Os segredos e mistérios entre o céu e a terra são impossíveis de se descobrir antes de fazermos a passagem. Existem pessoas que acreditam em reencarnações, Karma e vínculos que a morte é incapaz de desfazer, e existem pessoas que não acreditam. E está tudo bem, de verdade, nada é uma verdade absoluta, a morte não se encaixa nesses padrões, já que são possibilidades infinitas a partir do primeiro segundo quando o coração tem a sua última batida sentida, a última vez que as pálpebras irão piscar e o último pensamento que se tem, tudo vira um longa-metragem de lembranças. Já ouvi dizer que dentro de determinadas religiões, muitas vezes a alma carrega nosso último pensamento, por isso existe o caminhar perpétuo de espíritos fortemente ligados aos bens materiais e necessidades terrenas, é tão forte o vínculo ou vício, que a alma se prende a isso.
Alma, também conhecida como Anatta no Budismo, é considerada fluxo de consciência e, Nafs no Islã, que significa o eu individual que também pode ser considerado como ego. Diferente do que muitos pensam sobre o Karma, não é, necessariamente, algo ruim. No Budismo o Dharma é visto como uma lei natural, a intenção é o foco, ações motivadas por sabedoria e bondade geram consequências para além dessa vida, além desse mundo, é como um álbum de fotos, repletos de momentos, cada foto representa uma lembrança, assim como cada ação gera uma reação Cármica.
Existem forças que se manifestam para que o acordo espiritual seja sempre levado de forma justa, manifestações que trazem conforto, luz, amor e peso, cada um para aqueles que o merece. Malak al-Mawt nunca foi uma força sombria, seu traje branco retratado em muitas escrituras do Islã o mostra como um ser compadecido da dor da partida, não julga e não castiga, sua função é garantir que a transição da alma seja o mais suave, indolor e acolhedora possível. Já Sitra Ahra é seu oposto, ele é quem pune, quem julga, algumas pessoas o chamam de “Acusador”, pois na hora da morte ele apresenta os pecados da alma perante o tribunal divino, lida diretamente com o erro humano, vícios e ganância são sua parte favorita. Para aqueles que atravessam a vida mundana de forma soberba poderiam o descrever como O veneno de Deus e pobre daquele que o tem em seu caminho. Em casos especiais a passagem ganha um poder absoluto de amor e cuidado através das mãos de Malak al-Hased, um dos arcanjos da graça, da beleza e do amor, nada menos que A Graça de Deus para um momento de partida pacífica.
Lembro de observar aquela garotinha no extenso jardim de sua casa, vestia um short marrom e blusa de botões azul e, escondida, pegava o velho chapéu de seu avô, que fingia não a ver correndo com a peça nas pequenas mãos, o velho sorria com a liberdade e alegria que a pequena menina esbanjava durante a toda a manhã. Continuava a ler seu jornal, mas sempre mantinha os olhos atentos a indomável menina que corria por todo jardim, caçando os mais diversos objetos e os colocando sobre uma grande pedra que ficava ao lado de uma vistosa árvore. Ela conversava com seu urso e era como se ele respondesse de volta, e em seu mundo encantado, ele deveria responder. Armava planos mirabolantes, era fascinante a quantidade de diálogos que ela criava, parecia ver o invisível.
Mas eu sabia, não estava ali pelo simples acaso, pelo simples desejo de contemplar a brincadeira mais emocionante vivida por aquela criança, eu nunca estava ali somente para observar. Caminhei a passos lentos em direção a varanda e me sentei ao lado do velho senhor. Observamos o mesmo momento, a alegre menina correndo e acenando para o avô, que acenou de volta e largou seu jornal na pequena mesa a sua frente e com um longo suspiro sussurrou.
