Antes do Último Segundo

Capítulo 1 – Drama

viver aquele dia estava sendo impossível, misteriosamente meu celular não tocou o despertador, não conseguia um táxi, estou fazendo uma nova prova de vestido e eu nem sei mesmo o porquê de me casar. Não estou fazendo drama, é como se eu tivesse apenas deixado as coisas acontecerem sem minha interferência. Era a terceira vez que o celular tocava na minha bolsa e, além de me deixar nervosa, estava fazendo as costureiras me furarem a cada cinco segundos. Já havia cansado de reclamar, apenas deixei. Massageava a cabeça desejando ter optado por fazer o vestido diretamente em Roma, eu não queria julgar mal um trabalho, mas pelo menos eu estaria estressada na Itália.

– Esse é o último, pode se trocar ou simplesmente atender esse celular. – A senhora disse assim que se levantou e achei de grande petulância. Imagina Riccardo Bellini, CEO da Valentino, ouvindo uma de suas Haute Couture falando assim com uma cliente.

– Pronto. – Atendi o telefone o mais rápido possível.

– Está atrasada, Lily. – Ouvi a voz da minha secretária do outro lado da linha. – Ricardo parece que vai ganhar alguns novos cabelos brancos. – A última parte foi sussurrada.

– Bem, se ele ainda quer casar, ele precisa esperar. – Falei entre panos do vestido, uma das ajudantes tentava tirar sem perder as marcações. – Logo eu chego.

– Vem depressa, de verdade, é capaz do humor dele fazer todos nós entrarmos em combustão espontânea. – Gargalhei, não só pelo ótimo humor da minha secretária, mas também pela clara atenção da ajudante dedicada ao meu corpo seminu.

– Estou indo. – Desliguei a ligação e a encarei de volta. – Gostou? – A jovem ficou vermelha, gaguejou um desculpe e saiu. Me vesti o mais depressa possível, agradeci pela atenção, com o olhar voltado para a jovem e dei uma piscada discreta. Fiz sinal para o primeiro táxi que passou. – Lead Américas, Barra da Tijuca.

– Sim senhora. – Respondia as mensagens mais rápido que podia, evitei a aba de conversa com Ricardo, preferia falar com ele pessoalmente. – O tempo parece bom hoje. – Disse displicente, como se estivesse falando com ele mesmo.

– Parece, mas um pouco de chuva não faria mal. – Respondi sem olhar.

– Quer que eu feche a janela e ligue o ar condicionado? O barulho da rua pode atrapalhar. – Encontrei seus olhos me fitando pelo espelho retrovisor. – A grande desvantagem de ter pressa é o tempo que perdemos com isso. Isso cabe muito bem no trânsito da cidade.

– Acho que essa frase é Chesterton. – Bloquei o celular e voltei a olhar para o retrovisor. – Acho que é a primeira vez que ouço alguém citar algo dele.

– Cresci com muitos pensadores. – Deu um breve riso. – De forma figurativa, claro. A senhora gosta de ler?

– Gosto, mas faz algum tempo que não leio por bel prazer à literatura. – Observei seu rosto marcado através do espelho. – Você tem um belo rosto, já pensou em ser modelo? – Ele sorriu novamente. Seu olhar era fascinante, transmitia uma serenidade anormal.

– Nunca pensei, eu gosto de estar aqui onde estou, conheço pessoas, ouço algumas histórias, conto outras. – Meu celular tocou novamente. – Fique à vontade. – Voltou sua total atenção para frente.

– Estou chegando. – Ricardo não teve tempo de falar qualquer coisa.

– Eu precisava que estivesse aqui meia hora atrás. – Ele disse impaciente, pude ouvir o tamborilar de seus dedos, fazia isso apenas quando estava nervoso, o que ultimamente parecia ser sempre.

– Que tal eu comprar um helicóptero? Assim paro de pegar trânsito, querido. – Falei ironicamente. – Estava provando o vestido para o nosso casamento, lembra que vamos casar em algumas semanas?

– Claro que me lembro, o tempo inteiro. – O barulho dele coçando a barba por fazer arrepiava os pelos da minha nuca de nervoso. Eu odiava quando ele permitia a barba ficar tão grande. No fundo eu não gostava da imagem que via quando olhava para ele, não era algo que planejei. – Preciso de você para conseguirmos lidar com o pessoal do Birman, Lilith.

– Está na frente do computador?

– Sim.

