A Advogada e a Policial - A Ruína do Meu Álibi

Capítulo 2: A Muralha de Tijolos da Dani

Dani não conseguia piscar. O salgado, agora frio, estava prestes a cair de sua mão trêmula.

“Sua… prima?” Ela repetiu, a voz mais aguda do que o normal. Sua mente, sempre ágil no tribunal, processava a informação como uma falha de segurança gravíssima.

Luísa, alheia ao pânico interno da amiga, apenas confirmou com a cabeça. “Sim! A Letícia. Ela veio transferida da capital há uns meses, por isso ainda não a apresentei formalmente aos meus amigos. Ela estava de folga ontem, né? Deve ter te contado que é policial, né?”

Dani pousou o salgado na embalagem, sua fome evaporada. A coincidência não era agradável, era assustadora. Parecia que o universo estava fazendo uma intervenção forçada em seu plano de isolamento romântico seguro.

“Sim, ela contou. Policial,” disse Dani, tentando soar casual, o que era difícil quando seus alarmes internos estavam a todo volume. “O mundo é pequeno demais, Lu. Eu detesto quando o mundo é pequeno assim.”

Luísa franziu a testa, confusa. “Ué, mas qual o problema? Pensei que você tinha gostado dela. Sua cara quando falava sobre a ‘calma controlada’ dela dizia outra coisa.”

“Eu gostei,” Dani admitiu, cruzando os braços sobre o peito. “E é exatamente esse o problema. Foi muito fácil conversar. Foi… agradável demais. Isso não se encaixa na minha rotina de trabalho e paz de espírito.”

“Ah, Dani! De novo com essa história? Você tem 26 anos, não 70! Não vai se fechar para sempre só por causa daquele idiota do Victor!” Luísa a repreendeu, apoiando os cotovelos na mesa.

Dani se encolheu levemente, o nome do ex-namorado sendo um gatilho instantâneo. “Não é sobre ele. É sobre a minha paz. E, francamente, Luísa, a Letícia é sua prima. Se as coisas derem errado, fica um drama familiar desnecessário, entende? É melhor cortar pela raiz. Foi só uma conversa sobre Dostoievski, nada mais.”

“Cortar pela raiz? Vocês se esbarraram ontem! O máximo que pode acontecer é vocês tomarem um café juntas,” Luísa tentou argumentar.

“Não. Sem café. Sem encontros ‘por acaso’. Se ela estiver no seu churrasco de domingo, eu dou a desculpa de que estou de plantão com um habeas corpus e sumo. Por favor, Lu, não me coloque em contato com ela de novo.” A persistência e a força de personalidade que a tornavam uma advogada brilhante agora estavam totalmente voltadas para a autossabotagem emocional.

Luísa suspirou, derrotada, mas com um brilho malicioso nos olhos. “Tudo bem, você vence. Sem encontros arranjados. Mas se você esbarrar com ela na rua, não me culpe.”

O Contratempo (A Burocracia)

Na manhã seguinte, no escritório, Dani estava mergulhada em pilhas de documentos quando a recepcionista a chamou pelo interfone.

“Doutora Dani, a Capitã Letícia está aqui para falar com a senhora. É algo sobre aquele caso da pensão alimentícia que está sendo difícil de localizar o réu.”

O coração de Dani deu um salto mortal. Letícia? Aqui? A cidade era pequena, mas o trabalho de uma policial e de uma advogada cível raramente se cruzavam, a não ser por uma formalidade burocrática.

“Pode mandar entrar,” Dani respondeu, sua voz firme e profissional, ignorando o frio na barriga. Ela rapidamente ajeitou a postura, assumindo a “máscara” da advogada paciente e responsável.

Letícia entrou, fardada desta vez. O uniforme azul-escuro só realçava a postura impecável e, para o desgosto de Dani, a tornava ainda mais atraente.

“Bom dia, Doutora Dani,” Letícia cumprimentou, a voz de autoridade agora amplificada pelo ambiente de trabalho.

“Capitã Letícia, bom dia. Por favor, sente-se,” Dani respondeu, apontando para a cadeira em frente à sua mesa. A formalidade era uma defesa extra, e ela se apegou a ela.

“Desculpe aparecer sem aviso. Fui instruída a vir pessoalmente entregar o mandado atualizado sobre a localização do Sr. Antunes. O endereço está batendo com a área da sua jurisdição.” Letícia colocou a pasta na mesa.

“Eu agradeço a presteza,” Dani respondeu, pegando a pasta e folheando-a. Ela notou que o papel estava um pouco amassado, como se Letícia tivesse andado com ele por um tempo.

“Sem problemas. É o mínimo que posso fazer para que a justiça seja cumprida,” Letícia disse, e seus olhos verdes se encontraram com os de Dani. O profissionalismo da advogada vacilou por um segundo sob o olhar penetrante da policial.

“Achei que… bom, depois de ontem, talvez tivéssemos a chance de conversar mais casualmente.” Letícia não sorriu, mas havia uma pequena faísca de diversão em seus olhos.

Dani fechou a pasta com um pequeno click e forçou um sorriso profissional. “Sim, o mundo é realmente pequeno, Capitã. Mas aqui, estamos em horário de expediente, e eu sou puramente a Doutora Dani. Se não tiver mais nada relacionado ao caso, eu preciso me adiantar. Tenho outra consulta em dez minutos.”

A frieza calculada de Dani foi eficaz. O sorriso de Letícia desapareceu, substituído por um olhar de compreensão.

“Entendi. Certo. Sem problemas. Tenha um bom dia, Doutora Dani.” Letícia se levantou.

“Igualmente, Capitã,” Dani respondeu, já mergulhando de volta nos documentos, ignorando a mulher que saía.

Assim que a porta se fechou, Dani respirou fundo, aliviada, mas estranhamente incomodada. Ela havia conseguido se proteger, mas a sensação não era de vitória, e sim de… perda.



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