Quando Elô bateu na porta, eu havia acabado de desligar o laptop. Peguei um casaco, dei um beijo na Lelé e saí.
“O que você acha de irmos até a cidade comer uma pasta? Será mais divertido do que jantar por aqui.” Ela parecia renovada depois de um tempo na hidro. Concordei, afinal quem recusaria uma boa pasta?
Fomos a uma cantina que ficava na rua principal da cidade, uma ruela calçada com pedras na qual não passava carro. Deixamos o carro numa rua lateral e fomos andando sem pressa, à noite estava um pouco fria, mas agradável.
A cantina ficava num porão, as portas eram em formato de arco, o que junto com a decoração dava ao lugar um aspecto medieval. “Elô, você queria vir aqui por causa da decoração, não é? Esse lugar é uma cápsula do tempo.”
“Não, queria vir por causa da comida mesmo, é muito boa, e como você e eu gostamos de pasta, veio a calhar.” Chamou o garçom e pediu uma mesa.
Quando a comida chegou e ela já estava tomando um vinho e falando banalidades, tentei levar a conversa para o livro. “Eu notei uma coisa em seu livro.”
“O quê?” Tomou um gole de vinho.
“Você não cita o nome dessa mulher, a do livro. Por quê?”
Ela demorou para responder, como se estivesse pensando na melhor resposta para a minha pergunta. Colocou mais vinho na taça, chamou o garçom e pediu água, e só depois falou.
“Porque eu não queria colocar o nome dela no livro e também não queria inventar um outro nome. Ambas situações seriam dolorosas, esquecê-la foi um processo muito complicado e demorado, às vezes, eu acho que até hoje ainda tem um resquício dela dentro de mim, como um aborto mal feito. Foi uma forma de me proteger.” Bebeu um pouco de água, me olhou e sorriu. “E não vou te dar spoilers, leia o livro até o final.”
“Não quero saber o que aconteceu com vocês, isso posso ler, todo mundo pode. Quero saber como você conseguiu escrever aquilo tudo, reviver não te fez sofrer mais?”
E, novamente, a sombra apareceu em seus olhos. “Eu precisava, eu tinha que, de alguma maneira, arrancar de mim todo o meu sentimento por ela, todo o desamor que recebi. E, para mim, escrever sempre foi a maneira mais fácil de exteriorizar tudo o que sinto. Escrever é uma catarse, Cacau.”
“E resolveu?”
“Eu diria que me ajudou bastante. Quer pedir sobremesa?”
Era incrível como ela conseguia, quando queria, cortar um assunto sem nem piscar ou mudar de expressão. Deviam ser anos de prática, e tal prática me irritava profundamente. “Não, quero voltar para o hotel. Não quero deixar a Lelé sozinha por muito tempo.”
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No dia seguinte quase não vi a Elô, ela se manteve ocupada com o evento para o qual fora convidada e eu aproveitei para explorar a região junto com a Lelé. Coloquei minha câmera fotográfica dentro da mochila, uma blusa de moleton, água para a Lelé e pedi o carro da Elô emprestado. Ela estava tão ocupada que me passou a chave e o documento sem nem perguntar aonde eu ia, a única coisa que disse foi para eu me cuidar.
Seguia as placas que conduziam a um mirante que segundo diziam proporcionava uma vista total da região. Dirigi por estradinhas de terra cercadas por hortênsias que me levavam cada vez mais para cima das montanhas. Era uma região fria, com um ar seco e um céu azul como só se via em locais destituídos de gente, carro, barulho e poluição.
Depois de quase vinte minutos de subida, cheguei a uma encruzilhada e peguei à direita, como indicava uma das plaquinhas de madeira penduradas em um portal. Andei mais dez minutos e cheguei ao mirante.
Como não havia ninguém lá, eu e Lelé pudemos ficar à vontade e desfrutar da paisagem. Era possível avistar tudo, a cidade, o rio, um horizonte sem fim de árvores e umas casas aqui, outras ali, que pareciam mais com pontos perdidos no meio do nada.
Peguei uma manta que havia dentro do carro, coloquei-a em um canto, ao lado de uma pedra enorme, e me sentei, dali podia apreciar a vista e ficar protegida do vento que não dava trégua.
A esta hora, devia estar estudando e não acompanhando minha tia e apreciando vistas espetaculares, mas estava ali, então resolvi seguir o conselho da Elô e relaxar, afinal como ela sempre me dizia: “o mundo não vai desmoronar porque você decidiu ser feliz por alguns minutos.”
