Todo Sentimento

“Até hoje, me pergunto se as coisas não teriam sido diferentes se, da minha parte, não houvesse tanta urgência em encontrá-la novamente. Essa história é cheia de “e se, talvez…”, e esses “e se..” que montam residência dentro da gente podem ser inquilinos muito inconvenientes.

Mas não foi o que aconteceu, e eu não posso ficar tentando refazer os passos que dei até chegar onde estou agora, afinal eles estão no passado, e o passado não se reconstrói, ele pertence a uma outra dimensão de tempo e espaço e, quem sabe, apenas pessoas especiais possam alcançá-lo, e eu, definitivamente, não faço parte desse grupo de seres.

Depois de um tempo, nossa troca de e-mail passou a ser constante e, praticamente, diária. Nosso reconhecimento aumentava na mesma medida que a frequência da nossa comunicação, porém quando ela mencionava um encontro era sempre num universo paralelo, não no mundo real e concreto. Muitas vezes, me pego pensando se para ela isso não teria sido o ideal, viver um romance à distância, se tal situação não alimentaria sua alma literária.

No entanto, a gravidade da Terra me puxava para baixo, e eu queria de qualquer maneira encontrá-la de novo, minha alma literária, ao contrário, se alimentava da realidade. Porém, isso eu só consegui vislumbrar muito tempo depois. E foi no meio desse embate entre duas almas tão criativas, que decidimos, depois de meses, nos ver.”

Eram 10 horas do sábado  quando parei de ler e peguei o papel com o telefone da moça da sorveteria. Digitei o número e esperei até que alguém atendesse.

“Bom dia, a Lucy, por favor.”

“Oi, sou eu. É a garota que estava na sorveteria, não é?”

Senti um calor subir pelo pescoço e rosto, me olhei no espelho que havia no quarto e vi que as minhas orelhas estavam escarlate. “Sim, sou eu, Cacau…Cláudia. Como você disse que eu podia ligar, tomei a liberdade.”

Ela deu uma risada e disse que preferia me chamar de Cacau, se eu não me importasse, e que estava aguardando minha ligação. Combinei de encontrá-la na sorveteria dentro de meia hora. Arrumei minhas coisas na mochila, pus a guia na Lelé e enviei uma mensagem pedindo para a Elô me encontrar no saguão, precisava da chave do carro.

“Vai onde?” Ela parecia estar sem pressa, devia estar no intervalo entre a apresentação de um painel e outro.

“Encontrar a moça da sorveteria, estou atrasada.” Não queria me prender ali, primeiro porque tinha no máximo meia hora para pegar a Lucy, segundo porque não queria que a Elô me enchesse de perguntas.

“Hum, não fique tão tímida e aproveite bem. Me avise se for demorar muito. Você pode achar que não ligo para nada, mas me preocupo com você, quero vê-la feliz.” Depois desse discurso me abraçou e perguntou se eu precisava de dinheiro, coisa que ela nunca fazia.

Quando cheguei à sorveteria, Lucy já estava esperando com uma mochila nas costas e uma cesta na mão. Ao entrar no carro ela me beijou no rosto e pegou a Lelé no colo, como se nos conhecêssemos há tempos.

“Trouxe umas coisas para comermos mais tarde.”

Ela ia me indicando o caminho a seguir e quando me dei conta tínhamos pego a rodovia e deixado a cidade para trás. Não perguntei onde íamos, para mim tanto fazia, o que importava é que naquele momento eu me sentia feliz.

Em um ponto da rodovia entramos à direita numa estrada de terra que ladeava um rio, pelo aspecto era o mesmo que passava pela cidade, um rio cheio de pedras. Andamos por uns vinte minutos e chegamos a um portão grande de ferro que estava fechado com cadeado. Lucy desceu, tirou uma chave do bolso e abriu o portão.

Eu entrei e ela fez sinal para que eu fosse em frente. Vi pelo retrovisor quando ela fechou o portão e veio andando atrás do carro, e não pude deixar de reparar, novamente, em como ela mexia o quadril quando andava. Senti um frio tomar conta do meu estômago e das minhas pernas.

Quando parei, ela abriu a porta do meu lado e fez uma mesura com os braços. “Seja bem-vinda, senhorita. Espero que aprecie a estadia.”

Saindo do portão, havia uma estradinha que levava a um chalé de madeira rodeado por árvores altas. “Quem mora aqui?” Perguntei ao sair do carro.

