Cavalgavam há algumas marcas e se aproximavam da cova. Os cavalos estavam cansados e sedentos, todavia galopavam resolutos ao comando de suas donas. Xena diminuiu o galope, fazendo Gabrielle acompanhá-la.
— Há algo errado, Xena?
— O que você acha?
Gabrielle puxou a rédea de Aglaio até pará-lo. Xena fez Argo estancar também.
— Muito silencioso, uma pequena trilha e nada à vista.
— Exato. Vamos deixar os cavalos descansarem e beberem água. Provavelmente precisaremos deles para mais do que passar pelo desfiladeiro.
— Xena, enquanto você leva os cavalos para beber água, acho que vou dar uma olhada por cima das rochas. Mais seguro do que simplesmente atravessarmos.
— Gabrielle, não acho…
— Xena! Sobrevivi dez anos sem você. Ainda acha que não sou capaz?
Xena a olhou intensamente. Não tinha mágoa do que acabara de ouvir, pois compreendia toda dor acumulada e todo percurso que a sua pequena barda havia passado para chegar até aquele momento.
— Não tenho a menor dúvida de sua capacidade, mas assim como se aflige em pensar o que possa acontecer comigo, e por tudo que passou por não me ter com você todo esse tempo, me agonia em pensar o que posso passar sem ter você ao meu lado. Mas… — Xena olhou para o chão e suspirou. — Enfim, somos guerreiras, não? Então, vamos em frente. É o que fazemos.
Xena se virou pegando as rédeas dos cavalos se encaminhando para um poço próximo. Gabrielle a olhou e inspirou fortemente, antes de também se virar e se encaminhar para o paredão rochoso.
Havia meia marca que Gabrielle a tinha deixado antes da entrada do desfiladeiro. Já se incomodava com a demora. Acarinhava o focinho de Argo impaciente.
— Que tártaro de demora! O que ela pensa que está fazendo, hein? — Xena falava para Argo, já bem alterada. Ouviu um pequeno barulho, apenas um roçar de capim contra alguma bota ou algo assim. Quem quer que fosse era habilidoso e colocou seus sentidos em alerta. Uma mão se colocou sobre sua boca e percebeu imediatamente Gabrielle colada ao seu corpo por trás, pedindo silêncio e apontando para uma trilha em cima do penhasco. Uma matilha de lobos. — “Lobos com olhos vermelhos, certamente são Bacantes”. — Pensou. Gabrielle retirou a mão do rosto de Xena, apenas observando os lobos sumirem numa fenda na trilha do penhasco.
— Ei! Quem te disse que poderia me abordar dessa maneira? Eu poderia ter te machucado. — Xena sussurrou um pouco irritada.
— Xena, você não é nenhuma tapada para não perceber meu cheiro e meu toque, né! — Falou baixo também. — Ah! Tô entendendo. — Lançou um pequeno sorriso. — Está irritada por não conseguir antecipar minha chegada. — O sorriso se tornou um pouco maior.
— Quem disse? Ouvi suas botas roçando no capim, mas como você mesmo disse, senti seu cheiro e não me importei.
Xena falava irritada e Gabrielle abriu um sorriso maior ainda.
— O que é?
— Nada!
Gabrielle conhecia sua guerreira e sabia que não deveria tirá-la do sério em momentos como aquele. Virou-se para pegar as rédeas de Aglaio. Xena balançou a cabeça em negativa, suspirou. Tinha perdido esse embate com a namorada. Cruzou os braços de frente para Gabrielle, esperando por seu relato.
— Existem duas fendas, lá em cima, que dão para uma caverna. Mas, não é a caverna de Baco, como você já sabe. Parece que algumas Bacantes estão fazendo dessa caverna um ponto de apoio, para trazer as mulheres raptadas e iniciar a transformação. A questão é: Ou nós retornamos com os cavalos pela floresta, o que não é muito bom, por ser mais longo e provavelmente vigiado também ou…
— Ou deixamos os cavalos e vamos a pé pela trilha do alto do desfiladeiro que, mesmo tendo as entradas para a caverna, nós podemos nos esgueirar e passar. Nos escondendo, ficamos a favor do vento. Não são muitas opções, não?
— Definitivamente não.
— Vou tirar os arreios e a sela dos cavalos para soltá-los. Verei um lugar para esconder as selas também.
— Vou recolher o que precisaremos para a caminhada.
— Só o necessário…
— Xena.
— Está bem, eu sei que você sabe. Mas pode me deixar com a ilusão de que eu ainda sou muito necessária?
Gabrielle sorriu novamente, se aproximando de sua linda guerreira emburrada.
— Xena, você é e sempre será necessária, não só em minha vida, como na de muitos. Apenas, estou te ajudando com isso. — Falou, depositando um beijo leve em seus lábios e a olhando profundamente. A guerreira se virou de costas e disse um pouco sem graça com a sua infantilidade.
— Ok. Então, vamos com isso.
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Passaram do desfiladeiro há mais de duas marcas e já passava da metade do dia.
— Vamos descansar, Gabrielle. O fato de deixarmos os cavalos nos atrasou e muito, mas precisaremos de todas as energias possíveis.
