No domingo a tarde, depois que a Renata foi embora, eu fui conversar com a Elô. Ela estava no quarto, colocando a roupa suja em um cesto. “Por que você não me contou sobre a Luiza?”
Pegou o cesto e saiu do quarto, fui andando atrás dela. “Deixa eu colocar a roupa na máquina e já conversamos. Me espera na cozinha e esquenta água para o chá.”
Quando ela chegou eu já estava com o chá pronto. “Cacau, o que você quer saber?” Pegou sua caneca e sentou ao lado da janela, por onde entrava o sol que já ia se despedindo de nós.
“Ela me disse que você sempre soube, que havia te contado. Por que você escondeu isso de mim?” Tentava falar o mais pausadamente possível para disfarçar o meu nervosismo.
“Pelo rumo da conversa, acredito que vocês transaram no sábado.”
“Mais ou menos. Ela não me deixou tocá-la e quando eu a pressionei ela me disse o porquê, e que você sabia.”
Ela passou a mão pelo cabelo, um gesto que fazia sempre que estava procurando as palavras adequadas para iniciar um assunto. “Não era um direito meu expô-la. Tinha certeza que se as coisas saíssem de controle ela mesma te contaria. E pelo que vejo, a situação saiu completamente de controle.”
Senti meus olhos encherem de água e a garganta apertar. Elô levantou-se e me abraçou. “Você acha que isso é motivo para chorar? Sua cabeça sempre foi muito aberta, desde pequena. Não acho que isso seja um problema para você.” Me pegou pela mão e me levou até a sala, sentou-se no sofá e me deitou em suas pernas.
Fiquei assim por alguns minutos, sentindo as lágrimas rolando em meu rosto e a mão da Elô no meu cabelo. Quando me acalmei, levantei minha cabeça e olhei para ela. “Para mim, ela ser uma pessoa intersexual não é um problema, eu gosto dela de qualquer jeito.”
“Quem sabe para ela é um problema, Cacau.”
“Você a conhece a mais tempo, me explica por que tem que ser assim.”
Ela se virou para que eu pudesse olhá-la de frente. “A Luiza nunca teve nenhum problema quanto a condição dela, acredito que ela ache vantajoso. Os pais também nunca acharam nada de anormal, tanto que nunca passou pela cabeça deles deixarem os médicos operá-la quando era uma criancinha, para eles quem tinha de decidir isso era ela quando tivesse maturidade suficiente.”
“Como você sabe disso tudo? Foi a Luiza quem te contou?”
“Foi. Ela estava sempre me cercando pela faculdade, puxando conversa, indo até a minha sala, até achei que ela estivesse querendo alguma coisa extracurricular, mas queria apenas se abrir. Disse que me admirava e que sabia que podia confiar em mim.” Ela se calou e ficou me olhando, esperando que eu fizesse mais perguntas, quando ouviu meu silêncio continuou a falar.
“Até a adolescência tal assunto nunca fora discutido, mas quando ela começou a ver as amigas tornarem-se diferente dela, começou a perguntar aos pais por que tinha o clitóris muito maior do que as meninas da sua idade. Foi aí que eles lhe explicaram que ela não era , de um certo modo, igual as outras, mas que essa diferença não a fazia ser anormal nem menor do que ninguém.”
Ela levantou-se, olhou pela janela e disse. “Eu vou andar antes que escureça, se você quiser podemos continuar conversando sobre isso no caminho.” Foi para o quarto e voltou com meu tênis e um par de meias. “Coloque o tênis e vamos, caminhar sempre faz bem para a mente.”
Desta vez não fomos caminhar no parque, Elô preferiu andar pelas ruas do bairro devido ao frio que estava fazendo, provavelmente, na beira do lago o frio estava mais intenso.
“Elô, se ela cresceu num ambiente livre de julgamentos e preconceito, se a família sempre a apoiou, por que essa indecisão em relação a mim? Era visível que ela me queria, eu senti isso em todo meu corpo quando ela me tocou.” Ao dizer isso, senti meu rosto enrubescer, mas não havia outra maneira de colocar a situação.
