Não sei dançar

“Em que ponto foi que o que eu considerava como ‘as minhas férias’ passou a ser amor? Será que é possível determinar o momento exato em que o amor chega? Mas será mesmo necessário buscar esse momento? Afinal, gente é coração, e o coração bate e sente sem se importar com as nossas razões.

A partir de determinado ponto de nossa relação – se é que se pode chamar de relação o que existiu entre nós, quem sabe ‘caso’ seja a palavra mais adequada –, a comunicação começou a escassear, por mais que eu a procurasse, ela parecia estar a cada dia mais distante de mim, sem nenhum motivo que justificasse isso a não ser a mais completa e simples falta de interesse. E por mais que eu insistisse em saber o que estava acontecendo, as respostas eram sempre: nada, estou muito ocupada, não tenho tempo nem para respirar.

Os pequenos afagos diários por meio de mensagens foram aos poucos trocadas pelo silêncio ou por reclamações quanto a saudade que eu sentia e expunha para ela.

A palavra saudade passou a ser substituída por cobrança. ‘O que você sente não é saudade, você está me cobrando’, era o que ela me dizia. Como se estivesse dentro de mim para saber como eu me sentia e o que eu sentia. Como sentir saudade de alguém fosse algo muito ruim.

Aos poucos, tudo o que vivemos durante seis meses foi se perdendo sem eu entender o porquê, ou talvez naquela época eu não quisesse entender que o amor que ela dizia sentir por mim, na verdade não foi nada além de uma paixãozinha adolescente. Num dia ela dizia ‘eu te amo’, no outro ‘é melhor darmos um tempo, eu estou muito desgastada com tudo, não estamos mais na mesma vibração’.

Sempre acreditei, e ainda acredito, que para alcançarmos a intimidade com alguém temos que demonstrar nossa vulnerabilidade, mostrar que estamos prontos para dar e receber. Ela me deixou apenas entrever a vulnerabilidade que sentia, me exibiu sua alma por pequenas fissuras que, após alguns meses, fechou com determinação.

Depois de um tempo, minha insistência em saber o que ocorrera entre nós esteve a um passo da humilhação. Era como eu me sentia o tempo todo, humilhada – por cercá-la de todas as formas – e mutilada, como se tivessem arrancado um pedaço de mim.

Racionalmente, eu sabia que o silêncio dela em relação a tudo e a falta de interesse em me ajudar a entender aquilo, fariam com que eu passasse por todas as fases das dores de amor, e sabia também que ao final dentro de mim explodiria um enorme foda-se, mas até chegar a isso eu teria de andar por um caminho que machucaria muito os meus pés.”

Fazia quase três semanas que eu havia viajado com a Elô, e desde então  tinha falado duas vezes com a Lucy pelo Messenger, não ligara para ela como a Elô sugerira.

Acho que minha timidez, muito mais do que tudo, não me deixara ligar, ou atender ao telefone nas vezes que ela tentara me chamar. Nem mesmo por vídeo-chamada eu queria atendê-la, aleguei que a minha câmera não funcionava.

Parara de falar com a meninas do chat e dispensara a minha amiga que queria vir, de qualquer maneira, me visitar. Para a Elô, eu disse que já estávamos no meio do ano e que precisava estudar mais, o que ela concordou mesmo desconfiando que este não fosse o motivo verdadeiro.

Porém, o que tinha embaralhado todas as minhas certezas e incertezas  sobre relacionamentos e sentimentos fora o livro da Elô. Ficava me perguntando se teria sido diferente se ela e a mulher sem nome morassem na mesma cidade, mudaria alguma coisa se elas tivessem a oportunidade de falar ao vivo tudo o que foi dito – e não dito – por mensagem de email? E todas essas questões fizeram com que eu perdesse a vontade de falar com as garotas com que vinha conversando. A verdade é que eu não tinha coragem de me expor e me entregar como a Elô havia feito.

Ouvi alguém bater na porta e fui até a janela para ver quem era. Havia uma moça com uma mochila nas costas e  alguns livros na mão, não devia ser nenhuma vizinha, pois nunca a tinha visto pelo bairro.

“Boa tarde, a Elô está?” Ela falou, logo que abri a porta.

“Não, ela saiu, mas acho que não demora. Foi caminhar.” Ficamos nos olhando por alguns segundos. “Quer entrar e esperar por ela?”

