APENAS UMA HISTÓRIA

Capítulo X – O deus da guerra

Cavalgavam há algumas marcas e se aproximavam da cova. Os cavalos estavam cansados e sedentos, todavia galopavam resolutos ao comando de suas donas.  Xena diminuiu o galope, fazendo Gabrielle acompanhá-la.

— Há algo errado, Xena?

— O que você acha?

Gabrielle puxou a rédea de Aglaio até pará-lo. Xena fez Argo estancar também.

— Muito silencioso, uma pequena trilha e nada à vista.

— Exato. Vamos deixar os cavalos descansarem e beberem água. Provavelmente precisaremos deles para mais do que passar pelo desfiladeiro.

— Xena, enquanto você leva os cavalos para beber água, acho que vou dar uma olhada por cima das rochas. Mais seguro do que simplesmente atravessarmos.

— Gabrielle, não acho…

— Xena! Sobrevivi dez anos sem você. Ainda acha que não sou capaz?

Xena a olhou intensamente. Não tinha mágoa do que acabara de ouvir, pois compreendia toda dor acumulada e todo percurso que a sua pequena barda havia passado para chegar até aquele momento.

— Não tenho a menor dúvida de sua capacidade, mas assim como se aflige em pensar o que possa acontecer comigo, e por tudo que passou por não me ter com você todo esse tempo, me agonia em pensar o que posso passar sem ter você ao meu lado. Mas… — Xena olhou para o chão e suspirou. — Enfim, somos guerreiras, não? Então, vamos em frente. É o que fazemos.

Xena se virou pegando as rédeas dos cavalos se encaminhando para um poço próximo. Gabrielle a olhou e inspirou fortemente, antes de também se virar e se encaminhar para o paredão rochoso.

Havia meia marca que Gabrielle a tinha deixado antes da entrada do desfiladeiro. Já se incomodava com a demora. Acarinhava o focinho de Argo impaciente.

— Que tártaro de demora! O que ela pensa que está fazendo, hein? — Xena falava para Argo, já bem alterada. Ouviu um pequeno barulho, apenas um roçar de capim contra alguma bota ou algo assim. Quem quer que fosse era habilidoso e colocou seus sentidos em alerta. Uma mão se colocou sobre sua boca e percebeu imediatamente Gabrielle colada ao seu corpo por trás, pedindo silêncio e apontando para uma trilha em cima do penhasco. Uma matilha de lobos. — “Lobos com olhos vermelhos, certamente são Bacantes”. — Pensou. Gabrielle retirou a mão do rosto de Xena, apenas observando os lobos sumirem numa fenda na trilha do penhasco.

— Ei! Quem te disse que poderia me abordar dessa maneira? Eu poderia ter te machucado. — Xena sussurrou um pouco irritada.

— Xena, você não é nenhuma tapada para não perceber meu cheiro e meu toque, né! — Falou baixo também.  — Ah! Tô entendendo. — Lançou um pequeno sorriso. — Está irritada por não conseguir antecipar minha chegada. — O sorriso se tornou um pouco maior.

— Quem disse? Ouvi suas botas roçando no capim, mas como você mesmo disse, senti seu cheiro e não me importei.

Xena falava irritada e Gabrielle abriu um sorriso maior ainda.

— O que é?

— Nada!

Gabrielle conhecia sua guerreira e sabia que não deveria tirá-la do sério em momentos como aquele. Virou-se para pegar as rédeas de Aglaio. Xena balançou a cabeça em negativa, suspirou. Tinha perdido esse embate com a namorada. Cruzou os braços de frente para Gabrielle, esperando por seu relato.

— Existem duas fendas, lá em cima, que dão para uma caverna. Mas, não é a caverna de Baco, como você já sabe. Parece que algumas Bacantes estão fazendo dessa caverna um ponto de apoio, para trazer as mulheres raptadas e iniciar a transformação. A questão é: Ou nós retornamos com os cavalos pela floresta, o que não é muito bom, por ser mais longo e provavelmente vigiado também ou…

— Ou deixamos os cavalos e vamos a pé pela trilha do alto do desfiladeiro que, mesmo tendo as entradas para a caverna, nós podemos nos esgueirar e passar. Nos escondendo, ficamos a favor do vento. Não são muitas opções, não?

— Definitivamente não.

— Vou tirar os arreios e a sela dos cavalos para soltá-los. Verei um lugar para esconder as selas também.

— Vou recolher o que precisaremos para a caminhada.

— Só o necessário…

— Xena.

— Está bem, eu sei que você sabe. Mas pode me deixar com a ilusão de que eu ainda sou muito necessária?

Gabrielle sorriu novamente, se aproximando de sua linda guerreira emburrada.

— Xena, você é e sempre será necessária, não só em minha vida, como na de muitos. Apenas, estou te ajudando com isso. — Falou, depositando um beijo leve em seus lábios e a olhando profundamente. A guerreira se virou de costas e disse um pouco sem graça com a sua infantilidade.

— Ok. Então, vamos com isso.

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Passaram do desfiladeiro há mais de duas marcas e já passava da metade do dia.