– Abre seu e-mail, procura por Lilith Bianchi com assunto: Modelos de pés para grife Birman. – Ele ficou em silêncio. – Tem alguns nomes mais cotados para as fotografias de divulgação. – Ouvi seu suspiro do outro lado da linha. – Eu sabia e já tinha te avisado que iria me atrasar por conta da prova do vestido e deixei tudo mastigado para a reunião, você só não viu seus e-mails. Não me culpe.

– Não se faça de vítima, você é a diretora de moda, precisava estar aqui.

– E você é o presidente da empresa, delega as funções e eu vou desligar para não começarmos uma nova discussão.

– Não precisa.

– Que petulância, desligou na minha cara. – Olhei para o telefone. – Se ainda não é casado, continue fugindo.

– Não sou casado, mas casamentos não são feitos apenas disso. – Olhou um segundo para o retrovisor. – Me desculpe, eu deveria aprender a ser menos sincero.

– Não se preocupe, gosto de pessoas sinceras. – O restante do caminho foi silencioso, não demorou mais do que vinte minutos e chegamos no prédio. – Muito obrigada pela conversa. – Paguei e saí do carro depressa antes que não tivesse mais funcionários.

– Ricardo parou de surtar, mas deixou todo o resto surtando. – Larissa me recebeu já no elevador. – Olhei e todos digitavam com tamanha força que logo precisaria substituir os teclados. Parei por um segundo.

– Bom dia, pessoal, sei que não estamos no nosso melhor momento, peço desculpas por todo estresse causado. – Ganhei alguns poucos sorrisos e outros acenos de cabeça. – Se continuar desse jeito eu juro que fujo no dia do casamento, ou melhor, antes do dia.

– Mande um memorando para todos nós, assim pedimos demissão antes. – Ela sorriu parecendo um pouco mais relaxada. – O Devil está na sala de reuniões 3.

– Será que preciso de um crucifixo e água benta? – Perguntei tentando quebrar a tensão do momento.

– Meu estoque acabou hoje pela manhã. – Me empurrou para entrar na sala e todos os olhares voltaram para mim. A diretora de fotografia do Birman deu um leve sorriso e Ricardo se levantou e agiu da forma mais educada possível.

– Que bom que chegou, querida, mostrei as modelos que havia selecionado para Alexandre e Letícia, porém há algumas ressalvas, deixarei com você agora, tenho outro compromisso urgente. – Fez um leve aceno de cabeça para as duas pessoas que estavam ali e saiu.

– Me desculpem o atraso. – Coloquei a bolsa sobre a mesa e me sentei.

– Você é a alma desse lugar, querida, da próxima vez irei deixar avisado que não faremos encontros com o Ricardo. – Alexandre falou rapidamente.

– Sinto pelo inconveniente, foi a última prova do vestido e já estava adiando há algum tempo.

– Pelo que vimos hoje, cancele o casamento. – Sorri sem jeito com a fala e passei a frisar apenas a parte profissional. Foram necessários apenas alguns minutos para definir as melhores modelos para o banner de corpo todo, as melhores modelos para sessões apenas mostrando como o sapato combina com determinada bolsa e findamos o encontro, acompanhei ambos até a recepção central da agência, Alexandre Birman foi o primeiro a sair e sua diretora de fotografia se demorou um pouco mais no aperto de mão.

– As coisas não parecem bem encaixadas para um casamento. – Letícia havia sido um caso antigo, algo que se tornou uma boa amizade com certa intimidade.

– Ainda tenho algumas semanas para desistir. – Falei deixando um pouco de lado a postura forte e intocável. Me deixei a observar por algum tempo. – Se a sua esposa souber desse tipo de olhar serão dois casamentos cancelados.

– Nem brinca, você sabe, meus olhos não resistem a você, mas esse corpo aqui só reage a ela. – Sorriu e deu um leve tapa no meu braço. – Já tivemos nossa oportunidade.

– Sim, aproveitamos o que tínhamos para aproveitar. – O celular tocou em minha mão.

– Vou me despedir, ainda preciso resolver algumas coisas, nos vemos. – Me deu um beijo no rosto e saiu. Atendi o telefone sem olhar o visor.

– Alô? – Ficou mudo do outro lado, ouvi uma breve respiração por alguns segundos e logo a ligação foi derrubada. Coloquei o celular no bolso da calça wide leg e segui de volta aos escritórios, porém tomei um rumo diferente do meu escritório e parti em direção a sala do Ricardo, no andar superior.