“Obrigada, está frio para esperar aqui fora.” Pediu licença e entrou.

“Você quer beber um café ou chá?” Perguntei depois que ela se ajeitou no sofá.

“Não, acabei de tomar um café na rua. Obrigada.” Me olhava com curiosidade. “Você mora com a Elô?”

“Sim, sou sobrinha dela.”

“Então você é sobrinha dela. Pensei que ela morasse sozinha.” Disse isso com uma espécie de alívio na voz, o que me deixou intrigada.

Eu queria saber quem ela era, mas não sentia vontade de falar, queria observá-la. Era bonita, com o cabelo curto como o da Elô e olhos pretos, que eram realçados devido a sua pele ser muito clara, tinha sete piercings na orelha esquerda e ao falar  jogava a cabeça para trás. Possuía as mãos pequenas para uma pessoa de sua altura e um rosto forte.

Me disse que era aluna da Elô e precisava conversar com ela sobre um material que estava escrevendo. Quando ela me falou isso, achei estranho, pois a Elô não era de orientar ninguém, no entanto preferi acreditar que talvez ela tivesse aberto uma exceção. Continuamos a conversar banalidades até ouvirmos a chave rodar na porta. Como ela se levantou quando a Elô entrou, fiz o mesmo.

“Oi Luiza, que surpresa! Está tudo bem?” Elô parecia realmente surpresa com a presença da garota. Foi até ela e a beijou no rosto, fez o mesmo comigo, o que tornou tudo mais estranho ainda, pois havíamos nos visto a apenas uma hora atrás.

“Tudo bem. Elô, vim aqui porque precisava discutir aquele material com você. Desculpe ter chegado assim, sem avisar, mas não podia esperar até segunda.” Ela parecia um pouco embaraçada, mas nada que comprometesse sua capacidade de conversar.

“Claro! Tinha me esquecido completamente disso. Você tem apresentação na terça, não é? Vamos até meu escritório e já acabamos com todas as dúvidas.”

 

Depois que a Luiza foi embora, a Elô continuou por mais um tempo no escritório, como não queria interrompê-la e tinha que estudar só fui vê-la de novo na hora do jantar.

“Cacau, eu pedi comida, já deve estar chegando. Você pode colocar os pratos na mesa?” Ela havia saído do banho e apareceu na porta do meu quarto enxugando o cabelo.

Quando nos sentamos para comer, perguntei por Luiza. O que ela estudava, se estava no começo ou no final do curso, se era aplicada.

“Estuda Antropologia, está no segundo ano. Ela é uma boa aluna, diria que melhor do que os outros. Por que tantas perguntas?”

“Curiosidade, afinal nunca apareceu nenhum aluno seu aqui em casa. E o jeito que ela te olhava, como se olhasse para um totem.” Acabei de comer e me levantei para buscar a sobremesa.

Elô não disse nada, apenas me olhava e esperava que eu continuasse com a minha verborragia. “Acho que ela tem uma queda por você. Eu não consigo entender esse pessoal que sente atração pelo professor, para mim é a mesma coisa que sentir atração pelo terapeuta, é um tipo de idealização.”

“Mas toda atração, toda paixão, é uma espécie de idealização, Cacau. As pessoas se apaixonam por alguém que elas imaginam ser próximo da perfeição. E a perfeição é um conceito muito idealizado também. O que é perfeito para mim nunca chegará nem perto do que é perfeito para você. Acho normal essas paixonites. Mas não se preocupe, o que a Luiza nutre por mim não passa de admiração.”

Cortei um pedaço de pavê e coloquei no prato da Elô. “Não estou preocupada, só estou jogando conversa fora.”

“Você não é de jogar conversa fora, e isso é algo que eu admiro muito, porque eu acho que a vida passa muito depressa para ficarmos perdendo tempo com conversa fiada. E acho mais Cacau, acho que a Luiza mexeu com alguma coisa dentro de você.”

Ela levou o pedaço de doce à boca e parecia saboreá-lo como se fosse o melhor e o último pedaço de doce do mundo. Fiquei olhando para ela  e pensando que aquela mulher sabia se deliciar com os pequenos detalhes da vida. “Ela é interessante, não vou negar. Eu gostaria de encontrá-la de novo, também não vou negar.”

