Apenas mais uma de amor

A Elô acabara sua pesquisa e começara a escrever o livro novo, por isso tirara umas semanas de licença da faculdade e estava em casa quase o dia todo. Eu não havia falado nada sobre o que acontecera entre a Luiza e eu, e ela não perguntara, acho que não queria se intrometer e, também, estava fechada em seu mundo.

De qualquer forma, depois daquele dia, Luiza não apareceu mais. Respondia a todas as minhas ligações e mensagens, mas estava ocupada com as aulas e começara um estágio no museu. Não posso negar que sentia falta de sentar e conversar com ela, de tê-la junto ao meu corpo, mas eu não podia sair rastejando atrás dela, a única coisa que me restava era esperar.

Eu me ocupava estudando para o vestibular, que seria dali a um mês, e lendo. Finalmente, chegara ao final do livro da Elô, e a forma como ela terminou a história me surpreendeu.

“O tempo que eu levei para entender os nossos ‘acontecimentos’ e ‘desacontecimentos’  foi maior do que o tempo que nos foi reservado para ficarmos juntas. E durante toda essa trajetória eu me perguntava se ela teria sido um teste, uma lição ou um presente para mim.

Eu acredito que ela foi tudo isso e um pouco mais. Sem ter a intenção ela me fez enxergar o que havia de mais doce – minha capacidade de abrir meu coração para alguém e deixar que essa pessoa chegasse a tocar minha alma com a ponta dos dedos – e de mais abjeto em mim – ao abrir as portas do país do amor e nele querer ficar, acabei deixando de fora todos os outros, tal como estrangeiros sem direito a um pouco de refúgio, e eu tenho consciência que tal falta de indulgência machucou outras pessoas.

Eu que me achava tão durona, até mesmo inabalável, tive que desconstruir e reconstruir meus sentimentos como se faz em um estado de  luto, e este só começou a passar no dia em que resolvi afastar minha alma, que insistia em procurá-la em sonhos, pensamentos e memórias, da dela. Toda vez que alguma lembrança me cercava eu a arrancava pela raiz, até que o jardim todo ficou deserto.    

Hoje, eu só posso agradecê-la por tudo o que ela, sem querer, me fez descobrir sobre mim, sobre meus sentimentos, minhas reações, meus padrões que deveriam ser quebrados, sobre o que eu quero e o que  não quero. Então, sim, ela foi um presente da vida e de uma forma ou de outra sempre será especial para mim.”

Fechei o tablet e fiquei pensando em tudo que lera durante aqueles meses. O livro da Elô fora um tipo de travessia para mim, acabá-lo me deixou um gosto de saudade, porém saudade de quê? Da história que me ensinou muitas coisas sobre amor, desapontamento e sobre a Elô? Das personagens? Mas eu morava com uma delas.    

Fui até o escritório  e bati na porta, ouvi as patinhas da Lelé correndo no assoalho. “Entra, Cacau.”

“Desculpa te incomodar, posso entrar?”

“Sim, acabei de falar para você entrar.” Ela estava deitada no sofá com um livro na mão.

“Não está escrevendo?”

“Estava, mas dei um travada. Quando isso acontece é melhor ler alguma coisa, escutar uma música, ir dar uma caminhada, qualquer coisa que me traga de volta ao texto. Você precisa de algo?”

“Queria usar seu carro, posso?”

“Claro, você sabe onde está a chave e o documento. Pode pegar. Vai aonde?”

“Ao museu.”

“Não sabia desse seu gosto por museus.” Era impossível que ela não soubesse que a Luiza estava estagiando no museu. Como não respondi, ela falou para que eu fizesse o que achava que era o certo e que me cuidasse.

O museu era de tamanho médio, na entrada tinha uma placa que dizia: Museu de Arqueologia e Etnologia. Fui até a bilheteria e paguei a entrada. Perguntei à moça que distribuía os catálogos das exibições onde eu poderia encontrar os estagiários. Ela me deu as instruções e eu segui para a sala indicada.

“Bom dia, onde posso encontrar uma estagiária chamada Luiza?” Perguntei para um garoto que estava fechando a sala.

“Ela acabou de sair, se você correr pode ser que ainda a encontre do lado de fora.”

Agradeci e me apressei para tentar encontrá-la. A moça dos catálogos perguntou algo quando passei por ela, mas não me dei ao trabalho de entender, acho que era algo como: ‘já vai embora?’.