Ali não havia sinal de nada, nem de celular, muito menos wifi. Recostei-me na pedra e fiquei olhando Lelé cheirar cada centímetro do chão, ouvia apenas o som do vento e isso foi me fazendo relaxar, para não me desligar totalmente e dormir chamei a Lelé para perto de mim, liguei o aplicativo de leitura e me pus a ler, tinha chão até terminar o livro da Elô.
“No dia seguinte, quando acordei, ela já não estava mais. Deixara um bilhete dizendo que nossa noite havia sido como um sonho e que tentaria entrar em contato comigo assim que possível.
Aquele era o último dia do encontro, e eu a procurei pela plateia e pelo hotel, me informaram que ela tinha partido pela manhã. À noite, fui eu quem partiu.
Ao abrir a porta de casa e deixar as malas na sala, olhei em volta e meu sentimento era um misto de felicidade, esperança e vazio, eu tinha 45 anos e até então nunca havia sentido uma confusão tão grande dentro de mim. Não sabia quando falaria com ela novamente, quando a veria de novo, no bilhete havia o número do celular, sem endereço. Não morávamos na mesma cidade, o que, provavelmente, tornaria um outro encontro um pouco complicado.
Logo, retomei minha rotina de aulas e viagens, e o improvável ia se concretizando, a saudade que invadia todos os meus poros, saudade de algo não vivido, de alguém que eu não conhecia e ao mesmo tempo – estranhamente – sentia conhecer tão bem.
Uns dez dias depois de tê-la encontrado (ou seria reencontrado?), cheguei à faculdade e ao abrir os e-mails vi que havia uma mensagem com o nome dela na caixa de entrada. Dizia que havia pego meu e-mail no evento e que só depois lembrara que não havia posto o e-mail dela no bilhete, que até se dar conta desse detalhe, esperou em vão por um contato meu.
[Nesses dez dias, li seus livros (claro que não todos) e pensei muito em você. Sinto sua falta, mas é uma falta de alguém que eu conheço há muito tempo, não de alguém que encontrei há apenas dez dias. Quando eu fui embora do hotel, senti como se tivessem te arrancado de mim. Você pode achar isso estranho, mas eu sinto você comigo o tempo todo, seja quando durmo, seja quando estou acordada, sinto sua presença, seu cheiro; e isso me faz uma pessoa mais feliz. Espero que você esteja bem e me mande notícias.]
Ao terminar de ler o e-mail reclinei-me em minha cadeira, olhei pela janela os alunos se movimentando no pátio da faculdade, alguns indo para a aula, outros conversando em grupos, outros sentados sozinhos com um livro na mão, os pássaros que começavam a se esconder da chuva que vinha se anunciando, enfim, a vida que não para nunca diante de nossos sentimentos, ou de nossas dores, ou da nossa saudade, e senti as lágrimas correrem pela minha face. A sincronia do que sentíamos, do que pensávamos, fez com que sentimentos que estavam há muito assentados em algum canto da minha alma flutuassem e atingissem a superfície.”
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Pela posição do sol e pelo barulho que minha barriga fazia o dia já ia se aproximando da metade. Confirmei o horário no celular, recolhi tudo, ajeitei a Lelé no banco de trás do carro e desci para a cidade.
No caminho ia pensando em tudo o que lera, na potência do que Elô sentira pela mulher que ela insistia em deixar sem nome. Como um sentimento de tal envergadura pôde surgir em tão pouco tempo? Sempre ouvi dizer que o amor precisa de tempo para se estabelecer dentro da gente, mas para mim não havia dúvida de que o que ela sentiu foi amor, um amor enorme.
E estava tão perdida com esses pensamentos que não ouvi nem o celular tocar, só vi que havia uma chamada quando cheguei à cidade e desci do carro. Era uma das minhas amigas, deixou um recado perguntando onde eu andava, disse que estava sentindo falta de conversar comigo e se podíamos falar à noite. Não respondi de imediato, pois não sabia se queria falar com ela. Alguma coisa dentro de mim parecia estar não se adequando mais, tudo o que eu estava lendo, tudo o que a Elô me dizia, de alguma forma, estava me fazendo pensar sobre os meus próprios sentimentos. Talvez ela estivesse certa, talvez eu devesse me encontrar com as pessoas, mostrar minha cara.
Escolhi um restaurante em que pudesse sentar do lado de fora, por causa da Lelé. Pedi uma água com gás, uma salada e um steak mal passado, se estivesse com a Elô provavelmente não comeria o steak, ela não comia carne há muitos anos e não podia nem ver sangue, mas como estava sozinha iria aproveitar e, ainda, dar o osso para a Lelé.