“Para a Luiza é muito claro que ela não se encaixa em nenhum gênero, algumas vezes ela se sente como um menino e outras como uma menina. E ela me disse que gosta de ser assim, que as possibilidades são muito maiores do que para uma pessoa de gênero definido. Porém, quanto a questão da sexualidade ela ainda é muito confusa, e acho que, por isso, ela disse que não quer te machucar e deixou tudo entre vocês em suspenso.”
As luzes das casas começavam a acender aqui e ali, mas ainda era possível ver no horizonte um resto de luminosidade, e o frio fazia meu nariz parecer uma pedra de gelo, mas ainda faltava um tanto até chegarmos em casa. Curiosamente, Elô andava mais devagar do que o normal, não sei se devido ao final de semana com a Renata, que fora bastante intenso, ou se por minha causa.
“Ela me disse que tinha um namorado. Você acha que ela gosta de garotos, ou de garotas e garotos?”
“Não sei, Cacau. O que sei é que ela namorou esse menino, e me parece que eles se conheciam da época do ensino médio. Depois disso, ela não ficou com mais ninguém.” Elô colocou o gorro na cabeça e pegou minha mão. “O que aconteceu entre vocês foi bom? Ela te fez gozar?”
Olhei para os lados e para o chão. Ela precisava perguntar aquilo? Como se não soubesse o quanto eu sentia vergonha em falar sobre isso. “Fez. Muito mais do que a Lucy.”
“Então, acho que você tem a resposta sobre as preferências sexuais da Luiza.” Soltou minha mão e me deu um beijo na testa. “Eu entendo você Cacau, muito mais do que você imagina. Nós duas nos apaixonamos por pessoas que mal conhecemos e deixamos que um sentimento que veio nem sei de onde nos inundasse.”
“Pois é, acho que minha mãe estava certa, você e eu somos muito parecidas.”
▼
“Infinitas vezes – quando estou quieta, quando estou bebendo meu chá, quando uma saudade inexplicável me invade como uma ventania – me pergunto se ela ainda pensa em mim, nem que seja por um segundo. Se ela alguma vez sentiu vontade de me procurar, de sentar e conversar comigo, se ela ainda se lembra das minhas expressões, dos detalhes do meu rosto, do meu cheiro. O tempo arranca as lembranças de nós, isso é um fato, mas o fim do amor pode acelerar esse processo. Eu sabia que quando deixasse, finalmente, de sentir amor por ela, me esqueceria de muita coisa.”
Parei de ler, não conseguia me concentrar direito em nada, só tinha a Luiza em meu pensamento. Mas uma coisa do que eu lera ficaria comigo pelo resto da noite, mesmo com todo o sofrimento pelo qual a Elô passara, ela vivera o que sentira. O amor dela fora autêntico e ela experimentara cada átomo dele de uma maneira que a completara. E ainda que eu fosse uma menina sem quase nenhuma vivência eu pressentia que essa completude amorosa era uma coisa rara de acontecer.
Peguei meu smartphone e mandei uma mensagem para Luiza.
[Oi, como vc está? Eu gostaria muito de vê-la.]
Ela havia visualizado a mensagem, porém, como não respondia, resolvi deixar meu orgulho de lado.
[Por favor, eu preciso conversar com vc, te ouvir. Depois, prometo que te deixo em paz.]
Logo, veio a resposta.
[Eu passo na sua casa amanhã, depois da faculdade. Bj]
Às 15h, a campainha tocou. Me olhei no espelho antes de abrir a porta, arrumei o cabelo atrás da orelha e vi se não havia nenhum resquício de chocolate nos dentes.
“Oi Cacau, como você está?” Ela me beijou no canto da boca e entrou. Eu tentava controlar a minha tremedeira e acalmar o meu coração que estava aos saltos.
Convidei-a para sentar na sala e trouxe um café puro, disse que não havia dormido bem e estava precisando. “Eu conversei com a Elô sobre o que aconteceu entre nós.”
“Eu sei, ela me chamou pela manhã. Me disse que havia conversado com você, e que talvez eu devesse procurá-la, se eu me sentisse à vontade para falar.” Ela abaixou a cabeça, como se estivesse envergonhada. “O que foi que ela te disse?”
“Disse para eu me cuidar, para não me magoar, e que eu devia procurar você.”
Ela levantou a cabeça e ficou me olhando, tentando me decifrar através dos meus olhos. Seu olhar era tão intenso que senti algo abrir dentro de mim, àquela altura não sabia bem o que era, porém era algo que eu nunca havia sentido.
