Twenty one

Eu estava sentada no tapete, enrolando meu cigarro. Finalmente, depois de um longo inverno e de uma primavera cinzenta, dezembro chegara trazendo a luminosidade do verão, o calor e as férias.

“E quando ela chega?” A Renata, que nunca gostara de fumar “um”, procurava por algo na internet.

“Amanhã a tarde, tenho que ir buscá-la às 17h na rodoviária.”

“E ela já está mais acostumada?”

“Um pouco, mas quer voltar. Vai tentar uma transferência.” Ela olhava para mim e para a tela do laptop. “O que você procura tanto nesse computador?”

“Estou olhando esses sites para lésbicas. Tem uns com salas de bate-papo. Já deu uma olhada nessas conversas?”

“Já, com a Cacau. Achei tudo uma bobagem. Ela gostava desses sites, conversava com um monte de gente, tinha até uma menina que queria vir  conhecê-la, mas a Cacau não se animou muito.” Dei uma tragada no meu beque  e encostei a cabeça na beirada do sofá. “Lembro que eu disse a ela que sexo verbal não fazia meu estilo.”

“Será que ela ainda participa desses chats?”

“Acho que não, ela mudou muito depois que conheceu a Lucy e, principalmente, a Luiza.”

“Ela mudou por sua causa. Me disse isso uma vez, que a experiência com o seu livro foi tão intensa que mudou a forma como ela percebia os sentimentos.” Fechou o laptop e veio sentar no tapete, ao meu lado. “Você sente muita falta da Cacau, não é?”

“Sim. Eu me acostumei muito com ela andando por aqui, e se apaixonando e sofrendo com as ansiedades juvenis e com o primeiro amor. Sinto falta da vivacidade dela. Cacau foi uma grande companheira e companhia.” Lelé veio do quarto e deitou sobre as minhas pernas. “E a Lelé também sente falta dela, não é Lelé?”

“E a Luiza, como está? Sabe se ela e a Cacau ainda se falam?”

Ajeitei a Lelé entre mim e a Renata, dei mais uma tragada no beque e o apaguei com a ponta dos dedos. “Ela não é mais minha aluna, mas às vezes aparece na minha sala para perguntar como estou e conversar um pouco. O que sei é que ela estava saindo com uma menina que também estagiava no museu.”

“E ela pergunta pela Cacau?”

“Sim, mas não entra em detalhes sobre o que aconteceu entre elas. A Cacau também nunca comentou muito sobre o porquê delas terem terminado, apenas deixava escapar uma frase aqui outra ali. Ela estava muito feliz com o namoro, tinham feito planos de viajarem nas férias e tudo e tal. Tinha semana que a Luiza dormia mais aqui do que na casa dela. No entanto, como diria o Vinicius de Moraes: De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante, e de sozinho o que se fez contente.” Levantei e fui a cozinha buscar uma garrafa de vinho e duas taças.

“Me conta mais, Elô. Até hoje, você não me falou quase nada dessa história.” Ela tomou a garrafa da minha mão e abriu, eu nunca fui boa nisso, sempre quebrava a rolha.

“Bom, elas começaram a transar aqui em casa, num dia em que eu e você fomos ao cinema, lembra?”

“Claro que lembro, não sou como você que esquece de tudo.”

“Depois disso, a Luiza sumiu, e depois de um tempo a Cacau foi procurá-la. Acabaram ficando juntas de novo e tudo foi ficando mais intenso e constante entre elas. A Cacau sempre se mostrou muito apaixonada, acho que se a Luiza pedisse para ela esfregar o chão, ela pegaria o balde sem exitar. A Luiza dominava ela em todas as instâncias.”

“O sexo devia ser bom, para ela ter caído desse jeito.” Renata tomou um gole de vinho e piscou para mim.

“Pois é. Fato é que eu não pensei que veria a Cacau assim. E confesso que fiquei preocupada, e falei isso para ela.”

“E o que ela disse?”

“Que se viesse a sofrer que fosse por  alguém, que ela tenha, ao menos, aproveitado. Isso me calou a boca, porque essa fala era minha. Eu sempre falei para ela não deixar passar os momentos, porque a pessoa que ela queria talvez não voltasse mais, e se voltasse não seria mais a mesma coisa.”

“Elô, vou pedir uma pizza. Quer?” Fiz que sim com a cabeça e ela foi ligar. A pizza vinha em boa hora, minha fome era de gladiador.

“Depois de uns dois meses, o tempo começou a virar entre as duas.” A Renata sentara ao meu lado novamente. “A Luiza, que na minha humilde opinião parecia não sentir o mesmo amor que a Cacau exibia ao mundo, começou a vir menos aqui. Sempre tinha uma desculpa, o estágio, as aulas, provas, enfim, coisas que eu sempre soube que para ela estavam acima de qualquer pessoa. A Cacau tinha passado no vestibular e logo  começariam as aulas, e o combinado entre elas era que a Luiza viajaria para vê-la uma vez por mês e ela viria para cá uma vez por mês, assim elas poderiam se encontrar a cada duas semanas. Eu achava tudo bem arranjado demais, e não é assim que funciona, a vida não é uma coordenada cartesiana, sempre tem algum ponto torto pelo caminho, porém não quis me meter.”

