Após me manter deitada o máximo de tempo possível, enrolada na coberta macia e cheirosa da cama me dei por vencida e cambaleante fui até o banheiro realizar a higiene pessoal e tomar um banho, buscando nas pequenas coisas um motivo para me manter fora daquele quarto. Era sábado e em dois dias retornaria ao Brasil, agradeci mentalmente pelo breve descanso antes da realidade fria me encarar, frente a frente. Vesti uma blusa confortável, uma calça jeans e sapatos que me permitissem caminhar sem dor. Olhei minha imagem no espelho e vi ali alguém cansada demais para continuar e insistente demais para desistir, antes de desligar a tv vi o noticiário, o caso da modelo brasileira encontrada morta na Eslováquia, aumentei um pouco o volume e me sentei na beirada da cama, já estava pronta para sair, mas aquilo me deixava apreensiva. Peguei o celular e mandei uma mensagem para Larissa, ainda era madrugada no Brasil e desejei que ela visse somente mais tarde.
– Lari, bom dia, consegue o telefone da família da Milla Soares, gostaria de enviar minhas condolências a eles. -A voz da jornalista ecoou pela tv.
– A jovem encontrada no Rio Danúbio no trecho que corta a Eslováquia, Marilla Soares, era uma modelo brasileira em busca do sucesso. A família se encontra inconsolável quanto aos gatilhos do acontecimento. Após anos trabalhando em uma badalada agência de moda no Rio de Janeiro, Milla, como era conhecida, deixou os holofotes da fama para se reencontrar, como diz a família com sua última mensagem no celular. A investigação segue em sigilo. – A programação prosseguiu com outras notícias e eu permaneci ali mais alguns minutos pensando nesse trágico acontecimento. Ela era uma das preferidas do Ricardo e ele sempre enfatizava em como a aparência dela renderia rios de dinheiro, a menina era simples e muito tímida, mas seu maior desejo era ganhar dinheiro para ajudar a família que morava no interior de Minas Gerais. Anotei em minha agenda a necessidade de encontrar mais detalhes no arquivo quando voltasse.
Saí do hotel buscando limpar a cabeça de todos os problemas, caminhei até a Piazza del Duomo, admirei a enorme Catedral de Milão, a passos lentos cheguei até a Galeria Vittorio Emanuele II, sua estrutura de ferro e vidro era um show de imagem para os olhos, parei sobre o mosaico de touro no chão e girei três vezes com o calcanhar, toda boa sorte é muito bem-vinda. Tirei fotos e posei para algumas, já que meu rosto estava estampado em alguns jornais ao lado de grandes nomes da moda, o que me envaideceu absurdamente. Parei próxima ao monumento a Leonardo da Vinci na Piazza della Scala, apreciei a bela arquitetura de um dos teatros de ópera mais famosos do mundo. Continuei a caminhada, apreciando a sombra das árvores e a brisa fresca, as calçadas eram repletas de lojas e cafés. Parei na Caffetteria Dante, o lugar era convidativo e aconchegante, não estava muito cheio, um atendente jovem e sorridente me trouxe um pequeno cardápio.
– Um caffè espresso e uma pastafrolla, per favore. – Ele sorriu e seguiu em direção ao balcão. O aroma dos grãos torrados e o calor que emanava das xícaras de porcelana fazia daquele pequeno lugar um final de passeio perfeito. Respirei fundo mais uma vez sentindo o forte aroma de café invadir meus sentidos, era somente disso que eu precisava naquele momento. Caminhar pelas ruas antigas e históricas havia acalmado um pouco meus pensamentos turbulentos, uma forma de tentar adiar o futuro próximo, que era meu retorno para o Brasil, encarar as coisas quebradas fora e dentro de mim.
