O plano de Letícia era impecável. Ela havia identificado o ponto fraco da cerca, o horário e o número de veículos dos ladrões. A única coisa que faltava era o apoio de Dani.
Enquanto Letícia finalizava o relatório de ação no escritório, Dani entrou com uma expressão séria.
“Achei o dinheiro para as câmeras de segurança,” Dani disse, colocando um cheque sobre a mesa, mas Letícia estava focada demais para notar o valor.
Letícia empurrou o cheque. “Não se preocupe com isso agora. Meu plano foi aprovado. O reforço chega amanhã à noite. Em no máximo uma semana, o caso estará resolvido e os ladrões estarão presos.”
Dani sentiu um frio na barriga. “Resolvido. Certo.”
Letícia olhou para ela, finalmente notando a tensão. “O que foi, Dani?”
“Nada. Apenas alívio. A fazenda estará segura de novo.” Dani mentiu, olhando para a pilha de papéis.
Nesse momento, Lexia entrou, tímida, com as mãos atrás das costas.
“Tia Lê, eu fiz isso para você,” a menina disse, estendendo um desenho torto.
Letícia pegou o papel. Era um desenho de palito, colorido com giz de cera. Havia um celeiro, um gado roubado e três figuras de palito: Dani de Advogada (com um terno preto), Lexia e Letícia de policial (com uma estrela de xerife).
No rodapé, Lexia escreveu, com letras grandes e infantis: “Meu Time. Obrigada por nos salvar, Tia Lê.”
O gesto de Lexia atingiu Dani em cheio. O coração da menina, puro e ingênuo, via Letícia como parte essencial do novo lar e da família que estavam construindo. Dani havia fugido da ideia de romance, mas não havia como fugir do fato de que Letícia havia se tornado uma âncora afetiva para sua irmã.
Letícia guardou o desenho com uma emoção que Dani raramente via. “É o melhor relatório de ocorrência que já recebi, Lexie. Eu vou pendurar isso na delegacia.”
Letícia se virou para Dani, a voz agora suave, mas firme. “Dani, o caso acaba esta semana. Depois disso, eu volto para São Brás. Meu trabalho aqui termina.”
O mundo de Dani estremeceu. A possibilidade de Letícia ir embora era a realização de sua fuga, mas a sensação não era de alívio, e sim de pânico. Ela havia se acostumado à presença, à segurança e à calma controlada de Letícia.
“Eu entendi,” Dani disse, controlando a voz para soar profissional. “Seu trabalho termina aqui.”
“E o que nós fazemos?” Letícia perguntou, se referindo à atração e à confissão sobre Raizel, “O que nós fazemos agora que o medo dela ir embora é maior do que o medo dela ficar?”
Dani, a persistente e orgulhosa, simplesmente não conseguiu responder à pergunta. Ela desviou o olhar. “O foco é a segurança da fazenda, Capitã. Apenas isso. Por favor.”
Letícia suspirou. Ela entendeu que Dani precisava de tempo, mas ela não ia esperar por um ano. “Tudo bem, Dani. Foco na segurança.”
A Despedida Profissional
O plano de Letícia funcionou com precisão militar. Na noite do confronto, Letícia e os reforços pegaram os ladrões em flagrante. Foi arriscado, mas bem-sucedido. O gado foi recuperado e a fazenda estava segura.
Na manhã seguinte, Letícia se despediu.
“A paperwork (burocracia) está resolvida. Vou pegar a estrada. O delegado de São Sebastião pode te dar apoio daqui em diante.”
Letícia se despediu de Lexia com um longo abraço e a promessa de mandar cartas. Com Dani, a despedida foi um aperto de mão profissional no pátio da fazenda.
“Obrigada por tudo, Letícia. Por Lexia, pela fazenda e por ser honesta,” Dani disse, mantendo o controle total de suas emoções.
“Obrigada por me dar uma chance de provar que a vida nem sempre é drama, Dani. Espero que um dia você me dê a chance de te provar o resto,” Letícia respondeu.
A policial entrou no carro e foi embora, deixando Dani no meio do pátio, com uma sensação de vazio que o sucesso da investigação não podia preencher.
Meses Depois: A Tempestade e a Esperança
Seis meses se passaram. Dani e Luísa, a nova moradora da Fazenda Esperança (e namorada assumida de Pedro), estavam bem. A fazenda prosperava, e Lexia estava feliz. Mas Dani sentia uma falta aguda de Letícia, que ela teimava em atribuir à ausência de uma parceira de brainstorming legal.
Em uma tarde de domingo, uma forte tempestade atingiu a região. O vento uivava, as árvores caíam, e a fazenda, mesmo reformada, estava sob ataque da natureza. A luz acabou, a comunicação falhou e a ponte de acesso principal foi inundada.
Na manhã seguinte, a notícia da catástrofe na região rural correu o estado.
Em São Brás, Letícia, de volta à rotina do Quartel, viu as imagens na TV, com a legenda: “Comunicação cortada na região da Fazenda Esperança” — o nome da propriedade dos pais de Dani.
O coração de Letícia acelerou. Ela sabia que Dani, com sua persistência, estaria tentando resolver tudo sozinha. Ela não pensou duas vezes. Em poucas horas, Letícia conseguiu uma permissão de viagem de emergência, sob o pretexto de checar a segurança de testemunhas chave de seu último caso (uma mentira profissional que a Advogada Dani certamente admiraria).
O Reencontro de Aniversário
Letícia chegou à fazenda no final da tarde, dirigindo por desvios e estradas secundárias. Ela encontrou Dani e Luísa sujas de lama, tentando desimpedir um caminho.
“Vocês estão bem?” Letícia perguntou, pulando do carro.
Dani a encarou, pálida de surpresa. “Letícia! O que você está fazendo aqui?”
“Eu vi as notícias. Vim checar minhas… minhas testemunhas,” Letícia respondeu, lutando para manter a mentira. O olhar de alívio puro que Dani deu a ela valeu a viagem.
“Ah, Letícia, graças a Deus!” Luísa exclamou, abraçando a policial. “Dani estava pirando com a energia. É a semana do aniversário de dez anos da Lexia!”
Letícia se virou para Dani. “Ainda dá tempo. Eu posso ajudar. Tenho um gerador portátil no carro. O aniversário de Lexia não pode ser cancelado.”
A presença de Letícia injetou uma alegria imediata na fazenda. O gerador deu vida à sede. O foco mudou do desastre para a festa.
Lexia, ao ver a policial, correu e se pendurou no pescoço dela. “Tia Lê! Você veio para o meu aniversário!”
Enquanto Dani e Letícia montavam a decoração na cozinha, a tensão era palpável, mas agora colorida pelo afeto e a cumplicidade.
“Você não precisava ter vindo,” Dani disse, baixinho, sem olhá-la.
“Eu precisava. Eu não suportaria ficar longe sabendo que vocês estavam aqui, sozinhas,” Letícia confessou. “E, honestamente, eu não suporto mais ficar sem a sua discussão legal e o seu café na cafeteria.”
A confissão fez Dani rir, um som que Letícia não ouvia há meses.

