Blue Monday

“Quem ligou ontem à noite, Cacau?” Elô estava encostada na pia esperando a água do café ferver. Nunca entendi por que não usava uma cafeteira elétrica, era muito mais rápido e prático, até que ela me explicou que aproveitava o tempo em que esperava a água ferver para colocar os pensamentos em ordem e para agradecer ao universo pela luz que ia clareando a manhã. Quando me falou isso, achei que estivesse tirando uma com a minha cara, mas depois passei a observá-la e notei que ela, realmente, usava esse tempo para isso, para se concentrar nas “linhas da vida” – como ela dizia – que iria percorrer durante o dia.

“Não sei, quando atendi desligaram. Era um número privado. Por um momento, achei que fosse a Lucy, mas era só loucura da minha cabeça, ela não teria motivo para ligar tão tarde.” Sentei-me à mesa e coloquei meu cereal no prato.

“Por que não? Talvez o que ela sentiu não seja o mesmo que você, aliás nunca é, ninguém sente , nem enxerga, da mesma forma. Quem sabe para ela foi tudo mais intenso do que para você.” Colocou o café na mesa e sentou.

“Não tenho como saber o que ela sentiu e nem sei se quero saber. Já te falei que não quero me envolver com ninguém.” Minha fome continuava assustadora, passei manteiga num  pedaço de pão e levei-o a boca.

“Liga para ela, pergunte como está. Afinal, vocês fizeram sexo, ou amor, ou seja lá o nome que você quiser dar. E eu acho que você não é fria ao ponto de ir para a cama com alguém e depois nunca mais falar com essa pessoa, afinal vocês compartilharam momentos de intimidade.” Antes de encher uma caneca com café preto, colocou na boca uma ínfima porção de geleia real. Tomava para fazer reposição hormonal, o que pelo jeito estava resultando, parecia estar rejuvenescendo.

Era segunda-feira, e quando saí à rua para pegar o ônibus o céu estava completamente azul e o ar mais frio do que no fim de semana. Depois de dias intensos, era hora de voltar à rotina.

Fui andando sem pressa, pois eu ainda tinha tempo de sobra até o horário da minha aula. Quando o ônibus chegou, sentei-me no fundo e me preparei para a viagem até o cursinho, iria usar o tempo gasto no trânsito para ler.

“…pois mesmo sem termos vocalizado, era de entendimento mútuo que não teríamos a mínima condição de ter o tipo de relacionamento que as pessoas costumam chamar de ‘normal’ ou ‘regular’. Vivíamos a quinhentos quilômetros de distância uma da outra, não tínhamos disponibilidade para nos encontrar com frequência e não havia a menor possibilidade de mudarmos. Por isso tudo, sempre ficou muito claro que seríamos como férias uma para a outra, no entanto o coração quase nunca é um servo da racionalidade, e as situações nem sempre saem como as idealizamos.

Aquele final de semana todo foi como um portal que se abriu e nós, de mãos dadas, atravessamos, sendo levadas para um mundo paralelo ao que vivíamos.

A essência dela, a cada dia que passa, vai ficando mais longe de mim. Depois que ela sumiu da minha vida, eu joguei fora todas as suas fotos, todos os seus textos, todo o pouco  dela que havia comigo, mas outro dia, revirando umas gavetas, encontrei uma foto que insistiu em ficar perto de mim. Foi como se tivessem me dado um soco no peito, meu coração, que eu achava que já estivesse cerzido, abriu.

Entretanto, naquele nosso final de semana mágico, em que o mundo real e todos  que fizessem parte deste deixaram de existir, o futuro era inimaginável. Tentamos, mais do que tudo, nos mostrar. Como numa aula de anatomia abrimos nossas entranhas tanto literal quanto metaforicamente. Queríamos, como se estivêssemos em uma corrida contra o tempo, nos explorar. Porém, conhecer alguém demanda tempo e espaço, e talvez isso, também, tenha  nos faltado.