Estava sentada próxima do balcão, de costas para a entrada, mexia de forma displicente e distraída o café recém chegado, ouvi um tilintar do pequeno sino sobre a porta, a conversa baixa havia encerrado por apenas um segundo, as xícaras pareceram ficar suspensas no ar, tudo pareceu parar naquele momento para logo voltar ao normal. O som de leve estalado de salto sobre o piso frio da cafeteria foi ritmado e me deu um leve arrepio na nuca, aquele arrepio quente já conhecido e ainda assim estranho. Abandonei a pequena colher e levei a xícara até os lábios tomando um breve gole do líquido quente, deixei a xícara sobre o pires e então senti um perfume cítrico, suave, envolvente, o arrepio dessa vez espalhou uma onda de calor pelo meu peito, meu coração saltou, virei a cabeça levemente na direção do balcão. Era ela, a mulher de ontem, eu não sabia como, mas tinha certeza que era ela, inspirei novamente seu perfume. Um cheiro que pareceu tocar minha alma, era como o despertar de algo adormecido.
– Um caffè espresso, per favore. – A voz dela soou melodiosa, com um sotaque italiano perfeitamente arrastado que parecia preencher todo o espaço.
Eu estava hipnotizada, a observei enquanto o atendente entregava uma xícara quente cheia de café. Acompanhava seus movimentos com o olhar vidrado, mesmo tentando não ser inconveniente. E em uma pequena fração de segundo seu movimento vacilou e a porcelana virou um punhado do líquido escuro e quente em sua calça clara.
– Accidenti. – Ela soltou em um suspiro rápido, parecendo surpresa e desconfortável com a própria falta de jeito. Instintivamente, meu corpo se moveu antes que pudesse racionalizar os movimentos. Puxei um punhado de guardanapos de papel do suporte da minha mesa, levantei-me e, em três passos, estava de frente para ela.
– Aqui, pegue. – Disse, estendendo o papel em sua direção. Sem mover a cabeça um centímetro para cima pegou o papel, tocando brevemente seus dedos nos meus, senti uma onda de choque tomar conta do meu corpo. A sensação que tive era de que nos conhecíamos há muitos anos, só com a pequena proximidade e o leve toque.
– Grazie. – Ela passou o papel desajeitada na perna. – Nossa, como isso queima! – Sua afirmação e bico que veio logo depois me pegou de surpresa, me arrancando um riso involuntário. Havia algo nela que era magnético, hipnótico, ao mesmo tempo que inesperadamente adorável, peguei mais alguns guardanapos sobre o balcão e levei de encontro a sua mão.
– Use mais, antes que manche toda sua calça ainda mais. – Incentivei.
Ela ergueu os olhos, e o dourado profundo daquelas pupilas encontrou meus olhos. O tempo no café pareceu desacelerar de novo, exatamente como minutos atrás e no tapete vermelho. Mas, de repente o foco dela mudou dos meus olhos para sua calça. A quebra do momento pareceu fazer o meu corpo dar um pequeno recuo.
– Obrigada.
– Você fala português, me entendeu muito bem!? – Eu disse sem jeito sentindo meu rosto queimar por ser invasiva e continuar ali a observando tentar limpar a calça. Parecendo ter cometido um grave erro, ela soltou um riso sem jeito, tímido, que desarmou qualquer coisa que eu pudesse falar.
– Ah…sim. Eu falo. – Ela deu de ombros, as bochechas ganhando um tom sutil de rosa que imaginei ser do café quente que ela havia acabado de tomar. – Às vezes eu me esqueço de onde estou e misturo um pouco de cada coisa. Obrigada pela ajuda, foi muito gentil.
– Oh, não precisa agradecer. É reconfortante ouvir minha própria língua por aqui. – Comentei, ainda sem conseguir me mover de volta para a mesa. – Você não quer se sentar comigo? Vai ser mais fácil limpar essa mancha sentada do que em pé aqui no balcão.