“Então, minha querida, seu desejo será satisfeito. Amanhã, ela retorna para continuarmos a dissecar o material que ela tem que apresentar.” Me olhou nos olhos e sorriu para mim, daquele jeito que a fazia parecer com uma menina.

Fui para o meu quarto antes das onze horas, liguei o laptop e fiquei pulando das redes sociais para o email e deste para as plataformas de música. Entrei no chat, mas não falei com ninguém, apenas acompanhava as conversas, as quais me pareceram totalmente banais e sem tempero.

Como o sono demorava a chegar, resolvi escrever um email para Lucy. Perguntei como ela estava, o que andava fazendo, se a cidade estava cheia de turistas ou não, se ela já tinha mudado para a chácara. Ao final, nem sei bem por que, disse que sentia saudades dela.

Finalmente fui dormir, porém perto das 3 horas acordei com um barulho que vinha da sala e com as patinhas da Lelé arranhando a porta para sair. Levantei e fui ver o que era. Devia ser algum serelepe que entrara pela lareira, nessa época do ano eles ficavam muito abusados e entravam em casa quando bem quisessem.

Quando cheguei na sala vi  a Elô olhando pela janela e segurando uma caneca na mão, só a luz de um abajur iluminava o ambiente. Lelé correu e começou a pular nas pernas dela. “Perdi o sono. Desculpa se fiz barulho e te acordei. Fiz um chá para ver se me ajuda a dormir, quer uma caneca?”

Fui até a cozinha e voltei com a caneca e um pratinho de biscoito, sentei-me e ela se sentou ao meu lado. “Eu mandei um email para a Lucy e agora estou arrependida.”

“Arrependida por quê? Você a ofendeu no email?”

“Não, claro que não fiz nada disso. Perguntei como ela está e como está tudo por lá, o problema é que ao final eu disse que sentia saudade dela. Teria sido melhor suprimir esta parte.” Lelé pulou no sofá e se acomodou entre nós duas.

“Você falar para alguém que sente saudade não deveria causar arrependimento, nem culpa, nem nada de ruim. Sentir saudade é uma coisa boa, sinal que você se importa com  a pessoa, que ela faz algum sentido na sua vida e que você gosta de tê-la por perto. Só alguém muito emocionalmente atormentado  iria considerar a saudade um sentimento negativo. Você fez bem, o melhor é sempre falar o que sente.”

Passou o braço sobre meu ombro, me puxou e deu um beijo na minha cabeça. Eu sempre achava estranho quando ela demonstrava fisicamente o carinho que tinha por mim, ela sempre fora muito reservada quanto a isso.

“Por que você tá acordada Elô, teve insônia de novo?”

“Não, foi a chuva que me acordou. E o cheiro de terra molhada que veio do jardim não me deixou dormir mais. Esse cheiro sempre me traz ela de volta. Ela adorava o cheiro após a chuva.”

“Ela quem? A mulher do livro?”

Ela riu e disse que sim, a mulher do livro. “As memórias podem ser muito traiçoeiras, Cacau. Elas vêm sempre sem aviso prévio, essa noite foi o cheiro da chuva que a trouxe um pouquinho para perto de mim, mas poderia ter sido a frase de um livro, ou o gosto do chocolate preferido dela. As lembranças de um sentimento que foi tão intenso acabam por, sorrateiramente, desaparecerem, porém sempre deixam pequenos traços para nos lembrar de que um pouco daquela pessoa sempre vai ficar aqui dentro.”

Elô levantou e voltou com uma taça com conhaque. “Vamos beber, para chamar o sono.” Deu uma piscada para mim e me ofereceu a taça.

“Não, obrigada. Conhaque me dá enjoo, mesmo os melhores. Elô, posso te perguntar uma coisa?”

“Claro, se não for nenhuma intimidade sexual pode perguntar  o que quiser.” Fez o conhaque dançar na taça e bebeu um pouco.

“No seu livro, você fala como a mulher sem nome não te ajudou a entender o que estava acontecendo, sobre o silêncio que ela manteve. Eu fiquei pensando, se vocês tivessem se encontrado e conversado sobre isso, não poderia ter sido tudo diferente?”