Levei minha mão até seu rosto e lhe fiz um carinho com a ponta dos dedos, ela fechou os olhos e pousou a face na minha mão. “Eu não quero que você se decepcione comigo. Que idealize alguém que não existe.”
“A Elô sempre diz que toda paixão é idealizada, e eu acho que estou apaixonada por você, logo não tenho como te prometer que não irei te idealizar e, quem sabe, me decepcionar. A única coisa que tenho certeza, agora, é que eu quero você como nunca quis ninguém.” Ela segurou minha mão, olhou para mim e encostou sua boca na minha. Eu havia, a princípio, conseguido quebrar um pouco da sua reserva.
Naquela tarde, ela chorou na minha frente ao contar como fora seu relacionamento com o “ex”. Ele era um amigo de infância, que por esses acasos da vida acabou se tornando mais do que amigo devido à confiança que ela depositava nele.
“Ele sempre soube que eu era diferente, e acho que foi isso o que me fez querer ficar com ele. Havia respeito, entende? E eu queria ter alguém, não só amizade, e nada melhor do que alguém que já me conhecesse muito. Fora dá cama era tudo ótimo, porém, acho que o meu ‘problema’ causava um certo desconforto nele. Meu clitóris fica ereto quando eu estou excitada”. Ela examinava meu rosto para ver minha reação as suas palavras. “Nas nossas primeiras trepadas parecia tudo bem, acho que ele estava empolgado em ser a primeira pessoa com quem eu transava, depois foi ficando tudo estranho. Muitas vezes, ele não queria, e quando eu entrava na minha fase menino ficava furioso.”
Ela respirou fundo e continuou. “Tudo foi se rompendo entre nós, até que um dia eu falei que estava me sentindo atraída por meninas mais do que por ele, e que era melhor ficarmos como éramos antes, só na amizade. Ele deve ter se sentindo com o orgulho ferido e disse que eu deveria fazer um tratamento para virar homem de uma vez. Foi tudo muito injusto da parte dele, pois ele sabia que eu nunca quis ser um homem, que eu sou feliz como sou.”
“Vocês não se falaram mais?”
“Não, eu não senti mais vontade de manter contato com ele. Quem sabe, por isso, ele saiu falando de mim para conhecidos que tínhamos em comum.”
Abracei-a e sentir o perfume dela, meio almiscarado, como eu gostava, me tirou do centro. Ela deve ter percebido e começou a morder meu pescoço, com um toque muito leve dos dentes na minha carne; e sua mão, que estava no meu pescoço, foi descendo devagar por meu corpo até achar a entrada da blusa e a direção para os meus seios. Seus dedos apertavam meu mamilo e eu buscava sua boca, quando a encontrei foi com uma explosão de desejo misturado com um afeto enorme que toquei sua língua.
Ela me deitou no sofá e senti seu corpo sobre o meu, era muito leve e delicado, roçava em mim com gentileza.
“Acho melhor pararmos, Cacau.” Ela falou entre um gemido e outro.
Puxei-a ainda mais para junto do meu corpo e desabotoei sua calça. “Você quer o mesmo que eu, não vou parar até terminarmos.” Mordi a ponta da sua orelha e coloquei minha mão por dentro de sua calça, senti seu grelo grande e duro. Comecei a movimentá-lo num movimento de ir e vir, e senti ele crescendo mais um pouco na minha mão.
“Eu quero que você me coma, quero te sentir dentro de mim.” A virei e coloquei por baixo de mim, tirei sua roupa e fiquei olhando para seu corpo, era cheio de curvas como o de qualquer garota da nossa idade, com os seios pequenos e intumescidos.
Coloquei suas pernas em volta do meu quadril e entrei com facilidade nela, eu metia e ela me puxava com as pernas pedindo por mais, quanto mais eu a comia, mais ela pedia. Com a minha outra mão friccionei seu grelo, que pulsava de tão duro. “Mais rápido.” Ela pegou minha mão que segurava seu clitóris e começou a movê-la, rapidamente, para cima e para baixo. Quando ela arqueou o corpo e apertou minha mão que a fodia, eu senti que seu gozo estava vindo. Ela gemeu alto e me lambuzou com seu líquido incolor, quente e com seu prazer duplo.