– Não pode haver mais alguns anos? Ela é tão jovem para ficar sem ninguém para protegê-la, já passou por tantas perdas. – Sua súplica era carregada de amor, era quase palpável, seu desejo de permanecer ali era genuíno, não havia ambições, apenas a doação de carinho e cuidado que dedicava a criança que, agora, estava sentada conversando, não mais com seu urso que estava exatamente aos pés de Anael, mas sim diretamente com ele. Ele não costumava me acompanhar, mas compreendi o peso do momento, a menina sorria para ele, balançando a cabeça positivamente.
– Eu sinto muito, ela ficará bem, você cumpriu o tempo determinado. – Respondi de maneira silenciosa, inaudível aos ouvidos mais atentos.
Malak al-Hased caminhou em minha direção, a criança o acompanhava devagar, abraçada ao seu pequeno urso, seu olhar era triste, mas com um entendimento que eu não conseguia entender, talvez por toda sua triste experiência em perdas, fechei os olhos e senti a tristeza que aquele pequeno ser já carregava em tão pouco tempo de vida, eu estava levando o último que lhe restara. Poucas eram as vezes que o sentimento humano me tomava com tanta força, mas daquela vez, ele havia me invadido. Olhei para o céu buscando a limpeza divina.
– Malak al-Mawt, está na hora. Essa princesa irá se despedir, ela sabe o que deve fazer depois que dizer tchau. Ela é uma brava aventureira e não estará sozinha pelo caminho. – Afirmei com a cabeça e a olhei, após as palavras de meu irmão parecer ter dado um impulso de fé e coragem para a menina. Toquei no ombro do velho senhor e os olhos da menina se encheram de curiosidade e medo, foi apenas por um segundo o último sentimento. Seus olhos intercalavam da cadeira para sua frente.
– Minha querida, gostaria tanto de ter mais tempo para cuidar de você. – Sua voz era calma, não houve dor.
– Eu sei, vovô. O moço disse que “Papai do céu” precisa do senhor, que a história que escreveu acabou e está na hora de começar a escrever uma nova. – O avô sorriu com vontade, Anael e eu sorrimos junto.
– Isso mesmo, minha neta. Mas eu estarei sempre com você, prometo. Toda vez que fizer aquela oração que te ensinei, você saberá que escuto. – A luz se fez presente, o senhor olhou para a mesma e sorriu ao ver o que o esperava do outro lado.
– Você que vai ajudar meu vovô? – Olhou diretamente para mim, senti as palavras me faltarem, somente meus irmãos e aqueles que estavam destinados a partir poderiam me ver em um momento tão delicado, minha barreira nunca foi transpassada. Malak al-Hased acompanhou seu olhar, pois acreditava que havia sido uma pergunta para ele e viu que a pequena me olhava.
– Sim, pequena. – Foi tudo o que consegui dizer, com a voz mais tranquila que poderia passar. Pude observar quando ela correu para o interior da casa, iria fazer aquilo que havia sido indicada. Elevei meu pensamento e atravessamos a luz, desejei vida longa e saudável para aquela criança.
Senti minha presença ser puxada novamente para aquele momento, eu pude ver várias e várias vezes as mesmas palavras, os mesmos movimentos, era apenas uma expectadora, cada vez mais rápido as imagens se repetiam. Quando Sitra Ahra apareceu ao meu lado observando.
– Jamais devemos desejar algo para os humanos quando elevamos nosso pensamento, Malak al-Mawt. – Nosso diálogo era feito da nossa energia, não havia voz, nossos pensamentos estavam conectados.
– Por que está aqui? – Perguntei quando a imagem paralisou no olhar da menina para mim. Acompanhei seus passos até a menina. – Seu desejo alterou as dobras do destino, Malak al-Mawt. – Observei enquanto ela trançava uma linha invisível que as unia. – Renunciou sua alma para mim. Parece um pequeno erro de principiante, cara irmã. – Ela sorriu e sumiu, assim como o momento foi findado e voltei ao momento que desejei vida longa e saudável. – Maktub. – Pude ouvir seu sussurro antes do momento se encerrar.