“Ninguém. Essa chácara é da minha família. Mas eu uso mais a casa do que eles todos. Sempre venho para cá quando tenho uma folga.” Ela se abaixou e retirou a guia da Lelé, que saiu correndo entre as árvores.

Por dentro, a casa parecia com aquelas cabanas de filme americano, não era muito grande, tinha uma sala, cozinha e banheiro na parte de baixo, dois quartos e mais um banheiro na parte de cima. Fora a lareira que ficava na sala todo o resto era bem simples, com apenas o necessário para passar poucos dias.

Como já era quase hora do almoço, ela abriu uma garrafa de vinho e disse que ia fazer algo para comermos, se eu quisesse podia dar uma volta, ou esperá-la e iríamos juntas mais tarde.

“Já que posso escolher, vou ficar aqui te olhando cozinhar.” Me sentei num banquinho ao lado do balcão que dividia a cozinha e a sala.

Ela falava muito mais do que eu, e me contou sobre como era viver numa cidade tão pequena, mas que ao mesmo tempo estava cheia de gente durante o ano todo. Era filha dos donos da sorveteria, que também eram proprietários do restaurante que eu fora com a Elô. Depois que terminara a escola, tinha mudado para uma cidade maior com o objetivo de fazer faculdade, mas após um ano decidira voltar para casa. Tivera vários problemas, desde a adaptação em outro lugar até um desapontamento amoroso com um rapaz. Ao final, descobrira que seu lugar era ali, no meio da tranquilidade e da natureza. Disse que pretendia mudar-se para a chácara até o final daquele ano.

Ela parecia ter vivido tão mais do que eu, que fiquei com vergonha de falar sobre mim. O que eu poderia contar? Que estudava para o vestibular e passava o tempo livre conversando online com as meninas? Por isso, quando ela pediu para eu falar um pouco sobre minha vida, comecei falando sobre a Elô e os livros dela e como nós estávamos nos saindo uma na companhia da outra.

Depois do almoço, fomos caminhar. “Eu achei a sua tia Elô uma pessoa bem cativante, mas eu gostaria de saber mais sobre você. Podemos nos sentar um pouco?” Ela sentou-se na beirada de um pequeno píer que havia ao lado do rio e me puxou pela mão.

“Minha vida não é tão interessante. Sou apenas uma estudante se preparando para o vestibular  que nas horas vagas fica na internet e, às vezes, viaja com a tia.”

“Pois eu acho que dentro de você há um universo que é muito interessante, você me parece uma pessoa com muita coisa a ser descoberta, alguém com camadas a serem desnudadas devagar. Estou muito errada?”

Nunca havia pensado sobre a minha pessoa dessa forma, como alguém com várias camadas, me achava a criatura mais simples e prática do mundo, sem nenhum segredo a ser desvendado. Naquele momento, entendi aquilo muito mais como uma maneira dela se aproximar de mim do que como uma análise sofisticada da minha personalidade juvenil. E me pareceu uma cantada das mais ordinárias.

“Não diria que você está errada, só nunca me vi desse jeito.” Resolvi entrar no jogo dela, afinal ela me atraía, me sentia bem em sua companhia e já que eu estava ali por que não aproveitar o momento? Como a Elô sempre frisara, eu não podia passar a minha juventude praticando sexo online, precisava de  contato físico, como todo mundo.

Ela começou uma espécie de inquirição e a única coisa que eu queria era beijar sua boca. No entanto, eu nunca teria coragem para tomar iniciativa,  então respondia a tudo o que ela me perguntava.

“Eu ando pensando muito em tudo o que tenho lido. Não sei te dizer até que ponto esse livro tem revirado tudo dentro de mim. Fico me perguntando se eu seria capaz de me expor para alguém como ela se expôs. Se ela não sabia que esse tipo de entrega iria só trazer dor.” Quando dei por mim, estava falando sobre meus pensamentos mais íntimos, e revelando algumas das minhas “camadas”.

“Eu acredito que ela soubesse, mas não quis evitar. Pessoas intensas como  a personagem desse livro pagam para ver e só pensam nas consequências depois.” Ela se levantara do píer e estava tirando o pó da calça.

“Mas você não acha isso uma imprudência?” Me levantei também e chamei a Lelé, que tinha se enfiado não sei onde.

“Imprudência, para mim, é nunca se apaixonar, não se arriscar, se esconder atrás de um muro de bom senso só por ter medo do que, talvez, venha a acontecer.”

Quando voltamos ao chalé já passava das quatro e o frio havia aumentado muito. Ela pôs a chaleira no fogo e não parecia com pressa de ir embora.