As duas guerreiras estancaram ao mesmo tempo.
— Ares!!! — Falaram juntas.
— Gosto de saber que ainda chamo a atenção de duas lindas mulheres.
Xena e Gabrielle se entreolharam e Gabrielle fez um gesto para que Xena tomasse a frente. Xena fez uma cara de enfado.
— Para a parte chata, você me deixa atuar, né?
— Você sabe que eu não gosto de me interpor entre você e seus fãs. — Falou sorrindo.
— Vamos parar com essas ironias e brincadeiras entre amantes e vamos ao que interessa. Xena, se você pensa que pode enfrentar Baco, ele já está vacinado contra você, depois que o mandou para o mundo paralelo.
— E por que você se preocupa com isso? Se nós livrarmos o mundo de Baco, você fica melhor. Se nós morrermos, nada muda para você.
— E como pensa em livrar o mundo de Baco? — Ares tinha uma cara irônica e fazia sinal de “aspas” com os dedos.
Xena olhou para Gabrielle que fez uma expressão interrogativa em seu rosto também. Voltou-se para Ares, finalmente admitindo.
— Ainda não sei, mas isso nunca foi um problema.
— Foi um problema em Higuchi.
— Higuchi foi diferente…
— Diferente em quê?
— Em Higuchi eu me entreguei!
— Como em Corinto?
— Mais ou menos. Não exatamente como em Corinto, mas isso não me interessa mais. — Gabrielle percebia que esse embate com Ares estava irritando a guerreira e se aproximou colocando sua mão no ombro de Xena.
— E você? Vai deixa-la fazer essa loucura?
— E existe alguém que consegue impedi-la? — Gabrielle interpelou, franzindo o cenho.
Ares deu as costas, colocando a mão no rosto e esfregando-o. Inspirou profundamente e voltou a encará-las.
— Xena, você pode não acreditar, mas eu não gostaria que fizesse essa loucura. Ele é um deus e você não tem mais poderes para matar os deuses! Enquanto ele ainda não tinha feito a passagem, você poderia enfrentá-lo. Mas agora não! — Falava, exasperado. E Xena o olhava com indiferença.
— Ares. — Pausou em sua fala. — Eu até acredito em você, mas não vou desistir! Há pessoas que acreditam em mim e isso já me basta!
— Aquele bando de aldeões? Xena, são ovelhas, não vale a pena! Será que não vê?
Xena lançou um olhar enraivecido.
— Se para você, que é um deus, são ovelhas, para mim que sou mortal, são como eu. — Disse entre dentes, sua voz soando como um rosnado.
Ares lançou um olhar contrafeito.
— Eu desisto! — Sumiu no ar como havia aparecido.
Xena elevou os braços e os deixou cair ao longo do corpo.
— Por Eli! Ele nunca vai desistir de mim? — Proferiu, exasperada. Gabrielle já se sentava, pegando no alforje algumas frutas e queijo.
— É seu irresistível charme pessoal, Xena. — Disse gargalhando.
— Não me irrite, Gabrielle. Estou começando a achar que esse sarcasmo que adquiriu é um péssimo hábito!
— Aprendi com a melhor. — Antes que Xena a repreendesse, estendeu-lhe um pedaço de queijo, piscando os olhos charmosamente.
— Deuses, eu estou perdida agora! — Pegou o pedaço de queijo da mão de Gabrielle, fingindo irritação e se sentou ao seu lado.
— Acha que está falando a verdade? Quero dizer, acha que realmente está preocupado conosco ou com o que pode acontecer com você?
— Não. Definitivamente, não. Ares tem sentimentos por mim, mas…
— Mas…
— Ele está tramando algo. É da sua natureza, Gabrielle. Ele não nos quer por perto e temos que descobrir a razão, antes de investirmos contra Baco. Ele pode vir com todo esse discurso que é perigoso… Que não podemos com um deus, mas ele nunca renegou uma boa batalha. É como a história do escorpião e do sapo.
— Sim, a conheço. O escorpião pede ao sapo para atravessá-lo pelo riacho. O sapo fala que ele não confia no escorpião e o escorpião diz que se ele fizer alguma coisa, os dois morrerão. Então o sapo se convence e carrega o escorpião nas costas, porém num dado momento o escorpião pica o sapo. O sapo, perplexo, pergunta: por que você fez isso? Agora morreremos os dois. E o escorpião responde: Sinto muito, mas é a minha natureza.
— É isso. É da natureza de Ares, entende?
— Então mesmo que ele saiba que talvez não possa controlar o irmão, ele prefere arriscar para ter uma aliança mais forte no Olimpo do que um mundo sob a regência de um novo deus, no caso o deus de Eli.
— Os ensinamentos de Eli se propagaram por todo o mundo conhecido.
— Ele vê que a força dos ensinamentos está se espalhando e mais pessoas deixam o velho culto para aderir ao culto de um só deus e um deus que prega o amor.
— Então, com Yodosh fora, ele quer fortalecer o Olimpo novamente.
Gabrielle baixava a cabeça e suspirava de cansaço.
— O que foi?