Vi Luiza entrando na cafeteria que havia ao lado da bilheteria do museu. Apertei o passo e consegui alcançá-la quando estava se dirigindo ao caixa. Coloquei a mão no seu ombro e a chamei.

“Oi, Cacau. Que surpresa boa é essa?” Ela parecia feliz ao me ver, pelo menos abriu um sorriso.

“Queria falar com você, e como não calhou de você aparecer lá em casa, resolvi vir te ver.” Abracei-a e ela me deu um beijo no canto da boca, como costumava fazer.

“Vamos sentar, preciso tomar um café e comer alguma coisa.” Me puxou pela mão e sentamos numa das mesas que ficava no fundo da cafeteria.

Entre um gole de café e outro, entre um pedaço de pão de queijo e outro, me contou como estava sendo bom o estágio, falou sobre tudo o que estava aprendendo e sobre as aulas de alemão em que se matriculara. Perguntou sobre a Elô, sobre a Lelé e, finalmente, sobre mim.

Contei que me dedicava a reta final da preparação para o vestibular, e, por isso, estava mais em casa. Obviamente, não disse nada sobre minhas expectativas quanto a ela, afinal as expectativas eram minhas e não dela. A conversinha foi rolando por mais uma hora, até que o tempo virou e começou a cair uma garoa forte e fria.

“Essa garoa veio na hora errada, eu não trouxe guarda-chuva. Acho que vou ter de te deixar e pegar o ônibus antes que aumente a chuva.” Ela olhava para a vidraça que estava coberta por uma névoa de água. E eu, que sentia meu coração na garganta, não conseguia parar de analisar seu rosto, era delicado e forte ao mesmo tempo, com um maxilar acentuado, o que a tornava mais desejável.

“Eu levo você, tô com o carro da Elô.”

Por um momento ela pareceu exitar, mas como a chuva só fazia aumentar, concordou. “Vou aceitar, mas fique sabendo que não é tão perto.”

Quando chegamos, a casa dela já estava com as luzes acesas, apesar de ter passado pouco das cinco horas. A garoa tinha se transformado em temporal e o dia em noite.

“Acho que vou ter que esperar a chuva parar um pouco. Vai ser muito incômodo te segurar aqui mais um pouco?” Senti minhas pernas amolecerem quando ela falou isso.

“Claro que não. Vim te ver justamente para isso, para ficar o máximo de tempo ao seu lado.” Não sei de onde tirei coragem para falar de minhas intenções de forma tão aberta.

Ela me olhou tão demoradamente que até me lembrou a Elô quando queria dizer algo, mas não sabia se devia ou não. “O que aconteceu entre a gente…para mim foi a primeira vez com uma mulher.” Ela pegou minha mão e a beijou. “E eu queria te dizer que eu curti muito.”

Se ela soubesse o efeito que aquelas palavras provocaram dentro de mim, talvez não tivesse falado nada. Se soubesse o tamanho do meu sentimento por ela, talvez preferisse calar.

Ela passou por entre os bancos e foi para a parte de trás do carro, sorriu e me chamou. Eu me sentei ao seu lado e aceitei o beijo que ela me deu, um beijo diferente do que já havíamos trocado, era um beijo com sabor de coisa nova, de descobrimento e encantamento.  Me ajudou a tirar a roupa e ficou nua também. A chuva – que não parava – embaçara o vidro do carro e eu me senti como se estivesse dentro de uma redoma que nos separava do resto do mundo.

Ela se deitou sobre mim, abriu minhas pernas e se encaixou no meio delas. Brincou com a língua dentro da minha orelha e sussurrou: “Você é muito linda, Cacau.” Quando ouvi isso, puxei-a.

O movimento que ela fazia em cima de mim foi ficando mais intenso e rápido, nem sei dizer se ela me dava mais prazer pelo tamanho do clitóris – que roçava no meu com força –, ou se por falar que queria muito me foder, ou se pelo conjunto todo. Eu não demorei para gozar, nem ela para esparramar seu líquido quente sobre o meu abdômen. Ela passou a mão sobre minha barriga, molhou os dedos e me penetrou, primeiro devagar, num ritmo muito suave, até eu pedir que ela me comesse com força. Ela metia e quanto mais eu a puxava, mais fundo ela ia, até me fazer gozar de novo e querer dar tudo o  que ela quisesse.