Quando terminei, fui andando até a sorveteria, minha fome agora era de sundae de chocolate. Quando a moça trouxe meu sorvete e perguntou se eu queria água também, ouvi minha voz engasgar. “Não….sim, quero sim.” Ela era parecida demais com a minha namoradinha do colégio, tão parecida que até pensei que fosse ela.
Fiquei observando como ela gingava o quadril para andar e balançava o rabo de cavalo de um lado para o outro. Quando voltou com a água, tentei puxar conversa, perguntei sobre a cidade, os pontos turísticos e se ela trabalhava o dia todo. Era extremamente simpática, ou, talvez, só estivesse querendo agradar a cliente.
Depois que ela voltou ao trabalho, como eu ainda tinha tempo, resolvi ficar por ali mais um pouco. Primeiro, liguei para a Elô perguntando se ela precisava do carro, como ela disse que não pretendia e não podia sair do hotel, me ajeitei na cadeira, pedi mais um sorvete e acionei o aplicativo de leitura do celular.
“Respondi ao e-mail dela no mesmo dia. Tentei conter minhas palavras, mas só até o segundo parágrafo, dali para a frente disse tudo o que sentia desde o nosso encontro no hotel. Que a saudade que tomava conta de mim não era algo normal de sentir por alguém que na verdade eu nem conhecia, e que muitas vezes me peguei pensando em como tudo isso era uma loucura, que eu não sabia quem ela era, não sabia seus gostos, seus desgostos, o que a deixava feliz, nem o que a machucava. Além de algumas referências literárias e de que ela odiava azeitona, eu não sabia de mais nada, e ainda assim só assistia impassível ao meu sentimento por ela crescer a cada minuto e quase me sufocar. Muitas vezes, me sentia como as meninas para quem eu dava aula, que se apaixonam do dia para noite. Mas o apaixonar-se não seria assim mesmo? Ou devíamos sentir diferente com a idade? Afinal, não éramos mais jovens. Por mais que eu me questionasse, não conseguia achar nenhuma resposta, eu era só sentimento. Quando cliquei no enviar, ainda havia uma ponta de medo dentro de mim. Não teria sido melhor deixar isso tudo restrito àquela noite?
Quando cheguei em casa, no final do dia, havia um recado na porta, era de uma amiga minha, a Bia. Ela dizia que tinha passado para me ver, que voltaria à noite e que traria o jantar para nós duas. Estar com ela em casa, e, principalmente, despender minha noite com ela, não estava nos meus planos, o que eu queria mesmo era ficar comigo, pensar sobre os e-mails que trocamos e todo esse sentimento que estava rolando.
Bia chegou perto das nove. Éramos amigas que, às vezes, dormíamos juntas e envolvermo-nos com outras pessoas sempre fez parte do nosso contrato.
– Nossa Elô, tá com pressa? Pensei que fôssemos beber alguma coisa antes de jantar, conversar um pouco. – Quando ela entrou eu já estava com a mesa arrumada.
Pedi desculpas, e disse que claro que iríamos beber algo antes. Abri um vinho para ela e peguei um conhaque para mim. Bia me contou sobre como estava indo no trabalho novo, disse que pretendia viajar no final do ano e me perguntou o que eu estava lendo.
– Esses últimos dias estou lendo só as coisas da faculdade. Depois que acabar as bancas de avaliação dos alunos tenho um livro de contos para ler.
– Eu comprei um livro de contos outro dia, é maravilhoso, uma escritora nova. São contos de relacionamento entre mulheres, todas as categorias de relacionamento que você imaginar. Vou pegá-lo, está na minha bolsa.
Quando ela me mostrou o livro e eu vi o nome na capa, senti meus olhos umedecerem. A mesma sensação que percorreu minha espinha quando fizemos amor no hotel tomou conta de mim novamente, e senti o fio que nos ligava me puxando. Engoli as lágrimas que insistiam em chegar e pedi a Bia que fôssemos jantar.”
– Tá tudo bem com você, Elô? Tô te achando muito esquisita hoje, quieta, não me deixa chegar perto, com pressa.
Ela tinha razão, até eu estava me estranhando. Todas as vezes que ela tentara me tocar, eu me retraíra. Seu toque estava áspero, seco, não me inspirava nenhuma vontade. Porém, eu sabia que o problema não era ela, era eu que estava sentindo diferente.