Renata começara a rir. “O que foi?”

“Esse ‘não se meter’ é bem a sua cara.”

“Bom, não dei mais minha opinião, fiquei esperando pelos acontecimentos. E eles começaram a dar-se quando a Cacau mudou. Nos primeiros meses tudo correu como o acordado entre elas, uma veio a outra foi, até que a Luiza não pode ir, tinha que preparar um paper que seria inscrito num congresso, a Cacau veio. No entanto, estranhamente, a Luiza não apareceu aqui e nem atendeu ao telefone, simplesmente sumiu. E mais estranha foi a reação da Cacau, ela telefonou duas vezes para a Luiza  e depois não insistiu mais. Eu podia ver o desapontamento e a tristeza na cara da Cacau, e quando eu tentei perguntar ela me cortou. Depois disso não voltou mais, ligava toda semana para saber de mim e da Lelé, mas nunca tocou no nome da Luiza.”

“E o que você acha que aconteceu?” A pizza chegara e a Renata havia colocado os pratos na mesinha de centro.

“Acho que a Luiza nunca foi apaixonada e começou a sair com outras pessoas depois que a Cacau foi embora. O que é completamente natural para uma menina da idade dela. Afinal, quem é monogâmico aos vinte e um anos?”

Não sei dizer o que senti quando entrei na cidade e todos os prédios foram deixando suas sombras na janela do ônibus. Fazia pouco mais de seis meses que eu não via a Elô, mas a sensação era de muito mais tempo.

Sentia falta dela e da Lelé, mas não queria voltar até ter certeza de que não cairia na cilada de procurar pela Luiza.

Quando o ônibus entrou pelo pátio do desembarque eu vi a Elô sentada num banco com a Lelé ao lado dela, e senti meu coração disparar de alegria de tê-las quase ao alcance das mãos.

Ao descer recebi um abraço da Elô e uma demonstração de saudade canina da Lelé, que me arranhou a perna toda. Eu estava feliz de ter retornado para casa.

 

“Você emagreceu, Cacau. O que houve, a comida de lá é ruim?” Elô tirou minhas mochilas do carro e carregou-as até a porta de casa.

“Almoço no restaurante da universidade, à noite como qualquer coisa na república.” Não queria falar que tinha perdido peso por tristeza e por não estar me adaptando à nova vida.

A casa estava como sempre, até o cheiro era o mesmo que eu sentira tanta falta. “Elô, eu não sei se quero voltar.”

“Voltar para a faculdade?” Ela colocou minhas coisas na sala e foi para a cozinha preparar um lanche para mim.

“Eu sinto muita falta daqui. Você acha que eu vou conseguir a transferência?”

“Lá é tão ruim assim, ou você quer voltar por outro motivo?” Colocou o pão com queijo no forno e virou-se para mim.

“Não tem nenhum motivo especial, só não estou me adaptando. Você sempre soube que não era minha intenção ficar por lá.” Olhei para a janela, não queria que ela detectasse algo diferente em meu rosto.

“Cacau, olha para mim.” Virei o rosto e a olhei de frente. “Você sabe que a Luiza tá namorando?”

“Não, não sabia. Namorando quem?”

“Uma garota do museu. Vocês não se falaram mais?”

“Não.” É claro que eu sabia que ela estava com alguém, havia visto as fotos nas redes sociais, mas não queria dizer para a Elô.

Ela ficou me olhando sem dizer nada, me analisando. “Você quer voltar por causa dela?”

“Não, eu já superei isso. Foi difícil e solitário, mas hoje eu vejo que ela ter me deixado foi um favor que me fez.”

Ela trouxe um copo de suco para mim e sentou. “O que aconteceu entre vocês foi tão ruim?”

“Para mim foi maravilhoso, para ela eu não sei.” Dei uma mordida no sanduíche e continuei. “ No começo, ela foi muito aberta em relação ao que sentia por mim e sobre nossa intimidade sexual, a qual eu tive de me adaptar algumas vezes, porque ela estava sempre alternando entre o que ela chamava de ‘fases’. E para mim essas ‘fases’ nunca foram um problema, eu gostava, pelo menos não caía na rotina, mas eu via que ela, muitas vezes, não se sentia confortável. Como se ela não soubesse muito bem o que estava fazendo ali. Depois de um tempo, parou de me contar sobre as coisas da faculdade e tudo o que interessava a ela, conversávamos apenas trivialidades, como duas pessoas que se conheceram no consultório do dentista. Eu perguntava o que estava acontecendo, e ela dizia que nada, que era tudo da minha cabeça.