O convite saiu antes que eu pudesse conter, ela poderia estar esperando alguém. Pareceu como pura gentileza, mas por dentro eu sabia a verdade: era uma tentativa deliberada de prolongar aquele momento. Eu não queria que ela simplesmente pagasse por seu café e sumisse novamente pelas ruas da Itália. Eu queria manter aquela sensação de conforto desconfortável por mais um pouco de tempo. Ela olhou para a minha mesa, depois voltou os olhos dourados para mim, parecendo ler cada uma das minhas intenções ocultas. Longe de parecer incomodada um breve brilho de satisfação cruzou seu rosto e eu pude notar.
– Aceito. É uma excelente ideia. – Meu peito vibrou diante de suas palavras, agora segurando a xícara com máximo cuidado, até um pouco cômico, caminhou até a mesa. Puxei a cadeira para que ela sentasse, sem maiores riscos de acidente, ela se sentou lentamente, apoiando a xícara sobre a mesa, parecendo de forma, até um pouco infantil, que tinha vencido um campeonato.
– Sou Lilith. – Estendi a mão em sua direção, sentando logo em frente. Ela olhou para minha mão estendida por um breve segundo, fixou os olhos nos meus e envolveu seus dedos em minhas mãos. O toque era inacreditavelmente macio e firme.
– Asrael, mas pode me chamar de Às. – Ela disse, o som do seu nome pareceu ecoar de um jeito solene na acústica do café. – É um prazer finalmente… quero dizer, é um prazer conhecer você, Lilith. – Sua falha pareceu graciosa, senti o rosto corar ao pensar no início da frase, quase como se aguardasse por nosso encontro há tempos.
– Pode me chamar de Lily, Às. – Estar perto dela era como receber ainda mais luz naquela mesa do café, as conversas alheias pararam de ter importância e o único som que queria ouvir saia dos lábios vermelhos da mulher sentada em minha frente.
– Lily. – Ela repetiu meu apelido baixinho, como se estivesse memorizando a palavra. O som das quatro letras em sua voz soou diferente de todas as pessoas que já havia pronunciado. – É um nome bonito. Forte, mas com uma doçura escondida nesse pequeno apelido.
Senti meu rosto corar com força com o elogio direto. Para disfarçar o magnetismo daqueles olhos dourados que pareciam não piscar, voltei minha atenção para a bolsa que deixei de qualquer jeito sobre a mesa, na intenção de coloca-la sobre meu colo, um dos cartões que recebi na tarde anterior caiu sobre a mesa.
– Então você trabalha com moda, Lily? – Percebi um brilho em seu olhar de quem parecia já saber a resposta antes mesmo de poder ditá-la. Seu olhar parecia carregar o conhecimento do mundo. – Eu vi você ontem no Quadrillatero della moda, não a reconheci de imediato agora, mas olhando mais de perto tenho toda a certeza. O mundo pareceu girar um pouco mais devagar quando os fotógrafos pararam para focar em você. – Dei um riso curto com modéstia e cansaço que tentava mascarar. Ela também havia se lembrado, não foi somente eu que passei um segundo a mais a olhando.
– Digamos que hoje eu fico nos bastidores, cuidando para que o mundo gire certo para outras pessoas brilharem. – Apoiei os dois cotovelos sobre a mesa voltando a encarar seus olhos. – Sou diretora e caça-talentos de uma agência de moda no Brasil. E você, Às? O que faz uma brasileira com forte sotaque italiano, se esconder numa cafeteria em Milão? Também está aqui pela semana da moda? – Perguntei curiosa, pois a mesma possuía todos os atributos necessários para ser uma modelo magnífica.
– Eu? – Apontou para si mesma, soltando uma risada baixa, um som melodioso que parecia vibrar direto no meu peito e negou com a cabeça. – Não. Eu sou péssima com as efemeridades das tendências modernas. O que muda a cada estação me confunde um pouco. – Ela admitiu, olhando ao redor, contemplando as paredes de tijolos expostos do café com uma reverência quase poética e apontou para onde olhava. – Eu prefiro o que o tempo tenta, sem sucesso, destruir. Sou restauradora de antiguidades, estou aqui a trabalho.
Ergui as sobrancelhas, genuinamente fascinada. De todas as respostas que eu esperava ouvir no berço da moda contemporânea, aquela era a mais inesperada.