Ela demorou para responder, acho que ficou pensando a respeito, ou talvez tentando lembrar daquele tempo que estava tão distante de nós. “Não sei, Cacau. Às vezes, acho que sim, teria sido diferente uma conversa cara a cara, mas não sei até que ponto, porque ela era um tipo mais quieto, mesmo que eu a virasse ao contrário não sei se a faria falar. No entanto, a linguagem corporal sempre nos denuncia, e quem sabe fosse esse o caminho para eu entendê-la.”

Comi mais um biscoito e aproveitei aquele momento em que a Elô parecia disposta a falar para perguntar o que eu quisesse. “E como seria se vocês se encontrassem de novo, hoje? Isso já passou pela sua cabeça?”

Desta vez, ela não demorou tanto para responder. “Já, eu pensava muito sobre isso. Se conversaríamos sobre o que houve entre nós, sobre nossos sentimentos, se faríamos amor, se seríamos simplesmente amigas. Mas hoje, depois de tanto tempo, já não sei, acredito que conversaríamos civilizadamente sobre literatura, sobre o dia a dia, sobre questões metafísicas. Eu sempre gostei muito de conversar com ela sobre tudo isso, nós nos entendíamos muito bem nesses quesitos, e acho que em outros também. Quando eu olhava para ela era como se visse o meu direito e o meu avesso, havia uma conexão muito forte entre nós, uma conexão que era difícil para outras pessoas entenderem e aceitarem. Era algo só nosso.”

“E, atualmente, você já conseguiu compreender o que aconteceu?” Pus os pés por debaixo de Lelé para poder me esquentar.

“Tudo não, mas com o tempo as coisas foram ficando mais claras para mim. Hoje, como já perdi o véu da paixão, eu a enxergo melhor , consigo ver suas fraquezas, sua falta de habilidade para se relacionar. Muitas vezes,  acho que ela não queria se envolver mais do que estávamos envolvidas, outras vezes acho que nossa conexão foi cortada.”

“Cortada? De que maneira?”

“Não sei Cacau, mas essa sensação já tomou conta de mim em vários momentos. Como se a energia que mantinha nossa conexão houvesse transmutado. Quem sabe, nós não soubemos como lidar com essa transmutação e acabamos nos perdendo. Enfim, não existem culpados nessa história, existem desencontros.”

Ela terminou de falar, bebeu todo o conhaque que havia na taça, me deu um beijo e disse que ia deitar e tentar dormir, que eu devia fazer o mesmo, afinal teríamos a visita da Luiza para o almoço.

Voltei para o meu quarto, mas havia perdido completamente o sono. Pensei em ler alguma outra coisa que não fosse o livro da Elô, pensei em estudar, e ao final liguei o laptop e fui olhar as bobagens que as pessoas, em geral, postam nas redes sociais. Procurei pela página da Luiza entre os amigos da Elô.

Era mais do que óbvio que ela seguia a Elô. Achei e comecei a fuçar na página dela. Contrariamente ao que a quase totalidade dos jovens postam, não havia fotos de baladas nem viagens. A página era até bem parecida com  a minha, com publicações sobre músicas, filmes e, no caso dela, sobre livros e matérias relacionadas ao curso que fazia. Fotos pessoais tinha meia dúzia.

Parei de olhar quando vi que chegou algo na minha caixa de email. Era da Lucy. Disse que estava bem e que havia mudado para a chácara, que estava usando uns dias que tirara de folga para deixar a casa do jeito dela, por isso fazia uma semana que não ia a cidade, e a vontade dela era ficar mais um mês longe de todos, mas que na próxima segunda-feria teria de retornar ao trabalho.

Perguntou como estava indo minha vida, se eu estava estudando muito, se estava saindo muito, enfim o que eu andava fazendo. Disse que pensava muito em mim, principalmente agora que mudara para a chácara, tudo lá trazia a sua memória o dia que passamos juntas. Disse, ainda, que estava pronta para vir me visitar quando eu quisesse, que bastava um sinal positivo da minha parte. E, por fim, escreveu: “Adorei saber que você também sente minha falta. Beijos em todo o seu corpo.”

Não respondi o email dela imediatamente, desliguei o laptop, o celular, me aconcheguei com a Lelé debaixo da coberta e senti uma vontade enorme de chorar. Porém, o adiantado da hora me lembrava que amanhã seria outro dia e teríamos a presença de Luiza durante o almoço e a tarde toda. Sequei uma única lágrima que insistiu em cair e dormi.

 

 



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