Quando cheguei em casa passava das oito horas e a chuva já estava mais calma. A Elô estava na sala, escrevendo no laptop.

“Como foi no museu? Divertiu-se?” Ela me olhava por cima do óculos e tinha um sorrisinho no canto da boca.

Fui até a cozinha e voltei com um copo de suco. “Muito.”

“Encontrou a Luiza por lá? Ela está estagiando no museu.”

Ela estava me provocando, e eu resolvi entrar na brincadeira. “Não sabia que era nesse museu.”

“Cacau, chega de bobagem, é claro que você foi lá para encontrar a Luiza. E essa sua carinha de felicidade pode enganar a sua mãe, não a mim. Se bem que você está transpirando tanta felicidade que acho que até sua mãe ia perceber.” Fechou o laptop e colocou os pés na mesinha de centro, como se esperasse por um comunicado oficial meu.

“O que você pretende, Cacau?”

“Em que sentido?”

“Com a Luiza. É só uma transa, um caso, ou você está querendo algo mais? Quem sabe um namoro.”

Não sabia o que responder, pois ainda não havia pensado dessa forma. Sabia que queria estar com ela, fazer amor com ela, conversar, passear, passar meu tempo livre com ela. Se isso fosse o que chamam de namoro, então eu queria muito namorá-la.

“Você sabe se ela espera o mesmo que você?” Ela tirou o óculos e me olhou de frente. “Eu não estou querendo ser ‘a’ chata, mas estou vendo  o quanto você está apaixonada por ela, e mesmo sabendo que não posso te preservar o tempo todo, nem evitar que um dia você sofra por amor, eu acho que posso, ao menos, tentar te proteger um pouco.”

Ela se levantou, sentou no braço da poltrona onde eu estava e passou a mão pelos meus ombros. “A Luiza é uma pessoa ótima, eu gosto muito dela, mas não sei até que ponto ela quer o mesmo que você, se o sentimento dela é o mesmo que o seu. Para ela, em primeiro lugar vem o curso e a carreira, o resto – família, amigos, amor – ela não pensa muito.”

“Não acho que ela seja assim tão insensível, Elô.”

“Não é uma questão de insensibilidade, mas de prioridade. Eu acho que é pouco tempo para você se entregar tanto.” Agora ela escorregara para a minha poltrona e sentara espremida ao meu lado.

“Você está me dizendo isso tudo por causa do seu caso com a mulher do livro?”

“Sim, exatamente por isso. O amor, Cacau, nos deixa sempre cegas, é como uma névoa que desce sobre a mente, sobre a capacidade de discernimento, sobre os olhos e nos faz ver tudo distorcido. O amor, na maioria das vezes, é uma ilusão. O melhor é manter tudo só na amizade.”

“Não é porque com você deu errado que comigo acontecerá o mesmo.” Eu vi seus olhos ficarem marejados. “Desculpa, eu não quis dizer o que disse.”

“Não precisa se desculpar, você está certa. Porém, quero só que você esteja ciente das prioridades da Luiza, as quais podem ser muito diferentes das suas.”

“Mas isso não quer dizer que ela não goste de mim, ou venha a gostar, não é?”

“Não, não quer dizer. O amor, Cacau, o desamor, o esquecimento, fazem parte da mesma vibração, o que varia entre eles são os graus de intensidade, um vibra num grau, outro em outro grau, e os limites entre estes podem ser muito tênues.”

Ela me deu um beijo e disse que ia tomar um banho e deitar. E dessa conversa toda eu percebi duas coisas: que essa história da mulher do livro sempre iria doer dentro da Elô, e que eu estava com os meus olhos completamente enovoados pela paixão.

 

 



Notas:



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2 Respostas para Apenas mais uma de amor

  1. Elo melhor pessoa, apaixonada por ela. Rsss
    Amo a sensibilidade da sua história e os personagens são incríveis.
    Ps: não gostei muito do final do livro da Elo, na verdade ando preferindo aquelas histórias com finais felizes. Rsss
    Apesar de saber que nem sempre é possível.

    • Obrigada, Marcela!

      Elo é um personagem que não se encaixa num relacionamento, para ela ficar só é o melhor caminho.

      Beijo grande para vc.

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