A Advogada e a Policial - A Ruína do Meu Álibi

Capítulo 5: O Muro Cede, Não por Amor, Mas por Luto

Dani sentiu o pânico subir pela garganta. A voz baixa e direta de Letícia, que havia desativado todos os seus mecanismos de defesa em segundos, a encurralou. Dani era ótima em argumentar, mas péssima em admitir a própria vulnerabilidade.

“O que eu quero?” Dani repetiu, tentando ganhar tempo. Ela desviou o olhar dos olhos verdes de Letícia e fixou-o na porta do seu prédio. “Eu quero a minha cama, Letícia. E eu quero que você me leve a sério quando eu digo que estou tentando me concentrar na minha vida profissional aqui e não em…”

“Em quê, Dani? Em coisas que te façam sentir viva?” Letícia interrompeu, a voz ainda calma, mas agora com um leve toque de decepção.

“Em drama. Eu já tenho o suficiente para o meu escritório,” Dani mentiu, pegando a bolsa. Sua personalidade falante e persistente foi substituída pelo instinto de fuga. “Olha, obrigada mesmo pela carona. Eu… eu te vejo por aí. Na cafeteria. Ou no fórum.”

Antes que Letícia pudesse dizer mais alguma coisa, Dani abriu a porta do carro e saiu apressadamente. Ela não olhou para trás, subiu os degraus e entrou no prédio, sentindo-se a pior covarde do mundo. Ela havia fugido da verdade, e a expressão de Letícia, mista de curiosidade e frustração, seria sua punição silenciosa.

A Queda

Dias se passaram na rotina tediosa do trabalho, e Dani evitou a Cafeteria Central, temendo encontrar Letícia. A culpa a fazia buscar desculpas para trabalhar até mais tarde.

Em uma tarde cinzenta de quinta-feira, enquanto revisava uma cláusula complexa, seu celular tocou. Era Luísa. Pela voz embargada e quase incompreensível da amiga, Dani soube que algo terrível havia acontecido.

Luísa não precisou dizer muito. Os pais de Dani, que estavam viajando, sofreram um acidente na estrada. Ambos faleceram no local.

O mundo de Dani virou pó. Em segundos, sua mente forte e organizada se transformou em uma tela em branco. Não havia petição, lei ou argumento de defesa que pudesse trazê-los de volta. Seu luto foi instantâneo, paralisante.

O choque só começou a ceder quando o delegado local a ligou para discutir a guarda legal de sua irmãzinha, Lexia, de apenas oito anos.

Dani, a advogada paciente e forte, precisava se tornar a Dani, responsável legal e irmã. Ela não podia desmoronar. Ela não tinha tempo para desmoronar. Ela tinha uma menina pequena para proteger e criar. Em meio ao pior momento de sua vida, o trauma de relacionamentos passados e a autoproteção evaporaram diante de uma responsabilidade muito maior. Ela tinha que ser forte. Por Lexia.

A Mão Estendida

O velório foi um borrão de rostos desconhecidos e simpatia forçada. Dani estava de pé, rígida, com o blazer preto bem ajustado e os olhos secos, recebendo cumprimentos enquanto tentava manter Lexia, apegada ao seu quadril, confortável.

De repente, uma figura firme se aproximou, e o ar da sala pareceu mudar. Era Letícia, fardada, ao lado de Luísa.

Letícia não disse nada sobre a carona, o flerte ou a fuga. Ela não ofereceu frases clichês. Ela apenas parou na frente de Dani e Lexia, e seus olhos verdes profundos transmitiram uma empatia silenciosa e absoluta. Letícia, a policial que via o pior da vida todos os dias, sabia como era o luto.

“Viemos dar apoio, Dani,” Luísa murmurou, abraçando a amiga e a prima de surpresa.

Letícia se abaixou, ficando na altura de Lexia, que se encolhia atrás das pernas de Dani. “Oi, Lexia. Eu sou Letícia. Eu sou policial e amiga da sua irmã. Você está segura, ok? É só respirar.”

A calma de Letícia fez Lexia esticar a mãozinha e tocar o tecido frio da farda.

Mais tarde, quando a cerimônia terminou e o luto bateu com força, Dani não conseguiu nem pensar em dirigir. Luísa e Letícia se encarregaram de tudo.

“Você vai para casa, Dani. E a Lexia vai com você,” Letícia decretou, com a voz de quem dá ordens na delegacia. “O restante, a gente resolve.”

Enquanto Luísa levava Lexia para casa, Letícia usou seu conhecimento de organização e sua praticidade para ligar para a transportadora, reorganizar documentos e, o mais importante, organizar o quarto de hóspedes da Dani para receber a Lexia.

Ela não perguntava; ela fazia. Ela não consolava com palavras; ela o fazia com ações.

“Onde eu ponho esses brinquedos? Você prefere que eu guarde as caixas no sótão ou no quarto dos fundos?” Letícia perguntava, mantendo Dani focada em pequenas decisões práticas, impedindo-a de cair no vazio da tristeza.

Por três dias, Letícia estava lá. Cozinhando, organizando, buscando formulários no colégio de Lexia. Ela era o porto seguro que Dani nunca soube que precisava.

No final do terceiro dia, após finalmente colocar Lexia para dormir em seu novo quarto, Dani encontrou Letícia na cozinha, lavando a louça.

“Você não precisava ter feito tudo isso,” Dani disse, a voz rouca pelo choro que havia se permitido apenas naquele dia.

Letícia se secou as mãos, olhando-a diretamente. “É claro que eu precisava. Amigos fazem isso. Além disso, é o meu trabalho: trazer ordem ao caos.” Ela deu um sorriso de canto, um sorriso sem flerte, apenas apoio. “Você é minha amiga, Dani.”

Dani sentiu uma gratidão tão profunda que era quase amor. Ela se aproximou e, pela primeira vez, quebrou a barreira do toque, envolvendo Letícia em um abraço forte.

“Obrigada. Por tudo. Por ser a minha âncora.”

Letícia retribuiu o abraço com firmeza. “Sempre. Agora, vá descansar. E amanhã, você nos conta como pretende fazer a rotina da Lexia funcionar. Somos um time.”

O Novo Status Quo: Amigas

A partir daquele momento, a dinâmica entre Dani, a advogada traumatizada, e Letícia, a policial controlada, mudou completamente.

O flerte e a atração foram substituídos por uma amizade sólida e inegável. Letícia estava sempre por perto, não por interesse romântico, mas por responsabilidade afetiva. Dani, finalmente, tinha alguém em quem confiava plenamente.

A barreira havia caído. O problema é que, sob o manto da amizade, a atração inicial ainda pulsava, disfarçada de gratidão e conforto.



Notas:



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