— Vamos descansar, Gabrielle. O fato de deixarmos os cavalos nos atrasou e muito, mas precisaremos de todas as energias possíveis.

As duas guerreiras estancaram ao mesmo tempo.

— Ares!!! — Falaram juntas.

— Gosto de saber que ainda chamo a atenção de duas lindas mulheres.

Xena e Gabrielle se entreolharam e Gabrielle fez um gesto para que Xena tomasse a frente. Xena fez uma cara de enfado.

— Para a parte chata, você me deixa atuar, né?

— Você sabe que eu não gosto de me interpor entre você e seus fãs. — Falou sorrindo.

— Vamos parar com essas ironias e brincadeiras entre amantes e vamos ao que interessa. Xena, se você pensa que pode enfrentar Baco, ele já está vacinado contra você, depois que o mandou para o mundo paralelo.

— E por que você se preocupa com isso? Se nós livrarmos o mundo de Baco, você fica melhor. Se nós morrermos, nada muda para você.

— E como pensa em livrar o mundo de Baco? — Ares tinha uma cara irônica e fazia sinal de “aspas” com os dedos.

Xena olhou para Gabrielle que fez uma expressão interrogativa em seu rosto também. Voltou-se para Ares, finalmente admitindo.

— Ainda não sei, mas isso nunca foi um problema.

— Foi um problema em Higuchi.

— Higuchi foi diferente…

— Diferente em quê?

— Em Higuchi eu me entreguei!

— Como em Corinto?

— Mais ou menos. Não exatamente como em Corinto, mas isso não me interessa mais. — Gabrielle percebia que esse embate com Ares estava irritando a guerreira e se aproximou colocando sua mão no ombro de Xena.

— E você? Vai deixa-la fazer essa loucura?

— E existe alguém que consegue impedi-la? — Gabrielle interpelou, franzindo o cenho.

Ares deu as costas, colocando a mão no rosto e esfregando-o. Inspirou profundamente e voltou a encará-las.

— Xena, você pode não acreditar, mas eu não gostaria que fizesse essa loucura. Ele é um deus e você não tem mais poderes para matar os deuses! Enquanto ele ainda não tinha feito a passagem, você poderia enfrentá-lo. Mas agora não! — Falava, exasperado. E Xena o olhava com indiferença.

— Ares. — Pausou em sua fala. — Eu até acredito em você, mas não vou desistir! Há pessoas que acreditam em mim e isso já me basta!

— Aquele bando de aldeões? Xena, são ovelhas, não vale a pena! Será que não vê?

Xena lançou um olhar enraivecido.

— Se para você, que é um deus, são ovelhas, para mim que sou mortal, são como eu. — Disse entre dentes, sua voz soando como um rosnado.

Ares lançou um olhar contrafeito.

— Eu desisto! — Sumiu no ar como havia aparecido.

Xena elevou os braços e os deixou cair ao longo do corpo.

— Por Eli! Ele nunca vai desistir de mim? — Proferiu, exasperada. Gabrielle já se sentava, pegando no alforje algumas frutas e queijo.

— É seu irresistível charme pessoal, Xena. — Disse gargalhando.

— Não me irrite, Gabrielle. Estou começando a achar que esse sarcasmo que adquiriu é um péssimo hábito!

— Aprendi com a melhor. — Antes que Xena a repreendesse, estendeu-lhe um pedaço de queijo, piscando os olhos charmosamente.

— Deuses, eu estou perdida agora! — Pegou o pedaço de queijo da mão de Gabrielle, fingindo irritação e se sentou ao seu lado.

— Acha que está falando a verdade? Quero dizer, acha que realmente está preocupado conosco ou com o que pode acontecer com você?

— Não. Definitivamente, não. Ares tem sentimentos por mim, mas…

— Mas…

— Ele está tramando algo. É da sua natureza, Gabrielle. Ele não nos quer por perto e temos que descobrir a razão, antes de investirmos contra Baco. Ele pode vir com todo esse discurso que é perigoso… Que não podemos com um deus, mas ele nunca renegou uma boa batalha. É como a história do escorpião e do sapo.

— Sim, a conheço. O escorpião pede ao sapo para atravessá-lo pelo riacho. O sapo fala que ele não confia no escorpião e o escorpião diz que se ele fizer alguma coisa, os dois morrerão. Então o sapo se convence e carrega o escorpião nas costas, porém num dado momento o escorpião pica o sapo. O sapo, perplexo, pergunta: por que você fez isso? Agora morreremos os dois. E o escorpião responde: Sinto muito, mas é a minha natureza.

— É isso. É da natureza de Ares, entende?

— Então mesmo que ele saiba que talvez não possa controlar o irmão, ele prefere arriscar para ter uma aliança mais forte no Olimpo do que um mundo sob a regência de um novo deus, no caso o deus de Eli.

— Os ensinamentos de Eli se propagaram por todo o mundo conhecido.

— Ele vê que a força dos ensinamentos está se espalhando e mais pessoas deixam o velho culto para aderir ao culto de um só deus e um deus que prega o amor.

— Então, com Yodosh fora, ele quer fortalecer o Olimpo novamente.