A secretária não estava em seu lugar habitual e pela primeira vez me senti no direito de entrar sem ser anunciada, dei duas leves batidas e como não obtive respostas entrei a sala, estava quase escura se não fosse pela pequena brecha na cortina pesada que ele tanto fazia questão de ter, sempre reclamou que sem elas o escritório ficava insuportável com o sol do início da tarde. O cinzeiro sobre a mesa de mogno escura estava lotado de bitucas de cigarro e ele havia dito que estava tentando parar de fumar, o copo de whisky com apenas um gole denunciava também que ele havia começado a beber mesmo em horário comercial, eu me perguntava o que estava acontecendo. O conhecia há mais de dez anos, praticamente desde o início da minha carreira, já que a mãe dele havia me recrutado após um longo dia lavando pratos na lanchonete no centro da cidade. Havia várias pastas de documentos sobre a mesa, quando estava prestes a olhar o que havia nelas ouvi um sinal do celular que estava quase tapado por uma delas, a tela iluminou com uma breve mensagem: “O tempo está se esgotando”. Ouvi passos se aproximarem e deixei tudo como estava.

– Lily, querida, o que está fazendo aqui? – Ele pareceu assustado com minha presença, passou ao meu lado e displicentemente, só para ele, tapou o telefone quando esbarrou em uma das pastas.

– O que mais eu estaria fazendo aqui a não ser te procurar, Ricardo? – Falei apoiando as duas mãos sobre a mesa e o olhando diretamente. – Não sei o que está acontecendo com você, mas eu não te dou o direito de falar comigo da forma que falou hoje pela manhã, estava tudo em suas mãos. Está arrogante, impaciente e fumando mais do que jamais fumou, sem falar em beber, apontei para o copo sobre a mesa e a garrafa no fim sobre o carrinho que ficava ao lado da sua estante. – Se está estressado eu também estou, além de precisar estar 100% presente aqui ainda preciso me preocupar com os detalhes do nosso casamento, você se lembra que sou sua noiva?

– Não está acontecendo nada. – Ele acendeu um novo cigarro e me afastei antes que a fumaça tomasse conta do meu rosto. – Tenho muitos problemas aqui e fora daqui. – Tirou o celular do bolso que tocava e derrubou a ligação. – Preciso que vá em meu lugar para Milão, é semana da moda e precisa estar de olho nas nossas modelos estreantes. Eu iria, mas tenho um outro compromisso com alguns parceiros de Nova York. – Seu telefone tocou novamente e ele ficou me olhando.

– Você realmente não tem mais nada para dizer? – Seu olhar impaciente me fez balançar a cabeça de forma negativa. – Esquece. – Sai da sala e minha vontade era bater à porta, porém a secretária já estava lá com um olhar cansado. Caminhei a passos rápidos em direção ao elevador, cheguei em minha sala e afundei no trabalho o restante do dia, Larissa me trouxe um café no final da tarde e me deu seu celular.

– Você viu? – Peguei o aparelho e olhei a matéria. – A Milla não é aquela modelo que pediu afastamento por e-mail?

– Ela mesma. – Busquei mais informações. – Ela disse que havia retornado ao Brasil após seu contrato no Japão acabar e queria se reconectar, saber o que realmente queria fazer. – Devolvi o aparelho. – Como o corpo dela foi encontrado na Eslováquia?

– Está em investigação, é triste isso. – Um leve arrepio me tomou após um vago pensamento aparecer. – Será que o Ricardo já sabe?

– Seria impossível saber algo do Ricardo. – A cena do celular sobre a mesa voltou a minha cabeça, porque ele teria outro telefone e o por que esconder o mesmo? – Tem alguma coisa importante amanhã?

– Só pela manhã, um casting para aquela agência de publicidade da semana passada, não tenho nada marcado para a tarde na sua agenda.

– Certo, qualquer compromisso que precise da minha presença marque apenas para depois de terça-feira, meu incrível parceiro desistiu de ir para Milão por conta de novos compromissos e eu terei que fazer esse péssimo sacrifício.

– Adoraria que me dessem um sacrifício desses. – Larissa se levantou. – No final não sei o que é melhor, estar na Itália ou longe do nosso querido chefe.

– Acho que estar longe do querido chefe. – A voz masculina se fez presente, o tom era brando. – Poderia nos dar um minuto, Larissa? – A mulher pálida saiu mais que depressa. – Vejo que minha reputação está piorando. – Sentou-se em minha frente. – Não ando sendo o melhor dos chefes… e noivo.