Dei uma desculpa que com certeza não deve ter colado, mas ela me conhecia tão bem, e há tanto tempo, que preferiu não me perguntar mais nada por enquanto, respeitou meu desejo de ficar sozinha.
Depois que a Bia saiu, fui tomar um banho e ver se havia alguma mensagem na caixa de e-mail.
[Senti meu coração saltar quando abri o e-mail e vi sua mensagem, você conseguiu iluminar o resto do meu dia, deixá-lo mais leve e suportável. Eu sei que tudo o que estamos sentindo parece uma loucura de adolescente, e é exatamente assim que me sinto quando penso em você, como uma adolescente. No entanto, eu não consigo me desligar disso, se eu pudesse eu deixaria tudo se extinguir, mas não posso, é muito forte. Todos os meus átomos pedem por você.]”
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Fechei o aplicativo, não conseguiria ler mais nada naquele momento. Nunca havia sequer vislumbrado tal nível de sentimento entre duas pessoas. Ou a Elô escrevia muito, ou o que ela sentira foi avassalador. Eu, que estava me tornando fã dela, colocava minhas fichas nas duas possibilidades. Sua história me deixava sem fôlego.
“Aproveitou bem seu tempo aqui?” Perguntou a moça, quando fui pagar os sorvetes.
“Muito. Espero voltar em breve.”
“Você está hospedada onde?”
“No hotel fazenda. Fico até domingo.” Segurava meu cartão esperando pela máquina.
“Se você quiser conhecer um pouco mais daqui posso te mostrar. Eu sempre saio às 18h, mas no sábado não vou trabalhar.” Me passou a máquina para o cartão e roçou seu dedo no meu.
“Eu gostaria muito.”
Ela me deu um papel com o número do seu telefone e me despedi com um sorriso no rosto.
Quando deixei o carro no estacionamento do hotel o dia já estava acabando e a cor do céu me lembrou das minhas caminhadas com a Elô, era mais ou menos a essa hora que ela saía para andar. Percebi que sentira sua falta durante o dia, talvez por ela estar de certa forma o dia todo comigo. Corri para o quarto, dei comida e água para a Lelé, que àquela altura estava exausta, tomei um banho e fui procurar pela Elô.
Ela estava subindo para o quarto quando a encontrei. “Vamos tomar um drink?” Convidei-a. “Para relaxar, você parece cansada.”
“Estou cansada é dessas reuniões intermináveis que levam do nada para o lugar nenhum. A burocracia é a parte chata do mundo acadêmico, e, lógico, as vaidades.” Nos dirigimos para o bar do hotel.
“O que você quer beber?”
“Uma cerveja sem álcool.”
“Tem certeza, não quer outra coisa? Aproveita que hoje estou boazinha com você.” Disse a ela que não, só cerveja mesmo.
“Cerveja sem álcool e uma dose de conhaque Fundador.” Pediu ao garçom.
Ela ficou me olhando demoradamente. “O que você fez o dia todo? Você está diferente, aconteceu alguma coisa?”
“Não fiz nada de especial. Fui visitar o mirante, andei por aí, almocei na cidade, tomei sorvete, li seu livro e conheci uma pessoa. Quer dizer, não sei ao certo a intenção dela, nem a minha, mas vamos nos encontrar no sábado.”
“Nossa Cacau, quanto coisa. Tô começando a achar minha vida desinteressante perto da sua.” E riu daquele jeito aberto e franco que só ela sabia fazer. “Quem é essa pessoa?”
“Trabalha na sorveteria. Não quero criar expectativas.” Disse com a voz baixa.
“Não crie, apenas aproveite o momento. No quesito amor, atração e que tais, o pior que existe são as expectativas, elas podem ser nossas piores inimigas.”
“Por que você diz isso?”
“Porque eu acho que não se pode criar nenhum tipo de expectativa quando se trata da vida – e do amor –, você pode ter esperanças, mas não expectativas. Sabe a música do Caetano: então tá combinado, é quase nada…é isso.”
Deixei ela acabar de falar e completei a canção. “Mas e se o amor já está, se há muito tempo que chegou e só nos enganou?”


apesar que eu estou atrasada na leitura da sua historia, adorei esse capitulo
irei me organizar para poder acompanhar todas as atualizações de sua historia.
Oi, Lusilene!
Obrigada pelo carinho.
Beijo grande para vc.
Que história incrível, apaixonada pelas personagens e pela sensibilidade que sentimos em cada palavra.
Ansiosa pelo próximo capítulo. ?
Oi, Marcela!! Obrigada pelos seus comentários sempre tão gentis.
Um beijinho para vc.