Gabrielle baixava a cabeça e suspirava de cansaço.

— O que foi?

— É que, às vezes, penso que a minha paz está em algum lugar físico, mas vejo que tem que vir de dentro de mim, pois nesta vida terei que estar sempre atenta ao desconhecido e lutando para essa mesma paz que desejo. Mas não importa. Vale a pena.

Xena a abraçou. Já tinha introjetado essa verdade dentro de si, mas ela era uma guerreira no mais puro sentido. Gabrielle era franca e apesar de todos esses anos, compreendia o ódio, mas não o aceitava e não conseguia consentir que ele fizesse parte da vida. Acabaram de comer e Xena já se levantava para continuar.

— Xena.

— Oi.

— Se alguma coisa me acontecer…

— Gabrielle…

— Não, Xena. Me deixe falar.

Xena apenas assentiu com a cabeça.

— Se alguma coisa me acontecer, instrua a minha sobrinha. Oriente-a, pois sei que ela tem o espirito para se lançar à vida como eu fiz. Sei que é dela e nada vai poder mudar, mas apesar de irreverente tem um grande coração e tem um espírito bondoso. Eu sabia exatamente o que eu queria e não me arrependo de nada, mas sou uma sonhadora irremediável e ela também.

Xena sorriu.

— Eu prometo, mas só se você me prometer que não vai me deixar. Sei que você cumpre todas as suas promessas.

Gabrielle lhe lançou um olhar terno, sorrindo também.

— Vamos logo, guerreira preguiçosa. Estou ficando velha e agora tenho saudades da minha cama. Antes não me importava de dormir sobre pedras, mas agora sei que tem um lugar macio e quentinho para me abrigar e que é só meu.

— Só seu?

— É… Mais ou menos… Achei por aí uma guerreira nômade que se encantou com meu jeitinho. — Sorriu, franzindo o nariz e esperando pela repreensão.

— AHHH! Sua… — Xena saltou sobre ela, abraçando-a delicadamente, porém, segura e sem deixá-la escapar. — Terá que pedir desculpas pela arrogância, pequena.

Gabrielle olhou intensamente para aquele mar azul que eram os olhos de seu grande e único amor. Depositou um beijo doce em seus lábios.

— Você não acha que estamos nos atrasando?

— Por quê? Se Baco quer ser um menino malcriado e quer brigar conosco, ele terá que esperar por nós, não?

— Xena, não somos nós que queremos brigar com ele?

— Eu não quero brigar com ninguém, eu quero ir para casa com minha companheira… — Beijou os lábios de Gabrielle. — Meu amor… — Beijou novamente — Minha alma… — Um terceiro beijo mais intenso. — O problema é que ele não quer se comportar e quer se interpor entre mim e meu objetivo.

— Sei. — Gabrielle sorriu ao ver o humor leve de Xena. Entendeu que Xena já havia traçado um plano e não queria expô-lo ali. Talvez por causa de Ares, ainda não sabia, mas sabia que deveria deixá-la explicitar no seu tempo exato. — Ok. — Gabrielle a beijou com furor.

— Adoro quando me obedece.

— Adoro te obedecer, principalmente quando me satisfaz.

Xena sorriu, sabendo que sua pequena tinha entendido o objetivo. Mais uma vez sentiram juntas, um arrepio percorrer suas colunas.

— Ares!! — Falaram juntas novamente.

— Será que vocês podem deixar esse melaço todo para depois? Vocês vão ou não vão contra Baco?

Dessa vez, Gabrielle tomou a frente para enfrentar Ares.

— O que eu vejo é preocupação por Baco ou ciúmes de Xena?

Ares entrou no campo de visão de Gabrielle apenas.

— Deuses não tem preocupações, loira irritante!

— E têm ciúmes?

Xena sorriu pela perspicácia de sua amada e Ares fez um ar de contrariedade. Sumiu no ar ainda, resmungando:

— Você ainda vai me dar razão, Xena.

Xena arqueou uma de suas sobrancelhas e fez cara de enfado.

— Me diga, Xena, essa conversa toda é o que você sente por mim ou você estava pressentindo Ares, antes de eu perceber?

— Os dois.

Xena pegou seu alforje e começou a subir o despenhadeiro. Gabrielle pegou também as suas coisas e fez um gesto dizendo:

— Que ótimo! Já falei antes para você que a gente tem que começar a se comunicar por sinais.

Xena continuou a subir, sem se voltar para a barda.

— Eu não disse para você, que o que eu disse não era verdade e também não disse que não queria fazer o que eu fiz. Apenas disse que eram os dois.

— Muito reconfortante… Muito mesmo! — Balançou a cabeça em negativa, enquanto acompanhava os passos de sua guerreira.



Notas:

Bom dia!

Meu note está de volta! Agradeço por esperarem e a paciência. Bom, vamos ao que interessa. Capítulo dez postado!

Um abração a tod@s!




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4 Respostas para Capítulo X – O deus da guerra

  1. ooeei, Bi!! Tudo bem por aí??
    parece que uma certa Barda ficou chateado lkkkk. Adoro, vc sabe….
    Beijinhos

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