– Restauradora? – Perguntei, inclinando o corpo um pouco mais para frente, capturando novamente aquele rastro sutil de perfume cítrico. – Isso explica o sotaque, a Itália deve ser o paraíso para quem vive do passado. Você vive aqui?
– É um bom lugar.. – Asrael concordou, os olhos dourados brilhando com uma intensidade profunda, quase nostálgica. – Eu moro em muitos lugares e sempre estou de passagem, Milão é parte de um trabalho, mas o tempo que vai ditar o tamanho desse trabalho. – Parou para pensar por alguns poucos segundos. – Mas o meu trabalho não é sobre o passado, Lily. É sobre devolver a alma a coisas que as pessoas julgam quebradas demais para serem salvas, muitas grandes obras passam a olhos que as definem sem valor. Às vezes, um quadro ou uma escultura só precisa de alguém que olhe com paciência e lembre ao mundo a beleza que ele tinha no primeiro dia que foi criado.
– A intensidade que fala, me faz parecer tão fútil por apenas observar a beleza exterior das coisas e das pessoas. – Disse um pouco intimidada por sua fala. Seu toque gentil em meu braço gerou nova descarga elétrica em meu corpo. Um toque tão desconhecido quanto conhecido, ela parecia sentir cada resposta invisível que meu corpo enviava quando me tocava, pois interrompia o toque com certa pressa.
– Não repita isso nunca mais, certo? – Ela deu um leve sorriso, os olhos vibrantes repletos de calor. – Sua arte é milenar, e saber lapidar artistas belos não tem nada de errado, muito pelo contrário, você carrega uma arte que, eu por exemplo, não saberia lidar. Cada profissão possuí sua beleza, Lily. – Sorri com suas palavras, eram doces, carregadas de uma sinceridade que me tocava a alma.
– Aceito suas palavras. – Disse levando a xícara até os lábios e me sentindo observada nesse leve gesto casual. – Me conta um pouco mais sobre arte, de qual artista gosta mais?
– Do Vincent. – Meu olhar deve ter demonstrado que não sabia de quem estava falando. – Erro meu, Van Gogh. Sua genialidade na pintura foi totalmente coberta pela falta de conhecimento de práticas médicas psiquiátricas da época. Foi sustentado por anos pelo Theo, seu irmão. Sua arte era de uma intensidade emocional de cores e vibrações que na época ainda era muito incompreendida. Um gênio que viveu miseravelmente até sua decisão de ceifar a própria vida ainda muito jovem. Foi muito triste. – Ela parou pensando por um segundo. – Sabia que em vida ele vendeu apenas 1 obra registrada?
– Não. – Estava perdida em seus pequenos gestos e forma de articular a história, estava envolvida com as palavras, o tom de sua voz, a forma leve de quem parece que viveu a história pessoalmente.
– O Vinhedo Vermelho, uma arte belíssima. Entre a pobreza miserável e entradas e saídas de manicômios ele partiu dessa vida. Seu irmão e maior alicerce faleceu alguns meses depois, sua cunhada, a Jo, herdou todas as suas pinturas e que mulher incrivelmente visionária ela era. Organizou todas as pinturas em exibições e publicou as cartas trocadas entre os irmãos, isso deu uma profundidade para a arte do Vincent e para o amor fraternal que aproximou as pessoas da arte dele. Pena que ele não pôde vivenciar esse arranque em sua carreira, não pôde apreciar ser o maior ícone do impressionismo do século vinte. Ele era um bom homem, incompreendido, solitário, profundamente apaixonado.
– Uau. – Suspirei. – Eu poderia te ouvir contar histórias pelo resto dos meus dias. – Disse muito sem pensar, qualquer controle sobre meus atos e falas estavam verdadeiramente perdidos diante daquela mulher.