“Senta aqui no sofá comigo Cacau, enquanto esperamos a água ferver.” Sentei-me ao seu lado e ela pôs a mão sobre a minha perna. “Eu estou adorando conversar com você.”

Dei um sorriso que demonstrava satisfação e timidez. “Também gosto de estar perto de você.”

Ela pegou uma mecha do meu cabelo e cheirou. “Essas covinhas que se formam quando você sorri são de enlouquecer.” Passou a mão pela minha nuca e me puxou. Senti sua língua brincando dentro da minha boca, me pressionava com delicadeza e mordia meus lábios.

Eu nunca pensei que um beijo poderia ser algo tão bom e cheio de  tesão. Os beijos que havia trocado com minha namoradinha da escola não chegavam nem perto disso. Lucy conseguira me dominar só com um beijo. Eu não pensava em nada mais, queria apenas continuar beijando. Foi quando a chaleira apitou.

O barulho do apito me assustou, e me fez dar um pulo, como quando a gente acorda de um sono profundo. Ela me olhou e disse que era melhor desligar o fogão. Levantei-me e a acompanhei até a cozinha.

Eu estava abrindo o armário para pegar as canecas quando ela me abraçou por trás. Fechei as portinhas e apoiei minhas mãos no tampo do armário. Ela foi subindo com as mãos da minha cintura para os meus seios, joguei a cabeça para trás e senti seus dentes em meu pescoço. Me virei e a olhei nos olhos, ela colocou sua perna entre as minhas e me pressionou contra o armário. “Você já fez isso antes?” Sussurrou no meu ouvido. Quando eu disse que não, ela me pressionou mais e falou que tinha estado com uma garota só uma vez.

Quando ela tentou abrir meu cinto eu segurei sua mão. “Não. Não quero que seja assim.” Ela tirou a mão e me olhou sem entender. “Quero que seja na cama, sem roupa, sem pressa.”

No dia seguinte, por volta das oito horas, Elô bateu na porta do meu quarto. Levantei e fui abrir para ela. “Cacau, ainda na cama? Que horas você chegou ontem? Eu estava naquela chatice de coquetel e quando consegui sair de lá passava da meia-noite, por isso não a procurei.” Como ela conseguia ter tanta disposição pela manhã sempre seria algo indecifrável para mim.

“Já vou tomar banho e arrumar minhas malas. Posso tomar café antes de irmos?”

Ela afastou uma calça que estava jogada sobre a poltrona do quarto e sentou. “Claro, não precisa pressa. É domingo, a estrada só vai começar a encher depois do almoço.”

Uma hora depois já estávamos a caminho de casa. Quando saímos da cidade e vi a placa dizendo “obrigado e volte sempre” senti um aperto no peito e uma espécie de melancolia, uma sensação que para mim ainda era muito indefinida.      “Elô, você não tinha mais uma conferência pela manhã?” Tentei afastar tal sensação procurando algum outro assunto com que ocupar minha mente.

“Tinha, mas me dei folga. Pedi para um colega assumir. Já estava cansada desse evento, das pessoas e do hotel. Sinto falta de casa, de ficar quieta, lendo. Você acha que estou ficando velha e rabugenta?”

“Não. Acho você fabulosa. Também queria ir para casa, mas não posso negar que esses últimos três dias foram bons e relaxantes.” Abaixei um pouco o banco e pus os pés sobre o painel do carro. Me sentia cansada.

“Que foi Cacau, não dormiu bem? Foi dormir muito tarde?” Elô me olhava com uma cara de quem me enxergava por dentro. “Tem alguma coisa em você que está diferente, só ainda não consegui descobrir o quê.”

“Diferente como?” Será que estava escrito em minha testa o que havia acontecido entre Lucy e eu?

“Tem uma luz que até dois dias atrás não existia. Parece que você está brilhando mais, mesmo sonolenta.” Riu da própria observação, como sempre fazia. Ela tinha essa capacidade que poucas pessoas têm, de se achar ridícula e rir de si mesma. “Como foi o seu encontro? Correspondeu às expectativas?”

“Você quer detalhes?” Me virei no banco para olhá-la direito, já que ela não podia me olhar, pois estava dirigindo.

“Não. Posso ser desbocada, curiosa e tudo e tal, mas sou uma pessoa discreta. Os detalhes pode guardar para suas memórias.” Freiou atrás de um caminhão e diminuiu a velocidade. Aproveitou para olhar para mim. “Quero saber como você se sente.”