Depois de chegar em casa e fechar a porta atrás de nós, nos atiramos uma sobre a outra como se não pudéssemos perder nem um minuto sequer, como se aquele fosse nosso último encontro. Como é difícil para mim descrever o amor que demos uma  para outra,  pois o amor quando já não está se torna algo feito de uma matéria estranha, é como se tudo o que ela me deu naqueles dias fugisse de mim, e quanto mais eu tento alcançar esse tudo mais ele me escapa. Quem sabe, seja um artíficio usado pela memória para me proteger.

O encaixe dos corpos, o roçar da pele, o movimento dos quadris, o cheiro do amor, a textura da língua, ela  se mexendo dentro de mim, o gozo que veio ao final, tudo isso e muito mais provocou um extravazamento de sentimento que fez com que aquele final de semana chegasse próximo da perfeição.

Mas a perfeição não é desse mundo, e quanto mais se aproximava a hora da sua partida, mais aumentava a sensação de vazio dentro de mim. No entanto, sentimentos de apego e  querer estar não constavam em nosso acordo, e se eu sentisse o amor criando raízes eu deveria dar um jeito de envenená-las.”

O ônibus fez uma curva e parou no ponto final. Em frente, havia uma das principais praças da cidade, e como ainda havia meia hora para começar a aula resolvi atravessá-la e beber algo. Fui a uma casa de sucos que a Elô me recomendara, disse que era sua favorita e que a frequentava desde a época da faculdade junto com a Renata, a amiga dela.

Me sentei, pedi um suco de laranja com gengibre e fiquei olhando a decoração do lugar, não me parecia que o dono a tivesse mudado nos últimos trinta anos, então deu para sentir como a Elô passava horas sentada ali conversando com a Renata sobre filosofia, livros, filmes e todas aquelas coisas que ela gosta de ficar falando.

Será que a Renata sabia o que aconteceu entre a Elô e a mulher do livro? Será que sabia que a Bia do livro era inspirada nela? Devia saber, era óbvio demais, pelo menos para quem conhecia as duas, como eu.

Elas eram o que a Elô chamava de amigas com benefícios, quando sentiam vontade dormiam juntas, mas nada que interferisse na profunda amizade que sentiam uma pela outra. Haviam namorado quando eram estudantes, mas a amizade que sentiam sempre foi maior do que qualquer outro tipo de sentimento. Com o tempo foram aparando as arestas da relação  até chegarem a fórmula “amigas com benefícios”.

Eu conhecia a Renata desde quando eu era uma garotinha, ela sempre ia com a Elô nos visitar. Em casa, todos pensavam que elas eram namoradas, mas eu nunca pensei isso, não existia entre elas aquela iluminação que envolve as pessoas quando o amor que existe entre elas supera a amizade.

Porém, acho que, atualmente, não havia mais amizade com benefícios entre as duas. A Renata ia lá em casa pelo menos uma vez a cada dez dias, e agora, quase sempre, aparecia acompanhada por uma mulher chamada Carol, que também era amiga da Elô, pelo menos assim me parecia quando elas jantavam conosco. Todo mundo ria, se divertia e o clima era muito leve para todas.

Já a Elô, acho que não queria ninguém, estava bem com os livros dela, com a Lelé, com o tempo de que dispunha para escrever e com as aulas que dava. Conforme eu ia lendo, confirmava minhas suspeitas de que uma porção dela, por menor que fosse, tinha ido embora com a mulher sem nome. Para mim, cada dia ficava mais evidente que crescer era, também, ir deixando pedaços nossos pelo caminho,  como despojos das batalhas que a vida ganha da gente.

“Na segunda, antes dela partir, fazia sol,  nós saímos para caminhar e paramos numa livraria, eu queria lhe dar um livro que havia lido há pouco tempo e gostado demais. Não sei dizer se ficou emocionada com o presente ou indiferente. Ela, definitivamente, era uma pessoa que possuía mais ambiguidades do que qualquer outra que encontrei. Hoje, olhando pelo buraco da fechadura do passado, vejo que eu nunca soube o que ela realmente sentia por mim, num momento parecia que ela me amava profundamente, no seguinte que estava ali, mas ao mesmo tempo em outro lugar. Entretanto, naquela época, eu acreditei quando ela me disse que eu dava outro sentido a sua vida e me entreguei mais do que devia e podia.”