– Eu não imagino o por que pensa isso. – Fui irônica e ele notou pelo meu tom de voz, dando um riso sem graça, seu corpo estava tenso e do chiclete que mascava, eu tinha pena. – No que posso te ajudar?

– Gostaria de ir jantar comigo? Talvez dormir lá em casa. – Não havia carinho em sua fala, havia certa apreensão. – Faz algum tempo que não passamos um tempo juntos.

– Sinto muito, mas hoje eu não quero, por não querer mesmo. – Não fui nada gentil, apenas sincera. – E também por precisar fazer uma viagem que não estava contando amanhã à noite, então preciso ir pra casa, arrumar uma bela mala e talvez tomar uma taça de vinho, ou a garrafa inteira, pra ver se no final existe uma boa resposta.

– E qual resposta você procura? – Ele disse, parecendo me analisar. – Sobre nós?

– Não apenas isso. – Fechei o notebook, levantei, peguei a minha bolsa e parei ao seu lado. – Tem alguma coisa acontecendo e se você não me falar vou acabar descobrindo. – Estava saindo quando ouvi sua resposta.

– Tem certas coisas que é melhor não descobrir. – Deixei a porta aberta e passei por Larissa ainda com olhar assustado.

– Não se preocupa, já tá na hora de encerrar o dia. – Dei duas leves batidas na mesa e sorri, ela era uma boa amiga, mas no momento não devia envolvê-la nas minhas desconfianças.

– Já estou indo, tenho um encontro agora. – Sorriu ao falar de, muito provavelmente, um novo romance. – Até amanhã.

– Até amanhã.

Entrei no elevador, pensamentos borbulhando e um cansaço que parecia me sugar o ânimo, parei na calçada para solicitar um carro por aplicativo, passava das 18 horas e o trânsito estava caótico e minha internet não ajudava, o aplicativo apenas ficava carregando o mapa, olhei para os dois lados buscando por um táxi convencional e nada. O vento passou a balanças as folhas das árvores do canteiro central, o mesmo vento que trazia nuvens carregadas e eu só não queria estar ali quando começasse a chover. As buzinas constantes atormentavam meus pensamentos ainda mais, percebi um carro com os vidros fechados estacionado, alguns metros em minha frente, os faróis acesos, forcei os olhos um pouco tentando observar seu interior, sem sucesso. Resolvi andar um pouco mais para frente e percebi que o carro andou um pouco mais, a tela do celular estava congelada e meu corpo enviava alertas confusos quando finalmente um táxi parou em minha frente, sem nem mesmo eu fazer sinal, o vidro se abriu e reparei em um par de olhos conhecidos.

– Precisa de uma carona, senhora? – Vi seu sorriso e logo entrei no táxi. – Parece que a chuva que queria mais cedo chegou antes da hora. – Ouvi os pingos baterem suavemente na lataria do carro e no para-brisa.

– Que estranha coincidência, duas vezes no mesmo dia numa cidade cheia de táxis. – Sorri com a coincidência e me permiti relaxar. – Condomínio Bella Vista, fica entrando a direita logo que pega o elevado do Joá.

– Coincidência é a maneira que Deus encontra para permanecer anônimo. Já sei onde fica. – O carro iniciou sua partida. – Existe uma outra que eu gosto muito, é do Zafón, “As coincidências são as cicatrizes do destino”.

– Você é singular, em uma única frase cita Einstein e Zafón, algo me diz que deveria ser muito mais do que um motorista de táxi.

– Eu gosto de compartilhar essas frases, muitas delas nos ajudam a decifrar o sentido da vida ou de um simples momento. – Afirmei dando um breve sorriso, olhei para trás e não vi se o carro havia começado a me seguir, tirei o pensamento de perseguição da cabeça após um leve suspiro, me senti protegida pelo momento. O carro tocava uma música calma, um leve cheiro de rosas tomou conta a tensão foi dando lugar a sensação de proteção e lembranças.

– Meu avô costumava colocar essa música no final da tarde. – Fechei os olhos lembrando do cheiro do café recém passado, do líquido em sua xícara preferida ainda saindo fumaça, o cheiro das rosas iniciando o processo de fotossíntese e liberando todo seu aroma pelo jardim. Suspirei com a lembrança acolhedora depois de um dia tão difícil.

– Seu avô possuía um ótimo gosto musical. – Mantive os olhos fechados a apenas afirmei com a cabeça, não queria acordar daquele momento, por alguns minutos me senti realmente em paz, nem mesmo a chuva torrencial que caia do lado de fora foi capaz de me tirar a atenção.



Notas:



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