— É que, às vezes, penso que a minha paz está em algum lugar físico, mas vejo que tem que vir de dentro de mim, pois nesta vida terei que estar sempre atenta ao desconhecido e lutando para essa mesma paz que desejo. Mas não importa. Vale a pena.
Xena a abraçou. Já tinha introjetado essa verdade dentro de si, mas ela era uma guerreira no mais puro sentido. Gabrielle era franca e apesar de todos esses anos, compreendia o ódio, mas não o aceitava e não conseguia consentir que ele fizesse parte da vida. Acabaram de comer e Xena já se levantava para continuar.
— Xena.
— Oi.
— Se alguma coisa me acontecer…
— Gabrielle…
— Não, Xena. Me deixe falar.
Xena apenas assentiu com a cabeça.
— Se alguma coisa me acontecer, instrua a minha sobrinha. Oriente-a, pois sei que ela tem o espirito para se lançar à vida como eu fiz. Sei que é dela e nada vai poder mudar, mas apesar de irreverente tem um grande coração e tem um espírito bondoso. Eu sabia exatamente o que eu queria e não me arrependo de nada, mas sou uma sonhadora irremediável e ela também.
Xena sorriu.
— Eu prometo, mas só se você me prometer que não vai me deixar. Sei que você cumpre todas as suas promessas.
Gabrielle lhe lançou um olhar terno, sorrindo também.
— Vamos logo, guerreira preguiçosa. Estou ficando velha e agora tenho saudades da minha cama. Antes não me importava de dormir sobre pedras, mas agora sei que tem um lugar macio e quentinho para me abrigar e que é só meu.
— Só seu?
— É… Mais ou menos… Achei por aí uma guerreira nômade que se encantou com meu jeitinho. — Sorriu, franzindo o nariz e esperando pela repreensão.
— AHHH! Sua… — Xena saltou sobre ela, abraçando-a delicadamente, porém, segura e sem deixá-la escapar. — Terá que pedir desculpas pela arrogância, pequena.
Gabrielle olhou intensamente para aquele mar azul que eram os olhos de seu grande e único amor. Depositou um beijo doce em seus lábios.
— Você não acha que estamos nos atrasando?
— Por quê? Se Baco quer ser um menino malcriado e quer brigar conosco, ele terá que esperar por nós, não?
— Xena, não somos nós que queremos brigar com ele?
— Eu não quero brigar com ninguém, eu quero ir para casa com minha companheira… — Beijou os lábios de Gabrielle. — Meu amor… — Beijou novamente — Minha alma… — Um terceiro beijo mais intenso. — O problema é que ele não quer se comportar e quer se interpor entre mim e meu objetivo.
— Sei. — Gabrielle sorriu ao ver o humor leve de Xena. Entendeu que Xena já havia traçado um plano e não queria expô-lo ali. Talvez por causa de Ares, ainda não sabia, mas sabia que deveria deixá-la explicitar no seu tempo exato. — Ok. — Gabrielle a beijou com furor.
— Adoro quando me obedece.
— Adoro te obedecer, principalmente quando me satisfaz.
Xena sorriu, sabendo que sua pequena tinha entendido o objetivo. Mais uma vez sentiram juntas, um arrepio percorrer suas colunas.
— Ares!! — Falaram juntas novamente.
— Será que vocês podem deixar esse melaço todo para depois? Vocês vão ou não vão contra Baco?
Dessa vez, Gabrielle tomou a frente para enfrentar Ares.
— O que eu vejo é preocupação por Baco ou ciúmes de Xena?
Ares entrou no campo de visão de Gabrielle apenas.
— Deuses não tem preocupações, loira irritante!
— E têm ciúmes?
Xena sorriu pela perspicácia de sua amada e Ares fez um ar de contrariedade. Sumiu no ar ainda, resmungando:
— Você ainda vai me dar razão, Xena.
Xena arqueou uma de suas sobrancelhas e fez cara de enfado.
— Me diga, Xena, essa conversa toda é o que você sente por mim ou você estava pressentindo Ares, antes de eu perceber?
— Os dois.
Xena pegou seu alforje e começou a subir o despenhadeiro. Gabrielle pegou também as suas coisas e fez um gesto dizendo:
— Que ótimo! Já falei antes para você que a gente tem que começar a se comunicar por sinais.
Xena continuou a subir, sem se voltar para a barda.
— Eu não disse para você, que o que eu disse não era verdade e também não disse que não queria fazer o que eu fiz. Apenas disse que eram os dois.
— Muito reconfortante… Muito mesmo! — Balançou a cabeça em negativa, enquanto acompanhava os passos de sua guerreira.


ooeei, Bi!! Tudo bem por aí??
parece que uma certa Barda ficou chateado lkkkk. Adoro, vc sabe….
Beijinhos
Oi, Lailicha!
Tudo bem contigo?
Eu sei que gosta. hahahaha. Você se amarra num trê lêl ê. rs
Hoje sai outro cap. Não some viu?
Um beijão pra ti!
Boa semana Carol
Beijos 😘
Brigadão, Blackrose!
Hoje sai um novo cap e cheio de emoção. rsrs
Um beijão pra você e Boa semana!