Quando cheguei em casa, a Elô estava com a Renata na cozinha. Deixei minhas coisas no quarto e fui cumprimentá-las.

“Oi Cacau, fica aqui comigo, a Elô vai sair para comprar chocolate. Já que esfriou e terminamos nossos afazeres por hoje, resolvemos fazer um bolo para o chá da tarde.” Puxou a cadeira ao seu lado para que eu pudesse sentar.

Elô pegou a Lelé e disse que ia andando até o mercado. Assim que ela saiu,  me virei para Renata e perguntei se ela já havia lido Estranho é o amor quando já não está, e se ela sabia quem era essa mulher.

“Olha Cacau, não sei nem se deveríamos estar falando sobre isso, você sabe como a Elô é uma pessoa que não gosta de falar de si, por isso mesmo ela escreveu esse maldito livro.”

“Por que ‘maldito livro’?

“Porque quando ela se propôs a escrever essa história, sofreu pela segunda vez. Reviveu todo o desapontamento, todo o abandono que sentiu. Não me pergunte como ela caiu desse jeito por uma pessoa que, ao final, mal conhecia. Você que está lendo o livro,  verá que elas acabaram se encontrando pouquíssimas vezes. Já se passaram dez anos e eu ainda não entendo o que a Elô viu nessa mulher.”

Renata foi até a porta da cozinha e saiu com um cigarro na mão. Fui atrás dela, apesar do frio que fazia do lado de fora eu queria saber mais. Acendeu o cigarro e continuou falando.

“Eu vou ser sincera com você, nunca gostei dessa mulher.”

“Você a conheceu?” Perguntei excitada com essa possibilidade.

“Não, eu vi fotos dela. Mas não gostei desde a primeira foto. Tinha alguma coisa nela que não me passava confiança, eu tinha certeza que ela ia fazer a Elô sofrer.” Deu uma tragada no cigarro e soltou a fumaça para o outro lado. “Não estou falando isso porque eu e a Elô temos aquela coisa da amizade com benefícios, mas porque a mulher nunca me inspirou nada de positivo. No entanto, Elô caiu de amor por ela, e quando a pessoa se apaixona, independente da idade, não dá ouvidos a ninguém a não ser ao ser amado.”

“Você acha que a mulher a amou também, ou é como ela colocou no livro, que foi mais desamor do que amor?”

Jogou o cigarro no chão e o apagou com a ponta do sapato. “Não sei, às vezes acho que sim, mas na maioria das vezes eu acho que o que aconteceu foi que ela se encantou com a Elô, com o modo como ela escreve, com o modo como ela tem facilidade para seduzir as pessoas. E encantamento é algo muito distante de amor.”

Ouvimos o portão abrir, as patinhas apressadas da Lelé correndo pela calçada e entramos.

O chá com as duas foi agradável como sempre, depois deixei-as sozinhas e fui para o meu quarto estudar, porém consegui me concentrar por apenas uma hora. A escuridão que já chegara antes das seis horas me deu a sensação de que já era noite e o sono me abateu. Quando acordei e olhei no relógio ainda não passava das sete e meia da noite. Fora o New Order cantando Blue Monday no escritório da Elô, o resto era silêncio, a Renata já devia ter ido embora.

Fui tomar banho cantando, baixinho:

How does it feel to treat me like you do?
When you’ve laid your hands upon me and told me who you are
I thought I was mistaken, I thought I heard your words
Tell me how do I feel
Tell me now, how do I feel

 

 



Notas:



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2 Respostas para Blue Monday

  1. Cada capítulo mais apaixonante, já estou mega curiosa pra saber quem é a pessoa do livro. Kkkkkk
    Ps: tod@s deveriam ter uma tia Eló, amando as personagens e ansiosa pelo próximo capítulo.

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