.


Deliciosa leitura, Fabiula. Estou contente por começar a conhecer a sua obra.
🙂
Muito obrigada, Lara Lunna.
Um grande abraço para vc.
Que ótimo te ver por aqui! Obrigada por brindar as leitoras com este livro, que particularmente achei maravilhoso! Reler é sempre bom. Abraços
Oi, Naty! Eu que agradeço por vc sempre acompanhar meu trabalho. Um beijo.
oiee.. fabiula
que maravilha de conto adorei o primeiro capítulo.
ansiosa já pra ler os próximos capítulos.
seja bem vinda, e que nesse seu retorno vc nos traga boas histórias.
Olá, Lusilene! Muito obrigada!
Continue acompanhando, toda quarta vem um capítulo novo.
Beijinhos
Que conto maravilhoso. Tem continuação? Diz que sim…
Oii Sthefanie!! Sim, tem continuação! É um livro, vou postar um capítulo por semana. Sempre às quartas. Beijinhos.