A Advogada e a Policial - A Ruína do Meu Álibi

Capítulo 4: A Festa, o Contratempo e a Carona

Três semanas se passaram. Os encontros matinais na Cafeteria Central se tornaram uma rotina confortável, embora quase sempre silenciosa.

Chegou a noite do aniversário de Luísa. Dani havia prometido a si mesma que iria, mas se o carro de Letícia estivesse estacionado na porta da casa de Luísa, ela iria inventar uma dor de cabeça e ir embora.

Ao entrar na casa, repleta de pessoas, risadas e música, ela avistou Letícia na cozinha, conversando com o namorado de Luísa. Letícia estava linda com um vestido casual e os cabelos soltos, e parecia mais relaxada do que nunca.

“Dani! Você veio!” Luísa a abraçou com entusiasmo.

“Claro que vim. Não perderia a chance de comer a sua torta de limão,” Dani brincou. Seus olhos, no entanto, estavam fixos em Letícia.

Mais tarde, enquanto a festa estava no auge, Dani e Letícia acabaram lado a lado na varanda, observando as estrelas da cidade do interior.

“O céu aqui é incrível, né?” Letícia comentou, quebrando o silêncio.

“É. Não tem poluição luminosa para competir,” Dani concordou, sorrindo. Ela estava relaxada, com o vinho e a música ajudando a dissolver a Advogada Responsável. “Você parece mais à vontade aqui do que na cafeteria.”

Letícia se virou para ela, um sorriso genuíno iluminando seu rosto. “Estou de folga de verdade. E Luísa é família. Na cafeteria, eu estava apenas evitando o drama. Achei que você tinha deixado bem claro que eu deveria manter a distância.”

A naturalidade com que Letícia tocou no assunto fez Dani se sentir culpada pela sua frieza anterior.

“Eu… eu exagerei,” Dani confessou, olhando para as próprias mãos. “É só que… eu tenho um histórico meio ruim. Eu sou ótima em argumentos de tribunal, mas péssima em julgar pessoas para a minha vida pessoal. Quando alguém me agrada de primeira, eu entro em pânico e ligo o modo ‘advogada de defesa’.”

Letícia assentiu com calma, sua expressão paciente. “Eu entendi. Eu lido com muito mais drama que isso no meu trabalho, então sei reconhecer quando alguém está se protegendo.” Ela deu de ombros. “Não levei para o lado pessoal. Agora, o que um bom Advogado de Defesa faz quando a ameaça some?”

“O quê?”

“Relaxa a guarda.” Letícia piscou.

Elas continuaram conversando por um tempo. A conversa fluiu de maneira leve e divertida, provando que a primeira impressão de Dani na livraria estava certa.

Quando a festa começou a esvaziar, Dani foi até a rua buscar seu carro. Ela tentou dar partida, mas o motor apenas tossiu. Ela tentou de novo, e nada.

“Droga,” ela murmurou, frustrada. Ela voltou para dentro para procurar Luísa.

“Lu, meu carro pifou. Você pode me dar uma carona?”

“Ah, Dani, eu acabei de tomar umas taças a mais. Não vou conseguir dirigir. Mas espera aí…” Luísa olhou para a porta, onde Letícia se despedia do casal. “Letícia! Você está de saída, né? Seu carro é forte, pode dar carona para a Dani? O dela quebrou.”

Letícia olhou para Dani, que estava visivelmente constrangida.

“Claro. Sem problemas. Pego o resto do caminho para casa,” Letícia disse, com a mesma calma de sempre.

A Carona (Primeiro Contato)

No carro de Letícia – um SUV discreto e robusto, típico de policial – o silêncio era diferente do da cafeteria. Era um silêncio íntimo. O cheiro sutil de desinfetante e um perfume suave preenchia o ar.

“Obrigada mesmo, Letícia. Odeio incomodar,” disse Dani, apertando o cinto.

“Não é incômodo nenhum. Eu teria que passar pela sua rua de qualquer jeito,” Letícia tranquilizou, dando a partida. “Você mora na Avenida das Cerejeiras, certo?”

“Isso. Você… lembra?” Dani perguntou, surpresa.

“Eu presto atenção. É o meu trabalho,” Letícia disse, sem se gabar, mas com um traço de diversão. “Além disso, você é a única advogada com a qual eu bati de frente nos últimos meses. Fica fácil de memorizar.”

Dani riu. “Justo. Você é a única policial que me faz querer fugir, então está no meu topo de prioridades também.”

O riso genuíno de Letícia preencheu o carro. A tensão da varanda se foi.

“Eu não mordo, Dani,” Letícia disse, olhando rapidamente para ela no semáforo.

“Eu sei. É que eu sou ótima em manter as pessoas à distância quando elas não estão no meu palco. Você me pegou desprevenida,” Dani explicou, sentindo-se mais honesta do que nunca. “Você é… muito fácil de conversar, até quando está me evitando.”

“O mesmo sobre você. Você é a pessoa mais falante que conheço, mas a que mais coloca barreiras,” Letícia observou, estacionando em frente ao prédio de Dani. Ela desligou o motor.

Letícia se virou, apoiando o braço na cadeira, e seus olhos verdes se encontraram com os de Dani na penumbra do carro.

“Olha, eu gostei de você desde a livraria. Eu entendi o seu ‘não’ no escritório, mas não entendi o ‘não’ aqui na varanda. O que você quer, Dani?” Letícia perguntou, a voz baixa e direta, como um inquérito.

Dani sentiu seu coração acelerar. A policial não estava pressionando, estava apenas confrontando a verdade. A advogada, com sua personalidade forte e persistente, estava encurralada.



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