– Eu teria história por toda ela, me parece um convite tentador. – Ela estava flertando comigo? Sim, eu me acho uma mulher bonita, interessante, mas a mulher em minha frente era um ser superior a qualquer outro, sinto que se ela estalasse os dedos metade das mulheres que estavam naquele café agora cairiam em seus pés. Olhei para os lados e me certifiquei que meus pensamentos eram verdadeiros, havia alguns pares de olhos voltados para nossa mesa, não havia repreensão neles por nossa conversa, havia curiosidade. – Lily? – Sua voz me chamou de volta para sua presença.
– Eu estava perdida.
– Ainda bem que estou aqui para te trazer de volta. – Meu coração voltou a pular, como se comemorando aquelas palavras, eu tentava aparentar naturalidade, mas meu corpo parecia derreter em sua presença, como uma adolescente. – Quer caminhar comigo?
– Para onde quiser…- fingi um engasgo. – claro! – Com um gesto calculado levantou-se e foi até o balcão, eu tentava manter minhas pernas firmes o suficiente para o caminhar. Parei ao seu lado e percebi que havia encerrado a conta dela junto da minha.
– Antes que diga algo, é apenas uma generosidade. Não me interprete mal, não vi motivos para confundir o jovem garçom que, por nossa conversa, acreditou que erámos velhas conhecidas e juntou as contas. – Deu um leve piscar de olhos e abriu a porta do café, tocando o mesmo sino que havia me alertado de sua presença. – Onde você quer ir?
– Não sei, me diga você para onde quer me levar. – Ela parou pensando, parecendo um pouco perdida.
– Que tal seu lugar favorito, ou que já trabalhou.
– Perfeito, se importa de caminhar um pouco? Talvez já tenha estado lá, mas irei te mostrar a Duomo di Milano com meus olhos, aceita?
– Não me importo de caminhar, e eu aceito. – Aquele aceito reverberou dentro do meu peito, parecia um aceito muito maior do que ele realmente implicava como resposta à uma pergunta simples. Lado a lado caminhamos, um silêncio suave de quem não precisa falar para estar perto. Seu olhar ora no chão, ora em minha direção ditava o caminho e cada vez que nosso olhar se esbarrava, ali estava o sorriso tímido.
– Sente falta de pertencer ao mundo? – Ela reformulou a pergunta. – Digo, sente falta de viajar pelo mundo desfilando?
– Era uma das minhas coisas favoritas nessa profissão. Viajar, conhecer lugares diferente, línguas diferentes. Quando eu era mais nova a sede do conhecimento me tomava em cada lugar que pisei, tentava aprender um pouco de sua história, um pouco da sua língua. Foi uma época gloriosa. Atingi meu objetivo em juntar dinheiro, comprar uma boa casa, fazer uma boa faculdade, porque eu sabia que um dia a beleza vai embora e o que fica é a experiência.
– A sua beleza permanece intacta, assim como quando mais jovem. – Ela falou e logo travou. – É que, se você é bela agora, não deve ter mudado de quando era mais nova. – Respirou calmamente enquanto eu segurava um riso misturado de graça e curiosidade. – Você continua sendo uma bela mulher, deveria continuar trabalhando nas passarelas. – Seu rosto vermelho parecia arder aos meus olhos. – Acho que converso pouco e quando resolvo falar acabo me perdendo nas palavras.
– Obrigada, me sinto envaidecida por me achar uma bela mulher. – Gostaria de transparecer a mesma confiança habitual, mas na sua frente eu me sentia apenas a Lily, mulher, solitária.
– Eu vejo que é, esta nítido bem na frente de meus olhos. – Estávamos a poucos metros da catedral.
– É uma construção majestosa. – Mudei meu olhar em direção à construção.
– E imaginar que demorou séculos para ser construída trás toda dedicação devotada a essa obra de arte.
– Tanto assim?