“Não sei ao certo. O encontro foi tudo de bom. Ela é gentil, delicada, inteligente – apesar de ter começado com uma cantada fajuta –, atenciosa ao extremo e independente demais. Na cama, foi até mais do que eu imaginava. Mas faltou alguma coisa.”

Já passava do meio-dia e faltava mais uma hora para chegarmos em casa. Elô parou o carro num restaurante de beira de estrada. “Vamos beber algo, estou morrendo de sede.”

Ao sentarmos na mesa, ela, finalmente, comentou algo sobre o que eu dissera no carro. “Acredito que faltou um sentimento mais profundo entre vocês duas. Algo que independe do tesão, me entende? É algo que nos une a outra pessoa de uma maneira que falta palavras para descrever, talvez inalienável possa ser uma palavra que se aproxime disso.”

“E você acha que isso pode surgir com o tempo, por exemplo, se nós continuarmos a nos comunicar e ver?”

“Não, esse tipo de sentimento é instantâneo, não é algo que amadureça com o tempo. É como uma identificação. Ou ele surge ou não.” Ela tirou a carteira da bolsa e se levantou para pagar  a conta. Fiquei pensando em como Lucy havia me dito a mesma coisa.

Entrei no carro e dormi até chegarmos em casa, quando então Elô me acordou. “Em casa Cacau, finalmente.” Ela e Lelé pareciam, de fato, muito felizes quando abriram a porta da sala e entraram.

“Vou fazer um lamen com verdura, você quer, ou prefere que eu prepare outra coisa?” Deixou as malas no quarto e foi para a cozinha.

“Lamen está bom, mas queria com carne.

Usei o resto do domingo para estudar um pouco e à noite, quando finalmente deitei, o sono me deixou depois das  duas da manhã. Fui até a cozinha, comi uma maçã, tomei suco, olhei pela janela e vi o gato da vizinha atravessando nosso jardim durante seu solitário passeio noturno. Fora o clique quase imperceptível da geladeira, o resto era silêncio. E ainda assim o sono não vinha.

Pensei em mandar uma mensagem para a Lucy dizendo que tinha feito uma boa viagem e que pensara nela, mas a verdade era que exceto em alguns momentos eu não pensara muito nela. O que não me deixava dormir não era a lembrança do que acontecera entre nós, mas a conversa com a Elô.

Será que ela estava certa? Será que o que sobrara foi tesão e o que faltara foi esse sentimento que – como a Elô diz – vem de uma forma tão sorrateira para dentro da gente  e quando percebemos ele já está, já é e já tomou conta de tudo?

Fui para o quarto e peguei o tablet. Ajeitei o travesseiro, deitei e senti a Lelé subir na cama e se aconchegar ao meu lado. Talvez lendo o sono chegasse, ou, talvez, através dos olhos da Elô, eu pudesse entender um pouco mais sobre mim mesma.

“Iríamos nos encontrar dali a um mês. Ela viria me visitar. Estranhamente, ter marcado esse encontro me trouxe calma, no intervalo de tempo entre termos acertado sua vinda e o momento em que ela chegou, eu me senti num estado de suspensão. Cumpria minhas obrigações profissionais, lia, escrevia, saía para caminhar, fazia tudo o que sempre fiz, mas era como se tudo assumisse outra tonalidade, era como se eu estivesse andando em um sonho sem gravidade e com dimensões interpostas.

Quando o dia chegou,  fui buscá-la na rodoviária. Era uma sexta-feira, ela iria passar o final de semana comigo. Eu a esperava na plataforma com um sorriso enorme, quando ela desceu do ônibus a abracei com força e senti, fisicamente, todo o sentimento que trocávamos nesse abraço.

Muitas vezes, ainda sinto aquele abraço. É uma sensação muito suave, como um vento que faz estremecer  sem causar frio. Sinto como o corpo dela tremia quando encostou no meu, sua respiração, como ela me olhava com um misto de incredulidade e emoção. E sinto o silêncio que se fez, como se as pessoas e tudo o mais em volta tivessem  sumido.

Foi assim, no meio desse turbilhão de sentimentos que ela chegou para o nosso final de semana. Nós sabíamos que depois desses dias juntas, demoraríamos para nos encontrar de novo, e que teríamos de aproveitar nosso tempo como se o depois não existisse….”

Ouvi meu celular tocar. Deixei o tablet na cama e fui ver quem era. Era um número privado. Resolvi atender, afinal, àquela hora só podia ser alguma emergência.

 

 

 



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