Quando eu me mudei, ela me pareceu um pouco aliviada, mas eu pensei que talvez fosse ‘coisa da minha cabeça’, como ela disse. E acho que o resto você já sabe. Quando vim para cá, ela sumiu e não respondeu mais aos meus chamados.”

Tomei mais um gole do suco e, como a Elô não falava nada, continuei. Acho que estava pondo para fora seis meses de silêncio, de uma conversa que tive só comigo. “Eu ainda tentei entrar em contato com ela, depois que fui embora. No entanto, não tive resposta. Daí deixei para lá, tinha que me concentrar nos estudos e tentar me ambientar na cidade nova. No final, tudo saiu mais ou menos, nos estudos passei em tudo, mas sem sobrar nota, e a ambientação foi um desastre. Às vezes, acho que esses meses que passei por lá foram usados só para esquecer a Luiza.”

“E conseguiu?” Finalmente, a Elô se pronunciara.

“Sim, acho que sim. Nisso, fui bem sucedida, apesar de ter curiosidade em saber como ela está, o que anda fazendo.” Parei de falar por um minuto e fiquei analisando minhas palavras, para quem me ouvia essa curiosidade podia parecer mais do que na realidade era. “A mesma curiosidade que tenho por outras pessoas.”

Durante as férias eu cheguei a encontrar com a Luiza na rua, nos cumprimentamos cordialmente, como colegas que não se veem há muito tempo. Ela estava acompanhada de uma garota que devia ser sua namorada, conversamos banalidades, nos despedimos e não voltei mais a vê-la. Um ano depois soube pela Elô que ela tinha se mudado para a Alemanha, conseguira um intercâmbio e ia passar dois anos por lá.

Eu não consegui a tranferência que tanto queria, tentei quando completei um ano de curso e após seis meses tentei novamente. Quando comecei o quarto semestre da faculdade já havia me acostumado e não tinha mais sentido fazer uma transferência e, quem sabe, perder um tempo precioso de estudo.

Por fim, conhecera uma menina que morava numa república vizinha a minha e como nós duas nos apaixonamos decidimos dividir uma casa. Quando eu contei para a Elô, ela me disse que não podíamos ser mais lésbicas do que isso, mal nos conhecíamos e já fomos morar sob o mesmo teto.

Porém, mesmo tendo uma parceira, nunca deixei de passar minhas férias na casa da Elô. Ela sempre fora mais importante para mim do que qualquer namorada, e depois da experiência com a Luiza eu aprendera a conservar minha individualidade.

A Elô, com o passar do tempo, foi ficando mais recolhida ainda. Continuava a caminhar, a cuidar da Lelé – que insistia em viver, apesar da idade – e de mais um cachorro e a escrever. Às vezes, passava um final de semana com a Renata.

Era uma pessoa alegre como sempre fora, mas tinha qualquer coisa dentro dela, uma tristeza que de tempos em tempos tomava conta do seu olhar, e por mais que ela disfarçasse eu conseguia identificar quando seu olho adquiria uma certa opacidade. Acho que tinha a ver com amor, como tudo na vida da gente. Afinal, é o amor que nos leva para frente ou para trás, seja amor por nós mesmo ou pelos outros.

E onde começa o amor? Há uma estrada que nos conduz a ele? Há placas nos dando a direção certa e mais curta? Há um ponto de chegada? E onde termina o amor? Há algum sinal que nos avisa que ele chegou ao fim?

Acho que nem se eu vivesse mil vezes teria as respostas, mas saberia falar dos amores com os quais – de uma maneira ou de outra – eu convivi e com os quais aprendi um pouco. O da Luiza por mim foi como uma semente que não chegou a germinar. O da mulher do livro pela Elô foi como um girassol que depois de aberto não suportou a luminosidade e a ardência do sol. Ambas histórias inacabadas, que terminaram antes mesmo de terem um fim.

F I M

 

 
Playlist do livro
Capítulo 1 – Eu sei (Legião Urbana)

Capítulo 2 – Just the way you are (Diana Krall)

Capítulo 3 – Tá combinado  (Caetano Veloso)

Capítulo 4 – Todo sentimento (Chico Buarque)

Capítulo 5 – Blue Monday  (New Order)

Capítulo 6 – Não sei dançar  (Marina Lima)

Capítulo 7 – What’s up  (4 no Blondes)

Capítulo 8 – Os cegos do castelo  (Nando Reis)

Capítulo 9 – Apenas mais uma de amor  (Lulu Santos)

Capítulo 10 – Twenty one  (The Cranberries)



Notas:



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8 Respostas para Twenty one

  1. Estava apreensiva com o desfecho do livro da Elô, me vi por trás do espelho. Gosto muito da forma como você vai traduzindo os sentimentos de um jeito quase “palpável”…rsrs… Linda obra!Parabéns!

  2. Gostei muito deste livro e ainda mais de relê-lo. Parabéns, você é uma excelente escritora! Curto muito sua obra.
    Abraços

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