– Sim, começou graças ao arcebispo Antonio da Saluzzo e Gian Galeazzo, muito mais para criar um símbolo gótico e celebrar o poder da região, lá em 1386. O pensamento humano era um pouco diferente do que é hoje. Eles não viveram o suficiente para apreciar a grandiosidade que a catedral, dedicada à Virgem Maria, tomou. É uma das maiores Igrejas Católicas do mundo. Bem aqui ficava a Santa Maria Maggiore, aqui embaixo ainda dá pra ver as ruinas arqueológicas do templo antigo. Antonio era de uma família aristocrata, soberbo, naquela época o poder financeiro era mais importante do que os feitos propriamente dito. Se aproveitou da deterioração da antiga Basílica de Santa Tecla, e também Maria Maggiore, para propor em 12 de maio a construção de uma nova e imensa catedral, essa que está bem diante dos seus olhos. Foi um homem difícil, mas ainda assim um homem de fé dentro dos preceitos da época. Foi o Gian que verdadeiramente revolucionou à obra. Ele criou a Beneranda Fabbrica del Duomo di Milano, tinha o papel de gerenciar os recursos, contratar os operários de obra e fiscalizar toda a engenharia da Catedral. Ele tirou a gestão exclusiva das mãos da igreja e transformou a obra em um projeto de Estado, o que gerou impactos profundos na sociedade, na economia e na arquitetura da época…
Caminhávamos a passos lentos até o interior da catedral e percebi que em todas as visitas que havia feito a Milão, jamais havia estado em seu interior. A riqueza de detalhes que saia de sua boca me mantinha absorta enquanto a realidade que me cercava preenchia os olhos, o burburinho da praça deu lugar ao silêncio da enorme construção, onde até nossos os sussurros poderiam ser ouvidos em todos os cantos da majestosa construção. Sentamos lado a lado em um dos enormes bancos de madeira da igreja, sob a luz colorida que atravessa os vitrais e eu continuava hipnotizada por sua doce voz.
– Acho que estou me alongando demais na explicação teórica das coisas, fiz a restauração das imagens, dando a elas o verdadeiro peso que deveriam tem nas expressões. Tive a oportunidade de estar nas ruínas da antiga basílica. E tem um lugar que eu adoraria te levar. – Ela olhou para os lados, segurou minha mão e me levou por uma enorme escadaria que estava fechada ao público. – Seu toque despertou todos os sinais internos de que algo nela era diferente, principalmente a sensação de preenchimento de um vazio que está dentro de mim há anos.
– Isso não é perigoso?
– Todos aqui me conhecem e eu jamais te levaria em um lugar que pudesse correr perigo. – Senti falta de seu toque quando ela passou a subir as escadas mais rápido, com uma pressa de criança que está preparada para mostrar uma nova brincadeira ou um novo lugar.
– São muitos degraus. – Falei ainda tentando recuperar o fôlego.
– Eu mesma não contava de ser tão demorado. – Balancei a cabeça sorrindo. – Poderíamos ter ido de elevador.
– E perderíamos toda essa história daqui dessa escadaria? Não, obrigada, estou feliz com a sua escolha. Por que está fechado para o público?
– Restauração. – Ela sorriu. – Mas já não é comigo, eu não daria conta da estrutura do telhado. – Chegamos e fiquei maravilhada com a vista de todo o centro da cidade, fora as estátuas que não consegui ver do chão. – Essa é a Madonnina, é toda feita em ouro.
– É linda. Tudo aqui é lindo, é literalmente caminhar no telhado da catedral.
– Aqui é um bom lugar para pensar quando não tem mais ninguém. – Ela sentou-se no chão, como uma criança. – Também gosto de me deitar aqui à noite, olhar para o céu e observar como as coisas aqui de baixo parecem pequenas lá em cima, e como as coisas aqui de cima, parecem pequenas lá embaixo. – Tentei captar o sentido de sua frase, era o sentido literal de olhar para o céu e estar lá, imaginei que fosse apenas um erro e não me atentei nisso por mais tempo.
– Deve ser uma bela visão. – Senti seu olhar queimar minha pele, me sentei ao seu lado.
– Algumas visões são melhores lado a lado. Me conta um pouco de você, de quem você é, Lilith…

